quarta-feira, 27 de julho de 2022

Honra antiga (Conto), de Álvaro do Carvalhal

 


HONRA ANTIGA

 

I

Não há castor ou hipopótamo, que me sobre-exceda no amor às águas.

Desde pequenino se manifestou em mim esta afeição, pois que, ainda não tinha quinze dias, quando me chimpei de mergulho na onda fresca dum lago.

O lago era a pia batismal.

Mergulhei buliçoso como uma enguia, e emergi radiante como um querubim.

Mas prendas desta polpa e calibre não se baldam em meros exercícios de ginástica como a equitação, a dança, a esgrima; nem tampouco se limitam como a música, o desenho e o lirismo a misteres de galanteio e passatempo.

Têm mais prestimoso alcance.

O pescador de pérolas mergulha, por entre florestas de corais, para extrair do fundo dos mares os tesouros, que lhe tentam a cobiça; o pescador de truitas mergulha para, das cavidades dos rochedos, ou dentre as torcidas raízes dos amieiros, extrair, apreendido pelas guelras, um mimo da boa culinária; eu mergulhei, se não para me colmar de pérolas, ou para me regalar de truitas, ao menos para fazer aquisição dum nome.

Chamo-me Cristóvão. Pesquei um nome de romance, sonoro como qualquer madrigal. E, com ele filado à minha grave personalidade, vou vivendo, por não ter mais nada, que fazer. O nome de meus pais, esse é que ficou nas águas turvas, ainda por algum tempo.

Sou filho do pecado. Devo a existência a uma insignificante distração de minha mãe. Perdera-se, a desavisada, perdera-se de amores por um simpático moço, de condição muito sobranceira à sua. Se era mulher!

E qual é o anjo, que não tem na esplêndida madeixa o selo duma passageira mácula?

Entre ela e meu pai não se encapelavam oceanos, nem revolitavam montanhas de candente areia, nem se alongavam continentes, nem se encadeavam cordilheiras. Maior, muito maior era o obstáculo que se interpunha: uma coroa de conde, e uma origem feudal.

A paixão encurtou as distâncias, que o nascimento assinalara, e uniu-os num doce amplexo. O prejuízo do século obstava todavia a que se santificasse perante o mundo o que, perante a natureza, estava santificado.

Isto passou-se na escuridão do mistério. Cobriram seus devaneios culpados de espessas neblinas, que, se não, o velho alferes, meu avô, vingara a desonra da filha no sangue do sedutor.

Era meu avô um velho de rija têmpera peninsular. Como voluntario gladiara nas pelejadas lutas da liberdade, e sempre introduzira a espada valorosa até ao mais luzido e nervudo das inimigas falanges. Donde procedeu, restabelecida a paz, voltar a suas magras terras, tão magras, que mal davam para um passadio decente, levando na escarcela carta patente e honras de alferes, e no rosto nobres cicatrizes a atestarem os feitos do soldado. Melhorando de posição, nem por isso deixava de considerar como evidentemente necessária a escala das jerarquias, tal qual a tradição lha transmitia. Filho do povo, não consentiria em mesclar seu sangue com o sangue dum nobre, nem talvez à custa da própria vida. E só uma coisa estimava mais do que a vida — a honra.

Pouco habituado a discernir por si, pensava na maioria dos casos o que seus avós quiseram, que pensasse. Seguia-lhes na esteira, de olhos fechados, fanático e pertinaz, duvidando da luz, que doutro lado lhe fizessem, porventura, resplandecer.

Em matéria de honra era como um reflexo de Catão. Era a honra em pessoa, mas a honra consoante a entendia ele, tal como nós a não entendemos hoje. Tão seguro estava de si que, nem por sombras, se lembrara de que na sua família podia inocular-se um fermento de corrupção.

Se soubesse! Ensandecia decerto.

Petronilha, o nome de minha mãe, viçava como uma flor, que fresca desabrocha. Todas as pompas da juvenilidade se abrilhantavam nela. Também mais requestada nunca foi beleza campesina. Nem se viu moça linda tão esquiva e avessa ao santo matrimônio. Iam-se os galãs, uns após outros, feridos e estropiados na infeliz campanha. O alferes olhava de soslaio a filha, com trejeitos de nada contente, e satisfazia-se, rosnando lá consigo:

— Há de mudar, há de mudar em lhe chegando a primavera. Estou pronto a apostar com quem quiser.

Mas a tal primavera parecia uma ficção, não chegava. E arriscada fora a aposta, porque os anos sobrevinham, e Petronilha continuava livre como uma toutinegra. O alferes dava-se a perros.

Um belo dia, tinha-se servido o jantar, um jantar, se não opíparo, mais abundante, que de costume. Acrescia à mesa um hóspede. Um mocetão robusto e fornido de tesas e avermelhadas carnes, prognósticos satisfatórios e nada comum pecúlio.

Petronilha media-o com terror. Adivinhava um noivo. Seu pai lhe falara dele na mais eloquente e lisonjeira linguagem, que sabia.

— Lá vai à saúde, diz alegre o alferes, levantando um copo, cheio até às bordas, e piscando um olho com maliciosas pretensões, à saúde de certa insensível, refratária ao casamento, que, antes de três dias, graças aos estimáveis dotes do nosso amigo Estevão Ribô, aqui presente, se fará mole de cera, dada e correntia.

O moço agradeceu, esvaziando um canjirão. Petronilha baixou os olhos, perturbada.

— Então que é isso, menina? exclama o alferes. Assim agradeces o bem, que te queremos?

— Eu, pai?! Mas… deveras, não sei que agradecer!

— Valha-te Deus, filha. Pois não percebes o que te anda por casa? A tua boda, uma boda magnífica!

— Minha!

— Não. Sou eu que caso, ali com a permissão de tua mãe.

— Consinto! clama a velha matrona no meio dos estrépitos da hilaridade.

— Mas… balbucia a pequena, competindo na cor com os corais, que trazia ao pescoço.

— Silêncio, atalha o pai, impando de soberania e majestade. Todos temos a nossa época de eflorescência. Não há ser organizado na criação, que possa fugir a lançar, como as árvores, seus rebentões, flores e sementes, pelas quais se multiplique, e se perpetue. Eu estou velho e acabado, e tenho o direito de exigir a minha filha que me não prive de ver ainda a continuação duma raça, que merece mais prolongada existência. Não te quero para freira, Petronilha.

— Mas, senhor, meu pai… torna ela, cada vez mais envergonhada.

— Está bem. Sei o que vais dizer. Lamúrias de rapariga. Lá te avém com o Estevão. Comigo está tudo dito.

Esta linguagem rude, e sobremaneira estouvada, não se compadecia do melhor modo com a índole aristocrática de Petronilha. Em extremo humilhada pregava timorata no alferes os grandes olhos azuis, dirigindo-os depois suplicantes para a mãe. Esta mostrava-se entretida no bom serviço da mesa, e totalmente estranha à conversa. Sentia-se desamparada a pobre rapariga.

Ela, ao revés dos seus progenitores, era uma romanesca imaginação. Antes quereria ser a amante aviltada dum príncipe proscrito e mendigo, do que a esposa respeitável dum rico burguês. Julgue-se do que sofreria.

Devorou com paciência as graçolas de Estevão, que, apimentadas, saltavam com fecundo gáudio dos cônjuges, e suportou, sem redarguir, os azedumes do pai. Mas, apenas fechada no seu quarto, vingou-se, deixando manar livremente abafadiço pranto.

Bem conhecia ela o ríspido e contumaz caráter do alferes, para esperar clemência. O”quero” de seu pai, poucas vezes pronunciado, valia uma sentença sem apelação. Como resignar-se? Que seria do seu conde, do seu formoso conde, que, em cada novo sofrimento, que lhe causava, mais adorado se fazia? E como agora lhe feriam no coração as saudades desses deliciosos sofrimentos! Revelar tudo, seus amores, já tão duradouros e tão obscuros, a existência dum filho, a minha existência, as noites sagradas a indizíveis ternuras fora pedir a morte, que uma falta dessas não passara impune.

Porém… num peito de mulher não acharia eco a sua desventura? A mãe, que também foi filha, não saberá dar desculpa às invencíveis fragilidades dos dezoito anos?

Cair-lhe nos braços, e fazer, em lágrimas, eloquente confissão, quem sabe se, entrando com ela a caridade, lhe granjearia uma defensora contra a paterna vontade?

Vão desejo.

A matrona, identificada com o marido, seria inexorável como ele, e mais do que ele talvez. Que fazer?

Ai, conde, conde!

Nestes termos ia enfileirando planos com que acender reanimadoras esperanças, e com que desbastar a dor, que rijamente a asseteava, quando o alferes veio procurá-la de séria catadura e refletido tom.

— Petronilha, diz ele, vejo-te as pálpebras inflamadas do choro. Não te perdoo a aflição, que me não queres poupar. Bem sabes que te prezo, e…

— Sei que me amaldiçoa.

— Ofendes-me. Sou teu pai, tenho por mim a experiência, e quero procurar-te a felicidade, já que tu tens dado sobejas mostras de a desprezar.

— Felicidade fictícia, convencional, cem vezes pior do que o infortúnio, do que todas as calamidades.

— Razões mal assentadas. Cala-te. Esperei muito, fartei-me de esperar que, a teu jeito, escolhesses, para amparo e companheiro o homem, que o teu coração desejasse. Queria deixar-te livre a eleição. Hoje é tarde, porque escolhi eu. Rejeitei a princípio a violência, opto por ela agora. É tempo. Eu e tua mãe vamos no entardecer da existência. Temos a cova aos pés. E, quando se fechar, não queremos que a terra pese de mais sobre nós por ter abandonado aos enredos perigosos do mundo a filha, que estremecemos. Que destino seria o teu, pobre criança, confiada a ti mesma, com a inocência por defesa, com a paixão por conselheira e com a credulidade por norte? Estevão Ribô, sem pretender engrandecê-lo com levantados conceitos, é o tipo da probidade e da discrição. Tenho por sem dúvida que há de estimar-te às direitas. Se o ouvisses ainda agora! Conhecendo a tua repugnância em negócios de casamento, só teme uma renúncia ofensiva. Casarás, porque eu mando e quero. Entendes?

— Quer matar-me, pai?

— Hás de casar. Recomendo-te que sejas o menos desamorável, que possas, com esse honesto rapaz. Não vás aguar-lhe o gosto de te possuir.

— Não posso, não…

— Silêncio.

E saiu com ar soberbo e tenção inabalável, dessas que se não resolvem em certames de palavras.

— Pois sim, sim, murmura ela, tornando em si do desconcerto, em que ficara. Se é o tipo da probidade e da discrição, há de ouvir-me sem despeito, e com benevolência. Vou contar-lhe o meu segredo, sem nada omitir. E, desta vez, considero-me salva. Querem adulterar-me em presença do altar, mas não hão de consegui-lo. Ignoram que pertenço ao meu conde, e só a ele, que lho jurei.

De tarde, afinando coragem e paciência, mostrou-se brilhante de satisfação. O alferes, sem caber em si de contente, cobria a filha de mil pequenos cuidados, e pôs-se em maré de condescendências. Para logo alvitrou que se fossem, no passeio predileto de Petronilha, até ao Sobreiro da serra, lugar pitoresco e sumamente aprazível, que tinha o nome dum vetusto sobreiro, que ali se criara majestoso.

Postos a caminho, Petronilha fingiu-se tocada das vilãs frioleiras de Estevão, e conseguiu arredá-lo do grupo, deixando os pais a perder de vista.

Iam estes devagar, com muita quietação, em companhia duma apavonada moçoila que, num cestinho à cabeça, levava acepipe de que fazer no monte apetitosa merenda.

— Doidos! diz o alferes, designando os dois, que iam adiante. Como se entendem já! Ora fiem-se nos amuos das raparigas. Ainda bem, ainda bem que pelos jeitos, que toma o negócio, tudo vai pelas boas. Antes assim.

Dizendo acometia o seu simonte a largos sorvos, satisfeito de ver a filha tão outra, do que esperava.

— Deram-se os braços! Bem, continua. Conversam em intimidade, a modo que segredam. Que dirão, mulher?

— Que dirão! Que dissemos nós, quando por lá passamos? Sempre a mesma cantilena. Rapazio, rapazio!

O que se passou entre Estevão e Petronilha é um segredo que não nos pertence devassar. É de crer todavia que alguma triste revelação se fez intervir. Isto, a termos de julgar pelo que, ao diante, se verá.

Reunido o pequeno rancho na eminência do Sobreiro, sentaram-se na relva, e foi logo estendida uma toalha alvíssima sobre a qual se amontoaram gulodices tão salutíferas como substanciosas.

O alferes, de ordinário divertido e folgazão, abraçou-se na ânfora do falerno, e fez exclamações dum cômico sobrenatural. Estava nas melhores disposições do mundo. Pouco bastava para alegrar aquela natureza rude e simples. Respeitar o próximo, e bem merecer, por esse preço, igual respeito; percorrer os campos em cuidados da lavoira nos dias de trabalho; merendar, com a família, aos dias santificados, sobre os cômoros verdes; e empenhar-se, com pia intenção, embora com limitado sucesso, em legar à posteridade numerosa progênie; tal o carreiro, que, para seu trânsito invariável, arroteara.

Mas parece que neste dia entrou mau-olhado na função.

Estevão Ribô acabrunhava-se em mazorral e emurchecida aparência. Recusou-se a tomar parte na refeição, e não passava de monossílabos, se o interrogavam.

Petronilha, de má sombra também, denunciava no aspecto melancólico como remorsos d’alguma ação, pouco meditada.

O certo é que, no regresso ao povoado, iam todos silenciosos e um tanto contristados. O alferes levava de Estevão para a filha olhos de interrogações e de sombria desconfiança. Entraram no pátio.

Estevão, sem proferir palavra, encaminhou-se para a cavalariça. Meu avô foi-lhe no encalço.

Atirava o moço, quando ele tocou o limiar da porta, atirava a sela para o espinhaço do possante macho, quadrúpede, que mais, que a si próprio, estimava. Digo quadrúpede, para que os pechosos o diferencem do seu dono, o qual, por um capricho da natureza, tinha o exclusivo defeito de ser bípede.

— Estevão! grita o alferes, que significa isto?

— Retiro-me.

— Retira-se! Que quer dizer?

— Que vou apresentar-lhe os meus agradecimentos pelos obséquios, com que me obrigou, dizer-lhe adeus, e partir.

— Pois deveras?…

— Deveras.

— Julguei… Todavia… Não há nesta casa quem o prenda?

— Há.

— Quem é?

— O reconhecimento.

— Petronilha?

— Tenho por ela afeições de irmão.

— Mais nada?

— Não é pouco, cuido eu.

— Não… lá isso… É estranho. Então?…

— Calemo-nos.

— E porque havemos de calar-nos?

— É o melhor.

— Queira explicar-se.

— De que serve? Nem eu tenho que explicar.

— Exijo-lho, senhor.

— Por Deus, clama o roliço Estevão, que estava morrendo por ceder à coação, por Deus, não falemos nisso.

— Pois quê!

A curiosidade de meu avô tocara a afinação. O moçoilo, que outra coisa não desejava, foi-lha atiçando, dando ao mistério manhosas proporções, aventando termos dum vago significativo, manobrando enfim com tal arte, que não pudesse ausentar-se sem ser constrangido a destrinçar o imbróglio. O que ele buscava era absolver a consciência duma ação que lhe cheirava a vilania. Queria a coação. Continuou, fingindo-se trancado por dentro e por fora:

— Eu não sou um bárbaro, senhor alferes!

— Basta, devolve o alferes, comendo-se de impaciência, e assaltado de negra desconfiança. Repare, meu amigo, que me deve satisfação, porque recebi agravo. Quem lhe ofereceu a mão de minha filha? Quem o convidou a transpor estes umbrais? Julga que, quem entrou com os títulos do senhor, há de sair sem dar explicações?

— Perdão. Há casos, que a honra não deixa revelar.

— Quando não periga uma honra.

— Revolta-se a prudência.

— Reclama-o o dever.

— Não devo.

— Nem mais uma palavra de recusa. Receio adivinhá-lo. E juro-lhe que há de ficar, enquanto me não esclarecer.

Tinha os punhos cerrados em gesto de ameaça. Estevão exulta no interior.

— Lamento-o, diz este com afetado sentimento.

— Por quê?

— Porque desafia o raio.

— Devesse ele fulminar-me.

— Seja, já que absolutamente o deseja.

— Exijo.

— Por mim lavo as mãos.

Despediu uma vista circular e investigadora. Os miseráveis são todos medrosos. Depois, travando do braço ao interlocutor, saiu com ele para o quintal.

— Estamos mais à vontade aqui. Não nos importunarão. Posso pois declarar-lhe com afoiteza…

— Que rejeita minha filha.

— Justamente.

— Rejeitá-la! E por quê?

— Há um fantasma, chamado dignidade, que o determina.

— Como?!

— Não pode ser minha.

— Quem lho disse?

— Ela.

— Mentiu.

— Pertence a outro homem.

— Petronilha!

O capitão levou a mão à calva cabeça e oscilou na base.

— Céus e Inferno! vocifera. Quem lho disse?

— Ela.

— Mentiu, mentiu. Impossível. Uma hora de fraqueza seria a sua última hora. Morreria de vergonha. Quem é o sedutor?

— O filho do conde.

— O conde novo! Biltre! Eu me vingarei. Mas é impossível. Não creio. Provas, quem me dá provas?

— Existe um penhor.

— Onde?

— Em casa da Guiomar.

— Quem lho disse?

— Petronilha.

— Calúnia, é uma horrenda calúnia!

— Perdão. Por minha parte…

— Silêncio, miserável!

E, indigitando a estrada, gritou:

— Parta.

Teve ânsias de correr à sua espingarda e dar sobre ele, no córrego deserto. Porém foi mais forte a comoção. Exausto de ânimo, cessou-lhe a vida por instantes.

Depois pôs-se a soluçar com o rosto nas mãos. E pelas venerandas barbas abaixo lhe escorregaram graúdas lágrimas de sangue.


II

Estilo sécio.

A noite desdobra-se brandamente, como o manto duma rainha, fulgurante de pedraria. Porém não tarda que um borrascoso vento do Sul se encrespe, frema, se atire pelo espaço e apague todos os lumes do firmamento, rolando grossas nuvens prenhadas de eletricidade. O trovão traz de longe seu rugir de ameaça, que brame no povoado, como voz de extermínio. Estalam as franças dos arvoredos, e as urzes da serra tisnam-se, lambidas do relâmpago.

Depois, como extenuados na luta, serenam de repente os revoltos elementos, e a Lua mostra, a espaços, a cor desbotada entre aquosas brumas.

Não é uma vitória. É como um combate singular, cheio de alternativas, em que não há determinado vencedor.

Petronilha está no seu quarto. Debruçada sobre um móvel antigo, mira-se num grande espelho, com certa indizível satisfação. É que realmente lhe fica a matar aquela desordem de vestes e de cabelos, com tanta arte e com tanto estudo executada.

Ai, quando vier o amante, como lhe parecerá formosa! Mas, se não vem? O mau tempo há de pôr-lhe estorvos. Vem, vem, que a ama do íntimo da alma. Ele é tão gentil, tão amoroso, tão dedicado!

Neste enlevo, cola o rosto à janela, e espreita para a floresta.

— Que noite! murmura. Uma aberta da chuva pode contudo trazer-mo. Todos dormem. É bem tarde. Mas não me deitarei, sem a certeza de que não virá.

Uma sombra desliza por entre os troncos dos úmidos carvalhos.

Petronilha respira e, torcendo a meio o delicado corpo, apaga a luz dum sopro.

Espera com o ouvido à escuta.

Lá percebe o ruído abafado duma porta, que se abre mansamente, e, em seguida, cautelosos passos, de pés de lã, no corredor, que para todos, menos para ela, seriam indistintos.

Voltada contra a porta do seu quarto, arrouba-se na grata expectativa de a sentir estremecer ao contato dos dedos do amante. Arfa-lhe pressuroso o seio.

A porta oscila, descerra-se, abre-se.

— É ele!

Denuncia-o o capote em que se disfarça.

Devaneada, a pequena, salta ao pescoço do recém-chegado, murmurando:

— Conde, meu conde!

O embuçado, que o não era de melodrama piegas, não fez um movimento.

Ela recuou indecisa. Então, como por encanto, a Lua, desvendando-se, verteu através dos plátanos, que sombreiam a casa, tênue clarão no aposento.

— Jesus! exclama a moça num terrível calafrio.

Em vez da madeixa loira e opulenta do gracioso conde, o crânio ossoso e nu dum ancião; em vez dum tenro acetinado bigode, umas barbas, como estrigas, longas e eriçadas; em vez de… Santo Deus! em vez do almejado bem, aparece-lhe um demônio.

Isto na solidão do seu quarto, quando, em profunda sonolência, jaz submersa a natureza inteira.

Como um espectro, que ressurge irado dentre os mortos para vibrar a blasfêmia e o anátema dos preceitos contra o algoz, tal se eleva diante da filha a agigantada figura do alferes.

— Boas noites, filha! diz ele com cruelíssimo carinho.

— Oh meu pai, meu pai!

— Não chores. De que servem lágrimas? Em lágrimas não se lavam as faces, quando estão negras. Demais, que importa um escarro cuspido no rosto de teus velhos pais? Foi uma lição. Os pobres tinham a vaidade de passar ilibados, sem se mancharem no vício. Castigaste-os, filha. Bendita sejas tu.

— Perdão, perdão! Sou mulher, sou fraca.

— Sei que és fraca. Perdoo. Não havia de perdoar à minha Petronilha? Mas com uma condição: hás de confessar-me tudo.

— Tudo, meu pai!

— Esperavas o conde?

Ela titubeou.

— Esperava, consegue dizer afinal.

— Então a que hora vêm os seus lacaios?

— Misericórdia!

— E tiveste-a comigo, prostituta?

— Não sou culpada. Foi a desgraça. Amei-o. Eu não podia esmagar o coração. Pois para que pôs Deus o ímã fatal da perdição nos olhos do homem?

— Para que pôs o Inferno a incontinência no teu leito? Para que fizeste de teu pai um homicida?

— Homicida!

— Infeliz do conde! Que mal te fazia aquela existência?

— Virgem Santa! Matou-o!

— Hei de matá-lo!

— Oh não, não! Peço-lho de mãos erguidas. Peço-lho de joelhos. Emparede-me num convento. Expulse-me de si. Imponha-me a cruz mais dolorosa. Eu hei de ser resignada. Eu hei de ser agradecida. Mas que lhe não caia um fio só dos louros cabelos. Senhor! Ele tem prometido desposar-me.

— Nunca! brada o alferes, com entono soberbo. Desdourava-se. Acasos de guerra me levantaram acima de mim mesmo. Mas não renego a esfera, em que nasci. E o plebeu honesto castiga o insolente, e não aceita uma dívida de honra à custa duma desonra. Hei de matá-lo, como se mata uma alimária.

— Meu pai!

— A morte, que tudo nivela, essa sim, que pode unir-vos.

— Meu pai, meu pai!

— Cala-te.

Vai à janela. A lâmina duma espada fulge debaixo do capote. Petronilha quase sucumbe. Todavia o momento é decisivo. É precisa toda a coragem. Por sobre o ombro do pai observa, trêmula e sufocada, se alguém desponta no caminho.

Ambos esperam, ambos sofrem, mas que diferença nos pensamentos, que se atropelam naquelas almas!

Silêncio de túmulos. Apenas se ouviam as pulsações surdas dos corações, e o zumbido dalgum alado inseto, que nos ares revolita.

Ao longe marulham saudosas as cachoeiras.

Pai e filha a um tempo oscilam. Apressuram-se as respirações, intumescem as artérias, perde-se o fôlego. Um vulto surdira da espessura.

Olham, dão toda a tensão à vista, fundem todos os sentidos num sentido só. Que tormento!

Petronilha reconhece o conde, no vulto, com aquele instinto feminil, que às vezes parece maravilha. Então contrai-se numa estranha reação.

— Foge, foge! grita, fora de si, esforçando-se por levantar a vidraça.

Reprime-a o alferes, e arrasta-a dali, pondo-lhe na boca, como mordaça, a nervuda mão. Ela, feroz como a loba a quem furtaram os cachorrinhos, resiste temerária. Não durou a luta. Resvalou no chão alquebrada e dorida. Mas, espumando raiva, crava até ao osso, crava os dentes na mão, que a macerava.

O alferes levou-a pelos cabelos para a alcova.

Quando tornou a entrar no quarto, estava mais sinistro ainda. Enxuga a espada a um pano da cortina, e, terrível como o gênio das vinganças, posta-se ao lado da porta por onde devia penetrar o conde.

Este não se fez esperar.

— Petronilha? profere, tomando forma na escuridão. Estás aí, Petronilha?

Fere lume o alferes. O mancebo fica hirto de assombro. Em seguida intenta retroceder. Mas já então a porta estava fechada.

— O alferes!

— Sou eu, senhor conde, devolve, inclinando-se humildemente.

Fitaram-se em silêncio. Meu avô comprazia-se em ver como o conde se estorcia na tortura. Arquejava o pobre rapaz, asfixiado por um supremo embaraço. Do rosto lhe escorria em bica suor, que escaldava. E tinha o intelecto de todo cerrado a ardilezas, com que tirar-se da singular apertura.

— É ali, torna o alferes com o mesmo cerimonioso trejeito, com que o saudara, levantando as cortinas, e indigitando o fundo negro da alcova.

— É ali? pergunta maquinalmente o moço, sem entender o interlocutor.

— O leito de minha filha, conclui este.

Quisera o conde que se abrisse o Inferno, e que o tragasse.

— Sua filha! balbucia, achando ponto de apoio nestas palavras. Alferes… eu vinha pedir-lha.

— Pedir-ma!

— Por esposa.

— Vossa Excelência!

— Eu.

— Ignora porventura?…

— O quê?

— Petronilha é uma mulher das ruas, uma perdida.

— Alferes!

— E esta casa um alcouce, acrescenta o velho. Eu sou o rufião. Não se revoltam as cãs, nem estas rugas. O branco é cor muito atreita à mácula.

— Seja justiceiro.

— Quererá Vossa Excelência esfolhar sobre vivas apostemas as grinaldas dos seus passados! A honra, meu senhor, não se mercadeja. A honra é o timbre heráldico das almas nobres; é a felicidade, é o consolo, é o orgulho, é a fidalguia comum, que tanto pertence ao homem, que nasceu nas lamas, como ao que nasceu nos arminhos. Não a jogue numa louca irreflexão de mancebo, pois que não sabe quanto custa perdê-la para sempre, para sempre.

A voz tremia-lhe. Estava medonhamente comovido.

O conde, cobrando ânimo, conseguiu tomar-lhe a mão.

— Não tresvarie, disse. De sobra são conhecidos os nobres dotes da sua família, e, com justo respeito, compensados. Acuso-me e arrependo-me. Adoro a Petronilha. E não ofereci logo condigna reparação, porque esperava no futuro. Certo fiquei sempre de que o mais cioso de fidalguia tiraria desta união motivos para orgulhar-se. Imploro pois o seu assentimento.

— Não. Nunca.

— Imploro.

— Não vê que se avilta?

— Ninguém se avilta, cumprindo um dever, que importa felicidades.

— Um dever! Com que ingenuidade o invoca! É o roteiro dos covardes. Viu o azorrague na mão do ofendido, e lembrou-lhe então o dever.

— Senhor!

— Desprezo-o, tanto na sua súplica, como no seu crime. Não sei por qual dos lados me parece mais degradado. Desculpe-me, senhor conde. Sei quanto se deve ao seu nascimento, mas parece-me que nem pela glória dos escolhidos trocaria o prazer de o ter na conta de inimigo execrável.

O conde cresceu para ele flamejante. Porém conteve-se.

— Tem razão, diz no maior abatimento. É justo. Mereço a invectiva. Mas hei de provar-lhe que sou menos culpado, do que se persuade. Hei de provar-lho. Amei-a… O alferes calcula os desvarios, a que arrasta um amor arraigado e impetuoso? E quem o autoriza a julgar das minhas intenções? Quem lhe diz que não pensei mil vezes em sanar o mal?…

— Petronilha é do povo.

— Eu a levantaria.

— E as conveniências de sociedade e de família?

— Relegava-as para o rol das coisas frívolas, e, mais que frívolas, estúpidas. Entre um e outro homem não há senão uma distância: é a que vai da virtude ao vício.

O rancor do alferes amaciava-se manifestamente. Soavam-lhe no coração aquelas palavras. Pareciam-lhe palpitantes de verdade. Mas na recalcitrante cabeça tinha gravadas, como em bronze, outras bem diferentes ideias. Todavia, sem acertar com azada resposta, assumiu mais humana exterioridade. O mancebo, que o observa, continua com fogo e paixão sincera:

— Por Deus lho peço. Consinta que, ao separarmo-nos bons amigos, eu lhe dê o respeitoso nome de pai.

— Os homens, que dirão os homens?

— E a consciência?

— A minha consciência condena.

— Engana-o.

— Enfim…

— Permite?

— Senhor conde!

— É de ferro este homem!

— Pense bem. Não se arrependa depois.

— Juro…

— Basta.

De olhos baixos e mortal palidez levantou a cortina da alcova, murmurando:

— Entre. Vá oscular sua mulher. Consinto.

O conde hesitava. Não sei que lhe leu na fisionomia.

A cortina caiu sobre ele como um sudário.

Na planície circunvagava iroso o furacão, e o raio nos píncaros lascava as rochas. Era uma noite de pavores.

O alferes desembaraça-se do capote, e corre pelo gume da espada uma vista cheia de diabólica ternura.

Um gemido de expressão funérea parte do fundo da alcova, e perde-se no estridor da rajada, que silva no carvalhal. Depois outro gemido.

O conde aparece à entrada da alcova. Dir-se-ia outro homem, tamanha mudança se operara nele. Treme numa convulsão lastimosa, e, com a mão recurvada, apega-se ao muro para não cair. Mas, perdido o equilíbrio, verga de joelhos, estorcendo os braços, sem outro gesto, sem voz para a blasfêmia, sem resolução para um esforço extremo.

— Morta! é a única palavra, que, rouca, despede da garganta.

— Tem medo, senhor conde?

Esta pergunta é formulada com fereza hedionda.

— Não, responde o outro.

— Mas treme.

— De horror. Tremo por ela. Maldito sejas tu!

— Ofereço-lhe os meus serviços, senhor conde.

— Aceito-os.

— Terei a ventura de lhe ser útil em alguma coisa?

— Tens.

— Em quê, meu senhor?

— Mata-me.

— Só?

— Mata-me.

— Traz armas?

— Quebrava-as, se as trouxesse.

— Quer que lhas procure?

Um riso de amargo escárnio tremeluziu nos lábios brancos do mancebo. Ergueu-se sobranceiro.

— E querias que me batesse contigo, demônio? diz com um resto de altivez.

— Porque não? Não lhe ouvi há pouco que na escala das jerarquias há apenas uma distância, a que vai da virtude ao vício?

— É essa distância, que se interpõe aqui. Dou-te as honras de carrasco, e não é pouco, porque injurio a classe.

— Antes de ser carrasco fui juiz.

— Para imolar tua filha.

— Mentira! Ela não era minha filha.

— Petronilha?!

— Pertencia certamente à estirpe de Vossa Excelência, senhor conde, diz com urbanidade não contrafeita, porque era infame.

— Se a renegas, quem te deu o direito?…

— A vergonha, meu senhor.

— A vergonha!

— A vergonha de a ter adotado. Sangue meu não se corrompia.

— Silêncio. Não afrontes a santa. Concluamos.

— Concluamos.

— Vais ver como morre um homem de alma.

— Mas antes… queria fazer-lhe um pedido.

— Tu!

— Peço-lhe…

O alferes parecia embaraçado.

— Diz, carniceiro.

— Peço-lhe que se defenda.

A resposta foi um gesto de soberano desprezo.

— Recusa? pergunta comovido o velho.

— Se recuso!

— Nesse caso, que a terra lhe seja leve, meu senhor.

Ergueu, com ambas as mãos, à altura da cabeça, o mortífero instrumento, e, prestes a descarregar o golpe, deixou cair os braços esmorecidos.

— Não posso, murmura.

E, apagando a lâmpada, feriu nas trevas.

Um corpo baqueou.


III

Já minha avó andava florejando nas domésticas canseiras, como boa dona de casa, que era, e ainda os visos das montanhas estavam longe de se corar com a rósea tintura da manhã.

O alferes entrou tranquilo, como a consciência dum justo. Só nos olhos lhe bruxuleava certo notável fulgor, que, a meu ver, trai os espíritos imbuídos por qualquer fanatismo. Envolta nas faixas infantis conduzia uma criança.

Era o filho de Petronilha, era eu.

— Mulher, vem comigo, diz para minha avó.

A velha seguiu-o. Passaram a uma sala retirada.

— Que linda criança! exclama ela, reparando nas minhas menineiras graças. Anjinho! psiu!… Donde te veio? De quem é o menino?

— Escuta, atalha com solenidade o alferes. Petronilha, essa filha da nossa ternura, atraiçoou-nos. Atirou-se de braços abertos ao seio da depravação. Cedeu às instâncias sedutoras do conde, e, sensual como uma barregã maldita, não soube guardar o depósito de honra, que lhe confiamos.

— Virgem Santa!

Cambaleou tomada de vertigem.

— Não a amaldiçoaste? continua.

— Não.

— Pois?…

— Perdoei-lhe.

— Tu!

— Matei-a… apenas.

— Petronilha! Oh meu Deus!

— Pediu-ma o conde em casamento. Dei-lha. Dorme com o esposo no mesmo leito. Foi magnífica a boda. Não correu o vinho em jorros, mas correram jorros de sangue.

— Oh minha filha!

— Eis aqui o fruto inocente duma ruim árvore. É teu neto. Educa-o bem, e possa ele redimir por extremos de virtude o crime de seus pais.

Depositou-me nos braços de minha avó, que me estreitou ao peito com ansiedade terna. Mas a luz esvaiu-se-lhe, desamparou-a o varonil valor que a ensoberbecia, e caiu exânime no instante em que, proferindo a palavra "obrigada!” ia beijar a mão de meu avô.

O alferes deixou-a aos cuidados duma criada. Vestiu pesado luto por sua filha, e foi oferecer a garganta ao baraço do algoz.

E minha avó, ainda hoje, quando é mais lauto o jantar e maior o número dos convivas, conta, entre a sobremesa e o café, conta, com orgulho de leoa, como na sua família se castiga uma afronta.

Por mim, que, sem conhecer minha mãe, a imagino todavia um tesouro valioso de sensibilidade, nem censuro, nem tampouco louvo o rigor selvagem do alferes.

É mais difícil, do que geralmente se pensa, este mister de censor.

A honra, como tudo o que é convencional, pauta a sua mobilidade pelas fases por que vai passando uma civilização. Desde a infância individual até à idade madura, que de caracteres diferentes não assume! Desde a barbaria ao estado culto, que de vezes não muda o trajo, a cor e as feições! Na mesma atualidade nem todos os povos lhe rendem o mesmo culto. A mão esquerda para os orientais corresponde à nossa direita. E a divergência, ou a oposição, que, acerca de certas cosmopolitas ideias, se observa no conceituar dos povos dum a outro hemisfério, duma a outra das grandes partes do globo, não deixa também de se assinalar dum a outro vizinho continente, sem excetuar aqueles, que, a par e fraternalmente, desabrocham nas flores e nos frutos do progresso.

Sobre a desprezada campa do alferes já vinte primaveras semearam seus silvestres matizes. E em vinte anos não era esta raça de Nenrods que deixava de transformar vinte vezes a face das coisas. Mudaram os tempos.

Seja juiz na causa do velho soldado aquele, que, remontando ao viver patriarcal das províncias do Norte, souber compenetrar-se de religiosa veneração pelas extintas tradições. A sentença então sei eu que será justa. E, seja como for, tê-la-ei por alvitre de gosto.

Os amigos do progresso, os que nele se sensualizam, esses não duvido de que hajam de cuspir injúrias sobre aquele viril caráter do alferes.

Eu sou dos renegados do progresso.

Que exaltem falsos levitas esse deus de lama, coberto de ouropéis mais falsos ainda! Por mim maldigo-o. E pouco importa que, em sua louca protérvia, me impropere a populaça, que não compreende a sinceridade dum homem, chão por certo, mas que não cede a outrem o direito de lhe domar o pensamento.

Progresso! É ideia que se escoria e ferve nos entendimentos; é palavra que anda no sorrir de todos os lábios; é sanefa com que se mascaram os que não crêem; é fato, que perverte a sublime natureza dos homens; que revolve, altera e disformiza a criação inteira. A vaga febre dum desejo ignoto arrasta-nos e nos impele de encontro não sei a que medonho Cáucaso. Caminhamos. Para onde? É como se arrancássemos os olhos para não errar o caminho.

Maldigo-o.

Porque nos furta ao viver natural e contemplativo das florestas; porque polui a nudez dos nossos corpos e a nudez da nossa primitiva inocência, pelo artifício; porque derruba a árvore, providência de Deus! que espontânea nos garante, com seus purpurinos frutos, uma conservação deleitosa; porque nos obriga ao trabalho fatal de Sísifo; porque troca em conveniências, interesses, comodidades, metal, todas as grandes riquezas dos nossos corações, como em cobre se poderá trocar um diamante.

No meio do desvario, aos encontrões da política, do comércio, da indústria, da ambição, do luxo, da opulência de alguns, da miséria de muitos, do aviltamento do maior número, submerge-se a família, apagam-se da memória os nativos sóbrios costumes, e vêm a efeminação e a gangrena disputar o seu quinhão ao festim das gentes.

O luxo é o mais nocivo parto das idades cultas, sendo também o mais lógico e fatal de todos. O aparato nos atavios é para a mulher o velocino de ouro. A formosura, sem realces postiços, é como a pérola no fundo dos mares. E a mulher preza, acima de tudo, a formosura. Holandas, fitas, rendas, colares, martas… quer profusão. Se não há, com que obtê-la, negoceia com a ignomínia.

O homem, na sua condição, cria necessidades duma outra ordem, mas não menos imperiosas e não menos frívolas. Em cada rua uma tentação, em cada tentação uma fraqueza, em cada fraqueza uma necessidade. Em casa não resta às vezes sequer uma negra fatia de pão. A última peça foi dissolvida em champanhe. Que fazer? Jogar? É arriscado. E, que o não fosse, onde encontrar capitais? Roubar? Se a polícia fosse, como a justiça, cega! Que fazer? Ah! Uma ideia! Ainda se não vendeu tudo. Ainda resta a virgindade de duas filhas.

Olhado o alferes através desta onda civilizadora, como não há de causar estranheza?! Damos-lhe, pelo menos, o epíteto de bárbaro. E ainda somos beneficentes.

Mas esquecemo-nos de que são bárbaros os heróis da Ilíada.

O leito de Ulisses era um montão de peles de ferozes alimárias, derribadas a murro, creio eu. E mais que muito conhecidos são os seus banquetes. Um mastodonte, quer-me parecer, um mastodonte assado com intestinos e tudo, servindo de recheio algum javali, que, vivo e a pular, lhe encaixaram no tórax, resume e constitui o fausto da régia mesa.

Estava nesta altura a civilização. Mas, quanto havia de lerdamente grosseiro no trato externo, avultava no íntimo em magnificências de singulares virtudes. Façanhas gloriosas de semideuses, prestígio de monarcas, ventura dos povos, épicas proezas datam das eras bárbaras. Havia muita crença e havia muita esperança, e, além disso, muita constância e severidade no amor das Penélopes.

Disse-o primeiro Homero. E digo-o eu, em segundo lugar. É de crer que, qualquer de nós, tenha meditado o assunto.

Assim pois, em teoria, fica, pouco mais ou menos, esfaqueado o”progresso”, e conscienciosamente se demonstra, por consequência, o quanto são dignos de saudade os tempos de barbaria, ou aqueles mesmos, em que ela se reflete mais fagueira. Ainda há vinte anos se desmantelavam peitos, em que efloresciam rosas carrasqueiras, ou coisa assim dura. Hoje essa tribo dos fortes torrificou-se nas luzes do século. E tanto é certo, que daqui prometo cem anos de indulgências plenárias do nosso Beatíssimo Padre a quem quer que me descubra um homem da estofa de meu avô.

Está feita a justificação.

Oxalá que tal, tão soberana fosse sempre a indignação dos pais ofendidos. Estou todavia seguro, peço licença para o confessar, estou seguro de que o alvitre viria a dar cabo do sexo amável… se excetuarmos, bem entendido, a granítea prudência das avisadas damas da minha parentela e amizade, e da parentela e amizade de quantos ressonam, ou abrem perenal bocejo, beatificados pela cruenta narrativa.

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