quarta-feira, 27 de julho de 2022

A febre do jogo (Conto), de Álvaro do Carvalhal

 

A FEBRE DO JOGO
 


I

Lúcio parecia protegido do mágico influxo duma constelação propícia. Aporfiava a fortuna em fazê-lo mimoso de seus munificentes donativos. As cartas, tão dóceis em obedecer-lhe como pertinazes em resistir a meus ansiados reclamos, andavam como que à mercê da sua vontade imperiosa. E ele, revestido das honradas insígnias de banqueiro e enfronhado em presunçoso desdém, acusava em cada movimento a satisfação característica, que extravasa dos jeitos particulares dos bem sorteados.

À direita de Lúcio estava eu. Era a primeira das vítimas, o ludíbrio da sua ventura. Por isso o encarava de maus olhos, recalcando a indomável inveja, que transbordavam. E, magnetizado, para me servir de frases grandes e vazias com aspirações a graciosas, seguia voraz os rios de dinheiro, que rolavam copiosos para as bandas do banqueiro ao passo que lamentava, de mim para comigo, que tão depressa se me fosse desvanecendo a acalentada esperança de acabar meus dias em lúcido e sonoro pélago de belas peças de ouro.

Morreu num tonel de malvasia o duque de Clarence. Foi pouco aparatoso o duque. Morreu como pode morrer um sapo, ou mesmo um qualquer burguês. Não admira todavia, que no vinho recai a excentricidade ordinária de um digno britânico.

Eu, menos modesto, suspirava por uma sepultura como nem no paganismo a obtiveram deuses: oceanos de dinheiro. Era o meu fraco.

De mistura porém com íntimos lamentos de vate arruinado, coalhados pela ira em elegias chorumentas, ia ao sopro encantado da filosofia, tão avezada a reduzir o confiado intelecto dos pobres mortais a bolhas de sabão nas asas do vento, ia desfiando de cada libra, que deslizava no pano verde da mesa, uma história longa de longas agonias.

Anos e anos de trabalho ímprobo, noites fadigosas, vigílias acerbas; o descanso, a paz e a honra de muitas famílias; o amor, a ternura e a castidade de muitas crianças; via tudo como numa galeria imensa e negra sacrificado ali ao delírio dum leviano deslumbramento; via tudo impiamente atirado à voragem lôbrega daquele funesto Titicaca. Titicaca, sim, já que tão arrevesado nome vale bem um anátema. E buscava interpretar nas alegrias dissimuladas de Lúcio (infantil ingenuidade!) longes da generosa condolência que reabilita o vencedor aos olhos do vencido.

Se eu ainda então ignorava que a febre do jogo afugenta benfazejos instintos; enerva a afinada corda dos sentimentos delicados a furtar-lhe as mais doces vibrações; bestifica sob a pressão ignóbil da desenfreada cobiça!

Como media a desgraça dos outros pela minha desgraça, compulsava de perto, por uma notável complacência do egoísmo, os males alheios, as paixões desaforadas e as angústias, que de envolta se eriçavam.

Os valores, que meu pai me confiara, essas relíquias santas duma opulência desbaratada (santas, porque delas pendia a boa fama e a segurança da minha família) iam caindo no abismo peça sobre peça, balouçadas no fluxo e refluxo irregulares daquela aurífera onda.

Atraído primeiro por simples curiosidade, e em seguida, como de ordinário sucede, pela esperança sedutora de farta colheita, deixei-me depois vencer do teimoso despeito, que se origina das repetidas perdas, e pus mais audácia no jogo até que, sem o pressentir, atingi o perigoso termo da fascinação. E daí não há voz de raciocínio que levante o homem.

Todavia eu ainda não estava pervertido a ponto de esquecer que não era uma moeda fria e supérflua que submetia às veleidades da sorte. O produto das jóias de minha mãe mirava a mais nobre emprego, qual era salvar-lhe a honra, salvando os ameaçados créditos de meu pai. Era pois a honra e o crédito da minha família que eu estava comprometendo com repugnante cinismo. Fazia-me cínico a demência. Estava ali fatalmente amarrado como Prometeu ao píncaro do Cáucaso com o abutre da avareza a mergulhar as garras em meu peito confrangido. Afeiçoara-me aos repelões duma miserável esperança. Necessitava reaver o perdido, arriscar ainda algum ouro, lutar, estrebuchar…

Estorcendo-me no espaldar da cadeira, e arrepiando os empastados cabelos num trejeito de oratoriano desespero, que é o mais ridículo de todos os desesperos, pregava iracundas vistas no banqueiro, observando de soslaio com frenesi de tonto o apoucado destroço subtraído à voracidade das cartas, o último punhado de libras, que me restava.

Formei decisivos planos de ataque, indaguei um apropriado sistema de jogo, erigi barreiras e castelos fortes, e coloquei-me na brecha com o aprumo resignado de um mártir. Porém minhas maduras combinações, meus cálculos prudentes, astúcias e determinações medidas chegaram serôdias de mais para que medrassem. Goraram-se num abrir e fechar de mãos.

Acertou em vir por esse tempo à mesa uma carta que me deslumbrou. Foi invencível a tentação. E concorreu a redobrar-lhe o valor a soberana urgência de um cometimento arrojado, pois que em assaltos parciais e moderados se tornava quase impossível a restauração dos perdidos capitais.

Esta consideração acabou de me resolver. Joguei tudo na maldita carta. Lúcio olhou-me com sobrecenho repreensivo. Eu baixei os olhos humilhado, pasmando da temeridade, e, na iminência do perigo, arrependi-me sinceramente de tão precipitado lance. Mas, caso inexplicável! não ousei retirar a parada.

Em pé, hirto, com o pescoço grotescamente estendido, boquiaberto, abafando em suor e com a serpente da cobiça, na sua mais sórdida expressão, enroscada na garganta, considerava tremebundo cada carta que despontava no baralho. O receio agitava-me barbaramente o coração; e a inteligência, escurecida, lampejava a espaços em acerbas exprobrações. Hora aziaga!

Não há fugir à sorte. A minha estava lançada. Perdi.

Vibrou-me aos ouvidos uma voz de tormentas, inflamou-se em meu cérebro um clarão de desespero, caiu pesado meu punho sobre a mesa, e meus lábios encresparam-se numa palavra obscena.

Ninguém se ofendeu, nem apiedou tão-pouco. O jogo prosseguiu no estilo em que começara. Eu é que estava irremediavelmente perdido.

Desorientado fui sentar-me longe dos jogadores com a cabeça apertada nas mãos como um tendeiro falido, ou como um galã soberbo atraiçoado em seus desfraldados afetos. As labaredas daquele inferno não há nesses caminhos, em toda a cristandade, painel de almas penadas, que as represente ao vivo. Quantos as terão experimentado menos abrasadoras sem ânimo para preservar as regiões cranianas dos estragos duma bala!

Não calculo o tempo que permaneci nessa dolorosa prostração. Despertou-me o som de uma voz, que pronunciava o meu nome com certa acentuação sentimental. Era a voz de Lúcio.

Tinham-se dispersado os jogadores, e apenas ele, condoído do meu abatimento, consentira em malbaratar comigo à míngua da panaceia infalível e milagrosa, ao menos algumas estafadas palavras de consolação.

— Mariano, diz em tom enfático, aproximando-se, não serás tu um homem? Esmaga essa consternação que é um insulto para o teu caráter, e mostra que sabes reconhecer que nem as pedrarias de Bornéu, nem todas as minas do Peru compensariam uma aflição de momento. Pois quê! Tão mudado estarás? Nos belos tempos do nosso condiscipulado… lembras-te? memoráveis tempos! tornou-se notável o teu nome por um sem-número de liberalidades galantes, que desfalcariam os recheados cofres dum nédio capitalista: desdenhavas esse estúpido metal. Hoje…

— Mudaram as circunstâncias.

— Não há circunstâncias que dobrem uma boa natureza.

— É falso. Fala em ti a felicidade, que tudo vê retinto em seus peculiares arrebiques. A tua generosa e boa natureza, Lúcio, a tua boa natureza é a primeira a desmentir-te, porque se altera, como se passasse de cadinho seleto a grosseiros moldes, desde que tomas lugar a uma mesa de jogo. De civil e cortês eis-te petulante; de liberal avaro; de probo e justo…

— De probo e justo?

— Burlão de taverna.

— Mariano!

Quem tivesse o sangue em ebulição e o coração ao pé da boca deparara nessa injúria com favorável ensejo para uma festejada briga de faca em punho. Por mim estava em termos de a desejar. Lúcio porém era de fria têmpera e ânimo reto, e nunca à primeira farpa investiu contra o adversário, quando mesmo não fosse um amigo.

— Paciência, Lúcio! volvi, sanando a ferida. Já que estás rico de dinheiro, consente que eu o seja ao menos de franqueza. Não me queixo, não devo queixar-me. Percebi a tempo o engodo, podia ser cauteloso.

— Juro-te…

— Fazes mal. Cansas-te sem proveito. Surpreendi-te nos ardis da empalmação.

— A mim! Mentes. Continuaste jogando, e terias cessado, se fosse verdade.

— Arrastava-me uma força superior. Tinha de ser.


II

 

— Tinha de ser! repete Lúcio, encolhendo os ombros com enfado. Falsa desculpa, filha do despeito, que inutilmente disparas em abono de um procedimento repreensível como para iludir a consciência!

— Tenho por mim um argumento inabalável. Vi.

— Muito bem! O testemunho de um sentido, frequentes vezes mentiroso, deve antepor-se ao protesto de um provado amigo! Desculpo a alucinação. Todavia, se é certo que as cartas tomam na minha mão a docilidade da cera, estimaria que me explicasses por que casta de prodígio levam destroçado o meu patrimônio.

— Quem viu germinar jamais a maldita semente duma colheita ilegítima?

— Ah! ah! Um frade sentencioso não rosnaria melhor qualquer máxima bafienta. Está bem. Não discuto. Perdoo-te o errado juízo pelo desvario em que te anda o espírito. Porém… mandando os arrazoados pingues de moralidade para as celas da fradaria, vê no entretanto se descobres em mim alguma vantagem, que te levante acima dessa lástima capaz de enternecer estadistas e usurários.

Concebi uma ideia radiante.

— Salvas-me, Lúcio?!

— Salvar-te!

— Estou perdido.

— De perdição melodramática?

— Falo seriamente.

— Como!

— O dinheiro, esse dinheiro, que eu joguei, representava nada menos que a honra de meu pai. Era a égide protetora destinada a pô-lo ao abrigo duma falência aviltante.

— Oh!

— Compreendes? Renunciarei pois a outro estímulo que te chame em meu amparo. Eu fui rude, muito rude e muito insolente contigo, Lúcio; mas tu perdoas aos lábios o aleive com que profanaram o coração… Perdoas, e não te recusarás a tirar-me, com um nada de sacrifício, deste leito de urtigas, que me preparei…

Leito de urtigas! Porque não? Quem nesta era elegante, de modas sécias, de finos atavios, de primores sem conta consentiria numa câmara, já não digo senão modesta, o tosco leito de um bárbaro, o leito de Procusto, sem colchão de mole plumagem, e cheio da pele de bestas ferozes apodrecida pelos séculos? Um leito de urtigas ao menos, se lhe falta o sainete das antigas histórias, abunda em frescura; recende novidade; desfar-se-ia sem custo em viçosas coroas, que não iriam mal em fronte de donzelas; não é enfim como um prato que da mesa de patrícios descambou em plebeias mesas.

Portanto, aqui sanciono a frase, e defendê-la-ei com a afoiteza, com que se defende o motivo duma gloriosa reputação.

Isto não lho disse a ele, que seria água entornada no patético do discurso; mas digo-o agora, entre amigos, em guisa de parêntesis, e com donaires de quem sabe o que diz.

— Não vás esquecer que estou pobre, devolveu Lúcio; pobre, arruinado, perseguido de credores… Recordo-to, a fim de que me não julgues ressabiado de má vontade. Contudo não me esquivarei ao que for compatível com os meus amesquinhados recursos. Vejamos, é grande a soma?…

— Enorme.

— Diabo!

— Enorme, mas limitada em relação ao muito que acabas de ganhar. Dá-me o dinheiro, dá-mo; e, se me exigires como penhor a própria liberdade, não acharei que exiges muito. Aniquilarei a dívida em estreito prazo. Vencerei esta inércia, direi adeus aos prazeres da ociosidade, trabalharei: ao lado de meu pai comerciante; no meu escritório advogado. E tu sabes se me faltam cabedais, que façam jus a uma rendosa clientela! Lúcio, olha para mim, e recusa-me o que te estou a pedir!

— Basta. Que quantia necessitas?

Disse-lho. Ele mediu-me dos pés à cabeça com manifesto assombro. Volvidos momentos exclama, assumindo ares de cômica gravidade:

— E não tens escrúpulos tu, que conheces a falsa posição, em que estou colocado, não tens escrúpulos de me exigir um semelhante desprezo de mim e das minhas coisas? Quererias abrir azo a que o quase simples beneplácito de um meirinho, emissário detestável de más novas, fosse suficiente para introduzir a sua alta dignidade por minha casa dentro no farejo duma gorda penhora?

— Tens razão; murmuro eu desalentado, como ferido na última esperança.

E, cobrindo o chapéu, dirigi-me bruscamente para a escada. Lúcio correu em meu seguimento.

— Mariano!

— Adeus! Assusta-me o lamentoso caso, que figuraste. Não quero em almoeda as tuas alfaias ricas.

— Escuta, criança… Sou teu amigo, e pesa-me que vás assim com o semblante retalhado de maus presságios.

— Presságios, que não se amolecem na água chilra da tua impertinente retórica, devolvi com repreensível rudeza.

— Quem sabe? Experimentemos…

— Não me oponho.

— Tenho um amigo…

— Sem rodeios.

— Tenho um amigo, que no breve decurso de alguns meses me confiou somas extraordinárias sem outro título de segurança além da minha palavra, que para a sua boa-fé é garantia mais que suficiente. Há pouco, porém, me preveniu ele de certa crise pecuniária, que vai atravessando, e fez-me sentir com esquisita delicadeza, bem significativa contudo…

— Entendo.

— Ora avalia se seria religioso o dever que me impus de ser pontual no pagamento. Privar-me-ia antes de tudo, sem exclusão das vestes que aqui me vês, do que quebrantaria a promessa, que tacitamente lhe fiz.

— Em conclusão?

— Irei falar ao homem; contar-lhe-ei a tua história, e, se o resolver, como cuido, a uma espera razoável, é teu o…

— O dinheiro?!

— Sim.

Lancei-me alvoroçado nos braços de Lúcio. Abracei-o, semelhando o áspide, que se insinua brando no seio compassivo, que o aviventa, para nele depositar a venenosa semente.

Era um abraço de Judas.

— Aceito, exclamo. É muito nobre a oferta para ser rejeitada. Vai, então vai sem demora. Que se aplaque quanto antes esta fome de Ugolino.

— Nada de pressas inúteis. O meu amigo vive no povoado além da montanha, a duas léguas…

— Quem é?

— P. Vassal.

— Oh! É um nome, que vale uma redenção.

— É homem laborioso, como sabes; sem paradeiro certo enquanto o requisitam as azáfamas do campo. Por mim não conto gabar-me de ir dar com ele a hora tão mal escolhida. Voto que vamos refazer-nos, dormindo, dos estragos da noite, que ao descair da tarde te prometo arvorar-me em paladino dos teus interesses. Sou forte na diplomacia destas negociações. Descansa. Antes da meia-noite serei contigo.

— Virás como um duende.

— Decerto, pela meia-noite.

— E hás de atravessar a montanha?

— Que remédio!

— Sem companhia?

— Certamente.

— Porém, se voltas com o dinheiro?

— Abraçar-me-ás.

— Não receias salteadores?

— Criança!

— Há-os aqui como em toda a parte. Às vezes bem perto de nós…

— Com que ares o dizes! Há-os principalmente nos contos à lareira, quando são destemperados do adubo do senso comum.

— O caso não é de riso.

— Deixa o caso por minha conta.

Separamo-nos.

Entrei no meu quarto cambaleante como um ébrio. E, convulso e nervoso até ao refinamento, dirigi-me para um espelho curioso de julgar do modo por que as nocivas impressões duma noite tormentosa transparecem nos traços da fisionomia.

Toldou-se com a minha imagem a límpida superfície do cristal. Inclinei-me sobre ela, observando a alteração de cada lineamento ou parte característica com a minudência inspirada do áugure da antiguidade, quando revolvia as entranhas quentes das vítimas para lhes arrancar segredos do futuro.

Alguma coisa me dizia que estava ali ferretado um terrível destino. E estava.

Na vista torva, na vincada fronte, na térrea amarelidão da tez, no franzir dos lábios, nisso enfim, que para um estranho poderia significar, quando muito, aturada efervescência de conhaque nos intestinos irritados, indigestão de aguardente com seu suplemento de fumo de mau tabaco, luxúria exausta e insônia, ou coisa assim; nisso, que, a falar verdade, era pouco de espantar, percebia eu, não sei por que misteriosa intuição, um como retábulo de morte, arraigado pressentimento de crimes.


III
 

 

Tremendo de frio, cruciado pela hidra invencível de enormíssimos cuidados, atirei-me, vestido como estava, para cima do leito, antes para refrigerar a atufada impaciência, que, crescendo de ponto, me erguia ao apogeu das amarguras, do que para desafiar as blandícias suaves do sonífero deus.

O sono em tais condições não passa duma quimera, de um vão desejo.

Levei todo o dia absorto ora na pêndula, ora no quadrante do relógio, evadindo-me a interrogações impertinentes, e repelindo os alimentos com que a afanosa complacência de minha mãe estimulava meus desvanecidos apetites. A noite, a noite auspiciosa e cheia de promessas de bonança, cifrava os meus mais caros anelos.

Ela me prometia Lúcio alegre dessa alegria franca, que é um prenúncio de boa nova.

Digo de boa nova, porque passava em provérbio a generosidade de P. Vassal. Era ele a filantropia estreme, encadernada, de mais a mais, em fidalga adiposidade. Lúcio não voltaria de escarcela vazia. Não, porque seria um milagre.

Mas, que regressasse carregado como o camelo de um nababo?

Aqui despontam novas ponderosas dificuldades.

Por que forma pagar tão avultados cabedais, fosse qual fosse o prazo, que me concedessem para os granjear? Não era certo que, se me não faltavam vantagens e distinções, que bem aproveitadas empreenderiam a provável conquista de jardins de Hespérides, se lhes contrapunha todavia a lembrança assustadora do trabalho, com o qual eu andava em rancoroso divórcio?

De meu pai que tinha a esperar?

Esmagado de desgostos, ferido de contratempos, atraiçoado em suas relações de comércio, estrebuchava entre a bancarrota e o último bruxulear da honra em paroxismos.

Que cautério aplicar à cancerosa pústula? Que filtros inventar? Como despregar-me desta cruz dolorosa?

Esgotara as potências da imaginação exacerbada; e ela, em suas malignas sugestões, só me deixava livre escolha entre puerilidades insignificantes, e execrandas torpezas.

Neste estado de coisas, quem hesitou jamais?

Lúcio havia de atravessar a montanha, só, incauto, velado pela escuridão da noite, vergando ao peso do dinheiro…

Que infernal ideia!

Mas quem não afronta a infâmia, para se remir dessa outra infâmia, que o universo enojado cospe nas lívidas faces da pobreza?

Decidi. Era mortal a enfermidade. Apelava para um remédio heróico.

Ergui-me de golpe com um plano formado. Fora demorada a incubação, mas lograva vingar glorioso, entrajado nas vestes amaldiçoadas do homicídio. Era um plano, cuja simples concepção valia um opróbrio, e cuja cobarde execução não obteria nome em língua de homens.

Que me importava? Eu tinha uma ideia só a arder-me no crânio, uma ideia fixa, um princípio de demência.

Nove horas.

Era tempo de cumprir-se a fatídica sina.

Lá fora desprendia a tempestade as borrascosas asas pelo entenebrecido espaço. Espessa saraivada fustigava impetuosa as minhas vidraças. O céu abrasava-se em clarões efêmeros. E a terra revolvia-se açoitada pelos ímpetos recrudescentes de sucessivos furacões. A imobilidade sombria das catedrais antigas, dos torreões cônicos de mourisca fábrica, dos zimbórios dos edifícios circulares e colossais, iluminada a espaços pelas fosforescências pálidas dos relâmpagos, dava ao espetáculo um lúgubre caráter. Dir-se-ia que o abismo vomitara legiões de demônios, que ameaçavam este nosso acanhado canto de mundo com um formidável torvelinho, reduzindo-o a arena de vertiginosas coreias.

Era uma tempestade, dessas tempestades impossíveis, sopradas a capricho para darem realce às trágicas narrações.

O rei Lear, esse louco extraordinário e sublime, perderia a melhor parte da sua imponente majestade sem a fúria desesperada dos elementos, que o fulmina na floresta, arrancando-lhe espantosas invectivas contra o mundo, contra os Infernos e contra os Céus.

Eu, que ardo por me colocar fora da órbita ordinária, não dispensaria na mais terrível excursão da minha vida o fogo dos raios para me alumiar o caminho, e o estourar dos trovões para sufocar o estrépito dos meus passos.

Feitos os aprestos, que julguei necessários, saí com a rapidez do pensamento.

Indiferente a quanto me cercava, só submerso nas ideias pérfidas, que levedavam em meu ânimo, sem ver, sem ouvir, quase inconsciente caminhava como um sonâmbulo. Apenas, ao passar algumas ruas, por cima dos clamores do vendaval me estrugia aos ouvidos, de longe em longe, como uma risada blasfema o alarido despejado da embriaguez, que transpirava do fundo de becos fétidos e de casas de equívocas indústrias.

Mas breve toquei nas abas da montanha, onde já não chegavam esses estouvados ruídos.

Lancei em volta de mim rápida vista, e quase me senti enfraquecer. Achava-me completamente só, em face duma natureza agreste, debaixo de um céu iroso, e com a alma cheia de projetos de sangue. Horrorizado de me ver ali, tão perto do crime, tive medo de mim próprio, chegando a imaginar que o meu corpo, este corpo que eu palpava, e que eu sentia, era propriedade de outro dono.

Foi um momento lúcido.

Novamente endurecido, tomei por uma vereda pouco frequentada, vadeei uma escura torrente, e perdi-me nas eriçadas penedias, transpondo torrentes e valados, rasgando as carnes nos densos sarçais e nas protuberâncias dos granitos sem topar com embaraços no dificultoso trânsito. As urzes estalavam debaixo dos meus pés. Os píncaros, só acessíveis ao voo triunfante das águias, pareciam acurvar-se humilhados em cômoros de verdura. As escarpas dos precipícios, como os córregos dos montes, também me abriam passo franco. E cada nova barreira a transpor, novos alentos me insuflava.

A velocidade de meus movimentos, meu vulto incitado como pela febre duma doença vertiginosa, a cadência monótona de meus passos, e a segurança milagrosa, com que me firmava no chão pedregoso e resvaladio, davam-me por certo o toque fantástico de visão extravagante de um delírio, ou de infeliz estranhamente arrebatado da ânsia tenaz de mortal hidrofobia. Dir-me-iam levado de um turbilhão maligno, como se o gênio do mal, segundo a decência pede que se chame ao cão tinhoso, me coadjuvasse mediante um pacto execrável.

Um amador de legendas, que me visse passar aureolado pela luz sinistra dos relâmpagos, jurara, invocando o Inferno, que vira com os espantadiços olhos da cara o judeu errante. Um bardo desgrenhado e imaginoso, livre no idear, como são livres os pintarroxos, e os melros, e os rouxinóis da devesa, e as vozes do infinito, e os mares, sem temer conspurcar a minha senatória gravidade e meus melindres bem entendidos, comparar-me-ia, em virtude dessa liberdade, a um cavalo abissínio, que passa no deserto, desdenhando oceanos de areia e ameaços do simoun. Um sábio ou um jornalista, um homem de alma ou um agiota não se ergueriam a menor altura.

Lembra-me o caso do Evangelho, em que o espírito imundo, afugentado dos energúmenos pelo sagrado esconjuro de Jesus, se catrafilou nos pobres cerdos, que se apascentavam no monte vizinho, levando-os de roldão, pendor abaixo, até os afundar nas salgadas águas. Lembra-me, porque a vertigem, que me arrastava, era nem mais nem menos a de um cerdo do Evangelho, a despeito de bardos, de legendários, de sábios e tudo.

Levava na alma a blasfêmia, e na horrenda catadura o desafio.

Que se convertesse cada folha silvestre em reservatório de chuvas para se rasgar na minha passagem; que se esfacelasse o globo em terremotos; que do alto caíssem raios, como transborda champanhe duma garrafa feita estilhaços pelo expansivo impulso do licor!

As peças da minha armadura saíram temperadas de forja nigromântica. Resistiram às iras das potências superiores como aos turbilhões de fluidificada lava ejaculados de mil crateras.

Meu bordão de peregrino era o lustroso cano duma clavina americana. E tinha a asa invulnerável de Satanás como seguro paládio.


IV
 

 

Parei enfim no viso dum rochedo à borda do caminho.

Uma refega do sul trouxe arrastado o som plangitivo de um relógio. Contei dez horas.

Chegara a tempo de consumar o atentado. O diabo esfrega a cauda de contente.

Alongara-me da cidade meia légua ao norte. Era aquele o sítio mais agreste e temeroso da montanha.

Cruzam-se em vários sentidos pedregosos carreiros, que aparecem e desaparecem como serpeando por entre penhascos enormes e irregulares, os quais aparentam ameaçar a eternidade como titãs em competência com os deuses. Algumas raras árvores, pobres de seiva e de vigor, enraizando-se nas fendas dos fraguedos neste momento clareados pelos relâmpagos, erguem para as nuvens os braços estéreis, ou se inclinam sobre as gargantas fundas, onde se despenham mugidoras torrentes.

Era o império das trevas. Somente, além da luz resultante da combinação das duas opostas eletricidades, resplandeciam ao longe, nas aldeias, rápidos luzeiros como fosforescência de brejos.

Eu era a alma da sombria paisagem.

Em pé, no ponto culminante deste lugar sinistro como que votado ao crime, com os cabelos flutuantes e postura feroz esteava-me à certeira clavina, que transluzia pela abertura do meu capote.

A paisagem oferecia uma perspectiva digna do magistral pincel de Salvador Rosa. Era sombria como a ordinária inspiração do aventuroso companheiro de Masaniello.

Decorreu mais de meia hora. Por cima dos fragores da borrasca ressoou então o trotar longínquo e cerrado de um cavalo.

Devia ser o cavalo que Lúcio costumava arriscar nas digressões deste gênero.

Não podia estar distante o meu intrépido e dedicado amigo.

A tais desoras, numa tal noite, e em tal sítio, quem passaria senão ele?

Todos dizem que facilmente nos convencemos do que desejamos. É certo. Assim me pareceu infalível o raciocínio.

Sem mais reflexão escondi-me na concavidade de um penhasco.

O ruído aumentava. Já se ouvia distinto.

Armei a clavina.

E esperei acurvado, atento e vigilante como o leopardo, quando de entre a espessura dos bambus espreita, aguçando as preias, o desapercebido viajante.

Em transes como este não há coração diamantino, que deixe de macerar-se nas prisões, que o reprimem.

A mão tremia-me no cano da clavina. E eu não desejava senão vê-la paralisada, como meio de desmanchar o diabólico encanto que, a meu pesar, me perdia.

Esperei ainda.

Começava a descobrir-se por entre as raquíticas árvores a sombra de um cavaleiro, que veloz se aproximava do meu covil. Já vinha perto, a tiro de espingarda.

Quanto dera eu para que a terra me tragasse, fendendo-se em abismos, ou para que me arrancasse pelos cabelos mão caridosa a este sangrento destino!

Estava feita a pontaria. A vida de um homem pendia duma inspiração momentânea. Quis ainda arrostar com a sorte. Mas é forçoso que nos conflitos entre o mal e o bem prepondere o mal, porque fui vencido. Desfechei.

Reboou formidável a detonação de um tiro nas quebradas e nas gargantas da cordilheira, acordando os ecos distantes, e assanhando nos casais da encosta e nas aldeias do vale o latir confuso dos rafeiros.

O baque de um corpo, e em seguida o nitrir assustado do cavalo, que sem dono se precipitou no mais espesso das brenhas, perderam-se nos ares.

Lancei-me então como um chacal sobre o cadáver. Arranquei-lhe uma bolsa, que pelo volume e peso devia encerrar grossas quantias, e fugi com ligeireza de gamo perseguido, num estado de espanto e de alegria, que com mais acerto chamara desvairamento.

Apenas no meu quarto, fechei com precaução a porta, aticei a lâmpada, e, apertando nos dedos regelados a bolsa roubada, contemplei-a enlevado e amoroso no antegosto duma plena saciedade de dinheiro.

Nada me convenceria de que não sobrava ali cabedal com que comprar a mais retraída virgindade. E todavia faltava-me ânimo para desatar os enroscados cordões. Temia uma desilusão.

Como um facínora endurecido e incurável não via no objeto das minhas alegrias o terrível documento da mais negra das perfídias. Mas a Providência não é um sonho de poetas. Aquele suposto talismã era já um princípio de castigo.

Despedacei afinal os cordões, certo de que da bolsa saltariam ondas do brilhante metal, ídolo em cujo holocausto tanto sangue humano se derrama. Pintava-me o desejo em seus exagerados coloridos as profusas grandezas de um conto das mil e uma noites.

Sôfrego, mergulho a mão na bolsa, como um galã venturoso no perfumado seio da amante. Mas, como se me picara um escorpião, retiro-a apressado e convulso.

Cobriu-se o tapete de informes moedas de cobre, mescladas com outras de prata, raras e de pouca valia.

À semelhança dos encantados tesouros, que medram nas lendas maravilhosas do povo, os quais, enquanto o diabo esfrega um olho, se reduzem a carvão pela influência de invisíveis espíritos, transmutaram-se em cobre vil as minhas almejadas riquezas!

Não soube aparar o golpe. Deu-me em cheio no coração.

Um assassínio para obter aquilo!

Caí e rolei no pavimento como assombrado do raio. Rugi como fera apanhada no laço. Não tive caridade comigo. Retirei da cabeça as mãos cheias de cabelos arrancados pela ensanguentada raiz. Macerei o corpo em evoluções de energúmeno, em esgares frenéticos, com ranger de dentes e espumar de raiva. Quebrantado enfim lancei-me desatinado sobre o leito, e desatei num doloroso e amargurado choro.

Fez-se o milagre da rocha de Horebe. Era um coração de rocha que chorava.

Lembrei-me então de Lúcio, desse amigo generoso e dedicado, que nada poupara para me curar duma tristeza, e experimentei o pungir do remorso no seu corrosivo travor.

Ai, se eu pudesse restituir-lhe a vida, estreitá-lo ao peito, e chorar com ele!… Matara-o. Eu, assassino?! Como acreditá-lo? Seria sonho?… Esta cabeça, este peito, esta razão, este sentir seriam os meus? Quem era eu? Mariano? Eu era Mariano?! Quando me conheceu alguém uma índole perversa, uma educação irreligiosa, uma instrução descurada? Como se explica a perpetração desse monstruoso atentado? Não, não fui, não podia ser eu o assassino. Homem novo, de cabelos louros e virgíneos lábios, estimado dos velhos, festejado entre os moços, e perigoso às mulheres, nobre com todos os nobres sentimentos dos vinte anos, que havia de comum entre mim e um ímpio celerado?

Que havia de comum?! O coral desbotara em meus lábios ao bafo carbonizador das vulcânicas paixões de algumas horas; meus cabelos louros, como animados de vida própria, eriçavam-se em serpentes; a doçura de meus olhos submergia-se nas inchadas pálpebras; e as louçainhas parisienses dos meus vestidos enxovalharam-se no lodo das encruzilhadas.

Onde estava a gentil feição da minha mocidade?

Eu! onde estava eu?!

Via-me como em visão de lanterna mágica dividido em dois seres distintos: aqui cercado da auréola rosicler do justo, além afundado na sórdida escuridão do réprobo; crente e feliz aqui, blasfemo e maldito acolá; contra este movia-me severo rancor, aquele arrancava-me lágrimas de piedade.

Estes dois seres, confundiam-se, combinavam-se e separavam-se para tornar a confundir-se como numa dança louca de feiticeiras. Era uma visão aflitiva, que se repetia numa espécie de tresloucamento mórbido.

O estourar sobranceiro de um medonho trovão distraiu-me do desatino em que ia fundeando. Concheguei a roupa a meu corpo ainda molhado da chuva, e pensei compungido na existência de um Deus, que era Pai e Misericordioso, e que me estava vendo das alturas sem misericórdia, ou sem onipotência.

Rebentaram-me as lágrimas. O Céu porém foi compassivo. Se me não deu uma irmã sensível, ou uma formosa amante, que corresse a enxugar-mas, dardejou uma faísca, que, penetrando em fugaz lampejo pelos interstícios da janela, azulejou singularmente o recinto, traçando um sulco de fogo, que me crestou a fronte.

Crepitou a lâmpada derramando faúlhas inflamadas. E o relógio, posto no friso do fogão, fez ouvir o surdo ruído precursor das horas.

Ia bater meia-noite.

Mas à primeira martelada caiu a pêndula no chão com seco estalido.

A hástia, que a suspendia, rebentara como bordão de lira sob os dedos de um Orfeu invisível.

Acocorei-me atônito no leito. E começaram os objetos a ganhar todas as formas e proporções, que lhes dava a minha veemente turbação. Ora cresciam, ora diminuíam de volume. Torneavam-se em estátuas, achatavam-se em sarcófagos, erguiam-se em pirâmides, fundiam-se em epitáfios, amontoavam-se em ossadas. O meu estreito quarto dava o fúnebre aspecto de uma vasta cripta, angulosa e negra, cheia dos segredos de muitas gerações.

Recrudescia a extravagância visionária, quando rápido soam três pancadas na porta. Limpei o suor, bendizendo o socorro, qualquer que fosse, que tanto a propósito chegava. Sem necessidade de deixar o meu lugar, tirei dos cordões de seda, que prendiam à aldrava, e a porta abriu-se.

Escuridão.

Os lustrosos alisares da porta constituíam como que uma grande moldura. Era uma moldura vazia, sem painel. Mas não o foi muito tempo. Breve se desenharam naquele fundo negro as formas fatídicas de um homem pálido e silencioso como o herói de uma balada.

Reconheci-o, e pus-me em pé num movimento de inexprimível assombro.

— Lúcio! grito, estendendo as mãos em ação de repelir o fantasma.

Depois fiquei petrificado como se tivera dado de frente com a horrenda cabeça de Medusa.


V
 

 

Lúcio conservou-se alguns poucos minutos naquela imobilidade de rocha, como em muda e pasmada interrogação.

Depois dirigiu-se para mim, exclamando com alegria temperada com o seu tanto de exprobrador entono:

— Que é isto, Mariano?! Recebes-me em aflitivo sobressalto, quando me sobravam direitos a ser festejado com expansão de alma, coração e braços abertos? Estou capaz de ir jurar que andas apostado em fazer-me perder a tramontana.

Ouvi as palavras, mas sem lhe ligar sentido. Fiquei inerte. Lúcio prossegue, após breve expectativa, em tom de surpresa crescente, e não sem algum sal de ironia:

— Se tal é o salário, com que reconheces os meus serviços, confesso que fico ainda devedor. Mas tu estás abatido! Ora vamos, nada de desfalecimentos de menina mimosa. Um homem luta peito a peito com a dureza de todas as adversidades conspiradas, e passa por cima delas triunfante. Emudeceste?! Decididamente perdeste a voz. Pois juro que hei de curar-te. Trago aqui a medicina nas algibeiras.

E fez retinir o ouro, que as prenhava.

Estremeci tocado da magia do som. Olhei-o desvairado, e acordei então do letargo.

— Donde vens? perguntei.

— Do Inferno.

— Do Inferno!

— Está visto.

— Jesus!

— Ah! ah!

— Vai-te!…

— Que me vá! Pobre rapaz! Deliras? Que me vá! Que pavor é esse, Mariano? Que há em mim de tão notavelmente feroz e extraordinário que cause susto? Não sou eu o teu amigo? Não sou eu quem por ti, por tua causa, se enovelou de bom grado na lava torrencial de abrasados torvelinhos?

— Vai-te, vai-te!

— Repeles o sacrifício depois de conduzida a rês?…

— Perdoa, Lúcio, perdoa-me. Tinha as faculdades perdidas. Eu sou inocente. Deus sabe que sou inocente. Deus sabe da compunção profunda com que me arrependi.

— Que dizes?

— Algum malefício me dominou. Por duas vezes quis quebrar nas rochas a clavina para me furtar ao labéu do assassínio. Não pude.

— Que significa isso? Que estás aí a dizer, desgraçado? brada Lúcio no fervor de atroz desconfiança, atentando só agora para o que em mim transparecia de muito sinistro.

Senti na cara superabundância de calor. Cresci para Lúcio, e travando-lhe o braço:

— Estás vivo! exclamei de ímpeto, não pouco corrido da simpleza e ingênua credulidade, que ao primeiro relance manifestara, supondo-me face a face com maravilhosa aparição.

Lúcio recuou indeciso e perplexo. Aquela minha exclamação desvairada, e tão contrária à razão, convenceu-o totalmente de que não era infundada a aterradora suspeita, que começara de conceber.

— Pobre amigo! murmura consternado.

Humilhou-me o dolorido lamento; e, mais que muito envergonhado empreguei o meu empenho em lhe desvanecer o conceito, que, diga-se a verdade, nada me lisonjeava.

— Não estranhes, disse. À tua chegada acordei de um desagradável sonho, duma espécie de pesadelo em que te via ensanguentado, e envolvido numa mortalha. Estava meio dormente. Tive medo. Disseste que vinhas…

— Do Inferno? Ah! ah!

— O Inferno é uma pífia imaginação. Tem a sua existência no mundo das quimeras. Porém…

— Bem sei. Há momentos em que, sem crítica, se aceita qualquer descarnado absurdo. Deverás de convir todavia que atravessar a montanha ao sopro temeroso da tempestade, por entre crebras faíscas e trovões mugidores, vale pelo menos tanto como atravessar os fumegantes domínios de Satã, como quer que a padraria os pinte. Ora, ainda bem que aqui estou, salvo melhor juízo, em corpo e alma.

— Chegas neste momento?

— Aviei com rapidez o negócio. Às dez horas já eu estava à tua porta. Tinhas saído ninguém sabia para onde. É esta a terceira vez que venho procurar-te. Por que paragens tens andado divertido?

— Eu?… Andava… Tinha lume na cabeça, fui apagá-lo num banho de chuva.

— Jeitosa extravagância. Merece ser coroada por uma qualquer doença mais jeitosa ainda. Aí estás tu todo molhado, segundo se me afigura. Estás decerto. Ninguém atina como teu pai, quando assegura que nunca te verá em maré de juízo. A propósito, ainda não veio teu pai?

— Não sei dele.

— Fui encontrá-lo alisando contas com… Adivinha.

— Em tu o declarando.

— Com o homem de mais honrada estofa, que engorda neste globo sovina. Adivinha.

— Pelos modos…

— Quem é?

— Sou eu.

— Bem respondido, e mal acertado. Aplaudo o humorismo, sem deixar de reprovar a presunção. O que algum sainete lhe dá é a frouxeza ou desleixo de puro enfado com que o dizes. P. Vassal…

— Foi em casa dele que?…

— Exatamente.

— Meu pai!

— Sossega. P. Vassal é discreto.

— Meu pai! repeti entre mim alanceado por uma terrível ideia.

— Dei-me ao diabo, continuou Lúcio, para o reduzir a acompanhar-me. Foi malhar em ferro frio. Lobrigou aprestos de guerra nas alturas e tornou-se inabalável, pretextando que a velhice bem como um tronco caduco e seco provoca naturalmente a combustão, e que estava ele muito velho para que o fogo do Céu deixasse de o cobiçar. Com esta e outras quejandas razões de armar à hilaridade se foi deixando ficar à lareira até ver se lá nos estados superiores descobria anúncios de paz. Eu que ardia por vir, quanto antes, desprender-te da tortura, pus-me a caminho sem mais esperar companhia.

Travara-se dentro em mim um acérrimo conflito de receios e opressões acima de toda a narração. Um cadáver ficara na montanha. E esse podia ser o cadáver de meu pai!

Oh Shakespeare, empresta-me a irresistível torrente de tuas estupendas imprecações!

Despertou-me da síncope mortal, que todo me tomara, o som metálico do dinheiro, que Lúcio encastelava sobre o bufete.

Tão grata melodia, à semelhança das encantadas músicas de Orfeu, animando as penhas e os arvoredos, fez estremecer vivificante humor em meu corpo exânime.

Minhas pupilas irradiaram flamas, e minhas mãos recurvaram-se em garras de águia.

Dei dois passos em frente, e encarei em Lúcio ameaçador, e com ademanes de alvar provocação.

Era uma metamorfose.

Já me não lembrava meu pai.

Vivo ou morto, que importava?

Ouro! ouro! Estava o bufete refulgindo com montões de libras. Apossei-me rudemente delas como cão invejoso, que receia lhe venham disputar algum quinhão do objeto apreendido; e, recheando as algibeiras, olhei de soslaio em clara desconfiança para Lúcio, que, estupeficado, nem sabia dar crédito ao que estava vendo.

Concluída a operação respirei com desafogo, tomei o chapéu, e fiz menção de sair.

Era sórdido aquilo.

— Mariano! clama Lúcio, que comédia me vais dar em espetáculo? Ensandeceste?

— Talvez.

— Como justificarás semelhante desatino?

— Direi que ensandeci.

— Não mentirás.

— Pois sim, mas não malbaratemos palavras em assuntos de ronceira esfera. Compreendes? Vou sair.

— Às mil maravilhas! E convidas-me a caminhar na vanguarda…

— É o posto dos valentes.

— Obrigado, muito obrigado. Por essa forma se procede com um lacaio.

— Folgo de encontrar em ti agudeza nada comum em esconsos entendimentos. Empalideces? Há de ser de frio. Oh! o passeio é o antídoto do frio.

— Não é de frio, é de vergonha, clama Lúcio lívido de justa indignação, é de vergonha por ti, que me insultas, quando deveras humilhar-te a meus pés como o mendigo aos pés do filantropo, que lhe sepulta a fome no melhor prato da sua mesa, e o dessedenta no próprio copo, destinado às mais generosas bebidas.

— Basta de sermão. Longe vem a Quaresma.

— Nauseias-me.

— Não duvido. Mas… pelo diabo! não me apures a paciência.

— Basta. Ouve ao menos as cláusulas do contrato.

— Amanhã.

— É forçoso…

— Voltarás amanhã.

E fui-o empurrando para a escada, onde o deixei aniquilado, sem fio de Ariadne, que o tirasse do labirinto. 

Era la hora en que acaso
Temerosas voces suenan
Informes, en que se escuchan
Tácitas pisadas huecas,
Y pavorosas fantasmas
Entre las densas tinieblas
Vagan, y aúllan los perros
Amedrentados al verlas. 

como diz Espronceda ali pelo começo do seu Estudiante de Salamanca, que muito a pelo veio de economizar à minha gasta paleta o colorido desbotado de mais uma insulsa e fastienta descrição.

Tendo trilhado a rampa de uma rua escusa, fora-me postar em face de uma casa de regular aspecto, cujas vidraças do superior andar estavam ainda coradas por luz emanada de dentro. Era ali o valhacouto dos jogadores de estrondo. Tirei da campainha, e, trocada a senha, rangeu a porta nos duros quícios, e eu fui introduzido.

Na amplidão da sala ardia apenas um candelabro, que descrevia limitado círculo de luz. O fumo denso dos cachimbos entenebrecia e viciava o ambiente. Não foi sem custo que distingui feições conhecidas.

No topo da mesa notei um personagem mais que muito misterioso. Era o banqueiro.

A gola erguida de um grosso capote escondia-lhe meio rosto, desaparecendo totalmente a outra metade nas abas negras de um derrubado feltro. As sombras da afumada quadra concorriam para lhe favorecer o incógnito. E, com efeito, baldavam-se todas as curiosidades, que não havia ali quem pudesse nomeá-lo.

Sentara-se à banca ao bater da meia-noite e nem uma sílaba proferira. Quadruplicaram, num fulgir de relâmpago, os capitais, que arriscara, sem que se destribasse da primitiva impassibilidade.

À minha aproximação parece que lhe fuzilaram dos olhos dois efêmeros raios luminosos, e que lhe estalou o peito com um gemido surdo. Se foi certo não assevero. Alguém todavia mo asseverou com espanto.

O dinheiro fornecido por Lúcio, à semelhança da lenha, que aviventa o brasido quase apagado, exacerbou-me terrivelmente a febre, febre do jogo, sede de mais dinheiro.

Joguei, joguei frenético, joguei com raiva, joguei sempre. E ganhei, se não bastante para me saciar a avidez, ao menos para excitar a minha miserável sofreguidão.

Por acaso porém, ao recolher uma opulenta soma, rocei com a mão na mão do desconhecido banqueiro. Pareceu-me inteiriçada, sem articulações, gelada, como a mão insensível de um finado.

Em má hora foi.

Desde então escasseou a munificência da sorte.

A roda caprichosa da fortuna como que se esmagou contra o meu rosto, saltando fora dos esmigalhados eixos.

Fatídico contato aquele!


VI
 

Perdoem-me as reticências.

Que se incumbam elas de significar o que toda a minha retórica não exporia nos rodeios e nas sinuosidades de um retesado discurso.

As reticências têm, em repetidos casos, destes privilégios, e não poucas vezes se ostentam prenhadas de calculada eloquência.

Oxalá que muitos oradores ilustres, principalmente políticos, desses, que vivazes tresandam em nossas terras, soubessem dar-lhes o devido preço, usando-as sempre que dos inchados gorgomilos quisessem ejacular sermões portentosos. Seria uma convincente razão de tino e senso.

Ora as presentes reticências tendem a significar que, saldas as contas, rasteei nos lamaçais da indigência como um pária infeliz, para não dizer como Jó, que, em matéria de comparações, caiu decrépito sob a profanação do vulgo.

Repare-se que falo ex-cathedra. Eu não pertenço ao vulgo.

Era de esperar que esta segunda cruelíssima perda, mil vezes mais gravosa do que a primeira, me esmagasse de uma vez para sempre.

Pois não. O africano afeito ao azorrague sofre-o quase indiferente. A alma também cria seu calo para opor ao açoite desapiedado do infortúnio.

À maneira do arbusto delicado e exótico, que, transplantado para um clima pobre das doçuras do seu clima nativo, se resiste aos gelos da primeira invernia, corroborado depois, afronta incólume as mais rudes provas, sem que haja vendaval calamitoso, que o arranque do torrão ingrato a que se afeiçoou; eu também, fulminado por múltiplos e encontrados azares, cada um dos quais só de si capaz de produzir mil apoplexias, de tal jeito me familiarizara com a adversidade, que vivia nela como no fogo a salamandra dos poetas.

Não me pungiam dores agudas. Resvalara numa insensibilidade atônica, que moveria pena em quem me visse.

Aproxima-se o dia. A sala estava quase evacuada. Mas eu permanecia amarrado ao poste do meu suplício.

Que rumo a seguir, que horizonte a desencantar? Que esperanças em perspectiva? Nada. O vácuo.

Que palavra!

Enlanguescia-me esta indiferença torporosa enquanto no extremo da mesa o misterioso banqueiro, com suma quietação e placidez afundava nas enormes algibeiras o meu perdido dinheiro, e o dinheiro de tantos outros miseráveis.

— Cavalheiro, lhe disse eu ao acaso, tolere que daqui o felicite. Apesar do favor divino não alcançara mais o rei Midas em tão curto espaço.

Não respondeu. Eu julguei ver-lhe rolar nas pálpebras, como de pedra, dois carvões acesos.

— O possuidor, continuei acerando o motejo, o possuidor desses graúdos cabedais injuria a sociedade se se furta a que o reconheçam e o adulem. Neles leva um brasão de nobreza, sangue de reis, títulos de honradez e virtude, a chave de todos os santuários, tudo. Por um impulso tácito, mas unânime, voltamos à idolatria. O dinheiro é o ídolo. E aquele, que o possui, acatado como um templo, como um altar. E é nos templos, sobre os altares que recendem os incensos dos turibulários. Obtenha-se ouro, pela infâmia, pelo crime, mas obtenha-se, e está feita a conquista do Panteão.

— Pela infâmia! pelo crime? inquiriu o desconhecido com voz sumida, branda e quase imperceptível, que fazia relembrar o lúgubre gemer do vento na ramagem de pinheiral longínquo.

— Sem dúvida, acudi perturbado por um arrepio desanimador.

— Obtenha-se, embora seja com garra ensanguentada de abutre? Pela rapina?

— Sem dúvida.

— Mesmo à custa do assassínio?

— Ainda assim.

— À custa do assassínio perpetrado à traição, no retiro das montanhas?

Balbuciei. Ele continuou, inflexível como um carrasco, no mesmo plangitivo tom:

— Ainda que se atire o golpe ao peito de um amigo leal, de um?…

Era bem clara a alusão. Vinha ervada a seta. Corri para ele, gritando:

— Quem és tu? quem és tu?!

Afastou-se alguns passos, tirou o feltro, e derrubou a gola do grosseiro capote.

Maldição!

Era meu pai.

Não lhe vi mover os lábios, mas percebi que me chamava parricida.

— Pai! meu pai!…

Eu estava de joelhos.

Impôs-me silêncio com afabilidade sinistra. E, afastando as brancas melenas, retintas em sangue coagulado e negro, deixou patente uma ferida, que se perdia no interior do crânio.

Aquela vista lastimosa fez-me vibrar ainda uma fibra ignorada.

Espedaçava-se-me o peito com amarguradíssimos soluços, e rebentavam-me dos olhos copiosas lágrimas de aflição acerba.

Meu pai pôs-se a rir com um rir diabólico, repassado de agonia.

— Pobre filho! profere ele na toada gemedora de uma dor abafada, que espontânea ressumbra, pobre filho! Não concebas lavar com pranto o estigma do pecado. Nódoas dessas vão além da epiderme. Empestam o sangue, e putrificam o coração. As águas purificadoras do Jordão, se nelas as fores lavar, verás que, toldadas, hão de perder as tradicionais virtudes. Ergue-te daí com todo o orgulho do Inferno, e ri comigo o rir doloroso do precito. Mataste-me! Mataste-me, como a víbora, que corrói as entranhas em que prelibou a existência, para se esconder na terra, ou andar sobre ela de rastos; e morri impenitente, meu pobre Mariano!… O abismo! Sabes tu o que é o abismo? Oh desgraçado! desgraçado!

E tornou a rir.

— Meu Deus!

— Deixa em paz esse nome. Deixa a tirania nas pompas da sua imensidade, e não a invoques embalde. Que há de comum entre o Supremo Monarca e o cão, que falece no esterquilínio das ruas? Sê tu o teu deus, implora às forças da tua vontade, e sê imenso ao menos no orgulho.

Cortou-lhe a palavra um suspiro espedaçado, que o fez tremer como treme fustigada do vento uma corda frouxa de alaúde.

E, encolhendo-se nas vestes enlameadas e descompostas, continuou em tom cada vez mais mavioso, mais subtil, mais esmorecido e lúgubre: dir-se-ia pranteio, como que de moira cativa e amorosa, refletido das brisas nas folhas secas do Outono:

— Meu pobre filho! Mariano! Adeus! Ouço o canto matutino dos galos. A luz branca do dia não a sofrem meus olhos. Tenho sono. São horas de repouso. Adeus!

Caminhou para a porta estonteado e sonolento. Mas parou no limiar, levando as mãos às algibeiras e circunvagando com a vista desconfiada e receosa.

— Insensato! murmura. Esquecia que no escuro de cada arcada, nos alpendres de cada praça, atrás de cada tronco de árvore pode acoitar-se um ladrão. Expor-me a ser roubado! Não, não quero que me privem do meu dinheiro. Ganhei-o. É meu. Mariano, filho, não me deixes ir só. Acompanha-me, Mariano…

Renuncio a explicar a reação estranha, que se operou em mim. O certo é que o escutei com ardor e brios renascentes, e me aprestei a segui-lo com o desafogo com que Don Felix de Montemar, esse terrível Don Juan de Espronceda, segue o fantasma da desdichada Elvira.

Caminhamos em silêncio. Escorregavam-nos os pés nas lajes lamacentas das calçadas, e vertiam as goteiras sobre nós os restos da chuva dispersa nos telhados.

Meu pai ia adiante. Eu seguia-o de perto.

Breve nos embargou o passo a fachada secular de um templo. Árabe de origem, tivera o seu esplendor aquele templo. Cosido em ouro, farto de telas cintilantes fora forçoso, para que satisfizesse à rígida nudez do ascetismo cristão, que todos seus luxuosos adornos se relegassem para os refeitórios humildes de algum humilde convento. Os conventos, eternamente zelosos em fazer purificações, tomaram sobre si a piedosa tarefa. E, graças a seus pastorais cuidados, a esplêndida mesquita arvorou-se em magreza de tísico. Exultaram as harpias. Mas firme, nobre em sua nobreza primeva, lá ficou a nua arquitetura a apregoar passadas glórias.

Tal o templo em cuja fachada defrontamos.

Meu pai avançou para o portão frontal, que a um ligeiro toque de mão se abriu mansamente. Tínhamos patente o santuário. Entramos.

No meio estava um ataúde. Alguns brandões acesos o cercavam. À luz frouxa e baça, que despediam, desmaiada pelos alvores da manhã, amarelecia a imagem macerada de um Cristo de tamanho natural, suspenso, no altar vizinho, de um madeiro informe. Dubiamente esclarecidos, quase na penumbra, divisavam-se vários santos, majestosos em seus nichos de pedra. Quanto flutuava de indeciso e de vago, debaixo dos revérberos pálidos das luzes mortiças, tendia a dobrar o místico terror, o respeito religioso, que de mim, mesquinho, se apossava.

O ataúde estava vazio. Este reparo final, não sei porquê, paralisou-me de todo.

A razão vacilava. A imaginação inflamava-se. E não dava acordo de mim, não compreendia como ousara seguir a aventura, como permanecia colado ao pavimento, como não fugia.

Ainda desta vez duvidei se o meu corpo pertenceria a outro dono.

— Mariano, diz meu pai na sua melopeia lacrimosa, já não preciso de ti. Há muito cantaram os galos. Tenho sono. Vai-te.

Osculou-me.

Senti na cara os seus lábios, frios como a lâmina de um punhal.

— Filho! continua brandamente entre suspiros, meu pobre filho! Que sono! que sono!

Entorpecido foi estender-se no ataúde, conchegou a si friolento as humildes roupagens, cruzou as mãos na altura do peito, cerrou as pálpebras e… adormeceu.

Ao mesmo tempo uma ave negra, negra como um carvão das cozinhas do Inferno, ou como a trança do meu bem, que tanto vale, baixando do capitel de uma coluna, veio estender as ebâneas asas sobre ele, e, sacudindo-as com violência e estrépito, apagou os círios, despedindo um grasnar agoureiro.


VII
 

O terror passara subitâneo ao refinamento.

Fervem nas auras zumbidos ominosos. Ergue-se de envolta ao ataúde crassa poeira ardente, que flutua fúlgida, e tênue se dilata. E em seus nichos intumescem as imagens dos santos, solfejando com as bocas de pedra, ou de madeiro, cantos eróticos de loucura e ebriedade.

Uma onda tenebrosa me circunda, me enrodilha, torce e arrasta num rodopio sufocador. Quero firmar-me aprumado, rolo, estrebucho como o náufrago na agonia, até que alcanço um ponto de apoio, e fujo, expondo à fúria dos ventos os arrepiados cabelos, e enchendo o espaço de gritos guturais e entrecortados.

Como favorecido pelas asas do fugaz Mercúrio não percebia a dureza do solo. Diria que uma coluna de fogo me arrebatava para os domínios do éter.

E o cântico erótico das imagens do templo, mugindo sempre a meus ouvidos em mística consonância, era como o formidável estrugir da trombeta final.

Insano, dobrava então o vigor do curso. Mas quanto mais fugia, mais me perseguia o nefando coro.

De repente paro esmagado num círculo de ferro. Ergue-se um brado soluçante e comprimido. Vozes confusas troavam de cada lado.

Olhei.

Caíam sobre mim os raios tisnadores de um sol brilhante. Estava no zênite o Sol. De todas as partes acelerada se ajuntava a populaça. Alguns homens, não poucos, cheios de suor e de cansaço reprimiam-me nos braços atléticos.

Entre esses homens descobri minha mãe, que desalinhada e lacrimosa clamava, estorcendo os braços em veemente dor:

— Louco! louco!

Cravei nela os olhos estupefato.

Aquele brado de uma aflição de mãe arrefeceu-me até à ponta dos cabelos.

Tentei refletir, mas faltaram-me ideias. Tentei recordar, mas não tive memória. O que eu tinha era o vácuo na cabeça. Porém, não sei como, compenetrei-me da medonha verdade.

Envergonhado, quis furtar-me às vistas dos curiosos. E só nesse instante reparei que estava nu.

Eu! Nu, de dia, numa praça pública?! Como acreditá-lo?

Estava nu. Mas trazia pendente dos ombros a coberta esfarrapada do meu leito, como um manto real.

— Louco! louco! repeti então num choro colérico de desespero atroz.

E, espumando de raiva, rolei de chofre exânime nos braços, que me prendiam.

— Lúcio! foi a minha primeira exclamação ao volver à existência.

— Onde estou eu? foi a minha primeira pergunta.

Lúcio, de pé à cabeceira da minha cama, estava embevecido em minuciosa análise. Parecia determinado a não perder uma só das fases por que ia passando a doença, nem algum novo sintoma, que acaso se revelasse.

— Desconheço esta casa. Onde estamos? prossegui.

— Em Nápoles.

— Nápoles!

— Justamente.

— Como assim!

— Mandou-te de viagem a medicina. Eu é que tracei a norma.

— Fizeste bem. Mas tu?…

— Carecias desvelos e cuidados especiais. Ofereci-me para enfermeiro.

Apertei-lhe a mão em silêncio.

— Há muito que estamos em Itália?

— Vai para três meses.

— Seriamente?! Que enfermidade! Diria que acabo de despertar de um sono aligeirado.

— Como te sentes?

— Débil…

— Mais nada?

— Achas pouco? Em Nápoles! É pouco estar em Nápoles entrevado sem ver o céu azul, a terra esmaltada, soberbas mulheres, o feliz lazzaroni!…

— Basta por enquanto.

— O lazzaroni! Eu adoro o lazzaroni. Estou daqui a vê-lo estendido no cais, dormindo sob os raios perpendiculares deste sol da Itália. E eu, aboborado nesta enxerga, sem poder imitá-lo, sem poder privar com ele sobre a luzente areia da praia numa volta de qualquer dança graciosa. É pouco, isto!

— Basta, basta. Mais parcimônia na loquela. Basta de excesso. É mister que se não arrisque em leviandades o esmero solícito com que a ciência tem esgotado os seus recursos.

Foi rápida a convalescença.

Tarde, bem tarde já, de regresso ao país, quando me supunham plenamente equilibradas as faculdades, é que relembrei, por forma indistinta e obscura, os acontecimentos atrás bosquejados.

Refletiam-se na memória como reminiscências desbotadas e imperfeitas dos contos da infância.

Tinha a certeza de que algum caso estranho promovera aquela apreensão, mas não marcava a raia em que acabava a realidade para começar o sonho.

Todavia, em meu abono o digo, inclinava-me a crer que o maravilhoso estava antes no tresmalhar do espírito, do que na verdade dos fatos.

Esta nossa natureza, indefinida como é, apresenta sem dúvida muitas vezes fenômenos de tal quilate, fenômenos tais, que nem admira escapem pela malha estreita, que porventura lhes lancem a sábia psicologia e a acurada fisiologia. Quando elas porém, cada qual sobre si, ou mutuamente favorecidas, renunciam a reduzir o fato inverossímil e insensato à transparência do cristal, à lucidez com que a óptica explica os seus espectros, pede a prudência que logo o rejeitemos para não aceitar alguma cousa, que importe aberração de leis, chamadas invariáveis e eternas.

Esta consideração determinou-me favoravelmente.

Contudo não me eximi a que essas recordações me abatessem num recolhimento cismador e doloroso, que assaz dava que cuidar ao meu infatigável companheiro.

Encostado à amurada do navio, que nos conduzia ao lar de nossas famílias, e, com os olhos submersos nas tranquilas águas do Mediterrâneo, esquecia horas sem conta naquela íntima cogitação. Ali, na lanterna mágica da fantasia, evocava as névoas do passado, que transpareciam como num sudário imenso.

Lúcio contemplava-me de longe com tristeza.

Amofinado afinal de tão obstinada reconcentração veio postar-se a meu lado.

— Em que meditas, Mariano? perguntou com azedume mal disfarçado.

— Que sei eu? Dou alforria à imaginação, e deixo-a desfraldar pelas regiões do nada.

— Não sabes tu que, sobretudo, deves cuidar em distrair-te? A tua saúde, se bem que esperançosa, é ainda muito delicada.

— Que me importa?

— Que te importa! Tens desapego à existência?

— Indiferentista.

— Algum desgosto secreto…

— Talvez.

— Venha a revelação.

— Não vale a pena. Pechas!

— Pechas? É vago de mais.

— Há pontos escuros na minha história.

— Aclaremo-los.

— Duvido.

— Por quê?

— Se o intento, parece que escorrego em sangue.

— Valha-te Deus! Porque não buscas distrair-te? Aí voltas à ideia constante dos teus delírios. Remove para longe esses pensamentos, que te prejudicam, e faz por te conservar, ao menos para tua mãe, que agora espera reflorir na alegria, há tanto tempo perdida. És novo, e brevemente vigoroso…

— Muito bem, amigo. Não preciso alentos. Viste pairar no meu arrazoado ainda assomos de demência, e viste mal. Perdoa. Estou em ótimas disposições.

— E quem o pôs em dúvida?

— Deixemos isso. E, já que chegamos a este ponto, desejo que me desfaças uma incerteza.

— Às tuas ordens.

— Cautela, que vou submeter-te a um interrogatório.

— Estou pronto.

— Eu figuro de réu, autor e juiz. A ti ficam-te as honras de testemunha. Bem. Responde com precisão e clareza franca. Conheceste algum dia em mim paixões brutais, tendências malévolas, falta de humanidade, e sobretudo sórdida avareza?

— Oh! oh! Onde queres chegar?

— Responde.

— Que queres que eu responda?

— A verdade.

— Fá-lo-ei com uma pergunta. Quando te faltou a minha amizade? Quando te desprezei?

— Nunca.

— Aí está a resposta. Lúcio nunca estimou um miserável.

— Obrigado.

Logo prossegui:

— Pois eu nunca fui jogador?

— Jogar é um vício, e não uma abjeção.

— Nunca me viste jogar, Lúcio?

— Não te recordas?

— Dubiamente.

— Jogar!… Só uma noite…

— Perdi punhados de ouro?

— Perdeste.

— Eras tu o banqueiro!

— Era.

Eu ia-me acalorando. Continuei com fervor e impaciência:

— Tudo me ganhaste…

— Folgo que te vá acudindo a memória.

— Depois, para me suspenderes na ourela do abismo, emprestaste-me todo o dinheiro, que eu esfaimado te pedi.

— Isso mesmo.

— O teu credor P. Vassal…

— Foi quem me valeu.

— Tiveste de atravessar a montanha por uma noite…

— Que noite! Ainda sinto calafrios. O céu era um incêndio e a terra um mar. Fui decerto muito corajoso.

— Meu Deus! meu Deus! exclamei, ferindo a fronte uma e muitas vezes com os punhos cerrados.

— Mariano!

— Oh, então não foi um sonho!

— Mariano!

— Horrível!

— Mariano! Que tens tu, Mariano?!

— Nada. Esse dinheiro?…

— Já me foi embolsado.

— Por quem?

— Por tua mãe.

— Pobre mãe! Como conseguiria?…

— Como? Com tão sólido e acrescentado rendimento quem melhor poderia fazê-lo?

— E a bancarrota?

— Que bancarrota, ou que tontura é essa?

— Pois não faliu a casa comercial de meu pai?!

— Que dizes! Que firma há naquela praça mais acreditada do que?…

— É espantoso! E meu pai soube?…

Aqui Lúcio mostrou-se embaraçado, e, iludindo a resposta, deu outra direção à conversa.

Se bem que sobressaltado fui acalentando, no restante da viagem, animadora esperança.

Minha mãe, com numeroso séquito de toda a parentela e muitos amigos, veio receber-me ao desembarque.

— Meu pai? perguntei, passados os primeiros transportes, espantado de o não ver na comitiva.

Os olhos de minha mãe marejaram-se de lágrimas. Tive medo de a adivinhar.

— Meu pai? insisti sufocado. Onde está meu pai?

— Ainda não sabe! Ainda to não disse o teu amigo?… balbucia ela, estreitando-me num abraço longo e dolorido.

Notei que Lúcio lhe fazia gestos de inteligência a que ela não atendia.

— Morreu? perguntei.

— Mataram-no.

— Morto!

— Foi cercada de mistério aquela morte, filho! Não se elucidou a causa, nem se conhece o assassino. Encontraram o cadáver na montanha. Tinha o crânio despedaçado por uma bala. O cavalo, que o conduzira, apareceu selado na cavalariça coberto de lama, de espuma e de suor.

— Oh! Então…

— Filho! filho!… Acudam, que desmaia o meu filho!

— Então não foi um sonho, murmurei. Eu sou um celerado.

Lúcio apressou-se a amparar-me, vituperando com aspereza a imprudência de uma revelação tão séria para a qual de modo algum eu estava preparado.

Nunca ninguém mais me viu sorrir.

A saturnal e o jogo tornaram-se uma necessidade da minha existência. O jogo sobretudo. Era um monstro, que eu alimentava com dinheiro.

E hoje, senhores, a esta mesa, em volta da qual vos agrupais para ouvir a nefanda história, bem vistes se aniquilei a última mesquinha mealha do meu patrimônio.

Sou um mendigo.

Minha mulher e meus inocentes filhinhos morrerão à fome, porque não descerá do alto o maná dos israelitas, e porque a caridade, se aparecesse na terra, seria para lhes insultar a pobreza.

Minha mulher! Pasmais com certeza de que o homem corrompido a não jogue numa carta. Supondes-me talvez ainda alguns vislumbres de virtude. Enganais-vos.

Não a jogo, porque apenas tem uma alma de santa e um corpo de divina formosura. Que agiota moderno ousara lançar sobre mercadoria tão sujeita a deturpar-se? É moeda fina, pura, estreme, sem liga, que a preserve da ação do tempo. E, sem esta última condição, não circulará na praça.

Que morra, que morra com meus filhos. Assim a recompenso dos bálsamos, que me verteu nas feridas; das sedes corrosivas, que me apagou; dos refrigérios com que me regalou na avidez do deserto, em que vagabundo errei.

Amou-me muito. E fez daquele amor uma coroa de martírios. Mísera!

Bem vejo que me encarais com magoado assombro. Agradeço-vos a atenção.

A minha história é como o canto do gaulês guerreiro, quando, sobre a pira inflamada, junto à penha druídica, fazia, aos deuses do seu povo, religiosa oblata duma rude existência.


***


Calou-se.

Os jogadores entreolharam-se em silêncio. Muito dizia aquele silêncio.

— E agora? pergunta o mais estouvado e lesto de entre eles.

— Foi o navio a pique. Mas ficou uma tábua em que me equilibro à flor das águas.

— Onde está?

— Minhas pistolas.

— Pois quê!

— Não faltam encruzilhadas, e, graças a Deus! também não faltam viajantes.

— Certamente. Mas cada um dos caminhos da encruzilhada, qualquer que seja sua direção, há de encontrá-lo obstruído por um cadafalso.

— Resta o suicídio.

— É sensabor.

— Mas lógico. Quem uma vez se deixou cegar de paixões violentas, e não teve ânimo para lhes esterilizar os efeitos, cedo ou tarde tropeçará nos acerados gumes do dilema implacável, que oferece de um lado a ignomínia da forca, e do outro a covardia do suicídio.

Assim, em guisa de sermão de abade das dúzias, termina a lengalenga.

Porque Fedro, Esopo e La Fontaine terminavam pela moralidade.

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