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7/27/2022

Marta Sandomil (Conto), de Cláudia de Campos



MARTA SANDOMIL

 

Acabava de assentar-me à secretária, disposto a continuar um romance que o meu feroz editor me obrigava a concluir, em prazo muito breve.

Sentia-me acabrunhado com esta absurda necessidade de escrever por dinheiro, deixando adivinhar pela palavra, pela forma, pelo estilo, ao primeiro imbecil, a minha doce ou amarga maneira de desejar a felicidade, de gozar a vida, de suportar a dor.

Principiei a desenhar arabescos no papel, esperando a frase sintética, que correspondesse rigorosamente ao meu pensamento, e que me não era possível encontrar nessa ocasião. Mais uma vez media a imensa distância que separa a concepção, consoante ela existe no espírito, até à sua redução a forma e vulto em palavras, quando a porta do meu escritório se abriu, dando ingresso ao visconde de Lucena, elegante e correto no seu fato à inglesa, cortado no Keil, as mãos apertadas em luvas brancas, bordadas a torçal preto, um molho de violetas na lapela do veston.

A presença deste rapaz, orgulhoso da sua nobreza de parvenu, cômico nas suas pretensões a copurchic, sempre teve o poder de distrair-me.

Quanto ao físico, Raul é um belo homem, de estatura elevada, temperamento sanguíneo, músculos de atleta, cabelos negros e ondeados, bigode farto.

Desde que travamos relações, há bastantes anos, no colégio, onde ambos fizemos os primeiros estudos, interessou-me particularmente, prevendo logo as disposições naturais, que faziam dele, mais tarde, um snob de primeira ordem.

Quando o pai, já enriquecido, traspassou a importante fábrica de sabão, e comprou, em duas vidas, o título de visconde, uma ingênua expressão de vaidade transpareceu no rosto do filho, que principiou a dar de mão aos burgueses, como desdenhosamente chamava aos seus antigos companheiros, e a arranjar apresentações na primeira sociedade, imitando os hábitos, os gestos, os gostos da aristocracia autêntica.

E o seu luxo, elegância, maneiras fiel e pacientemente copiadas desse meio, chegavam a iludir — a distância. Um dos espetáculos mais curiosos que conheço é este gênero de metamorfoses.

Mas o que principalmente me atraía para ele, era a sinceridade absoluta no ridículo, e um certo ar pretensioso de erguer a cabeça, baixando as pálpebras, enquanto a boca falava, sorrindo, na evidente satisfação das próprias palavras.

— Afinal, és feliz na tua vida solitária, Gastão, disse-me Raul, sentando-se em uma poltrona; estás livre destas corvées que nos infligem... Vê tu, ontem à noite, baile na Embaixada de Espanha; hoje grande jantar, para festejar o aniversário da filha, no palácio do duque de... (aqui proferiu um dos nomes da mais alta nobreza); amanhã concerto no palacete dos condes de D...; no dia seguinte sauterie em casa da baronesa V..., uma belga muito pálida, de cabelos cor de vinho do Reno, que toca Chopin toda vestida de branco, com uma pontinha de tosse e uma pose lânguida, a fazer acreditar na realidade de uma tísica, que não existe... É de um homem ficar extenuado!

E tudo isto foi dito com um ar de aborrecimento, verdadeiramente irresistível.

— Mas se isso te incomoda, para que aceitas tantos convites? atrevi-me a observar-lhe.

— Impossível! Quando se vive em uma certa roda, contraem-se compromissos a que se não pode faltar... Imagina o que sucederia, se eu não comparecesse esta noite no jantar do duque...

Raul foi extraordinário de fatuidade nesta última frase. A inflexão fazia-nos temer um dilúvio universal, ou uma segunda guerra de Tróia, se o seu nome não fosse apregoado dali a pouco, pela boca de um criado de vistosa libré e gestos automáticos, nas vastas salas do alto personagem.

— Mas deixemos o assunto, para ti sem interesse, e falemos do que aqui me trouxe, continuou ele, esboçando um sorriso levemente irônico, como quem diz: Estas coisas só te podem fazer crescer água na boca, pobre diabo ignorante dos requintes do high-life, condenado a rabiscar em umas folhas de papel, pensamentos a que ninguém liga importância.

“Marta Sandomil gosta imenso dos teus livros, e sabendo que somos amigos (esta palavra foi pronunciada em um tom de proteção, que me seduziu), pediu-me para apresentar-te em sua casa.

“Não arranjes pretexto para uma recusa; põe em ordem essa papelada, que não perde em esperar mais um dia, e vem daí comigo.

— Estou à tua disposição, respondi sem hesitar, contente por ter ensejo de travar relações com esta senhora, que apenas conhecia de vista.

Não podia ignorar uma coisa sabida de toda a gente: que Raul era seu amante. E esse incompreensível amor de uma mulher inteligente, bonita, rica e livre, por um tal homem, despertava-me curiosidade. 

*** 

Quando chegamos a casa de Marta, o criado que nos veio abrir a porta disse-nos que ela recebia nesse momento a visita das senhoras Melos.

— As Melos! dois mostrengos, que horror! exclamou Raul contrariado; esperaremos no boudoir.

E, enfiando o braço no meu, seguiu familiarmente pelo corredor, fazendo-me entrar em uma sala, cuja porta fechou.

Enquanto ele me falava, eternamente preocupado da sua pessoa, temendo a possibilidade de o alfaiate lhe não mandar a casaca às quatro horas em ponto, eu examinava minuciosamente, com o prazer que sempre tive de participar da vida de uma alma, tudo quanto me rodeava.

A luz, filtrada pelos stores de seda azul-pálido, envolvia o aposento em uma suave claridade.

Os móveis estavam dispostos ao acaso, sem simetria, mesmo sem qualquer desordem estudada, como se um furacão os houvesse arremessado para ali, de encontro uns aos outros.

Tropeçava-se em livros, esbarrava-se em pilhas de almofadas e de bibelots de todos os feitios.

Para o observador atento, habituado a ler um mundo de coisas em um gesto, em um olhar, na disposição de um objeto, esta sala punha, por assim dizer, a descoberto, a complexa psicologia da mulher que a habitava.

Ao lado de uma chaise longue de pelúcia cor-de-rosa, erguia-se o vulto marmóreo da Vaga, abrindo no espaço, como duas asas de neve, os seus braços de deusa, enquanto os pés lhe ficavam presos na onda, como o símbolo das irrealizáveis aspirações, dos sonhos impossíveis daqueles que, fatalmente acorrentados à terra, sentem a cabeça roçar pelas estrelas.

As obras de Aristóteles, Kant, Spencer, Darwin, Büchner, Ribot, Montegazza e Hartmann, caídas no tapete, ou dispersas sobre as cadeiras, não indicavam o amor da ciência, mas a curiosidade de tudo saber...

Uma bela gravura colocada em frente do divan, representando Eva no Paraíso, sorrindo voluptuosamente ao aproximar dos lábios o pomo cobiçado, não seria o próprio retrato de Marta, saboreando com delícia o fruto proibido e o prazer íntimo da desobediência?

Sobre um guéridon de laca, entre uma jarra japonesa e um ramo de flores murchas — homenagem talvez de um admirador obscuro —, sobrepunham-se dois livros: Pensamentos, de Pascal, e a Vida de Jesus, de Renan.

Singular aproximação de ateísmo e fé!

A obra do fervente jansenista, possesso do mais intolerável catolicismo, devia arrastar essa mulher, dotada de uma sensibilidade mórbida, ao infinito terror, evocado pela visão de um Inferno crepitante de chamas, povoado de medonhos suplícios; ou à infinita esperança, na concepção mística de um Paraíso constelado de serafins e povoado de inefáveis delícias. Depois, levada pela magia do estilo e o poder do claro raciocínio do delicado e ímpio autor das Origens do Cristianismo, como ela devia estremecer de agonia perante o desmoronar de todas as crenças, entrando de novo na Dúvida, triste como uma noite sem astros...

E atestando ainda esse misto de superioridade intelectual e garridice mundana, que eu notara logo ao primeiro exame, viam-se sobre uma mesa antiga os últimos romances de Queirós, Zola, Bourget, Maizeroy, Maupassant e outros, confundidos com um grande número de fotografias de cantoras, tenores, dançarinas, escritoras, literatos, princesas e atrizes em voga.

A entrada de Marta, neste momento, veio interromper as minhas observações.

— Satisfazendo o seu desejo, minha senhora, apresento-lhe o meu amigo Gastão Ariel, disse Raul.

— Agradeço-lhe imenso ter acedido tão amavelmente ao meu pedido, respondeu ela, enquanto eu me inclinava respeitoso. Vou ser compensada do tempo perdido a escutar as duas senhoras que daqui saíram, e que me vi forçada a receber, pelo imperdoável esquecimento de não avisar o criado que só estaria em casa para os senhores.

Enquanto ela falava, examinava-lhe eu a natural distinção do porte, os olhos negros, alternadamente maliciosos e melancólicos, o estremecimento dos lábios, a palpitação das narinas, que imprimiam à fisionomia uma extraordinária mobilidade, denunciando a mulher apaixonada e fantasista.

Marta é alta e delgada; a toilette que vestia, de pelúcia creme, muito justa e singela, ia-lhe deliciosamente.

Os cabelos pretos, atados negligentemente sobre a nuca, muito anelados na testa, caindo-lhe em desordem até às sobrancelhas bem desenhadas, davam-lhe uma aparência juvenil, que decerto não obteria com um penteado correto, produto das mãos de um cabeleireiro.

Em resumo, uma mulher mais capitosa do que bonita, que será possível aborrecer um dia, que não temos a certeza de amar apaixonadamente durante muito tempo, mas que se deseja logo, à primeira vista.

E ela bem o sabia.

As doces inocências, filhas de um espírito ignorante, deviam ter há muito desferido o voo para o infinito, levando presas nas suas asas de ouro todos os sonhos ingênuos; contudo, no fundo desse coração agitado pelo tumultuoso mar de muitas paixões, quase embotado pela satisfação de muitas curiosidades, adivinhava-se ainda uma nesga de céu azul — do límpido céu de outrora.

— Mas não faz ideia, continuou Marta, sentando-se em um fauteuil e dirigindo-se a mim, não faz ideia até que ponto essas senhoras irritaram os meus pobres nervos!... O assunto por elas escolhido para me atormentarem foi a apreciação do Hamlet, que tinham ido ver representar na véspera.

“Nesse príncipe dinamarquês, que seguimos ansiosamente através do seu labirinto de pensamentos trágicos, de dolorosas incertezas, elas viram apenas um cretino, bom para meter em um hospital de doidos, sem compreenderem que todos nós temos estremecido de terrível perplexidade perante o eterno problema: ser ou não ser... Que todos temos conhecido as decepções da esplanada de Elsenor, e avistado, como ele, o trágico e miserável reverso desta pomposa farsa da existência, no relâmpago de uma desilusão aterradora!... Na genial produção de Shakespeare, exuberante de ardente sensibilidade e de torrentes de eloquência que fazem estremecer a alma, só encontraram uma série de disparates, que o público, afirmaram elas, decerto por indulgência não pateou...

“É horrível isto! Sinto em mim um desespero inexprimível quando ouço assim falar dos poetas que venero, das obras que admiro, das ideias que me são queridas... Por pouco me não escapou a frase de Flaubert, quando uma pretensiosa lhe falou, sem o devido respeito, de Renan. E o Sol não se apaga, as flores não murcham ouvindo estas coisas! Do céu não cai um raio que as fulmine, a terra não se abre para as engolir, o mundo continua na sua infatigável rotação através dos espaços, deixando vegetar em paz estes dois cúmulos!...

“Foi decerto em uma hora de amarga ironia que Rivarol fez a apologia da mulher estúpida; a sua paixão por Manette não passa de uma fábula, porque a vida seria suportável, se não fossem os idiotas...

— Para algumas pessoas, é verdade, respondi; mas não sabe vossa excelência que outras existem, para quem a vida não teria encantos sem a colaboração dos tolos? Há uma certa raça de homens, e homens superiores, que, como Rivarol, fazem consistir na imbecilidade da mulher um dos maiores atrativos da existência humana... Por inexplicáveis que se nos afigurem estas predileções, é incontestável que existem...

E enquanto lhe dizia isto, pensava que a ligação dela com o visconde era ainda mais inexplicável, e perguntava a mim mesmo que força a arrastara, que embriaguez a invadira, que vertigem a lançara nos braços daquele homem...

— Os poetas a maior parte das vezes são uns doidos, observou Raul, não sabem o que dizem nem o que desejam; não há nada mais delicioso sobre a Terra do que uma mulher bonita e inteligente (nisto relanceou um olhar demorado em Marta, que baixou os olhos); é necessário, porém, que não tenha pretensões a erudita, resvalando no pedantismo, mil vezes mais intolerável do que as desopilantes inépcias das outras...

A que duque ou a que príncipe teria ele ouvido esta apreciação?

Porque, no seu horror pelo plebeísmo, desde que fazia parte da nobreza, Raul nunca mais se permitiu arriscar uma opinião, que não fosse previamente emitida pela boca de um fidalgo de sangue azul.

Levantando-se em seguida, consultou o relógio e pediu licença a Marta para colher uma das pequeninas rosas brancas que pendiam de uma jarra de cristal da Boêmia, colocada sobre uma elegante secretária Luís XV.

— As minhas flores estão à sua disposição, visconde, disse ela, sorrindo, e acrescentou, acompanhando-o ao lado oposto da sala, onde estava o pequeno móvel: Se me permite, eu própria lhas colocarei na boutonnière?

E Marta, tirando-lhe da lapela as violetas quase murchas, tomou entre os dedos brancos e esguios uma rosa que entrelaçou com algumas folhas, pregando-a cuidadosamente no peito de Raul.

Ao vê-los assim juntos, ele forte, robusto, de uma beleza acentuadamente viril, os lábios sensuais, os cabelos fartos, descobrindo uma testa pequena onde nunca brilhara a chama de um pensamento, e ela tão fina e delicada, tão graciosa e sugestiva, de uma superioridade moral tão evidente, um fisiologista, embora pouco experiente, compreenderia como eu, naquele momento, as causas, de ordem puramente física, que determinaram esta ligação... 

*** 

Raul retirou-se.

Marta, pedindo-me para prolongar a minha visita, ofereceu-me um lugar ao seu lado, no sofá, e principiou a elogiar os meus romances, falando em seguida sobre literatura e belas-artes, com um fino e raro critério, que me admirou.

A despeito da sua aparente frivolidade, era evidente que lera e pensara muito.

Depois de um breve silêncio, corando ligeiramente, com alguma hesitação na voz, disse-me:

— Vou fazer-lhe simultaneamente uma confidência e um pedido... Desde muito que a minha grande ambição se resume em possuir a amizade desinteressada de um homem inteligente e leal... Amigas, não... Há sempre na mulher o quer que seja de vago... de indeciso... O que ambiciono é uma proteção viril, uma delicada afeição de irmão, um braço forte onde me ampare, um coração sincero e indulgente onde possa esconder todas as minhas lágrimas, todos os meus sorrisos, todos os meus prazeres e todas as minhas dores...

“Confiar a uma criatura nobre e generosa os mais recônditos sofrimentos que nos torturam, sem omitir coisa alguma, sem encobrir a verdade sob o doirado manto da mentira, que ventura, até agora para mim desconhecida!...

“Desde muito que penso em si; os seus livros, vibrantes de sensibilidade, encantaram-me. Que grande deve ser a alma para assim sentir, e a inteligência para assim conceber!...

Depois, mais baixo, quase suplicante:

— Quer ser esse amigo por mim sonhado, esse irmão dileto, sem desejos egoístas, sem absurda vaidade, sem tolas susceptibilidades de amor-próprio?

Perturbado pela estranha sedução que emanava de toda ela, lisonjeado por tantas frases amáveis — quem o não estaria no meu lugar? — aceitei, sem objeção, o papel que me era oferecido com tanta gentileza e sinceridade — se todavia a mulher pode possuir esse sentimento, quando faz a um homem tal proposta.

Mas embora devesse mais tarde arrepender-me, embora ela quisesse arrastar-me, com a inexplicável crueldade do seu sexo, para um labirinto mais emaranhado que o de Creta, a entrada, eflorescente de flores, exalava aromas tão enervantes, a imaginação fantasiava oásis tão belos, que me faltava a coragem para recusar, mesmo tendo a certeza de me estar reservada a sorte de Ícaro...

Agradecendo-me com efusão e abandonando uma das suas mãos nas minhas, como prova de delicada confiança — ou de perversa coquetterie, quem sabe? —, continuou, parecendo seguir o fio de uma ideia abstrata:

— Sou, decerto, o mais miserável depósito de matérias heterogêneas que tem existido... A Quimera fabulosa devia ser um animal de simples composição, comparado comigo... Sofro por futilidades que fazem rir os outros... Ambiciono coisas em que ninguém pensa... Não me compreendo bem!... Há em mim o quer que seja de obscuro, que me força a praticar atos reprovados pela minha consciência... Tudo quanto faço parece mais o resultado de um estado hipnótico, do que o de uma vontade livre... As mesquinhas realidades do mundo atormentam-me... A promiscuidade, a que nem sempre posso esquivar-me, martiriza-me... A hipocrisia da sociedade confunde-me... Namorada de todos os esplendores mundanos, sinto-me ao mesmo tempo atraída para o silêncio do túmulo... Detesto a vida e não sei renunciar a ela... Estorço-me na impotência tantálica do condenado mitológico... Para me subtrair a tudo isto, tento elevar-me, pelo pensamento, acima das esferas estreladas, no éter luminoso onde não chegam os miasmas da Terra, mas em vez de voltar consolada, volto abatida, cansada de devaneios inúteis, fitando sem esperança os páramos azuis, despovoados de deuses, ao passo que o spleen, a náusea da miserável condição humana me sufocam, fazendo-me exclamar por vezes, como o Santo António da Tentação: Desejava voar, nadar, ladrar, mugir, berrar, uivar, torcer o corpo, dividir-me por toda a parte, evolar-me com os perfumes, desenvolver-me como as plantas, correr como a água, vibrar como o som, brilhar como a luz, revestir todas as formas, penetrar em cada átomo, descer até ao fundo da natureza — ser a matéria!...

A tarde declinara, envolvendo os objetos em uma luz crepuscular, que a lua dissipou, coando-se através dos stores.

E a doce claridade, onde palpitavam, como vaporosas falenas, átomos prateados, beijando as estátuas, alastrando-se pelos móveis, esbatendo-se nas curvas dos cetins e das pelúcias, derramando-se sobre a massa escura das palmeiras e empalidecendo a alvura das pequeninas rosas, imprimia uma aparência fantástica a essa sala, capitosamente sugestiva.

Marta calou-se, fechando os olhos, como se quisesse fugir a uma visão importuna, enquanto duas lágrimas tremeram por um instante, desprendendo-se das pestanas compridas e recurvas, e deslizando em seguida, silenciosamente, ao longo das faces, agora sem cor.

É provável que outro rapaz, no meu lugar, procedesse de forma muito diferente.

Eu, porém, sem pensar aproveitar-me dos pequeninos artifícios, evidentemente postos em ação para me estontear, respeitei-lhe o silêncio e a fraqueza.

E contemplando-a demoradamente, senti o coração palpitar a ideia de poder dispensar-lhe a minha proteção, de penetrar nesse universo de sensações raras de que era composta a sua existência; de surpreendê-la, consolando-a, nas suas crises nervosas, nas suas terríveis prostrações; de partilhar as suas doidas alegrias e os seus irrefletidos entusiasmos...

Lastimo sinceramente o homem que nunca experimentasse, durante a mocidade, a profunda e puríssima comoção despertada por um sentimento desta ordem, e que preferisse quebrar com brutal audácia o encanto de tal momento... 

*** 

Na seguinte noite, em S. Carlos, enquanto as últimas notas do primeiro ato da Traviata morriam no espaço e a Patti acabava de atirar nas pontas dos dedos rosados, à plateia eletrizada pela sua voz de sereia, um último beijo, sublinhado pelo sorriso irônico dos seus lábios sensuais, retocados a carmim, e pela maliciosa expressão dos seus olhos de veludo, avivados a kohl, por entre o brouhaha dos bravos e das palmas, ouvi pronunciar, ao meu lado, o nome de Marta Sandomil.

Naturalmente, escutei.

Dois rapazes elegantes, que apenas conhecia de vista, conversavam com animação:

— Acho-a realmente interessante, dizia um deles, muito louro, de barba à Guise, cuidadosamente aparada, gardênia na boutonnière; agrada-me imenso e desejo fazer-lhe a corte... Apresentas-me?

— Com todo o gosto, retorquiu o outro, torcendo, com gestos de Lovelace, as guias do bigode negro e frisado.

— Parece-te que...?

— Parece-me que sim, atalhou o segundo; é uma extravagante; uma desequilibrada, uma epicurista... Uma mulher deliciosa e uma conquista que dispensa bem a diplomacia de um Metternich.

— Tem algum amante? interrogou de novo o primeiro.

— Um amante!... Santa ingenuidade! As mulheres como ela, só deixam de ter dois para terem quatro...

E voltaram-se ambos, assestando os binóculos para uma frisa.

Este diálogo produziu-me uma impressão dolorosa, como se acabasse de assistir à queda brutal de um astro...

Voltei-me e olhei na mesma direção.

Marta achava-se, efetivamente, nessa frisa; e tão elegante, com o seu vestido Império, avivado de rosas chá, um dos braços reclinado no parapeito de veludo escarlate, o leque de plumas brancas meio aberto, resguardando-a da luz crua reverberada pelos bicos de gás!

O visconde de Lucena, de pé, ao seu lado, curvando-se ligeiramente, parecia dizer-lhe alguma coisa que a interessava muito, visto que o escutava com evidente prazer.

Não parecia a mesma mulher que eu tinha visto chorar na véspera!

E, contudo, era ela, com todas as suas requintadas delicadezas de alma e coração, que ali se estava dando em espetáculo, voluptuosamente reclinada em um fauteuil, embalando-se com o ritmo monótono das frases ardentes de um homem inepto, deixando-se devorar pelo olhar lascivo de muitos admiradores egoístas, que ainda mais lhe maculariam a reputação, já poluída.

E não fugia, não sentia as faces queimadas pelo rubor da vergonha, ao ver-se impudicamente analisada por tantos olhos cobiçosos, ao sentir percorrer-lhe o corpo essa insolente maré de desejos!...

Ao ver-lhe os lábios vermelhos, entreabrindo-se em um sorriso provocante que atraía o beijo, o olhar úmido, de um brilho intenso, autorizando as mais ousadas esperanças, dir-se-ia que as admirações de que era alvo lhe agradavam e lisonjeavam extraordinariamente.

Que estranha vaidade a cegaria? Que pensamentos lhe atravessariam o cérebro nessas ocasiões? Que misteriosa sensualidade lhe faria assim vibrar os nervos?

Enigmática criatura, feita de lama e de estrelas, com todas as delicadezas de sentimento e todos os apetites da sensação!...

As palmas cessaram.

A meu lado, os dois amigos conversavam agora em voz mais baixa, trocando apreciações maliciosas.

O dos bigodes negros contava pormenores picantes, cheios de reticências equívocas, deixando adivinhar intimidades suspeitas...

Experimentei um desespero enorme contra mim mesmo, por ter tido a ridícula ingenuidade de acreditar na possibilidade de inspirar um afeto sério a essa leviana, que se entregaria, sem escrúpulo, quando a isso a instigassem os nervos, aos braços do primeiro imbecil, de olhar lânguido, flor ao peito e poses de tenor.

Senti-me mau.

Apoderou-se de mim, fitando Raul, um estúpido ciúme, essa raiva de mâle à mâle, de que fala Spinoza, e saí bruscamente do teatro, fugindo à tentação e à vertigem que me invadiam. 

*** 

Na manhã do dia imediato, recebi um bilhete de Marta, ordenando-me, com uma familiaridade adorável, que fosse sem perda de tempo a sua casa.

Hesitei um momento.

Há sempre um pouco de Dalila na natureza da mulher.

Desejaria ela enganar-me, fazendo-me representar um papel absurdo, de que se riria doidamente com algum desses homens que a requestavam, e que acharia, talvez com razão, menos tolos do que eu, ou teria realmente precisão de mim?

Esta última hipótese, auxiliada pela irresistível simpatia que ela me inspirava, decidiu-me completamente.

Fui recebido em um pequeno gabinete, mobiliado com extravagância.

Sob o dossel de brocado via-se uma ampla chaise longue, guardada por esfinges.

Nos espelhos de Veneza, que forravam as paredes, miravam-se poussahs chineses e pastorinhas de biscuit, em amável convívio com aves, tigres, e outros animais embalsamados.

Estes contrastes, porém, fundiam-se em uma harmonia de luxo e suave elegância, exalando o subtil aroma de uma feminilidade, perigosa para aquele que quisesse conservar a sua razão clara.

Se os fauteuils baixos, de braços abertos como em um êxtase, sugeriam a ideia de diálogos íntimos e hálitos confundidos, as almofadas, languidamente estendidas sobre o tapete, convidavam os joelhos a dobrar-se, na apaixonada contemplação de um ídolo...

Marta apareceu afinal, com os cabelos soltos, caindo-lhe sobre as espáduas, como um longo véu negro, vestindo um penteador de seda crua, e disse-me:

— Tomei a liberdade de escrever-lhe há pouco, por uma forma talvez indiscreta; mas visto termos celebrado um pacto de sincera amizade, julguei dispensáveis as formalidades do estilo. Não se zangou comigo? concluiu, assentando-se e indicando-me um lugar a seu lado.

— Por forma nenhuma, minha senhora.

— Então, continuou, vou explicar-lhe o motivo que me levou a incomodá-lo tão cedo, ou antes... veja se adivinha?

— Sou um mau decifrador de enigmas... Se a Esfinge de Tebas ainda existisse, vossa excelência pode crer que não me caberia a mim o privilégio de arrancar-lhe o segredo...

— É modéstia sua. O senhor é muito mais subtil do que o velho Édipo, e para nos convencermos, basta folhear um dos seus livros...

— Mesmo dada a hipótese que eu possua o poder de análise que vossa excelência gentilmente me atribui, afianço-lhe, minha senhora, que o mais hábil psicólogo não poderá nunca seguir e compreender a tempo, as estranhas fantasias que perpassam, com a rapidez das vistas de um caleidoscópio, pelo cérebro de uma mulher... e de uma mulher bonita...

— É possível... volveu ela, depois de meditar um instante. Vou então dizer-lhe... Desejava saber porque se retirou ontem do teatro tão apressadamente, sem entrar na minha frisa?...

Senti-me terrivelmente perplexo.

Como explicar-lhe, sem ofendê-la e sem faltar à verdade, as causas determinantes do meu procedimento da véspera?

A minha hesitação pareceu surpreendê-la. Calou-se fitando por instantes nos meus, os seus olhos negros e investigadores.

De súbito, com um estremecimento brusco, passando as mãos pelo rosto, como se acabasse de avistar a fauce hiante do precipício onde ia resvalando e na voragem do qual se afundariam os seus pudores de mulher, as ilusões da sua alma, as cintilações do seu espírito, exclamou, corando intensamente:

— Já sei... Não explique nada... Não procure uma mentira generosa para desculpar-se, desculpando-me... Compreendo agora!...

Depois, inconscientemente, com lágrimas na voz, continuou:

— Ambicionei o impossível!... Poderia eu nunca merecer a respeitosa dedicação de um homem como o senhor? Devia saber que essa felicidade me era vedada... Uma volúvel, uma inconsequente, como eu, pode lá nunca inspirar estas coisas?!... Contudo, não sou má... Possuo um coração acessível a todos os sentimentos nobres... Encanta-me a virtude... Compreendo todas as ideias elevadas... Que misteriosa força me obriga a cometer atos, que no íntimo reprovo?... Se não posso ser como a honesta e fria Récamier, descendo ao túmulo envolta em uma túnica sem mácula, porque não serei uma depravada sem dignidade, como essas desgraçadas que se vendem?...

“Espantoso tormento, o da consciência do Mal que se não pode evitar, amando o Bem, na impossibilidade de atingi-lo!... Dir-me-ão, talvez, que o remorso das minhas faltas é a justa punição das minhas culpas; porém, se existe o castigo, é forçoso que haja também o prêmio, e a parte boa do meu ser, esse outro eu que condena os meus desvarios e sofre dolorosamente, que recompensa lhe será dado fruir? Quem, na Terra ou no Céu, me compreenderá, me desculpará, me perdoará e me salvará?...

E tu expiraste, fazendo com o teu sacrifício desabrochar uma esperança sublime no coração da humanidade, ó doce mártir do Gólgota, para, decorridos dezenove séculos, morreres de novo e sem prestígio sob o implacável escalpelo dos filósofos, deixando-nos ainda mais desemparados sobre a Terra do que antes da tua vinda!

Agora, que voz, que eco longínquo responderão à angustiosa pergunta dessa mulher banhada em pranto, a quem a Ciência ensinou a duvidar?

Que cruz lhe abrirá os braços, como à formosa Madalena? Que luminoso paraíso lhe oferecerá um refúgio? Onde encontrará ela esse Pai que baixou do Céu, do vasto e inexorável Céu, mudo a todas as súplicas, indiferente a todas as preces, abandonando a alma — pobre Psique ferida por uma irreparável nostalgia —, na solidão dos espaços infinitos, em procura de uma fé que a salve, de uma criança que a console!

À medida que estes pensamentos se me debatiam no cérebro, sentia brotar de todo o meu ser um amor intenso e uma piedade ilimitada por essa criatura, que a natureza dotara com as disposições as mais funestas a uma mulher do seu nascimento, lançada no conflito da sociedade moderna: um coração romanesco e um temperamento apaixonado.

Faltando-me a religião divina, apoderou-se de mim, mais intensa, a religião humana.

Esqueci o passado, e sem pensar no futuro, fazendo calar o amor-próprio, o orgulho e o egoísmo naturais ao homem, ajoelhei aos seus pés, ofereci-lhe, incondicionalmente, todo o meu afeto e murmurei-lhe as frases apaixonadas que ela desejava ouvir da minha boca.

Em uma expansão de felicidade, devida talvez em parte, a satisfação da vaidade inerente ao seu sexo — não será secreta a quimera da maior parte das mulheres, por mais honestas que sejam, verem prostrados aos seus pés, loucos de amor ou ébrios de desejo, todos os homens, mesmo os que lhe são indiferentes ou que no íntimo desprezam? —, Marta agradeceu-me com um desses divinos sorrisos que despontam nos lábios da mulher, nos raros momentos em que nos é dado vê-la despretensiosa e sincera.

Pobre Marta! ou, com mais razão talvez, pobre de mim, que iria despojar-me das poucas ilusões que ainda me restavam... 

*** 

Decorreram quatro meses deliciosos na convivência íntima de Marta, que eu amei como nunca amara mulher alguma.

A posse exclusiva de uma criatura encantadora, dotada de uma alma superior, é, para o homem, uma voluptuosidade quase sobrenatural. Saber que são para ele, e só para ele, os sorrisos que lhe entreabrem a flor purpúrea dos lábios, o olhar que lhe transmite a impressão recebida pelas suas carícias; compreenderem-se e partilharem ambos os mesmos pensamentos, os mesmos desejos, a mesma sensação e o mesmo êxtase que os arranca à terra por momentos, é decerto a suprema ventura, e não conheço outra que se lhe compare.

Eu bem sei que o amor feliz não pode durar sempre. A nossa miserável condição humana não nos permite a constância em qualquer sentimento.

Mas embora ele devesse ter, como todas as coisas deste mundo, uma duração efêmera, a intensidade do prazer sentido era tal, que a impressão recebida em todas as moléculas do nosso ser vibrará nelas sem cessar até ao fim da vida.

Como Marta se ia a pouco e pouco transformando!...

A fisionomia readquirira uma expressão quase ingênua, reflexo da que devia ter possuído na adolescência, antes das primeiras iniciações feitas por um marido libertino, que a morte lhe arrebatara, um ano depois de casada.

Fechara a porta da sua casa ao visconde, que possuído do despeito cômico que caracteriza os tolos, foi consolar-se nos braços de uma francesa, toda ela cosméticos, mentiras e artifícios; uma destas mulheres, produto monstruoso das grandes cidades, que sem beleza, sem educação e sem mocidade, sabem ainda, pelo esforço de uma vontade inabalável, coadjuvado por uma consumada ciência do vício, inspirar desejos e extorquir libras.

Marta não se cansava de escutar os conselhos e as observações por mim feitas, a seu pedido.

Percebi, com um reconhecimento profundo, que todos os seus esforços convergiam a um único fim: tornar-se digna da afeição que eu lhe dedicara.

Por vezes, vendo-a sentar-se em um banco aos meus pés, cruzando sobre os meus joelhos os braços, em uma atitude tão meiga e submissa, cheguei a acreditar na veracidade do velho e estafado assunto de tantos dramas e romances: a redenção pelo amor; sem me lembrar que as causas que produziram a primeira falta, continuavam a subsistir latentes, a despeito do arrependimento e das boas resoluções.

Quando a queda de uma mulher é determinada por uma ilusão, por uma injustiça, ou pela miséria, é fácil regenerá-la; porém, quando as complexas causas que a levaram uma vez para o mal, têm a sua origem na parte mais profunda e obscura dos sentidos e dos órgãos, que amor poderá salvá-la em absoluto?

Mas no meu santo empenho em guiar-lhe o pensamento para a razão, fazendo-a compreender e amar o Bem, na posse do qual o espírito se liberta, criando em si e para si um mundo completo e transcendente, não vi logo a impossibilidade de atingir o fim a que me propunha.

Em Setembro, Marta, cuja saúde exigia nessa estação os banhos do mar, partiu, a pedido meu, para a praia de E...

Não queria separar-se de mim por tanto tempo; porém, na impossibilidade de acompanhá-la naquela ocasião, exigi-lhe esse sacrifício.

Por entre as lágrimas da despedida, ela jurou-me que a sua conduta seria de longe, como de perto, digna em tudo da minha confiança.

Escutava-a com o coração oprimido por uma tristeza invencível... O vago pressentimento de que ia perdê-la para sempre...

A ausência é a pedra de toque destas ligações; era ela que se encarregaria de dissipar as minhas dúvidas, ou de justificar os meus receios.

*** 

A princípio, Marta escrevia-me todos os dias, e essa era a única consolação para a saudade que me deixara.

Decorridas, porém, duas semanas, a correspondência principiou a afrouxar sensivelmente; apenas bilhetes rabiscados à pressa, desculpando-se com as amigas, que não a deixavam descansar com convites para passeios, picnics, e prometendo sempre para o dia seguinte uma extensa carta, que não chegava nunca.

Há pouco, duas folhas de papel não bastavam para descrever as impressões de um dia; agora, o pequeno cartão, recebido muito irregularmente, trazia margens em branco, como se fosse um imenso Saara, impossível de preencher com o seu elegante cursivo inglês.

Apoderou-se de mim uma suspeita atroz, impossível de afugentar, não obstante os argumentos formulados no intuito de a defender.

Para pôr termo a esta cruel perplexidade, resolvi partir sem preveni-la, buscando ensejo de observá-la, quando ainda me julgasse distante.

Que dolorosas desilusões, se todos os maridos e todos os amantes fizessem como eu!...

Cheguei a E... às oito da noite, entrei em um hotel, fiz à pressa a minha toilette e dirigi-me ao Clube, onde ela ia quase todas as noites “para se não tornar original, mas muito aborrecida”, segundo me dizia nas suas cartas.

Com precaução, para não ser visto senão em tempo oportuno, penetrei no corredor, aproximei-me de uma porta que encontrei aberta e relanceei os olhos pela sala de baile.

A orquestra tocava nesse momento uma valsa, os pares perpassavam enlaçados.

De súbito, entre aquele turbilhão de casacas pretas, braços nus, tules diáfanos, palpitações de fitas e cintilações de joias, ressaltou o vulto gentil de Marta, abandonando-se voluptuosamente nos braços de um rapaz muito alto e muito louro.

Que ela gostasse desta dança tão moderna, tão característica, tão sensual, não me surpreendia; é a dança predileta dos nervosos, dos frenéticos, dos que amam a vida agitada.

Mas saberia resistir às perigosas sugestões desse ritmo embriagador e às frases ardentes, balbuciadas próximo dos lábios?

A música cessou; os valsistas dispersaram.

Marta, largando o braço do seu par, sentou-se em um banco de veludo, logo rodeado por meia dúzia de elegantes, aspirando à intimidade de um diálogo, e talvez à liberdade de um rendez-vous sem testemunhas...

E ela consentia, depois do que me tinha jurado, que todos estes pensamentos, e outros porventura mais audaciosos, lhe fossem patenteados pela expressão dos olhares e pela ambiguidade dos sorrisos!

Acirrante, irrequieta, vaidosa e garrida, deixava explodir a excitabilidade do seu temperamento de histérica, em uma coquetterie diabólica, donde emanava uma fascinação perigosa para os que dela se aproximavam.

Era assim que seguia os meus conselhos, mistificando-me, calcando aos pés o nobre afecto que lhe dedicara e que poderia ter sido a reabilitação dos seus passados desvarios!

Recordei-me da noite da Traviata e das apreciações que então ouvira a seu respeito.

Os que assim falavam não mentiam...

Senti na alma uma dor lancinante, pela decepção brutal que acabava de receber, e por vê-la despenhar-se de novo no abismo, donde generosamente tentara arrancá-la.

Tornou-se-me insuportável aquele espetáculo; com a vista turva, afastei-me desse lugar, atravessei ao acaso dois ou três gabinetes, onde por felicidade não encontrei ninguém, e fui dar a um vasto terraço, deitando sobre o mar.

Ali, deixei-me cair sobre um banco de pedra, sombreado por uma enorme palmeira; sentindo-me, pela primeira vez na minha vida, sem coragem para reagir contra o mortal desalento que me invadia, escondi o rosto nas mãos, e chorei o pranto mais amargo de que tenho memória...

Um ligeiro sussurro e um frou-frou de sedas obrigaram-me a voltar a cabeça.

Uma senhora nova, em cabelo, com uma peliça branca sobre os ombros, acabava de entrar no terraço pelo braço de um rapaz alto.

Ao aproximarem-se, reconheci Marta e o seu louro valsista.

Assim o acaso, tão fértil em aventuras inesperadas, encarregava-se agora de mostrar-me o desenlace do episódio há pouco presenciado.

Passaram quase ao meu lado, sem repararem em mim, e foram encostar-se à pequena muralha que cercava aquele recinto.

Ele falava-lhe em voz baixa, com animação; ela escutava-o abstrata, com os olhos fitos no mar, que a lua bordava de palhetas luminosas, perdida no intangível e misterioso país dos seus sonhos, onde devia haver flores tão perfumadas como as rosas e as violetas, e plantas tão venenosas como a mancenilha e a árvore Upas.

Pouco a pouco, como se as brisas salgadas do oceano e o perfume forte da mata, sofregamente aspirados pelas narinas palpitantes e dilatadas, a fossem embriagando lentamente, cerrou as pálpebras e deixou pender a cabeça no ombro do seu companheiro, que a enlaçou, beijando-a com delírio.

Senti fugir-me a razão; perpassaram diante dos meus olhos visões sanguinárias; levantei-me de um pulo e encaminhei-me para eles com o desejo bestial de matá-los, a ela sobretudo, mais tentadora e pérfida do que a serpente bíblica.

Felizmente, a excitação deste momento, em que o instinto animal, aguçado até à ferocidade, me fizera esquecer a minha educação e os deveres impostos pela sociedade, abrandou um pouco, suavizada pelo dó que me inspiraram a palidez cadavérica e o grito angustioso de Marta, quando, ao desprender a boca desse longo beijo, me viu ao pé de si, como a consciência viva da sua vergonha.

Sem dizer-lhe coisa alguma, fugi dali desvairado, cambaleando como um ébrio.

Divaguei ao acaso pelas ruas, abismado em um caos de pensamentos insensatos, abalado por um mundo de sensações contraditórias, incapaz de formular uma ideia, de tomar uma resolução.

Recolhi ao hotel de madrugada.

Ao entrar no meu quarto, o criado disse-me que me esperava uma senhora.

Abri a porta e deparei com Marta.

Assim que me viu, levantou-se, dirigiu-se a mim vacilante, com os olhos vermelhos de lágrimas recentes, e exclamou:

— Gastão, perdoa-me ou castiga-me, mas não me desprezes nem me acuses... Tudo quanto possas dizer, já o disse a mim mesma... Se soubesses o espantoso sofrimento que me tortura!... Como pude fazer o que fiz, possuindo o teu amor, a maior, a única ventura da minha vida!... Que bom seria morrer já, para acabar com estas estranhas aberrações, estas tentações que me alucinam e perdem... Gastão, tem piedade!... Não vás abandonar-me... Salva-me de mim própria... E aproximou-se mais, tentando pegar-me nas mãos.

Este apelo, feito à minha generosidade, não encontrou eco no meu coração, porque entre nós interpôs-se a visão física da carícia de há pouco.

Recuei, dizendo-lhe:

— É inútil, Marta; entre nós está tudo acabado...

— Tudo acabado?!... Não, não, não é possível... Não quero!... Tu hás de perdoar-me... Serei tua escrava... Serei o que tu quiseres... Mas não me abandones... Nem um instante deixei de amar-te... Não sei viver sem o teu amor!...

E Marta caiu de joelhos, soluçante, rojando-se aos meus pés, agarrando-se ao meu fato.

Aquela dor, tocando as raias da loucura, comovia-me, mas o ciúme continuava a cegar-me, tornando-me feroz.

Afastei-a de mim com violência, gritando-lhe:

— Não! mil vezes não! O outro, com quem me enganaste, em cujos braços estarias a estas horas, se eu não tivesse aparecido, que te console... Que te proteja... Dilaceraste-me a alma nos espinhos das tuas falsidades, mentindo-me nas tuas cartas, como me mentirias ainda, se eu não visse! Não te quero!... Partirei, levando intacta a minha dignidade, antes de tu a manchares no lodo em que te afundas e para onde tentas arrastar-me...

— É a tua última decisão? perguntou, fazendo-se lívida.

— Sim!

— Ah! murmurou ela, presa de um estremecimento convulsivo, estendendo os braços e fitando no espaço os olhos, desmedidamente dilatados, como se acabasse de ver surgir um pavoroso espectro, que viesse buscá-la para algum inferno desconhecido, com suplícios mais tenebrosos que os do Dante. Em seguida, soltando um gemido rouco, como o estertor de um moribundo, caiu sem sentidos sobre o tapete.

Por um impulso de caridade, tomei-a nos braços e deitei-a no sofá.

Nesse instante, o sino de uma igreja próxima batia três horas — três badaladas, dolorosamente repercutidas no meu coração, como um dobre fúnebre pela pobre alma ali agonizante...

Meu Deus! que miséria a desta criatura, sem coragem para suportar o meu desprezo e sem forças para se tornar digna do meu amor!... Que luta titânica entre o bem e o mal, acabando talvez por despedaçar esse corpo franzino! Que sede de puras comoções e de degradantes sensualidades! Que Céu e que Inferno!...

E como estava idealmente bonita, assim deitada, os cabelos em desalinho, o rosto de uma palidez doentia, os braços e o colo descobertos, as flores do corpete murchas e soltas, matizando de pétalas rosadas a seda branca do vestido de baile!

Impelido por uma misteriosa atração, debrucei-me para vê-la melhor.

Como se a requintada nevrose do seu sentir lhe houvesse transmitido, apesar desse aparente letargo, a impressão que me dominava naquele instante, quebrando-me a energia, um sorriso inefável dourou-lhe de súbito a fisionomia; estendeu as mãos, sem descerrar as pálpebras, encontrou a minha cabeça, enlaçou-a nos braços e estreitou-a docemente contra o seio.

A inesperada sensação em mim despertada ao contato da sua pele fresca, da sua carne palpitante, fez-me pulsar com força as artérias e correr no sangue uma chama quente como metal fundido, avivando-me a recordação — impossível de apagar por completo no espírito daqueles que uma vez a tivessem conhecido — das suas estranhas e enervantes carícias, onde havia instintivos pudores de virgem e insensatos ardores de cortesã.

Apoderou-se de mim a paixão física, obscura, desordenada, com uma intensidade brutal, como até então nunca tinha experimentado.

Chamei em meu auxílio a dignidade, o bom senso, o raciocínio...

Apelo inútil!

A febre vertiginosa e abrasadora do desejo empolgou-me com tal violência, que me paralisou a razão, violentando-me a sucumbir...

Triste e humilhante verdade, que o ciúme, ideia de que outros cobiçam o que nós possuímos, e até o conhecimento da própria infâmia, em vez de serem para o homem motivos de afastamento, compaixão ou nojo, se transformem em novos agentes da paixão que o devora... 

*** 

A manhã rompia alegremente, enchendo de uma claridade suave o aposento, quando Marta acordou do seu torpor, na plena consciência do que se passara na véspera, e ergueu para mim, timidamente, os seus belos olhos suplicantes, que cobri de beijos, concedendo-lhes não só o perdão que imploravam, como pedindo-lho também para a minha injustiça e para a minha fraqueza.

Compreender é perdoar, como disse a Staël.

E eu acabava não só de compreender que há na natureza humana instintos a que é impossível opor por muito tempo os estreitos diques do dever, e encerrar para sempre nos acanhados limites do convencionalismo, como também de sentir a impossibilidade de lutar contra uma tentação obcecante.

Se há em todos nós duas partes distintas, uma superior, que emana da alma e nos faz amar a virtude e o bem, a outra inferior, que emana do animal e nos obriga a praticar os atos mais repulsivos, como exigir de uma mulher, enfraquecida por hereditariedades mórbidas, produto híbrido de uma civilização decadente, cuja vida psíquica é constantemente perturbada pelas crises da sua vida fisiológica, o equilíbrio que deverá corrigir a obra da natureza, quando nenhum de nós, mesmo dos mais superiores, se pode vangloriar de possuí-lo em absoluto?

Seria mais do que desumanidade, seria estupidez ou demência.

Só um tolo, ou um malvado, por inépcia, ou por lhe faltar a santa religião da dor humana, ousaria negar o perdão e cuspir todo o seu desprezo sobre Marta Sandomil.

O punhal de Rosaura (Conto), de Álvaro do Carvalhal

 


O PUNHAL DE ROSAURA

 

I - EVERARDO

 

Já a aurora derramava o lívido crepúsculo sobre os picos piramidais das montanhas, quando, trôpego e conturbado das infectas vaporações da orgia, entrei no meu camarim.

Ao ruído do reposteiro, acusando a minha presença, Rosaura apaga, apressada, as lágrimas teimosas, e atira ao longo das espáduas os soltos cabelos de azeviche, fitando-me de rosto afogueado por um misto de contrários sentimentos.

Descansava o corpo mórbido nos coxins elásticos dum rico divã, e o estofo macio e flácido do seu amplo roupão não furtava a meus olhos nenhuma das airosas curvas, nenhum dos peregrinos contornos dum talhe, que logo recordava a voluptuária negligência da ideal formosura grega.

Mas na serena imobilidade, nos despargidos cabelos, nas roxeadas pálpebras, em algumas lágrimas que, de longe em longe, lhe tremiam nas faces como bagas cristalinas, transluziam profundamente impressas as amarguras duma arrependida Madalena.

Rosaura tinha na fisionomia simpática a perfeita manifestação da sua alma ardente. Era uma natureza extraordinária pelo complexo de elementos variados e opostos, que a constituíam. Nobre orgulho; imaginação febril, fácil em exacerbar-se na criação de impossíveis, de fantasmas e de terrores; desvairada impaciência no aspirar para o desconhecido, próprio das organizações veementemente nervosas e sensitivas; quanto há de mais doce e pudico na virgem, temperado indescritivelmente com um tanto da libidinosa soltura da pecadora: tais as qualidades, que davam relevo a esta criança original.

Nada mais selvagem no ciúme! Em cada ondulação do peito encapelavam-se tempestades; mas tempestades, que um singelo carinho meu tinha o condão de esconjurar.

Crescera sob o influxo do ardente sol da América, desse sol poderoso, que se infiltra no sangue como lepra invisível. E nisso estava, a meu ver, parte do segredo da sua organização.

Em Óbidos, em face da majestade imponente do Amazonas, se trocaram nossos suaves juramentos. E, fascinada, nunca mais se separou de mim.

Amava-me deveras! com um amor doido, insaciável e ferino.

Às vezes entrava eu, alta noite, atordoado dos báquicos prazeres, que me tresvariavam, e via-a correr para mim, ágil e elástica, como uma pantera. Mas de súbito, coberta de lágrimas quentes do desafogo, e semelhando a rola mansa, que, voluntária, acaricia a ingrata prisão, que a furta à liberdade, caía-me quebrada aos pés, como uma escrava.

Era eu então como todos os homens que chegaram ao extremo desejado do caminho, e que, entorpecidos, se deixam enfim pender no regaço morno da indiferença e da saciedade.

Sentia-me com efeito saciado. A fascinação, que exercia sobre a infeliz, era, bem o sabia eu, só comparável à que se atribui a certos répteis da América. Havia a fatalidade da desventura a aproximá-la de mim. E ela rojava em meus braços à laia do febricitante, que, incapaz de conceber mais jubilosas esperanças, anseia por se despenhar no mais fundo do abismo. Era um amor assim, indescritível, incomensurável, único.

E tanto basta para a satisfação de qualquer vaidade exigente.

Que me importava que a festa e o funeral, o luto e a gala se germanassem naquele grande sentimento, se era eu o objeto de tão extraordinária paixão?

A dureza do meu caráter, embrutecido no gozo mesquinho e sórdido, e cansado da renovação diurna de tocantes expansões, fazia-me mais desdenhoso e sarcástico; mesmo, porque mal concebia, então, que tão aguadas aflições, tão alambicados queixumes, manifestados por mil extravagantes maneiras, deixassem de ser comédia estudada, ardilosa estratégia armada à minha boa-fé.

Conhecia, é certo, conhecia a candura da pobre vítima, mesmo no marulho indistinto das suas imperiosas paixões; considerava-a incapaz dum fingimento degradante; e contudo, quando a contemplava em aflitivos lamentos, não sabia comprimir a desconfiança; sentia não sei que bárbara satisfação em lhe espremer rudemente as dolorosas chagas.

Tarde virá o dia em que eu rejeite o inveterado hábito de considerar a mulher simples objeto de luxo; arrebicado brinquedo que, nós os homens, em momentos de tédio, possamos impunemente quebrar nas mãos.

Surpreendera-a desta vez na serenidade reflexiva das suas mágoas; e nem um longe de piedade me abalou o cinismo. Até, pelo contrário, da potência dos meus desdéns tirei motivos de orgulho.

Foi por isso que, sem proferir palavra, me arrimei com enfado à enroscada moldura dum tremó. E fleumático, como um excêntrico, que vai deleitar-se no estampido de iminente borrasca, fiz voar em nuvens o fumo do meu charuto.

— Everardo! murmurou sufocada.

— Rosaura! disse eu com frieza.

Poisou-me no ombro o braço nu, límpido e perfeito, como a esmerada execução dum artista, e com o rosto anuviado de simpática melancolia exclama, imitando na voz as mais dulçorosas harmonias musicais:

— Vens mal comigo, Everardo? Que frieza! Eu tenho passado a noite a pensar em ti, que decerto o não merecias... Pois nem sequer um beijo depois de tantas horas de ausência, nem a mais fácil das tuas carícias!... Sossega, filho; estou alegre, vês? Não me queixo, prometo não me queixar... E poderia fazê-lo, sendo tu sempre o meu querido Everardo? Então! não me dizes uma palavra de carinho, não me repetes que és, que serás meu, o meu Everardo?...

Encolhi os ombros.

— Criança! É pois necessário que todos os dias te repita a mesma ladainha! Incomoda-me essa dúvida em que andas sempre, Rosaura. Quanto exiges mal o saberá fazer, quem estime em alguma coisa o seu bom nome de sensato; quem, como eu, recebeu do Criador um gênio, quando não sisudo no rigor da palavra, ao menos rebelde a ridículos enlevos e a lamuriosas pieguices. Querias que passasse dias e noites, com as minhas mãos nas tuas, a escutar em seráfico enleio o ruído das florestas, o gemido dos mares, o suspirar das correntes, todos os clamores desprendidos do seio da natureza e outras belas coisas, que tu sabes, para te convencer de que continuo, de que continuarei a ser para ti o que fui no começo do nosso romance? Sou muito novo ainda para tão cedo renunciar aos atrativos com que me seduz a boa sociedade. Quero viver.

— Viver! Vida me prometias tu, quando, com astúcia de serpente, te introduzias na feliz morada de minha mãe, para com o teu bafo maculares os doces frutos da minha primavera. Perdeu-me a inocência. Caí, porque desconhecia o fogo penetrante e consumidor, que anda nas palavras duma malévola sedução. Ah! então não te julgavas ridículo, quando me desenrolavas maravilhas, que na minha descuidada existência nunca sonhara; quando de joelhos me fazias protestos loucos, impossíveis, e me apertavas ao peito, trêmulo e ardente; quando, com doces e vibrantes inflexões na voz, me pedias o que eu não sabia negar; porque a mulher, se chega a amar, cobre o rosto e dá tudo; alma, pudor, tudo. E depois chora por ter dado pouco, por não ter mais que dar...

— Verduras!

— Não o dizias nesse tempo. Eras...

— Era uma criança.

— Foi há dois anos.

— Veio precoce a velhice.

— Diz antes o aborrecimento.

— Oh! bem pelo contrário.

— Ironia! Eras criança? Criança, que sabe enganar e corromper; que sabe todas as trilhas do vício; que, sem dó, me roubou à mãe, ao irmão, à pátria para me levar numa vida de aventuras por mares, ilhas e continentes, e para me dar desdéns, quando peço esmolas, esmolas de amor! As crianças são ingênuas, Everardo.

— Eu fui uma exceção.

Doeu-lhe o escárnio, em que moldei a frase. Olhou-me com desprezo, e curvou a cabeça, disposta a pôr termo ao pungitivo diálogo. Porém a palavra "miserável” desceu-lhe surda dos lábios.

Por meu lado intentei sorrir e não pude. Estava em maré de agastamentos.

— Rosaura! gritei, impando de dignidade.

Ela saboreou pausadamente a minha indignação; e, endireitando-se, como que se resolveu a provocar sangrenta luta.

— Sou mulher, Everardo; uma rapariga indefesa, só, sem ninguém... Mas sobra-me desprezo na alma para humilhar um vilão.

Os olhos dela chamejavam.

— Que te fiz eu, Rosaura? perguntei, mais humanizado pela agressiva resolução da minha amante.

— Nada, porque só me envileceste. Amarrando-me ao carro dos teus facetos triunfos, privaste-me da estima e das considerações a que tinha direitos; privaste-me da família, que tanto me queria; condenaste-me a perpétuo abandono. Bagatelas. Que é para um homem galante a perdição duma pobre rapariga? Ai! e eu não me havia de queixar, se não fosse o cego furor com que te divertes, cobrindo-me de vergonhas! Tinha adivinhado que nos homens à curiosidade satisfeita sucede o tédio. Mas a infeliz, que tudo te sacrificou, julgava-se credora dessa afeição, que a delicadeza, ao menos, não recusa à forasteira. Nada me deixaste. Tira-me também agora a existência desflorada, e cospe, ainda em cima, nas faces do cadáver.

Nunca a tinha visto tão energicamente exaltada. Reclinei-me no divã, e tomando-a pela cintura coagi-a a sentar-se nos meus joelhos.

— Não vês que és injusta? Não vês que me magoas, Rosaura?

— Injusta! repete com riso amargo. Injusta, porque acarinho o basilisco, que me atormenta? porque cultivo a planta que há de ervar as setas do meu martírio?! Oh Everardo! se tu quisesses!... Um resto de caridade abriria à mulher que se despenhou dos braços de sua mãe nos teus braços, abrir-lhe-ia o divino sacrário das venturas do Céu! Porque me desprezas? Eu não peço muito. Apenas imploro o preço do meu opróbrio. Porque mo não dás? Vendi-me cara? Oferecesses menos, que eu não pedia nada, e nada tinha a esperar. Não contente de me conduzires a um país muito distante do meu, onde se fala um idioma, que eu ignoro, e onde não conheço ninguém; não contente de me expores nos lugares públicos, nas festas, nos teatros, nos passeios, à semelhança dum objeto raro de mera ostentação, escondes-me finalmente neste retiro, como saciado das inglórias ovações, obtidas à custa duma amante aborrecida! Esqueces que por ti, a desgraçada teve orgulho da sua vergonha, delindo-a em júbilos e sorrindo a cada novo escarro, que lhe atiravas pela boca duma sociedade, que não entende estes obscuros martírios, os martírios do amor. E deixas-me penar, nesta esterilidade de afetos, quase sempre só, só, entregue à saudade acerba da minha tranquila infância, enquanto te debates nas convulsões da crápula, nas festas dos libertinos; enquanto sacodes os cabelos, esses lustrosos cabelos, úmidos ainda do hálito mais puro do meu peito, no travesseiro das perdidas... como eu. E, porque me deixei arrastar ao lamaçal do impudor, julgas que não sustento íntimas, pungentíssimas lutas entre a dignidade e o amor? Serei injusta, Everardo?

E queimou-me a face com um beijo fervente, dando expansão aos represados soluços.

Começava a desconfiança a soprar-me aos ouvidos segredos pérfidos. E deve de saber-se que, por minha parte, de nada me arreceio tanto como das irrisões a que as ardilezas da mulher submetem o homem. Eu começava a palpar na dorida melopeia fino joguete de atriz esperta. Regelei-me pois na habitual dureza, que degenerou na grosseria duma frase torpe.

Rosaura pareceu acometida de repentina paralisia. Depois, com os olhos em brasa, e a palidez da morte no semblante, exclama em voz aguda e ligeiramente trêmula:

— Tem cautela, Everardo. Tem cautela. Não apares no rosto, transformadas em metal candente, as humildes lágrimas que te caem aos pés.

— Louvo a forma, mas censuro a ideia, disse eu com gravidade irônica.

— Tu!... censor?

— É que a imprudência e o desatino são grande falta na mulher.

— Eu é que sou imprudente?! Sou decerto; porque me rebaixo ao teu leito; porque desde o momento, em que me enxovalhei no teu prostíbulo de imundícies, fiquei sendo a ínfima das meretrizes.

Era extraordinário aquilo. A meu pesar cerrei os dentes de raiva. Contive porém os impulsos da inflamada vaidade, e redargui através dum riso deslavado:

— Sobra-me gosto e tacto para que, a despeito da tua malquerença, deixe de dar-te um conselho.

— Adivinho.

— Qual é?

— Que me exponha nas praças, e nos recantos das ruas, e na sombra dos pardieiros aos caprichos da soldadesca? que me ofereça aos teus lacaios? que...?

— Não, não é isso... por enquanto.

— Por enquanto! Então que é?

— Já leste Shakespeare?

— Não.

— Lê-o. É o conselho.

— Que queres dizer?

— Tu nasceste trágica. E pode ser que aquele grande homem te reservasse um tipo. Essa postura, esse ar, esse frenesi, esse rir nervoso... Bravo! És artista. Falta na mão, que tens levantada, o punhal de Medeia.

Ela tocava a última potência do desespero.

— Um punhal! Tu queres um punhal, Everardo?

Dizendo, tira das pregas do roupão aguda lâmina. A madeixa encrespava-se-lhe sobre o pescoço nu, como a juba duma fera irritada. E o corpo recurvara-se num conjunto de resoluta agilidade e de elegância escultural.

Eu estava mal preparado para a transformação. Recuei intimidado. Ela seguiu-me com sinistra inflexibilidade.

Tentei reprimi-la. Mas opôs prodigiosa força.

Faiscou o ferro, e embebeu-se-lhe no acetinado peito.

Num grito estridente caí de joelhos para a amparar na queda.

— Mãe! minha mãe! meu irmão! murmura, volvendo para mim os olhos vidrados de lágrimas.

— Rosaura! oh Rosaura!

Apertou-me violentamente a mão, levou-a aos lábios e espadanou-me o rosto com borbotões de sangue.

E caiu, como Vênus de alabastro, quebrada no pedestal.

*** 

Só a figura do sombrio Antônio, fiel escravo de Rosaura, alcançou evocar-me do perdido acordo. Um pensamento egoísta e fatal, o pensamento eterno da salvação, que nunca nos desampara, ainda nos mais difíceis transes, veio ocupar o primeiro lugar entre os cuidados que me atormentavam. Se o lamentoso caso se propalava, recaía naturalmente sobre mim a suspeita do atentado. Revoltei-me contra o negro.

— Escravo! Quem te chamou aqui?

Mostrou o cadáver.

Encarei-o compungido e ardendo por lhe perscrutar a intenção. Em seguida, como a mover a simpatia duma dor compartilhada, murmurei:

— Grande desgraça, amigo!

Ele sorriu com malignidade triste. Entendi-o, e saí-lhe ao encontro do pensamento.

— Sabes que podias perder-me?

— Sei.

— Mas não ousarás.

— Se ela o amava tanto!

— É por amor dela?

— Somente.

— Perdoo-te a franqueza. E até a estimo. Continuarás a merecer a confiança que a tua provada fidelidade soube captar.

O negro arrancou o punhal da ferida e parecia meditar uma ação extrema. Eu lancei os olhos para um móvel que, em caso de agressão, me podia aproveitar. Antônio porém, adivinhando o meu temor, conseguiu demonstrar que nem todas as potências humanas o fariam levantar braço inimigo contra mim. Apertei-lhe a mão com certo vil reconhecimento. E, tomando aos ombros o cadáver, fui escondê-lo a um lugar subterrâneo.

Quando voltei para lavar o sangue do tapete, já ali não estava o escravo nem o punhal.

*** 

Dias depois fiz-me de vela para Veneza.

Antes porém da partida, cumpria legar aos vermes o corpo da minha amante. Era noite. A casa estava deserta. Tomando uma luz, dirigi-me ao subterrâneo. A lembrança da soledade, que fúnebre se estendia em volta de mim, avivou em meu ânimo pavores de legenda ou de superstição. Era como se respirasse no fundo dum túmulo mortíferas exalações. Atravessei as salas como vagabundo espectro. A luz vacilava ao sopro inquieto de bafejo desconhecido, e refulgia em cores avermelhadas nas exóticas figuras das amplas tapeçarias chinesas. Os cabelos eriçavam-se na cabeça, e nas artérias ondeava o sangue em calafrios. Desci os quebrados degraus, que comunicam com o subterrâneo; desci, sentindo na cabeça o formidável martelar dos ciclopes, e no coração os característicos sinais de medrado aneurisma. Os meus passos soaram incertos no chão umedecido. A luz flamejava dúbia nos vapores duma atmosfera asfixiante. E embalde meus olhos buscaram no rosto putrefato da defunta as belas feições da minha deliciosa amante. Caiu sobre ela tênue clarão. Fascinaram-me aqueles olhos baços, vidrados, transvasando viscosos líquidos e carregados de magnética fixidez. Inteiriçado, como pálida múmia, apoiei-me contra o muro, e não sei que tempo, inconsciente, alheado, esquecido de mim, estive nessa prostração. Afinal resolvi-me. Tomei um alvião, e abri a cova. E num instante o corpo aveludado de Rosaura repousava debaixo de ásperas camadas de terra.

Da chalupa, que havia de conduzir-me ao porto vizinho, lancei a vista para os lados, em que assenta a deserta granja, meu paraíso dalguns instantes. Para além das árvores seculares, que orlam o vale, brilhava uma luz, frouxa, triste, como luz de cemitério. Era uma solitária estrela, errante nas densas neblinas da noite. Era talvez o pressago reflexo do meu destino.

Em Veneza, nas vertigens da embriaguez, nos sensuais deliramentos, em que cego me rojava para fatigar o corpo e estupeficar o espírito, buscando no cansaço o sono rebelde e o ambicionado esquecimento, lá mesmo, no fundo perturbado da consciência, lavrava o meu martírio. Lavrava de contínuo, como um cancro, sempre mais vivo e pungente, até minar e abater pelos fundamentos os desbotados castelos, com que, porventura, cuidava divertir-me a minha atemorizada fantasia.

Assim passaram três meses. E cada hora imprimia em meu rosto o selo fatídico da sua passagem. Cabelos crespos, castanhos, opulentos, converteram-se nas cãs, que vedes. Faces morenas, lisas, de seda, quiseram competir com o amarrotado pergaminho das faces desse velho que, mais venturoso do que eu, ressona aí no chão lodoso, coberto dos andrajos da pobreza.

Tinha trinta anos.

Na impotente pesquisa do esquecimento me fui afundando no vício, como se ele tivesse o condão de me salvar de mim mesmo.

Mas ainda então desconhecia estas ruidosas folias da taverna, entre tão alegres companheiros como vós sois.

Bandidos, ébrios, mendigos, ladrões! Chama-vos isso o mundo dos soberbos, que vos repulsa, e que todavia não vale mais, nem tanto. Porque, não sendo menos feroz, é mais hipócrita e mais covarde. Porque faz da impostura um paládio, da lei um manequim, da justiça um sofisma ou uma teoria. Porque se arreia com os espólios do menos forte. Porque pleiteia baixas competências com lastimosa vilania. Porque tudo, família, crenças, amigos, tudo sacrifica a impudentes vaidades e a ambiciosas conveniências. Indagai, e vereis que tais são as principais qualidades dos felizes da Terra, dos virtuosos, dos queridos da multidão, dos honrados. Sejamos então nós os apóstatas da honra. E bebamos! Escárnio à sociedade madrasta, que exclui do festim universal, como se não fora filho do homem, o pária ou o proletário! Bebei. Sou eu que pago.

Faz um ano. Era, como hoje, a última noite do Carnaval. Se quereis saber do Carnaval em Veneza, perguntai-o às crônicas ou aprendei-o nos romances. A Veneza decrépita, a Veneza escrava ainda não esqueceu as gloriosas tradições. Ainda o mistério revoluteia nas gôndolas, ainda o punhal se esconde no veludo, ainda a intriga regurgita nos salões.

Os salões, os salões! Eram o meu proscênio. Meus passos ecoavam com ufania nos marmóreos vestíbulos dos palácios. Abriam-se-me as portas com franqueza. Escutai: soam onze horas. A esta mesma hora aparecia eu no baile do conde Sebastiano Falieri. Ferviam-me no cérebro poderosos vinhos de Espanha; mas nem tanto, que me fizessem cambalear. Entranhei-me no ruidoso centro da festa. Perdi-me no brilhante torvelinho das máscaras. Por toda a parte seda coberta de luminosos recamos, veludos refulgindo em lumes diamantinos, damasco abrasado em carbúnculos. Era de olímpica riqueza a pedraria. E olímpicas eram as façanhas, que cada nome recordava. Progênie de príncipes, de doges, de cardeais, de papas, enfraquecidos rebentões de troncos vigorosos, disfarçavam ali o marasmo e o desalento íntimos. À estrela radiante das conquistas de Bonaparte não resistira o lustre de tantas famílias soberanas. E maior humiliação trouxe depois o austríaco. Mas, nos tripúdios do Carnaval, o escravo esquece as algemas, e afoga as dores na taça.

Eu deixei-me vagamundear no meio do burburinho elegante das intrigas, de amores e de ciúmes. Assistia à cena como triste comparsa, esperando, indiferente, que se esgotasse a ampulheta do meu destino.

*** 

Ouço dizer que há emanações simpáticas, que, expandindo-se, comunicam, por encanto irresistível, as almas, que estão debaixo da subtil influência. Não duvido. Porque só assim saberei explicar o toque misterioso, que me impeliu para um tentador dominó-escarlata, que, no mesmo passo, se confessou avassalado de semelhante ignorado impulso.

Era fatídico o seu porte como o meu.

Algumas expressões do estilo, monossílabos, reticências, pouco ou nada aumentaram o encantamento. A sua mão pequenina e aristocrática tremeu nas minhas mãos dentro da pele finíssima das luvas. De que procederia a comoção? Oh! que de segredos, que eflúvios santos, que celestes ambíguas confissões! Fui irrisório, poeta, desgraciado, amante.

Mas quem era o dominó-escarlata?

Homem ou mulher?

Velhice ou mocidade?

Tinha que se lhe perdia a figura como que na sombra duma nuvem de mistério.

Encarava-lhe na altiveza de ademanes, nos desafogados meneios, nos vigorosos e seguros contornos, e supunha-me em face de perigoso sedutor.

Estudava o pudico arfar do seio, o respirar doce e balsâmico, enfeitiçava-me naquelas mãos divinas, naqueles pés de criança, e supunha-me em face de peregrina divindade.

O trajo não tinha divisa, que estremasse sexo.

E, demais, que significa o trajo no caprichoso Carnaval?

Fosse como fosse, em meu cérebro entrou não sei que luminosa centelha, acenderam-se clarões de vida nova, como fogos-fátuos de cemitério.

Ao deixar os salões aceitou o meu braço; aceitou-o com voluptuosidade sombria. Eu tinha pois atingido o grau supremo de cavaliere sirvente.

Em torno a S. Marcos ditava leis a demência. E das arcadas do suntuoso edifício subia às nuvens o alarido dos eróticos sacrificadores.

Dormia o gondoleiro no fundo da movediça gôndola. Acordei-o, envolvi-me no manto e partimos.

Os remos feriram simultâneos a face das encrespadas águas do canal. E a gôndola espreguiçou-se sobre elas, como soberbo palmípede. 

*** 

O dominó-escarlata caíra em cismadora prostração. Eu, desnorteado por indizível constrangimento, não ousava romper o silêncio. Por vezes quisera subjugar a timidez, que me apoucava, e que tão bem aquilata as situações. Porém faltava-me coragem.

Afinal, em pé e com a máscara na mão, aventurei umas frases de drama arrepiado.

— Está a pensar? lhe disse eu. Deve ser assim o êxtase dos anjos, quando velam pela sorte dos mortais. Oh, feliz, mil vezes feliz aquele, que merece um tal pensamento!

— Morto, devolve em voz sumida e frouxa, como abafado suspiro.

— Invejo-o.

— Inveja um morto?

— Se o vejo acordado por um pensamento muito querido; se o vejo, ditoso Lázaro, estendido no féretro para ressuscitar nas saudades dum seio de mulher. Morto sou eu, que rodo em turbilhão de gozo fictício, só, sem afeições, sem ninguém, ambulante como cadáver galvanizado, mas sem a verdadeira vida, a vida do coração. Não morre quem deixa a saudade a refletir-lhe a imagem num espelho de lágrimas. A esse... invejo-o.

— Já amou, Everardo?

— Quem lhe disse o meu nome?!

— Li-o nas estrelas.

— Elas que lhe respondam então.

— Responderam. Mas queria ouvi-lo da sua boca, para julgar até que ponto um homem sabe mentir.

— Não minto nunca.

— Já amou?

— Já.

— Se lhe morreu nos braços a companheira da sua alma, se a sepultou em terra amassada com lágrimas, ensanguentando as mãos para lhe abrir uma cova; se, em paga de muito afeto, lhe ficou dela apenas um triste legado... pode compreender a minha dor; tem direito a repetir o que ainda agora lhe ouvi.

Senti-me empalidecer. Encarei com desconfiança no dominó-escarlata, e apalpei na algibeira a minha arma favorita.

— Compreendo, tornei, momentos depois. Não há desgraça que eu não tenha compulsado. Mas que triste legado é esse, em que me fala?

— Chamam-lhe os árabes "vingança do sangue”.

Dito isto a dama suspirou.

— Um suspiro e a morte! clamei, novamente inflamado em efêmera tentação, e seguindo no galanteio, a despeito das misteriosas palavras, que me soavam no tímpano.

— Lisonja insensata. Mau gosto sobretudo em despendê-la ao acaso.

— A formosura até nas trevas se adivinha. Não receio enganar-me. E senão... A minha máscara já a atirei ao canal.

— A minha é um fadário.

— Que importa! Rejeito a impertinência de a contrariar com súplicas. De sobra me compensa a curiosidade este magnífico espetáculo, que noutra companhia se me tornara insuportável. Este céu, estas ondas, as músicas nos iluminados pórticos, essas estátuas, que, de pé, nas ricas balaustradas das varandas, parecem contemplar-nos, fazem recordar as grandezas da soberba sultana do Adriático. E eu sinto-me germanado a esta decrepitude casquilha. É uma festa que parece um estertor de agonia. As risadas são como risadas de delírio. Aqui os infelizes têm a certeza de que não andam sós.

— E quem são os infelizes de Veneza?

— Tantas famílias soberanas abatidas...

— Vaivéns da política. Infelizes são os perseguidos do remorso e os feridos no coração.

— O amor!...

— É a morte.

— É a vida, exclamei, caindo-lhe aos pés.

A dama pôs a mão no peito com melancolia.

— Senhora, continuei com efusão; os protestos, que se fazem num momento como este, não têm significação plausível; não a conheço sequer; ignoro se será formosa ou não; mas permita-me que lhe confesse que há um destino invencível a atrair-me a seus pés.

— As suas confissões, Everardo, são labaredas.

— Que se apagam num beijo.

— Ou no fundo das águas.

— Longe vá o agouro.

— Longe vá, disse ela com solenidade.

— Somos ambos novos. O timbre da sua voz não deixa duvidar. Anda impregnado não sei de que longínquas, vagas e relembradas harmonias, que me cobre de saudade. Somos novos. Porque não havemos de gozar? Não se sente com forças para o amor?

— Para a morte.

— É fúnebre. Não ama?

— Amo.

— A quem, senhora, a quem?

— Quer que lho diga?

— Onde está o venturoso?

— Bem perto.

— Onde?

— Ao pé de mim.

Eu tinha as suas mãos nas minhas, e sobre elas a fronte. Ninguém estava pois tão perto dela.

— Deus! exclamei. Será possível!

— Juro. Tem sido um fiel amigo, um bom e leal companheiro.

— Quem, mas quem? brado com o esgar desastroso de quem viu falsados seus doirados sonhos.

Apertou com a destra como que o cabo dum estilete, escondido no seio. 

***

Os remos açoitavam, cadenciados, a cristalina superfície. E o gondoleiro entoava um canto grotesco, que enchia de demência o espaço.

A gôndola foi amarrada junto dum edifício de tão equívoca como sombria arquitetura.

Convidou-me a dama a entrar. Era esta a sua morada. Acedi.

Acedi porque me dominava fatalíssima vertigem.

Escancarou-se com estrondo a porta. Uma luz azulada apareceu, mortuária, no alto da escada. Conduzia-a um anão negro e disforme, que, depois de me fitar com ferocidade selvagem, partiu trôpego e em lorpas cabriolas, adiante de nós.

A escada era uma ruína, dum a outro extremo salpicada de lama. Das fendas escuras e dentre as pedras deslocadas brotavam algumas ervas pálidas, ou transparecia, a meio, a escama dalgum imundo réptil.

Subimos.

Silenciosos atravessamos duas extensas salas. Nem um móvel as decorava. A umidade escorria em gotas dos muros esverdeados, sobre os quais se amontoavam camadas de limos. Caminhávamos cautelosos para não resvalar nas enormes fendas do pavimento. Assim fomos até penetrar num gabinete, que, na sordidez atual, ainda recordava o passado fausto. A minha imaginação já me inscrevia entre os lívidos personagens, que figuram nas lendas.

A casa parecia tão velha como o mundo. Dir-se-ia que um selo de maldição a tornava abominável aos homens. A aranha urdia tranquila a sua teia acima das nossas cabeças; corriam desassombrados os ratos pelos frisos salientes dos muros; e a carcoma tomava a seu cuidado as tapeçarias, que, esfarrapadas, pendiam das paredes. Todavia, no teto abatido e roto ainda uma análise entendida descobrira essa magia de colorido, essa potência ornamental, que denuncia o pincel veneziano, a brilhante escola que Paulo Veroneso personifica. Alguns retratos de doges, certamente cópias de retratos atribuídos ao célebre Tintoretto, apodreciam nas velhas molduras. Para contraste e extravagância ardiam a um lado, num pequeno fogão portátil, alguns resinosos troncos, que derramavam no aposento confortativo calor. E junto dele, elegantemente postas numa mesa, estavam iguarias de aspecto e odor não menos esquisitos, que apetitosos. O cristal de Boémia casava-se às mil maravilhas com a porcelana de Sèvres. E os tríplices reflexos das velas cor-de-rosa, que ardiam no meio, cintilavam em púrpura, em ouro, em corais e rubins nos vasos perfumados de málaga, de malvasia, de porto, de vários preciosos vinhos. Sobre a mesa havia duas cobertas. A minha misteriosa indigitou-me o lugar de honra.

— Uma ceia! exclamei.

— Esperava-o, responde negligentemente, deixando-se cair em meigo requebro junto de mim, que já nesse tempo estava sentado.

Apesar duns restos de desconfiança e receio, pairou-me à flor da epiderme certo calor de satisfação. Não seria novidade no país das Desdêmonas uma paixão clandestina de nobre dama por um estrangeiro, qual eu era, mais que muito interessante por mil proverbiais aventuras.

Houve um poeta, um grande poeta, que, seduzido por descrições de viajantes, desejara observar, por si, a forma nua das belas italianas para julgar em que pé de verdade assenta a plástica perfeição, que lhes atribuem. Todas as jerarquias se prestaram ao artístico empenho. Não se viu donzela de torneada figura, que de bom grado deixasse de se expor às vistas do ditoso poeta. Apenas resguardavam o pejo, cobrindo o rosto com um fragmento de seda transparente.

Aqui se manifesta o amor do belo, a consideração pela arte, a febre das coisas indizíveis. Um povo destes adora por força as aventuras.

Que muito, pois, que em Veneza, mansão dos delírios, viesse amorosa dama, atraída pelo meu extravagante renome; viesse, ao abrigo da máscara, colher lascivas aventuras nos meus braços? Era isto por certo menos para notar-se.

Abracei-a, ardendo por lhe arrancar a máscara. Ela resistia com senhoris ademanes. Mas parecia dar-me a esperar mais lucrativa empresa.

No entretanto vai enchendo de reno os copos. Minhas faces estavam afogueadas, exprimindo as torrenciais sensualidades, que me carcomiam. Peçonha, que me oferecesse, não a repelira. Bebi.

Mas o dominó-escarlata, longe de imitar-me, quebra no pavimento o seu copo, e mede-me de alto a baixo com alegria de hiena.

Eu fiquei hirto de indecisão e terror. Adormecia-me a cabeça em rápido atordoamento, regelavam-se as extremidades e refluía-me o sangue, em cachoeiras, para o coração.

Compreendi. A taça dos festins dos Bórgias vazara-se na minha boca. 

***

A minha primeira ideia foi estrangular o basilisco. Porém o entorpecimento paralisava-me os movimentos. E a impotência em que me via, infundiu-me concentrado furor, que se descarregou numa risada, superior, na expressão a todas as ameaças e a todas as vinganças.

Há anomalias assim.

A dama fez coro com outra risada, mais selvagem e mais feroz. Era como estridor de grandes lâminas metálicas postas em vibração, que se perdia ao longe no melancólico marulho das águas e nos sussurros do Carnaval agonizante.

— Harpia dos Infernos, regouguei eu então; querias o meu dinheiro! Aí o tens.

E num extremo esforço consegui arremessar a bolsa, pela janela, ao canal.

— Sumiu-se nas águas, como o anel do doge nos desposórios do Adriático. Já vês que estou vingado.

— Não era a tua bolsa que eu buscava.

— O que era então?

— A tua vida.

— Ah, ah! Baldadas fadigas! Pedisses-ma, que eu dava-ta. Era um peso com que mal podia.

A dama fez um movimento de desgosto.

— É espantoso este entorpecimento! Mas de que te servirá a insignificância da minha vida? Pudesse eu transmitir-ta, que te não desejava outro castigo. Dás-me morte voluptuosa. Obrigado. Mas permite que, à semelhança duma luz, se me apague este resto de existência no teu rosto de demônio. Tira a máscara.

Do fundo do peito arranca o dominó-escarlata surdo gemido. Numa contração sinistra cai sobre as espáduas o capuz, e rola no chão a máscara.

Encrespavam-se-lhe os cabelos como juba de fera irritada. O corpo recurvava-se num conjunto de resoluta agilidade e de elegância escultural. E pregava em mim uns olhos baços, vidrados e carregados de magnética fixidez.

A morte não se apiedou da minha sorte. Pude ver. E não me submergi dos Infernos.

Rosaura estava ali.

Não a Rosaura, resplendente de vida e de alegrias; não a minha formosa amante. Mas lívida, petrificada, como um anjo de mausoléu.


*** 

Senti que um raio me estalava no crânio. E, fulminado, sem dar um gemido, caí com todo o peso do corpo, arrastando a mesa na queda.

Soprava fresco vento matutino, quando acordei de profunda letargia.

Lancei em torno vistas de investigação espantadiça. Estava no cemitério.

Persuadi-me de que sonhava. Mas, desenganado, ergui-me de salto do mármore, sobre o qual estivera estendido. Era um belo fragmento das pedreiras de Verona; uma campa sem lavores, rasa, original.

Sobre ela havia apenas um nome, um nome de mulher, um nome fatídico:

ROSAURA. 

*** 

Passados quinze dias, eu era isto, que vedes; era um velho. Mas um velho dissoluto e horrível. O abismo repelia-me. O suicídio zombava comigo. A morte tinha medo de mim. Maldito, como o judeu errante, reneguei pátria, família e tudo. Lancei-me aos reveses do acaso, e errei sem bússola e sem norte.

Dormente na planície, que as vizinhas alturas da Sierra Morena e as límpidas águas do Guadalquivir tornam mais aprazível, sorriu-me um dia Córdova, a cidade das belas tradições e das manolas gentis, apetitosas e ligeiras.

Aqui estou. Conheceis-me.

Bebamos, que, a par da minha história, vai findo o Carnaval.

O jogo, o vinho e as mulheres consumiram o meu patrimônio. Dos moles tapetes rolei de escantilhão para as lamas da taverna. Amparastes-me em fraternal amplexo, quando os opulentos, que se haviam deleitado no fruto temporão das minhas tolas prodigalidades, me voltavam as costas. Ainda bem! Tisnada a carne ao fogo das grosseiras sensações, desafio os sentimentos patéticos. Obrigado, amigos! Sou quase feliz. Quando não bebo ou fumo, durmo com a direita no copo e a esquerda num seio de andaluza; dessas que têm na fisionomia a seráfica candura das virgens cristãs e no corpo a corrupção mais aviltante e asquerosa. E inebrio-me de fazer espadanar sobre as nuas espáduas o vinho das tavernas, espirrado dos beiços, que a luxúria crestou.

Murmure embora a feroz virtude dos santões hipócritas. Se são melhores do que eu, é que não sofreram tanto.

Eia, amigos! Largas ao cinismo da desgraça! Quebre-se nas lajes enlameadas este invólucro de barro sangrento, e solte-se isto, que a presunçosa teologia chama alma, nas exalações do vale-de-penas, e nos estrépitos das seguidilhas e das cantilenas báquicas.

A transbordar os copos. Bem! Bebamos à memória da minha pobre Rosaura!

 

II - LORENZO DEL GIOCONDO 

Tinem os copos uns de encontro aos outros.

Mas eis que das sombras surge mais um sacerdote.

Tem a máscara no rosto, através da qual cintilam uns olhos como duas estrelas fixas. O corpo desaparece totalmente nas amplas dobras dum dominó-escarlata.

— Um copo para mim! exclama em castelhano bárbaro com acentuação toscana, estendendo a mão para a mesa da orgia.

Everardo cambaleia. Os outros estremecem.

— Tens medo, Everardo? brada o fantasma com voz e gestos de masculino desafio. És tão poltrão como...

— Como paciente, creio que ias dizer, acode envergonhado de si o audacioso Everardo, dissipada a primeira impressão de terror. Porque me vês exaltado de funestas preocupações, enganas-te, se me supões crédulo, à semelhança dum religioso fanático, a ponto de te acolher como alma do outro mundo ou coisa assim horrenda. Guarda a presunção para os solitários castelos de Ana de Radcliffe, e deixa em paz a taverna. Bebe e retira-te; ou fica, se quiseres, contanto que nos não enfades com cenas de irrisões.

— Trago-te notícias de Rosaura.

— Guarda-as.

— Cedo te esqueceste.

— Apaga-se a memória como secam as lágrimas.

— E os remorsos?

— Que te importa? Os remorsos, quando não trazem em si os gérmenes venenosos da loucura ou da monomania, tomam mais resvaladio o pendor do abismo. Também se apagam. Mas enfim, que buscas aqui?

— Pouco.

— Que procuras?

— “A vingança do sangue.”

— Bravo! O local, minha bela trágica, é baixo de mais para o teu coturno. É isso ao que o espirituoso Janin chama truc, em estilo de folhetim.

— Empalideces quando motejas?

— Eu?... pálido!

— Como um covarde.

Everardo quis rir, mas só se ouviu uma espécie de rugido gutural.

O fantasma continua:

— Acautela-te, Everardo. Vou dar-te um conselho. Há quem se ocupe de ti. Há quem te conte as horas, os instantes de vida. Rosaura tinha uma família, e dessa família surgiu um vingador. Stefano era um florentino de raça muito ilustre, que, expatriado por obscuras perseguições de política, criou na América uma família. Lorenzo, o seu primeiro filho, apenas lho permitiu a idade, cedeu a instâncias dos tios paternos, que o chamavam de Florença. E aí seguiu a irresistível tendência do seu espírito. Dedicou-se à pintura. No entretanto Rosaura consolava os pais, da ausência de seu irmão. Estavam ainda quentes as cinzas de Stefano quando tu, Everardo, postergando todas as leis de honra e decoro, atraiçoaste quem tanto te queria; mataste a mãe, porque lhe roubaste a filha. É a acusação. Seguir-se-á a sentença. Lorenzo correra ao chamamento da mãe moribunda, e vira-a morrer, embalada na doce esperança duma vingança sem limites. Lorenzo jurara. O juramento, que fez, ninguém o ouviu. Mas devemos crer que projetou vingança de negro, selvagem, terrível. Acautela-te, Everardo.

— Mas quem és tu?

O dominó-escarlata inclinou-se gentilmente, e desafivelou a máscara.

— Rosaura! exclama Everardo, aniquilado pela evidência do que para a sua razão era ainda contestável.

Os espectadores iam caindo na beatífica estupefação do idiotismo.

— Dizem que com efeito me parecia infinitamente com minha irmã. A todos maravilhava a semelhança.

Dizendo, debaixo daquela forma feminil, deixou perceber, em fogoso movimento, toda a flexível elasticidade de ágil e forte compleição.

— Lorenzo del Giocondo! Oh, graças, que respiro! brada Everardo numa efusão de alegria indescritível.

— Sou eu, torna o suposto fantasma, inteiramente desembaraçado do dominó, e patenteando toda a galhardia de mancebo.

A multidão agita-se sobressaltada e curiosa.

— Guapo! Digno irmão da minha chorada amante! Senhor Lorenzo del Giocondo, beso a usted los pies!

— Cai sobre ti o motejo.

— Embora. Uma pergunta, se me permite...

— Ao pé do altar nada se recusa à vítima.

— Pois sim. Mas não roubemos às tragédias o que é das tragédias. Quisera saber a razão por que, tendo-me, em Veneza a seu arbítrio...

— De que me serviria uma miserável existência? Era-me precisa primeiro a tua honra, o teu sossego, a tua riqueza toda. Era-me preciso primeiro fazer-te cair uma a uma as flores da mocidade; envenenar-te os alimentos e as bebidas; povoar-te as noites de espectros, e de vergonhas os dias. Era-me preciso primeiro sulcar-te de rugas as faces, coroar-te de cãs, vestir-te de andrajos e apontar-te como possesso do vício às turbas enojadas. A todo o tempo podia o estilete compadecido procurar-te o coração e mandar-te ao diabo de presente.

Everardo desprendeu da lôbrega garganta uma risada de Mefistófeles.

Lorenzo tinha na mão um punhal.

— Graças à lealdade de Antônio, diz ele, aqui está o punhal de Rosaura. Conhecê-lo?

Everardo recua num gesto de profunda repugnância.

— Cuidado, mancebo; cuidado, que o não trespasse o pérfido punhal. Instrumentos desses são maus para brinquedo de imberbes. Volte a Florença, meu formoso bambino, e nutra-se das lácteas tetas da Madona, se quer um dia tomar parte nas arriscadas empresas de faca e trabuco. Entre nós não acha Heliogábalos, que aceitem favoritos mimosos.

E riu de novo.

Lorenzo encolhe os ombros, desdenhando as torpes facécias do adversário. Contentou-se com atirar-lhe placidamente à cara as fezes, que estavam num copo.

Seguiu-se a mudez indefinida, que nos lances decisivos nasce de angustiosa expectativa.

Everardo contraiu-se em espasmo colérico. Contraiu-se como a fera, que mede salto sobre a rês. E pôs-se em pé hediondo e terrível.

— Pelos fígados de Satanás! pragueja, arrancando do roçado dorman uma navalha sevilhana. Desconfio que vou tirar a virgindade à minha boa lâmina. Agora vereis como a meto pelas goelas dentro a este imbecil impertinente.

A avinhada turba escancarou as bocas num riso de medonha aprovação. Alguns porém, menos endurecidos, tentaram obstar ao duelo. Everardo levanta a navalha à altura da cabeça em concentrado frenesi. Todos se arredam confundidos. Só Lorenzo, imóvel, com o riso nos lábios, parece disposto a um jogo de galanteios.

Vibra Everardo pronto o golpe, faísca o ferro como relâmpago...

Mas Lorenzo, numa evolução imprevista, furta o corpo, e com murro de atleta derruba o enorme lampião, que esclarece a cena.

Trevas densíssimas. E nas trevas um duelo de morte!


***

 

A mina tem sido explorada por numerosos alquimistas de sensações fortes. A mim, com pena o digo, cai-me a pena da mão. Mas já que vim coxeando até aqui, coxearei um pouco mais. Permite, leitor.

No meio da repentina escuridão o terror não poupou ninguém. Havia ali foragidos da Sierra Morena; mas, quem lhes divisasse o rosto, veria que estavam descorados. Tornava-se irregular a respiração; os corações batiam opressos; e cada qual se cosia com a parede para que algum ferro mal dirigido lhe não entrasse nas carnes.

A luta andava travada. De quando em quando um rugido de dor, um móvel quebrado, o baque dum corpo, uma jura, uma praga.

Dos pés à cabeça dos conchegados grupos, subiam contrações, como correntes magnéticas, provocadas pelo receio, pela impaciência, pela incerteza do que ia suceder. O ouvido estava atento, os olhos sequiosos de luz.

Duraram segundos as asfixiantes aperturas. Depois sentiu-se surdo rumor e um grito rouco.

Ninguém respira.

Abre-se de mansinho a porta, e sai tranquilamente um vulto. Sobre ele caíram os mortiços revérberos dum candeeiro, que esclarecia a rua.

Os ébrios, que de tropel haviam corrido à porta, soltam uma exclamação de espanto. Era Lorenzo del Giocondo.

— Everardo! Everardo!

Embalde o chamam. Caíra de bruços sobre a mesa da taverna com o punhal de Rosaura atravessado na garganta.