sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O último discurso (Conto), de Júlia Lopes de Almeida


O ÚLTIMO DISCURSO 

Dr. Paula Guedes, muito velhinho, sumido entre os almofadões do seu grande leito de peroba, com os pés aquecidos por uma botija de água quente, a camisola de flanela bem abotoada no pescoço, delgado e rugoso como um galhinho seco; as mãos mirradas sobre a colcha de lã, a fronte já tocada de uns tons da amarelidão cadavérica, os lábios murchos sob o musgo branco do bigode queimado, as pálpebras descaídas, mal ouviu a neta dizer-lhe que havia ali um ofício dirigido a ele, sentiu logo um calorzinho entrar-lhe na alma fria. 

Ainda não tinham esquecido!... 

E, com um fio de voz fragilíssimo, reclamou logo: 

– Os meus óculos! 

Postos os óculos, disse radiante: 

– É do Instituto! E apalpava o papel grosso onde o dístico daquela corporação aparecia em letrinhas negras. 

A neta, em pé ao lado da cama, observava-lhe com espanto a mudança da fisionomia. As pálpebras até então fechadas numa sonolência que parecia o ensaio para o grande sono, levantavam-se agora, deixando que das pupilas, há pouco amortecidas, saíssem novos lampejos, como mosquinhas loiras bailando no ar. 

– Hum... hum! é do Instituto... ainda não me esqueceram... sempre faço alguma falta. 

Todo o corpo do doente se movia sob a grande colcha felpuda, onde não faria menos volume o esqueleto de um menino de dez anos. 

A neta ofereceu-se para a leitura. 

– Não; depois! espera... corre a cortina... a luz está má. 

– Assim? 

– Assim. 

A leitura começada foi logo interrompida. 

– Hum!... hum!... abre a janela. 

– Vovô, vamos ter chuva; há tanta umidade que nem parece uma manhã de verão. 

– Não faz mal, abre a janela. 

– Mas... vovô! 

O Dr. Paula Guedes, que tomara na véspera os sacramentos, como bom católico apostólico romano, todo purificado pela absolvição, rompendo a inércia dos seus oitenta e três anos e daquela doença que o fazia tiritar de frio em pleno fevereiro, gritou em um falsete irado: 

– Abre a janela! 

A janela abriu-se. A araucária e os pés de camélia plantados perto de casa gotejavam orvalho; para além nada se via: tudo era branco. 

– Aqui na Tijuca estes nevoeiros de verão prognosticam dias formosos, disse o doutor com um sorriso, desdobrando o ofício. 

Era um convite. Pediam-lhe que fosse ele o orador na grande solenidade que o Instituto realizaria daí a um mês em homenagem ao tricentenário de Anchieta. 

Então é que o enxame das mosquinhas de ouro torvelinhou doidejante. Meu Deus! o Instituto, o centro das grandes capacidades do país, dos nomes mais respeitados e queridos do império e da república, aquele ninho de inteligências perfeitamente dirigidas, de ministros, conselheiros, marechais, historiadores e grandes homens de letras, precisava dele, do apoio da sua voz, do fulgor da sua ilustração? Que honra, que doce consolo aquele que lhe ia bater à porta nas últimas horas da sua vida, exatamente quando ele curtia a amargura de pensar que tinham há muito posto sobre o seu nome uma pedra ainda mais pesada do que a outra que botariam em breve sobre o seu corpo! 

Alvoroçado releu o ofício, passou-o à neta, ouviu-o ler de novo; mandou chamar a família inteira, comunicou-lhe o sucesso, com ar rejuvenescido, contente. 

Ele faria por aceder ao convite! 

Opuseram-se todos. Seria a sua ruína; que dormisse descansado, sem atormentar a imaginação. 

Que se lembrasse dos conselhos do médico... e que mais isto e que mais aquilo... 

Falassem pra ali! Ele já nada ouvia. Escorregou nos seus travesseiros, fincou o olhar na cúpula do cortinado, e nem mais palavra. 

Fecharam a janela, aconchegaram-lhe ao corpo mirrado as dobras da colcha, cerraram o cortinado e – chut ! – saíram em bicos de pés. 

No seu grande leito, o Dr. Paula Guedes, muito branquinho e engelhado, de mãos postas, tal e qual como na véspera, quando a Visita de Deus entrara no seu quarto, via desfilar o cortejo extraordinário dos grandes vultos da história. 

Galeras a todo o pano singravam as ondas aniladas com rumo às terras formosas em que soavam a língua dos Tupis e a língua dos Guaranis. 

O espírito do velho Dr. Guedes lá se remontou a 1553, sorrindo ao vulto pálido e severo do moço Anchieta, acompanhando -o pelas selvas negras e as montanhas pedregosas, vendo-o escrever os seus versículos sacros e arrebanhar crianças para as procissões. 

Começou então a pensar na construção do seu discurso. Dividi-lo-ia em grandes períodos, com toda a sua minúcia e caturrice acadêmica; deveria ser uma peça substanciosa, por vezes anedótica, mas sempre elevada. O seu maior empenho era o de fazer este discurso mais brilhante que todos os outros que tinha deixado atrás de si, espalhados pelas salas, pelas revistas e pelos arquivos. A palavra entontecia-o, arrastava-lhe o pensamento na sua torrente macia, onde as ideias lampejavam como faúlhas imorredouras. 

O orador começava a achar intolerável a demora no leito. Veio-lhe a saudade das suas estantes, do conforto da sua biblioteca, da comodidade da larga secretária, tão afeita ao peso do seu braço amigo. 

Já não sentia frio, já não lhe doíam os membros lassos, quase inertes; aquele convite do Instituto fora a providência; trouxera-lhe um pouco de mocidade; era uma ressurreição!

Oh! o Instituto não se esquecera... estava tranquilo: deixava um nome, faria falta! 

Trouxeram-lhe leite; bebeu-o de um trago e reclamou papel e lápis. 

Houve rumor em casa. Consultaram-se uns aos outros. Dariam o lápis? Dariam o papel? Uns diziam que sim, outros que não; e entretanto ele, murcho e débil no meio dos seus almofadões, coordenava as suas memórias históricas, organizando uma obra digna do assunto, com um pouco de fantasia que lhe adoçasse a sobriedade dos dizeres clássicos, em português bem literário e castiço como se prezava de escrever. 

Trouxeram-lhe afinal o papel e o lápis, e a pouco e pouco foi-se o leito juncando de livros, arquivos, glossários, volumes de história. 

O Dr. Paula Guedes já não carecia da botija de água a ferver para os pés; um calor confortativo, de vida, alastrava- se por todo ele, em uma febre doce, que punha cada vez mais aceso o enxame de mosquinhas de ouro dos seus olhos encovados. 

– Cada louco tem a sua mania; resmungava a família descontente, com medo daquele trabalho penoso para um corpo sem sangue, prestes a cair. 

Entretanto o discurso ia indo, caudaloso, nos moldes velhos a que o orador se acostumara e que considerava, como bom retórico, os únicos capazes de bem levantar as almas. 

O milagre fez-se. O velhinho parecia ter adiado a morte, e levantou-se oito dias antes da grande solenidade, com o seu discurso arquitetado e as mãos cheias de notas que ele coordenou na grande secretária da sua biblioteca. 

Tudo concluído, recomendou às filhas que lhe preparassem o terno da casaca, as luvas e a gravata branca, mais as suas comendas que ele, grande respeitador das velhas instituições, usava sempre nas funções solenes. 

Naquela febre, todo voltado para o ideal e para a história, o velho Dr. Guedes rejuvenescia, como se mão misteriosa o ajudasse, invisivelmente, a caminhar na vida. 

Dias antes da cerimônia quis ensaiar-se e experimentar o seu fato, há tanto tempo guardado no fundo escuro do armário. 

Preparou-se; o corpo nadava -lhe dentro do pano preto; e dentro do colarinho engomado o seu pescocinho fino mal parecia dever sustentar-lhe a cabeça branca, recheada de ideias e de imagens gordas. 

Para que o ensaio fosse completo abriu-se o salão da frente, acenderam todas as arandelas, e os filhos e netos sentaram-se disseminados, como se com a dispersão parecesse aumentado o auditório. 

Dr. Guedes entrou com passo firme, à força de energia, sorriu, fez a mesura do estilo: – “Minhas senhoras! Meus senhores!” – e, folheando os seus manuscritos, começou a falar em voz fraca, espalmando no ar a mão direita, enquanto a esquerda carregava as vinte e seis tiras do papel almaço. 

O seu primeiro discurso não o comovera tanto. É que ele agora julgava-se esquecido, perdido da memória dos seus contemporâneos e daquelas gerações que tinham sucedido à sua, com menos brio e piores armas. Agora estava consolado: o Instituto lembrava-se, e o Instituto valia tudo! 

Com as condecorações reluzindo-lhe no peito magro e fundo, o Dr. Guedes procurava dar gravidade ao gesto e sonoridade à voz; mas os óculos descaíam-lhe, a vista faltava-lhe e a palavra perdia-se em um som rouco e débil. Ele mal percebia tudo isso, aproximava-se da luz, sustinha com os dedos trêmulos o aro de ouro dos óculos... E as filhas choravam, constrangidas, muito caladas, engolindo as lágrimas. 

Quase no fim, em um dos seus melhores períodos, em que ideias e palavras desabavam com fragor de catadupa, ao esboçar um gesto, o doutor Paula Guedes estacou, abriu os dedos e deixou voar para o chão as tiras do seu discurso. Acudiram todos; receberam-no nos braços, deitaram-no no seu grande leito de peroba, e, quando olharam de perto para o seu rostinho lívido, viram que das suas pupilas fundas a última mosquinha de ouro tinha partido, como a última abelha do cálix  de uma flor murcha. 

Então, a mais calma das filhas reuniu as tiras esparsas do último discurso do pai, dobrou-as e meteu-as carinhosamente no bolso da casaca, tal e qual como se ele, em vez de ter de ir para o cemitério, tivesse de ir para o Instituto!

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