2/21/2021

In extremis (Conto), de Júlia Lopes de Almeida

 

In extremis

– Estás pronta, Laura? Perguntou o doutor Seabra, entrando no quarto de toilette da esposa.

– Estou... só me faltam as luvas... Como me achas?

– Linda!

Ele não mentia: a mulher parecia-lhe ainda mais formosa e mais fresca, com o seu vestido azul claro, muito leve e o chapeuzinho de rendas finas bem pousado na cabeleira loira, de ondas largas. Ela sorriu, contente, pulverizando-se com white rose; ele franziu as sobrancelhas grisalhas, percebendo, através da carnação delicada da sua mulherzinha um íntimo estremecimento de vaidade satisfeita.

– O carro está na porta? Perguntou a moça com modo distraído, mirando-se toda num grande espelho e a passar, num último toquevaporoso, o pompom de veloutine pelo pescoço branco e perfeito.

– Está... e lá tens o ramo de rosas que pediste...

– Como és bom!...

– Hoje as corridas devem ser muito animadas. O tempo está lindo! ... Levas a pequenina?

– Não. Mamãe toma conta dela, já a mandei para lá ... Sabes? Estou hoje com tanto leite! Tenho medo de manchar o vestido ... que vergonha se...

– Escuta, interrompeu ele; antes de irmos para o Derby, parece--me que deveríamos entrar um pouco em casa do Bruno Tavares...

O doutor Seabra sentara-se atrás da mulher e contemplava-a no espelho, com olhar perscrutador e vigilante. Viu-a estremecer; fez uma pausa; ela suspendeu o pompom, à espera da conclusão. Ele acabou por fim.

– O Bruno está muito mal... creio mesmo que não escapará!

Laura voltou-se, muito pálida, com os olhos esgazeados e os beiços trêmulos. O marido baixou o olhar, entristecido. Havia muito tempo já que ele sabia quanto amor a esposa consagrava ao Bruno. O seu ciúme de marido não explodira nunca, mas concentrava-se, cada vez mais amargo, no fundo do coração. O outro era moço, ele já se avizinhava da velhice; o outro era um sonhador, um idealista, simpático à imaginação ardente de Laura; ele era um homem da ciência, materialista, descrente, já sem forças para encantar ninguém. Conhecia, estudava sem tréguas o espírito e o coração da mulher e confiava nela.

Laura era honesta, dedicada, e abafava com ânimo forte o seu amor pecaminoso, nas dobras de um manto de virtude e de sacrifício. Ele sabia que o Bruno não se declarara nunca, mas que, o que os lábios calavam respeitosamente, diziam o olhar, a sua pele quente, o som de sua voz moça e o arrojo da sua fantasia de apaixonado!

Quantas vezes o doutor Seabra, fingindo ler os seus livros de estudo auscultava de longe aqueles dois corações, que se conservavam ali, um em frente do outro, mudos e ternos, enquanto as bocas falavam de poesia e de flores, de luar e de música, de aves e de estrelas, de tudo que brilha, que alegra, que entusiasma e que une as almas apaixonadas.

Eles liam juntos, contavam-se cenas da infância, alegremente, com interesse mútuo; e o doutor Seabra passava as páginas secas do seu livro tremulamente, com os olhos úmidos e o coração pesado. Tinha medo de intervir, calava os seus receios, esperando sempre uma solução ou um meio de levar a sua Laura para outras terras, sem mostrar o seu zelo, com vergonha de parecer ridículo ou de ofender a esposa. Ela era trêfega, graciosa, mas firme. Mesmo naquele dia, ele compreendia bem que toda a sua gentileza se dirigia ao outro, que esperava encontrar nas corridas, na arquibancada...

Eram para o outro a doçura do seu ramo de rosas, o mimo das suas rendas finas, o colorido branco da sua toilette primaveril! Voavam para o outro todo o seu pensamento, toda a sua vontade, toda a sua alegria!

Laura continuava pálida, suspensa.

– Quem me disse isto foi o médico; continuou o marido. Como és amiga da família lembrei-me que desejarias, talvez, ir lá...

– Sim!... Vamos, vamos!

Desceram. O dia estava esplêndido, passavam carros cheios de moças para as corridas. Sorria o sol, dourando o espaço, e o rumor de um domingo festivo alegrava as ruas.

Laura sentou-se muito calada, apertando nas mãos com desespero o seu ramo de flores. O marido sentia-lhe a dor através do silêncio e do olhar parado de quem vê fantasmas...

Tinha pena dela, dessa pobre amante virtuosa, sonhadora e casta. Falecia-lhe a coragem de perturbar-lhe a mágoa e o pensamento com uma palavra ou um simples gesto.

Aquela piedade singular enchia-o de pasmo, a ele mesmo!

Ela parecia-lhe agora um pouco sua filha, embora a adorasse como mulher! Era tão moça, tão inexperiente, mas tão meiga, tão dócil, que se julgava com o supremo direito de a conduzir com carinho, na solicitude amável de um pai. Compreendia a firmeza do caráter da moça, sabia que ela preferiria morrer a enganá-lo grosseiramente e que toda a sua paixão por Bruno era feita de imaginação e de sonho!

A culpa não era deles, mas sua, que já tinha cabelos brancos, as falas amortecidas, o espírito inquietado por atribulações diferentes.

A morte daquele pobre rapaz era um alívio para o seu coração. Desaparecido ele, teria morrido a causa do seu ciúme amargo e irremediável. Laura continuaria por longo tempo a amá-lo nas suas orações, através das estrelas, mas o tempo viria sossegadamente atenuar-lhe as saudades... e tudo acabaria em doce paz. Se o outro não sucumbisse... ele então arrastaria a esposa para bem longe, sem que ela desconfiasse porque, temendo entretanto a luta e descrente da vitória!

Sentia que o pensamento dos dois unir-se-ia sempre através das distâncias, arrastados pelo mesmo ideal, pelo mesmo ardor e pela mesma esperança! Sim, só a morte, a morte bendita, poderia cortar com as suas asas frias aquele amor nascente...

Quando o carro parou, Laura desceu sem esperar auxílio e correu para a casa do Bruno. Dentro havia um silêncio triste, um ar de túmulo...

A mãe do moço apareceu-lhes chorando. O filho desenganado pelos médicos; e descreveu os horrores da febre que o levava assim, rapidamente.

– De mais e mais ele nega-se a todo o alimento, – dizia a pobre senhora; – só consegue tomar leite...

Os médicos mandam-no tomar leite de peito, tenho chamado amas... umas não querem dar-lhe o seio, outras recusam-se a tirar o leite com a bomba! E o meu filho morre... meu filho morre!

Laura olhou para o esposo; conservavam-se mudos um em frente ao outro. A dona da casa levou-os por fim para o quarto do doente.

O moço, enterrado entre as dobras dos lençóis, parecia dormir se não movesse continuadamente os lábios muito secos. Exalava-se todo o seu corpo um calor intensíssimo de febre. A irmã mais velha vigiava-o solicitamente, sentada ao pé do leito.

– Já veio a ama, mamãe? Perguntou ela com voz chorosa.

– Ainda não!

Bruno não abriu os olhos, mas uma ligeira contração arrepanhou-lhe as faces. O doutor Seabra estremeceu. Parecia-lhe a morte! Laura voltou-se de novo para o marido, com o rosto transtornado e o olhar interrogativo.

Ele vacilou um momento; depois fez-lhe um sinal afirmativo, muito vago, quase imperceptível!

A moça ajoelhou-se rapidamente e desabotoou com os dedos nervosos e tateantes o seu lindo vestido de seda azul claro. O marido curvou-se, trêmulo, com as narinas dilatadas e o coração opresso; arrependido do seu consentimento, ia talvez dizer – não! mas Laura tirara o seio túmido branco, onde as veias estendiam tênues fios azulados e encostava o bico róseo à boca ardente e seca do moribundo.

Ela, muito curvada, encobria a meio o busto do enfermo, ele engolia o leite a largos tragos, sofregamente, descerrando a pouco e pouco os olhos.

A comoção de Laura era imensa! Salvar o seu amor, o seu amante sonhado, a sua esperança, com o leite da sua carne, o sangue da sua vida, era um gozo de inextinguível doçura! Não era a volúpia, a paixão sensual que vibrava no seu corpo frágil de mulher moça, mas uma piedade, uma ternura que lhe alagava a alma, de tal jeito que a fazia amar agora o moço, como uma mãe adora o filho pequenino...

Ele abriu completamente os olhos: reconheceu-a... houve um sorriso entre ambos, um clarão de verdade! Mas a febre exigia mais leite e ele continuou a chupar com sofreguidão a carne da mulher que nem em sonhos profanara nunca, dizendo-lhe com o olhar tudo que tinha sempre calado – que a amava... que a amava!... até que a prostração veio de novo cerrar-lhe as pálpebras e que ele adormeceu profundamente, sem contrações, com um sorriso de paz nos lábios satisfeitos... Laura escondeu o seio, trêmula e feliz...

Só o doutor Seabra compreendeu que aquele sono do moço era o último, e foi com piedade e comoção que viu Laura levantar-se e dizer-lhe, toda dele, atirando-se aos seus braços, com ar vitorioso e sincero:

– Obrigada, meu querido... como tu és bom!

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