quinta-feira, 27 de outubro de 2022

O último raio de luz (Conto), de Júlia Lopes de Almeida


 
O ÚLTIMO RAIO DE LUZ
 

Ainda me lembro do último raio de luz que me feriu as pupilas. Sol! sol! por que não te hei de esquecer? 

Era em maio. A janela do meu quarto dava para o mar, e havia uma larga moldura de rosas amarelas que a circundava toda. Eu tinha quinze anos só. O médico ia todos os dias ver os meus olhos e quedava-se longo tempo a falar com minha mãe, descrevendo-lhe o meu mal, pedindo-lhe desvelo, arregaçando-me as pálpebras, admirando a limpidez do meu olhar azul e inocente. 

Eu ouvia-o falar em amaurose com uma piedade tão comovente, que me enternecia. Qual era a minha doença? Ignorava-o eu; minha mãe compreendia-a, respondia com voz mal firme às perguntas e prescrições do doutor. Ele era moço, era formoso e era meigo; que havia de estranhável em que eu o amasse? 

Amei -o; mas eu só tinha quinze anos e ele já tinha trinta! Para ele eu era uma criança apenas, uma flor mal desabrochada e triste. Sorria-me com a doçura que os desgraçados inspiram, eu bebia-lhe a voz com a sofreguidão indefinida que o primeiro amor dá! Para mim, ele era tudo! Tremia com o vê-lo e senti-lo ao meu lado, o coração batia-me com força, as fontes latejavam-me, um desmaio de ventura percorria as minhas veias, ia no meu sangue; era o meu sangue mesmo, girando dentro da minha carne fresca, rosada e pura, ora impetuoso, ora brando, que me sobressaltava, avermelhando-me as faces, ou me enlanguescia, matando-me de gozo. Quinze anos! oh, meus quinze anos! quão longe estais! Quando passo as mãos pelos meus cabelos, que devem estar brancos, e os dedos encontram no meu rosto as rugas da velhice, treme-me no peito uma saudade daquele tempo de primavera, e sinto as lágrimas rolarem-me pelas faces. Só para chorar não morreram os meus olhos, bendito seja Deus! 

Um dia o médico tapou-me a vista com um lenço escuro. Senti-lhe as mãos emaranhadas no meu cabelo loiro, e a sua voz clara e sonora dizer-me junto ao ouvido:

 – Conserve-se assim alguns dias; não retire esse lenço sem meu consentimento... do contrário ficará cega... cega, ouviu? Promete-me obediência? 

Prometer-lhe obediência foi para mim uma felicidade. Obedecer ao homem que ama é para a mulher um gozo esquisito, terno e perfeito. Acenei-lhe que sim. Passei alguns dias imóvel; mãos cruzadas no colo, como uma figura de santa paciente, feliz na sua resignação! 

Ao redor de mim tumultuava a casa. As crianças corriam, chamavam-me, diziam que o tempo estava formoso, que havia novas flores na minha roseira; que a mamãe fizera outro manto para a imagem do meu oratório... As criadas vinham contar proezas dos meus animais favoritos; minha mãe, tão discreta, essa mesma deixava-se levar no en-tusiasmo de quem vê, e volta e meia tinha uma exclamação de espanto ou de alegria que me impeliam a arrancar o lenço para ver também. 

As mãos, porém, não se descruzavam; o sacrifício feito para obedecer-lhe tornava a obediência mais querida ao meu coração. Eu supunha que ele conheceria, perceberia, apalparia, por assim dizer, todas aquelas atribulações, todos aqueles sentimentos que se agitavam dentro de mim. Eu devia ser como um cristal, e cuidava sê-lo aos olhos do meu médico! De todas as pessoas da família, minha irmã mais velha era a mais doce. Ao pé de mim não gabava a beleza que os seus olhos vissem; acariciava-me como a uma pomba cansada, a quem se teme magoar as asas. Pobre de minha irmã! Com a falta de vista fui apurando o ouvido, de tal sorte que o mínimo som chegava até mim perfeitamente limpo. Uma agulha que caísse no chão, uma palavra mal segredada, um suspiro retido a meio, um sopro, um voar de asas finas do mais pequenino inseto constituíam o meu drama, todo o meu mundo visível, porque enfim eu via pelo ouvido, pelo ouvido reconstruía imaginariamente todas as cenas! Chegava a adivinhar a intenção das pessoas, a maneira de ocultarem sob palavras brandas e quase indiferentes a admiração que algum objeto lhes causasse; a recusa íntima de coisas que os lábios consentiam, ou o consentimento de outras que o espírito recusava! 

Principiei a conhecer que toda a gente mentia mais ou menos em minha casa, e que o exemplo vinha desde minha mãe e de meu pai. Não era só a mentira grosseira, áspera, rude, vulgar; o que eu percebia ia mais longe: sentia a mais tênue, a mais fina, a mais vaporosa sombra de falsidade. Tristes momentos em que a cegueira nos descortina segredos, que desejaríamos ignorar toda a vida! Para eu não ser má, valia-me a paixão pelo médico. O amor abria-me a alma, enchia-me o coração de bênçãos, e para cada defeito que eu descobrisse na voz de alguém, tinha um perdão no meu seio! 

Um dia, não se puderam calar e entoaram todos louvores ao sol. 

– Há muito que não faz um tempo assim! exclamava um. 

– Dá vontade à gente de passear! dizia outra, rindo. 

Eu sentia o calor brando e doce do sol de maio, e as minhas narinas dilatavam-se ao aroma das rosas francamente abertas. Voavam andorinhas perto das janelas, e o flu-flu das asas soava no ar deliciosamente. Alguém passava na praia cantando uma cançoneta alegre, e as crianças riam alto na varanda, correndo atrás do meu cão predileto. 

Oh, se eu pudesse correr ao sol! colher flores para o meu amado, cantar as canções felizes que a vista do mar me inspirasse, como seria bom, como seria bom! E as mãos apertavam- se mais, com medo de desobedecer ao meu senhor, ao dono do meu destino, do meu terno coração de quinze anos, todo primavera, todo amor, todo esperança. 

Comecei a rezar baixo, mentalmente mesmo, pedindo à virgem minha patrona que desse saúde aos meus olhos cansados da escuridão. Tive de interromper a minha prece... No jardim havia um sussurro brando que me fez estremecer. Ergui- me e fui, tateando, à janela. Vi todas as flores, nos seus perfumes, o calor ameigou-me a pele, o mar rolou uma queixa doce aos meus ouvidos; as mãos trêmulas desligaram-se-me: ouvi então a voz do meu médico falando de amor a minha irmã... 

Uma ilusão! sim! era uma ilusão tudo aquilo; e, para convencer-me, eu, desgraçada, arranquei dos olhos o lenço escuro. O sol! Só vi o sol... mais nada! O sol furioso, dardejante, afogueando tudo, mar, céu, terra, plantas, como brasa ardente e cáustica a rebrilhar em toda a natureza, tingindo de ouro vivo as cores mais delicadas, ferindo de morte os meus pobres olhos de virgem apaixonada... 

Agora, quando os filhos de minha irmã me perguntam qual foi a última impressão que tive pelo olhar, mal lhes respondo e quedo-me a rever-me nos meus quinze anos, sentindo que, ao menos para chorar, ainda vivem os meus olhos, louvado seja Deus!

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