quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Pacheco e seu imenso talento (Crônica) de Eça de Queirós


Pacheco e seu imenso talento

Paris, setembro. 

Meu caro Senhor Mollinet: 

Encontrei ontem à noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse da Revista de Biografia e de História, me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornais de Portugal. E deseja ainda o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que ideias, ou que acréscimo na civilização portuguesa deixou esse Pacheco, seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lágrimas. 

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como num resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu país nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma ideia. Pacheco era entre nós superior e ilustre unicamente porque tinha um imenso talento. Todavia, meu caro Senhor Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente aclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visível! O talento imenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente ele atravessou a vida por sobre eminências sociais: Deputado, Diretor geral, Ministro, Governador de bancos, Conselheiro de Estado, Par, Presidente do conselho ― Pacheco tudo foi, tudo teve, neste país que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu imenso talento. Mas nunca, nestas situações, por proveito seu ou urgência do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sair, para se afirmar e operar fora, aquele imenso talento que lá dentro o sufocava. Quando os amigos, os partidos, os jornais, as repartições, os corpos coletivos, a massa compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco "que imenso talento!" o convidavam a alargar o seu domínio e a sua fortuna ― Pacheco sorria, baixando os olhos sérios por traz dos óculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o seu imenso talento aferrolhado dentro do crânio como no cofre de um avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos óculos, bastavam ao país que neles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco. 

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em que Pacheco, desdenhando a Sebenta, assegurou "que o século XIX era um século de progresso e de luz". O curso começou logo a pressentir e a afirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, comunicando-se, como todos os movimentos religiosos, das multidões impressionáveis às classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um prêmio no fim do ano. A fama desse talento alastrou então por toda a academia ― que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já de óculos, austero nos seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia ali um grande espírito que se concentra e se retesa todo em força íntima. Esta geração acadêmica, ao dispersar, levou pelo país, até os mais sertanejos burgos, a notícia do imenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com esperança: ― "Parece que ha agora aí um rapaz de imenso talento que se formou, o Pacheco!" 

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu seio ― trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com dispêndios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na estrelada noite de dezembro em que ele, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas, se sussurrou pelas mesas, com curiosidade: ― "É o Pacheco, rapaz de imenso talento!" E desde que as Camarás se constituíram, todos os olhares, os do governo e os da oposição, se começaram a voltar com insistência, quase com ansiedade, para Pacheco, que, na ponta de uma bancada, conservava a sua atitude de pensador recluso, os braços cruzados sobre o colete de veludo, a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os óculos a faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Coroa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a "liberdade". O sacerdote imediatamente estacou com deferência; os taquígrafos apuraram vorazmente a orelha: e toda a camará cessou o seu desafogado sussurro, para que, num silencio condignamente majestoso, se pudesse pela vez primeira produzir o imenso talento de Pacheco. No entanto Pacheco não prodigalizou desde logo os seus tesouros. De pé, com o dedo espetado (jeito que foi sempre muito seu), Pacheco afirmou num tom que traía a segurança do pensar e do saber íntimo: ― "que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!" Era pouco, decerto: ― mas a camará compreendeu bem que, sob aquele curto resumo, havia um mundo, todo um formidável mundo, de ideias solidas. Não volveu a falar durante meses ― mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisível e inacessível se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu ser. O único recurso que restou então aos devotos desse imenso talento (que já os tinha, incontáveis) foi contemplar a testa de Pacheco ― como se olha para o céu pela certeza que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco oferecia uma superfície escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto dele, Conselheiros, e Diretores gerais balbuciavam maravilhados: ― "Nem é necessário mais! Basta ver aquela testa!" 

Pacheco pertenceu logo às principais comissões parlamentares. Nunca porém acedeu a relatar um projeto, desdenhoso das especialidades. Apenas às vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma ideia geral sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente atitude de um imenso talento que (como segredavam os seus amigos, piscando o olho com finura) "está à espera, lá em cima, a pairar". Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar superior de uma aza por sobre arvoredo copado) que o "talento verdadeiro só devia conhecer as coisas pela rama". 

Este imenso talento não podia deixar de socorrer os conselhos da Coroa. Pacheco, numa recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi Ministro: ― e imediatamente se percebeu que maciça consolidação viera dar ao Poder o imenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mesas de gerencia "absolutamente nada", como insinuaram três ou quatro espíritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro deste regime, a nação deixou de curtir inquietações e duvidas sobre o nosso Império Colonial. Por quê? Porque sentia que finalmente os interesses supremos desse Império estavam confiados a um imenso talento, ao talento imenso de Pacheco. 

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio repleto e fecundo. Às vezes porém, quando a oposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lápis: ― e esta nota, traçada com saber e maduríssimo pensar, bastava para perturbar, acuar a oposição. É que o imenso talento de Pacheco terminara por inspirar, nas câmaras, nas comissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai desse sobre quem viesse a desabar com cólera aquele talento imenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatável! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a acusar o Senhor Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrução do país! Nenhuma incriminação podia ser mais sensível àquele imenso espírito que, na sua frase lapidaria e suculenta, ensinara que "um povo sem o curso dos liceus é um povo incompleto". Espetando o dedo (jeito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerário com esta coisa tremenda: ― "Ao ilustre deputado que me censura só tenho a dizer que enquanto, sobre questões de Instrução Pública, sua excelência, aí nessas bancadas, faz berreiro, eu, aqui nesta cadeira, faço luz!" ― Eu estava lá, nesse esplendido momento, na galeria. E não me recordo de ter jamais ouvido, numa assembleia humana, uma tão apaixonada e fervente rajada de aclamações! Creio que foi daí a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de São Tiago. 

O imenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. Vendo que inabalável apoio esse imenso talento dava às instituições que servia, todas o apeteceram. Pacheco começou a ser um Diretor universal de Companhias e de Bancos. Cobiçado pela Coroa, penetrou no Conselho de Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe. Mas os outros partidos cada dia se socorriam com submissa reverencia do seu imenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação. 

À maneira que ele assim envelhecia, e crescia em influencia e dignidades, a admiração pelo seu imenso talento chegou a tomar no país certas formas de expressão só próprias da religião e do amor. Quando ele foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito com unção, reviravam o branco do olho ao céu, para murmurar piamente: ― "Que talento!" E havia amorosos que, cerrando os olhos e repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com langor: ― "Ai! que talento!" E, para que o esconder? Outros havia, a quem aquele imenso talento amargamente irritava, como um excessivo e desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando patadas ao chão: ― "Irra, que é ter talento de mais!" Pacheco no entanto já não falava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta. 

Não relembrarei a sua incomparável carreira. Basta que o meu caro Senhor Mollinet percorra os nossos anais. Em todas as instituições, reformas, fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o seu talento era imenso! Mas imenso se mostrou o reconhecimento da sua pátria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal ― Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco ― Portugal não seria o que é entre as nações! 

A sua velhice ofereceu um caráter augusto. Perdera o cabelo radicalmente. Todo ele era testa. E mais que nunca revelava o seu imenso talento ― mesmo nas mínimas coisas. Muito bem me lembro da noite (sendo ele Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de Arrodes, alguém, com fervor, apeteceu conhecer o que sua excelência pensava de Cânovas del Castilo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo apenas, sua excelência deu com a mão grave, de leve, um corte horizontal no ar. E foi em torno um murmúrio de admiração, lento e maravilhado. Naquele gesto quantas coisas sutis, fundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar, interpretei-o deste modo: ― "medíocre, meia-altura, o Senhor. Cânovas!" Porque, note o meu caro Senhor Mollinet como aquele talento, sendo tão vasto ― era ao mesmo tempo tão fino! 

Rebentou; ― quero dizer, sua excelência morreu, quase repentinamente, sem sofrimento, no começo deste duro inverno. Ia ser justamente criado marquês de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dor. Jaz no alto de S. João, sob um mausoléu, onde por sugestão do Senhor conselheiro Acácio (em carta ao Diário de Notícias) foi esculpida uma figura de Portugal chorando o Gênio

Meses depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viúva, em Cintra, na casa do Dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excelente inteligência e bondade. Cumprindo um dever de português, lamentei, diante da ilustre e afável senhora, a perda irreparável que era sua e da pátria. Mas quando, comovido, aludi ao imenso talento de Pacheco, a viúva de Pacheco ergueu num brusco espanto, os olhos que conservara baixos ― e um fugidio, triste, quase apiedado sorriso arregaçou-lhe os cantos da boca pálida... Eterno desacordo dos destinos humanos! Aquela mediana senhora nunca compreendera aquele imenso talento! Creia-me, meu caro Senhor Mollinet, seu dedicado ― FRADIQUE.


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Fonte:
Eça de Queiroz: "A correspondência de Fradique Mendes"
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2021)

4 comentários:

  1. - por aqui temos um novo Pacheco, a presidir o Senado, consequentemente o Congresso brasileiro… Mais um inutil!

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  2. O que não faltam neste Brasil são Pachecos. Temos essa espécie às pencas.

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