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5/10/2019

Filomena Borges (Conto), de Aluísio Azevedo


Filomena Borges

I
Sabemos que é geral a ansiedade por descobrir o mistério em que se envolve a individualidade conhecida pelo nome que encima estas linhas.

De há alguns dias conhecíamos parte do romance – se romance podemos chamar a uma história tristemente verdadeira – de que é heroína, protagonista, vítima, e não sabemos que mais, aquela mulher que é hoje célebre por andar o seu nome por toda esta população, repetido de boca em boca.

E sabíamos da sua história, porque nô-la referira a pessoa que assina a carta que abaixo transcrevemos, e que, tendo dela ligeira notícia, dirigira-se pessoalmente a tomar informações, e voltara trazendo-as, e as mais preciosas.

Encetaremos, pois, brevemente, a história da vida de Filomena Borges, escrita pelo conhecido romancista Aluízio Azevedo.

Eis a carta que ele nos enviou:

“Sr. Redator da Gazeta de Notícias. – Não é uma questão de interesse próprio que me traz ao seu conceituado jornal. Também não venho tratar de política, nem de ciência nem de literatura. Não.

Meu fim único, dirigindo-me a vossa senhoria, é cumprir um dever de consciência, um dever de justiça.

Neste instante, Sr. Redator, acabo de chegar da casa de Filomena Borges, e é ainda dominado por uma impressão violenta que lhe escrevo estas linhas.

Nunca imaginei que o ódio, a intriga e a inveja conseguissem tanto! Nunca me persuadi de que o espírito do mal fosse tão longe!

Bem sei que Filomena não é um modelo de virtudes domésticas; bem sei que na febre de suas paixões mais de um futuro se tem estiolado; bem sei que muito coração ainda hoje sangra a ferida de seus ósculos vermelhos.

Mas será ela porventura a maior culpada de tudo isso, será ela a única responsável pelo mal que fez e pelas fortunas que destruiu?!

Não caberá alguma parte dessa culpa a nossa sociedade, aos nossos costumes, à nossa educação, e finalmente ao triste meio onde cresceu e palpitou essa desventurada e formosa criatura?!

As mulheres são fatalmente aquilo que os homens decretam que elas sejam.

Filomena Borges é um produto legítimo dos vícios e da covardia de seus pais.

Se não a educassem no falso luxo; se não lhe ensinassem todas as misérias de uma pobreza sem coragem e sem dignidade; se não a vendessem ao primeiro noivo rico e brutal que a desejou: Filomena Borges seria talvez neste instante o melhor modelo das mães de família.

Eu também a detestava; eu também a temia. Não foi sem escrúpulo que cheguei ao lado dela. Mas, depois que a encarei de perto; depois que lhe sondei todos os arrebatamentos da alma apaixonada; depois que a ouvi nesses momentos terríveis da desgraça em que se não pode fingir, ah! então compreendi que, melhor do que o desprezo, merecia a infeliz, compaixão e consolo.

Hoje ninguém ignora o que há a respeito dessa pobre criatura desamparada; todos sabem a perseguição de que ela é vítima, e toda a grande tempestade de cólera que lhe paira sobre a cabeça.

Formaram-se grupos, inventaram-se clubes para a perseguir. Homens poderosos e mulheres felizes pedem o seu quinhão de vingança, como esfomeados que exigem pão. Multiplicam-se as cartas, os artigos, os cartões postais, os ditos maldizentes, as pequenas conversas intrigantes; e, todavia, Filomena Borges, a temível, a medonha Filomena, chora e pede por amor de Jesus que não a condenem sem a ter ouvido.

Ainda ontem um cidadão, cujo nome abstenho-me por ora de citar, chegou a quebrar-lhe os vidros da janela, depois de me dirigir da rua os maiores insultos. Um capitão do exército jurou que lhe havia de meter uma bala nos miolos, se ela não tratasse quanto antes de sair do Rio de Janeiro. A Sra. baronesa X… mãe de três rapazes, e em vésperas de ser avó, remeteu-lhe unia carta, que faria temer um oficial de artilharia.

E, no fim de contas, qual é o motivo de tanta guerra?! De que lado esta a razão?!

Isso só o público decidirá, depois de ler o apanhado de todos os fatos, o extrato de todos os documentos, que me foi permitido descobrir a respeito de Filomena Borges.

Não hei de inventar, nem esconder coisa alguma; a verdade aparecerá nua e limpa, ainda que tenha de arcar com o ressentimento de algumas pessoas.


II
Antes de principiar

– Leste Filomena Borges!

– Li.

– Que tal?

– Uhm! Assim!…

– Por quê?

– Pouco enredo… pouca forma… e, com franqueza, achei tudo aquilo falso.

– Falso? Não! Isso tem paciência. Tudo aquilo é vazado na observação e na verdade!

– Talvez seja por isso mesmo! Nesse caso há excesso de fidelidade e a coisa parece falsa. Às vezes um retrato a óleo é mais verdadeiro do que uma fotografia.

– Ora essa!

– Parece-te unia asneira o que acabas de ouvir, mas não é, acredita! Nada é tão inverossímil como a própria verdade, quando ela se apresenta com toda a brutalidade de seu peso.

– Estás metafísico, homem!

– Não sei se estou metafísico, o que te afianço, é que não gostei da tal Filomena Borges, tão apregoada, tão ansiosamente esperada. Confesso, achei-a fraca, desengraçada, inútil. Pode ser, se o romance não fosse tão anunciado, que eu achasse bom, porém puxaram tanto pela minha curiosidade, tanto mexeram comigo, que, palavra de honra, esperava outra coisa.

– Ora! Isso não é crítica!

– Mas que queres, filho… Tenho eu culpa que a tal Filomena, uma mulher que leva o seu histerismo à loucura, não me haja agradado?! Tenho eu culpa de não poder suportar o tal Borges com a sua ingenuidade pulha?… O Gutierres, com a sua má língua; o Barroso, sempre feliz em público e desgraçado consigo mesmo? Sou o responsável por não acreditar naquela viúva Perdigão, naquele Barradinhas, naquele Urso?!… Não! Tem paciência! Mas o tal Aluísio pode limpar as mãos à parede! – O seu novo romance é um atentado contra a verdade!

– Ora, deixa-te disso! Tu mesmo, na tua vida, atravessaste já algumas das situações que se encontram em Filomena Borges; tu mesmo já passaste por muitos daqueles transes; não negues! Bem sabes que eu conheço a tua vida tanto como a minha!…

– De acordo! Convenho que aí esteja descrita muita coisa que se tenha dado comigo. Mas será isso uma razão para gostar do livro… Não me parece que seja!… Eu quero que um livro me faça rir ou chorar, não há dúvida; mas, com os diabos! quero que ele me faça rir com os ridículos alheios, e chorar com as dores que não são minhas! Quero chorar para me divertir, e não para sofrer, percebes tu?

– Mas, filho, olha que estás a cair em contradição, porque, se todos pensarem como tu pensas, não haverá meio de fazer um romance real!

– Sim; mas é que há umas tantas verdades que estão conosco, em nossa inteligência, e que, todavia não existem na vida de ninguém; por exemplo…

– Não! não cites! Já vejo que não chegaremos a um acordo; quanto mais citares, é pior!

Eu, por mim, digo-te ingenuamente: não desgostei de Filomena Borges. Achei-a fora do comum, despretensiosa e divertida.

– São opiniões! Eu não lhe descobri nenhuma dessas qualidades! Não sei qual seja o fundo filosófico daquela obra, não sei o que ela prove, o que ela afirme!

– Nem eu, mas fico satisfeito em saber que ela divertiu, que ela me prendeu a atenção por muitos dias! E, digo-te agora: certas cenas que encontrei ali, fizeram-me pensar… Acredito que em tudo aquilo há uma intenção muito acentuada, há a intenção de…

– É inútil continuares! Já sei do que me vais falar, e a esse respeito temos conversado!

– O que eu vejo, é que é muito difícil escrever romances no Brasil!… O pobre escritor tem a lutar com dois terríveis elementos – o público e o crítico. O público que sustenta a obra e o crítico que a julga e às vezes a inutiliza; o público que compra um livro para aprender, e o crítico que exige que o livro sustente as suas ideias e pense justamente com ele – crítico.

– E daí?

Daí é que tudo isso seria muito razoável, se o público caminhasse ao lado do crítico; mas assim não sucede – aquele navega ainda no romantismo de 1820, e este não admite literatura que não esteja sujeita às regras de 1883. A dificuldade está em agradar a ambos, ou, ao menos, não desagradar totalmente a nenhum dos dois. Isso, quero crer, é a grande preocupação de Filomena Borges. Ela tanto pertence ao público como pertence ao crítico.

Será este o diálogo que se travará depois do último folhetim de Filomena Borges?

Pode ser. Em todo o caso, a obra principiará a sair de amanhã em diante no rodapé desta folha, e o leitor que a julgue à vontade, que diga o que entender, que a condene ou que a proteja, porque eu cá tenho as minhas razões para não a ter feito melhor nem pior.

Boa ou má, esta é a única Filomena Borges, legítima, verdadeira, a Filomena Borges da Gazeta de Notícias, aquela que mandou o seu cartão a vários cavalheiros desta cidade e aquela de quem até hoje se tem ocupado a nossa imprensa e o nosso público.

Sirva isso de resposta às cartas dos senhores A. P. Ramos de Almeida, Niemeyer, L., O. Borges, P. de Oliveira e tantos outros que me honraram com as suas letras; como igualmente sirva de réplica ao Sr. Júlio Alberto Machado, que não teve o menor escrúpulo em aproveitar aquele nome para título de um romance de sua folha, e, outrossim, ao velhaco que publicou há pouco tempo um detestável fascículo intitulado: Filomena Borges, a mulher demônio.

O público que evite as contrafações e desconfie das Filomenas que não trouxerem o seguinte carimbo:

Aluízio Azevedo
Gazeta de Notícias, 1883.

Rendas e fitas (Conto), de Aluísio Azevedo



Rendas e fitas

– Olá! exclamei eu, vendo saltar do bonde de Botafogo o meu querido Ernesto Branco. Bons ares te tragam! Como vais tu? Mas que diabo de cara tens agora? Estás zangado?

– Ora! Não me fales! Não estou zangado; estou aborrecido. Aborrecido com esta vida infernal do Rio de Janeiro; aborrecido com este calor selvagem, este calor inimigo da civilização e do trabalho; e aborrecido principalmente com as nossas patrícias, esses monstros de olhos sedutores e sorrisos virginais!

– Ó diabo! a coisa agora é mais grave… Dar-se-á o caso de que o meu espirituoso amigo levasse tábua de alguma moça com quem estivesse para casar?…

– Hein?! Casar?! Eu?! Com quem?!

– Oh! com qualquer moça do teu gosto…

– Por quê! Que mal fiz eu, para me condenarem assim, sem apelação nem agravo!… Casar! Casar com uma dessas criaturinhas que neste instante acabam de encher-me de indignação e de vergonha? Casar com uma dessas moças ignorantezinhas, pretensiosas e malcriadas? Oh, nunca! Nunca! Nunca! Antes ser cão de cego; antes ser ministro do Sr. Floriano; antes ser leitor do Fígaro!

– Mas, que te fizeram, Santo Deus! para te ver neste estado de cólera contra o sexo mimoso?… para te ver assim terrível e feroz contra essas belas flores com alma, que são o encanto da nossa vida, o perfume do nosso lar, a segurança da nossa felicidade?…

– Que me fizeram? perguntas tu! Oh! dir-se-ia que nunca viajaste em um bonde em que vão patrícias nossas! Dir-se-ia que nunca cedeste o lugar a uma senhora, para vê-la aceitar a tua fineza, sem voltar sequer o rosto, quanto mais dizer “Muito obrigada!”

– Acanhamento!…

– Qual acanhamento! São acanhadas para cumprir com tão insignificante preceito de boa educação, mas não lhes falta desembaraço para protestar com uma careta, e às vezes até com um muxoxo, quando lhes chega a vez de se incomodarem para te dar passagem!

E o modo afrontoso e impertinente com que elas observam e esmerilham, medindo da cabeça aos pés, as pessoas que entram no bonde, será também acanhamento …

– Curiosidade de mulher…

– De mulher mal-educada! É muito feio que uma moça, pressuposta inocente e virginal, ou mesmo uma senhora já casada ou viúva, não possam ver entrar uma cocote no bonde, sem se voltarem de nariz torcido, sem a medirem com desprezo e azedume, arriscando-se a ouvirem uma merecida resposta! E não é preciso que seja uma de chapéu tapageur e vestido de cor criard a pessoa que entre no bonde, para ser analisada deste modo; basta ser uma estrangeira, uma estrangeira que não se vista pelo detestável gosto com que se vestem as nossas damas; quer dizer que não venha coberta de seda e veludo por um dia de sol ardente e não traga em cima de si todas as cores do céu e do inferno!

– Tu exageras!

– Não exagero tal! Agora mesmo acabo de presenciar revoltado uma dessas cenas. Estava uma família ocupando o banco em frente do meu: uma velha, uma senhora de meia idade, e duas moças de quinze a vinte anos; todas as quatro tudo que há de mais tipo brasileiro e de mais ridículo.

O grupo formava uma orgia de cores, de flores e de fitas; uma loucura de sedas, de lãs, de veludo, e de algodão.

Entra um casal americano do norte. O homem de calça e paletó de brim, chapéu de palha com toalha em volta, e guarda-sol de pano claro, a mulher com um singelo vestido de linho cor de palha, enfeitado de rendas da mesma cor, e na cabeça um abajur de linho branco, preso despretensiosamente ao pescoço por duas pontas largas de cadarço.

Pois, meu amigo, não imaginas o rebuliço que se produziu naquela família com a chegada deste casal, que aliás, nada mais fez do que entrar, assentar-se e pôr-se a conversar em voz baixa, natural e discretamente.

Oito olhos arregalados cravaram-se imediatamente sobre a americana com tal insistência que a nobre senhora começou a examinar-se, e perguntou depois ao seu cavalheiro se ela tinha em si alguma coisa que chamasse a atenção.

“Deus te livre!” disse a velha, com arrelia, dando um estalo de língua e torcendo enojada a cabeça, como para não continuar a ver um espetáculo indecoroso.

“Iche! desdenhou por sua vez a quarentona. Esta gente não tem vergonha de sair assim à rua?… Parecem mascarados, Deus me perdoe!”

E as duas moças começaram, de lenço contra a boca, a emitir consecutivas gaitadas de riso, e a remexerem-se no banco, e a cochicharem tão impertinentemente, que os americanos voltavam a cabeça de vez em quando, patenteando na fisionomia o mais completo ar de intriga e de assombro.

Não ouvi o que eles disseram lá entre si; vi, apenas, o desdenhoso movimento dos seus lábios e senti venetas de estrangular aquela família brasileira, tão tola, tão ridícula, tão chinfrim!

E ainda me vens falar em casamento! Mas a ideia que me dá ânimo para continuar a viver; a única razão por que não me atiro ao mar; o meu único momento de felicidade, é quando me lembro de que aqui no Rio de Janeiro, onde todos são mais ou menos casados, eu me conservo solteiro como no dia em que nasci! E, juro-te que não é da febre-amarela, que tenho medo, nem das bexigas, nem do beribéri, nem da legalidade do Sr. Floriano, nem da queixada do Sr. Aristides, é daquilo que ali vem. – Olha!

E Ernesto apontou para um grupo de três mocinhas que se aproximavam de nós, muito risonhas, acompanhadas pela mamãe; e deitou a fugir como um louco em direção contrária, a gritar.

– Livra! Livra!

E foi-se.

***

Não, Ernesto, vem cá. Senta-te aqui; conversemos tranquilamente. Não comeces a gesticular como um louco e a dardejar paradoxos a torto e a direito! Ouve-me quieto e responde com bons modos, se não me queres ver tomar o chapéu e desaparecer pela porta da rua.

– Vamos lá!

– Foste ontem injusto e severo demais com as nossas patrícias. Concordo que nem todas as brasileiras mereçam a minha defesa; sei que há por aí muita mocinha impertinente e muita senhora insuportável, mas ninguém pode negar que a brasileira em geral é meiga, virtuosa e asseada,

– Não foi disso que tratei!

– Ouve. Tu conheces bem o tipo da inglesa, com a sua barriga de tábua, com o seu cabelinho louro grudado à cabeça e enrolado pobremente sobre a nuca; com a sua cintura de lâmina, muito estreita vista de lado, muito larga vista de frente; com os seus pés espalmados e longos, como uma canoa de pescador emborcada sobre a praia; conheces a famosa Miss, tão celebrada pelo lápis de Gavarni; essa misteriosa criatura de olhos celestiais, que em viagem se parece com um guarda-chuva inglês, metido cuidadosamente dentro da capa, e que em casa, no interior, lembra um vaporoso e fino caramelo encimado por uma trouxa de fios de ovos. Conheces a mulher inglesa?.

– Se conheço! Theóphile Gautier, o meridional romântico, o beduíno francês, que viveu para adorar as mulheres, e que amava e cultivava os gatos, por não poder fazer o mesmo com a pantera (que, depois da mulher, é o bicho mais feroz de criação), Theóphile Gautier dizia e repetia que as inglesas são as mulheres mais formosas do mundo!

– É exato. O que não impede que os outros franceses, ao vê-las atravessar o boulevard, tenham, sempre para ela as pilhérias mais terríveis e os ditos mais ridículos. Mas, passemos adiante: conheces igualmente a espanhola?

– Oh! Pergunta-me antes se conheço Byron! Não conhecer o tipo da espanhola!… Dançante seguidilha de amor que se transforma em mulher! Oh! se conheço! Mantilha, leque, castanholas e touros! Sou louco por ela! Vamos adiante!

– Pois, meu amigo, fica sabendo que as espanholas têm coisas detestáveis nos seus costumes. Â mesa, por exemplo: não há espanhola, por mais bem educada, que não leve a faca à boca, como se fosse um saltimbanco engolidor de espadas; e todas elas lambem os dedos; tiram com a língua o que fica de comida entre os dentes, e…

– É falso! É mentira! Não prossigas, ó caluniador! que te estrangulo aqui mesmo!

– E a italiana?…

– Oh! oh! O velho amor cavalheiresco! Beijos e punhaladas. Lábios grossos e quentes; punhais frios e penetrantes. Um conde assassinado ao luar, debaixo de uma ponte; a condessa veneziana fugindo com um tenor de olhos ardentes!…

Conheço! conheço! mas tudo isso cheira-me um pouco a macarrão e realejo!

– Quando não cheira pior… porque, meu caro, debaixo de todo aquele romanesco lírico e daqueles transportes de paixão, com punhal, cabelos soltos e dentes cerrados, mal sabes o que vai! A italiana em geral é boa para ser vista de longe. Só tem efeitos cenográficos. Não te aproximes muito dela, se queres conservar a bela impressão artística que recebeste!

– E da francesa? que me dizes tu da encantadora francesa?…

– Digo-te que é a mais vulgar de todas as mulheres… a que menos tem a linha original…

– Socorro! Socorro! Este homem acaba de enlouquecer!

– Não! Não enlouqueci! Não confundas a francesa com a parisiense. Fala-me desta, e eu te direi que a parisiense é a mulher mais feia e mais sedutora entre todas as filhas de Eva; eu te direi que só ela tem o segredo do amor que ri, e canta, e brinca; o segredo da amabilidade que satiriza e confunde como um piparote na ponta do nariz. Não é uma mulher, é uma bonita fantasia feita de cançonetas, aljôfares de champanhe e rendas valencianas!

– Seduzem-no mais o espírito do que os sentidos. É a primeira mulher do mundo.

– Não! A primeira mulher do mundo, meu querido Ernesto, é a brasileira.

– E por que não a portuguesa?

– Porque a portuguesa aos trinta anos, idade da grande afeição da beleza feminil, em geral começa a barbar e a criar umas singulares bochechinhas ao lado do queixo, que lhe tiram todo o encanto e lhe dão ares de abadessa.

– E a brasileira então? A brasileira aos trinta anos está coberta de sardas; já se não aperta; já se não penteia; anda em casa com o roupão desabotoado sobre o ventre; arrasta os chinelos, e, às vezes, fuma até cachimbo!

– Não é verdade! Ou tens consciência de que estás mentindo ou não sei que diabo de brasileiras conheces tu! Repito: a brasileira é a primeira mulher do mundo. Sela se reúne tudo o que as outras possuem de melhor; ela tem a graça e o donaire da espanhola; tem o calor e o arrebatamento da italiana; tem o coquetismo da francesa, tem o asseio e a virtude das inglesas e o talento doméstico da alemã.

– Só lhe faltam, para ser completa, as barbas à portuguesa!

– Mas tem uma coisa ideal, que nenhuma outra possui como ela, e é a meiguice, o carinho profundamente sincero, a dedicação sem limites pela pessoa amada. Só a brasileira, só ela no mundo, tem o segredo de dar cafunés e de fazer certos quitutes e certos doces que nos arrebatam! Só ela…

Mas Ernesto não me deixou prosseguir, ergueu-se indignado e exclamou, enterrando o chapéu na cabeça:

– Ora, vai-te para o diabo! Estás apaixonado por alguma pasteleira! E eu a dar ouvidos a este comilão!

E foi-se.

Uma Lição (Conto), de Aluísio Azevedo



Uma Lição

Era uma saleta ao lado de uma sala de jantar; ao fundo um reposteiro corrido com ares burocráticos; ao centro uma banquinha de charão, conspurcada de cinza de charuto e nicotina diluída em saliva. É noite e a luz que vem de cima, transbordando de um globo de gás, ilumina o grupo de três velhotes, mais ou menos barrigudos, que conversavam em voz baixa e com voluptuoso interesse.

Um deles acabou de contar alguma coisa que ainda faz rir aos outros dois. E, tal é o riso, que os três amigos, segurando cada qual a competente barriga com ambas as mãos, deixam-se cair para as costas do sofá e arfam ao som uniforme da mesma gargalhada.

– Ora o Silveira …. Ora o nosso Silveira!… dizia um, aproveitando as curtas intermitências da hilaridade. Não sabia, desembargador, que você em rapaz fora tão levado! Ora o demo!

O desembargador, limpando as lágrimas do riso, ia talvez contar mais alguma das suas, quando o terceiro velhote segredou ao grupo:

– Homem, deixe lá falar! todos nós pagamos o nosso dízimo ao diabo! Aqui onde me veem, pai de dois filhos homens, avô por aí naturalmente, e em vésperas de conselheiro do Estado; eu, acreditem, também tive as minhas rapaziadas…

Estas palavras acalmaram, como por feitiço, o riso dos outros dois, que se voltaram para quem as pronunciou, já dispostos a saborear a nova anedota.

– Uma ocasião – isto vai há coisa de uns trinta anos – principiou o quase conselheiro; uma ocasião, recolhi-me para o meu quarto de estudante, um pouco apressado pelo mau tempo, quando dou com uma rapariga muito hem parecida, que vinha em sentido contrário e sem guarda-chuva.

Instintivamente parei defronte dela. O demônio da pequena tinha uns olhos!… Parei e logo em seguida retrocedi, acompanhando-lhe o passo.

Ela não deu resposta.

No fim de três minutos acrescentei:

– Por que não aceita o meu chapéu?… Não posso ver uma dama apanhar chuva deste modo!

– Obrigada, volveu ela, sem me voltar o rosto.

E apressou o passo.

– Ingrata!

E apressei o passo também.

– Mau! exclamou a perseguida, estacando em frente de mim e desferindo-me um olhar, tão sobranceiro, imponente e tão digno, que eu abaixei as pálpebras e pedi-lhe perdão com um gaguejo.

– Não tive intenção de a magoar… disse. Vossa excelência apanhava chuva e entendi que era do meu dever oferecer-lhe uma parte do meu chapéu.

– E se eu fosse para muito longe?…

– A verdadeira cortesia não olha distâncias!…

Ela, ao que parece, compreendeu a sinceridade das minhas palavras, porque interrogou logo, desfranzindo o rosto:

– Foi então por mera delicadeza que…?

– Juro-lhe que sim, minha senhora. Uma vez, porém, que vossa excelência se julga ofendida, peço-lhe mil perdões e sigo de novo o meu caminho…

Nisto, uma formidável rajada de vento passou por entre nós, e a chuva recrudesceu tempestuosamente.

– E, para provar que não minto, acrescentei, entregando-lhe o chapéu, tenha a bondade de levá-lo, e depois mo restituirá…

– E o senhor?…

– Ali! Eu moro muito perto, naquele sobrado de alugar cômodos. Vossa excelência fará o obséquio de remetê-lo para o nº 5. Aqui o tem.

Ela consultou o tempo, mediu-me de alto a baixo e depois, tomando uma resolução, disse:

– Não! dê-me o seu braço e acompanhe-me ao canto da rua. Talvez apareça um carro.

Mal, porém, avançamos alguns passos, por tal forma recresceu a chuva, que era quase impossível prosseguir.

E esta?… resmungou ela, muito contrariada. Esta só a mim sucede!… A maldita chuva aumenta, e nada de aparecer um carro!…

Ao chegarmos à esquina, tivemos de parar defronte da grande enxurrada que cortava a rua. Não era possível ir mais adiante. De carro, nem sinal! As casas fechavam-se todas, se bem que não passasse de nove horas da noite; os relâmpagos repetiam-se num bruxulear elétrico, os trovões abalavam os prédios e faziam tremer os vidros gotejantes dos lampiões. Já ninguém se animava a afrontar o tempo; os próprios cães escondiam-se pelos batentes das portas trancadas.

E o meu belo par, muito impaciente, mordia os beiços e marcava compassos, espaçando a lama debaixo dos pés, sem dar palavra.

Eu também não dava.

Entretanto, não podíamos ficar ali: a peste da chuva crescia… crescia…

Em breve teríamos água até ao meio da canela. De vez em quando passava um carro, mas ao longe, com as rodas a levantar água, como as de um vapor.

– E agora?… perguntou-me a desconhecida, com raiva.

Eu sacudi os ombros.

Decorreu mais um instante.

– Se vossa excelência quisesse…

– Quê?

– É verdade que não tenho mais do que um pobre quarto de estudante, todavia…

– Entrar numa república?… Ora!…

– Perdão! Não é uma república, minha senhora. Moro naquele sobrado; casa muito séria, ocupo um quarto da frente, e…

– Que não pensariam seus companheiros!

– Moro só, vossa excelência não seria vista, nem desacatada por ninguém…

– Ainda assim seria estúrdio!…

– Em todo o caso, sempre me parece mais razoável do que ficar aqui, com este tempo!… A chuva não durará toda a noite… eu poderia arranjar um carro, e…

– Diga-me uma coisa: O senhor dá-me a sua palavra de honra em como será cavalheiro?

– Oh! minha senhora!…

– Jura que se portará condignamente comigo?… Jura que não me faltará ao respeito?…

– Dou-lhe minha palavra de honra!

– Bem. Aceito o seu convite. Estou certa de que o senhor não quererá desmerecer da confiança que me inspirou! E vamos, vamos que já me sinto resfriar até aos ossos!

Dei-lhe de novo o braço e voltamos ambos por onde tínhamos andado.

Na ocasião em que eu acendia a vela que costumava ficar atrás da porta da rua, a senhora ainda insistia, cravando-me um olhar muito sério!…

– O senhor promete então quê …

– Pode entrar descansada, minha senhora!

E as nossas duas sombras estenderam-se juntas pelo fundo esvazamento de corredor.

Chegamos ao primeiro andar, abri meu quarto, dei luz ao gás, ofereci uma cadeira à bela hóspede e fui buscar a um canto uma garrafa.

– Acho que vossa excelência fará bem em tomar uma gota de conhaque… propus, enchendo dois cálices. Está frio e talvez vossa excelência sinta os pés molhados.

– Não, os pés estão enxutos; trago galochas. Mas aceito.

Bebido o conhaque, a senhora começou a correr com os olhos uma silenciosa revista no aposento. Em seguida ergueu-se e foi, um pouco apavorada, contemplar de perto o meu esqueleto de estudo, que jazia pendurado ao fundo do quarto; depois encaminhou-se para a minha pequena mesa de trabalho, abriu os compêndios que aí estavam, fez uma careta de indignação à vista das gravuras de um tratado de fisiologia, que lhe caiu às unhas; e ficou muito espantada encontrando sobre o criado-mudo um revólver e um carregamento de balas inglesas.

– Isto então é o que se chama uma república?… perguntou afinal, abrangendo com um gesto o que seus olhos lobrigavam.

E depois da minha resposta:

– Mora inteiramente só?!

– Inteiramente.

– E tem família?

– Em Minas.

– Ah! É da província. Está há muito tempo na corte?

– Há cinco meses.

– Apenas?…

E aproximou-se de mim.

– É exato, disse eu. Ainda não conheço bem isto por aqui…

– Tem gostado?

– Nada posso dizer por enquanto. Minha vida tem sido tão pouco divertida… Saio de casa para as aulas, das aulas para o restaurante e do restaurante para casa. Ainda não tenho amigos…

– Deve então sentir muita saudade da família…

– Pudera! Vivi sempre em companhia dela, e agora, de um momento para outro, ficar assim tão só.. tão…

– Por que não mora com outros estudantes?

– Ainda não descobri um bom companheiro… Além disso, sou mesmo um pouco esquisito de gênio. Prefiro estar só.

– Ah! Mas há de ter algumas relações…

– Muito poucas, e essas poucas em consideração a meu pai.

– E por que não frequenta os teatros?

– Vou de vez em quando. Não posso perder noites seguidas: quero ver se faço dois anos em um só.

– Ah! é estudioso!…

– Não sou dos mais vadios…

– Bom será que continue assim. Esta cidade é muito perigosa para os rapazes…

– Ora! não é tanto como se diz… Eu, pelo menos, confesso que supunha outra coisa!… Sempre imaginei gozar no Rio de Janeiro uma vida mais divertida…

– Em que sentido?

– Em todos. A respeito de amores, por exemplo, sou de um caiporismo!…

– Creio que levantou o tempo!… observou a senhora, afastando-se de mim escrupulosamente e lançando o olhar para a janela.

Eu supliquei perdão com um gesto de ternura e humildade.

– Tenha a bondade de ver se levantou o tempo, exigiu ela batendo com o pé.

– Chove a cântaros! Ah! mas pode ficar tranquila, que eu sei respeitar a quem o merece.

Ela deixou-se cair numa cadeira, soltando um suspiro de resignação.

– Vossa excelência toma uma xícara de café?… perguntei, indo buscar a máquina e a garrafa de espírito de vinho.

– Não se incomode por minha causa.

– Costumo fazer café todas as noites.

– Nesse caso…

– Tenho também requeijão e doce. Se vossa excelência quisesse… O que nos falta aqui é pão!

Ela sorriu à simplicidade destas palavras.

– E estou quase aceitando… respondeu já de bom humor, e vindo assentar-se perto da mesa, depois de tirar o chapéu e o mantolete.

– Bem. Vou num instante arranjar o que falta!…

– Com este tempo? Não! não consinto!

– É um momento! Não me molho! Há uma confeitaria na esquina! Ora! quantas vezes não tenho feito o mesmo com tempo ainda pior!…

Ela tornou a sorrir.

– Quer ver?… perguntei, lançando sobre a cabeça uma grande capa de borracha, sacando as botinas e as meias e enrodilhando as calças nos joelhos. De um pulo estou lá e de outro cá!

Ela soltou uma risada.

Voltei daí a meia hora, não com os pães simplesmente, mas também com uma empada de camarões, uma galinha assada, alguns pastéis de Santa Clara, duas garrafas de Borgonha e outra de moscatel de Setúbal.

– Que é isto, Nossa Senhora! exclamou a moça, largando o livro, que ficara a ler durante a minha ausência.

– Pareceu-me melhor cearmos juntos… Eu estou com tanto apetite!

– Que extravagância! Por isso é que vocês estudantes andam sempre atrapalhados no fim do mês!… Se esbanjam a mesada logo nos primeiros dias!…

– Mas eu faço nisto tanto gosto… Espero que vossa excelência aceitará uma asa desta galinha, que me parece deliciosa. Vamos! arranja-se a mesa aqui mesmo.

– E eu posso ajudá-lo, declarou a senhora, afastando os meus livros e os meus papéis para um canto do quarto.

– Tenha a bondade de não segurar o tinteiro desse modo. Está quebrado…

– Estes estudantes! Ainda chove muito lá fora?

– Chih! horrorosamente! Um dilúvio!

– E eu aqui!…

– Não terá motivos para arrepender-se, verá! Bom! agora, faz favor? Dê-me aqueles embrulhos que eu trouxe.

– Pronto!

– Obrigado.

– Três garrafas! -… Para que tanto vinho?

– Fica aí, se sobrar.

– Vocês!

– Muito bem! O diabo é que só temos um talher… Ah! posso arranjar-me com esta espátula e este canivete. Felizmente há dois pratos e não faltam copos. Principiemos!

– Isto contado não se acredita!

– Não sei onde esteja o mal!… Creio que não praticamos até agora nenhuma ação feia…

– Não digo que haja mal, nem que praticássemos ações feias, mas parece-me extraordinário, imprevisto pelo menos, achar-me neste momento ceando ao lado de um rapaz, que eu há duas horas não conhecia…

– Rapaz que procura merecer essa honra, esforçando-se para cumprir com os seus deveres de cavalheiro…

– O senhor como se chama?

– João Carlos do Souto. E a senhora?

– Não lhe posso dizer. Compreenderá que…

– Está claro, e não insisto.

– Espero mesmo que se algum dia nos encontrarmos noutro lugar, o senhor guardará toda a discrição sobre estas casualidades de hoje…

– Oh! certamente, minha senhora!

– Sim, porque afinal de contas não me pesa na consciência o que sucedeu… Se não fosse esta maldita chuva!…

– Diga antes: esta chuva abençoada!…

– Mau! Não vá por esse caminho, que vai mal! nada de galanteios!…

– Já aqui não está quem falou!

E calamo-nos os dois por um instante, a mastigar em silêncio, enquanto lá fora o vendaval esfuziava contra as janelas.

– Vossa excelência bebe tão pouco… não gosta de Borgonha?

– Gosto, e este me parece bem bom, mas não convém abusar. O senhor já tomou quase uma garrafa!… Cuidado!

– Ora, este vinho é inocente!

– Fie-se nisso!

– Quer mais um pouco?

– Vá lá!

– Além de que a chuva não parece disposta a parar tão cedo… Ainda sente muito frio?

– Já vai passando.

– Está aborrecida?

– Não. E a graça é que me chegou o apetite… Quer saber? vou repetir a empada!

– É tão bom comer em companhia, não é verdade? E agora, são bem poucas as vezes em que eu não como sozinho!… Isto para quem estava acostumado com família!… Por meu gosto, casava-me…

– Já tem noiva?

– Qual!

– Podia ter deixado alguma na província…

– Ninguém me quer…

– É porque ainda é cedo; quando chegar a ocasião…

– Estarei velho…

– Velho? tem graça. Que idade é a sua?

– Vossa excelência não acredita. Dezoito anos.

– Só?

– Mostro ter mais, não é?

– Parece ter vinte e tantos. Mas está criança; eu sim é que me posso chamar velha…

– Tem vinte, aposto!

– Acrescente mais cinco.

– Vinte e cinco… Ninguém dirá.

– E então que idade represento?

– Aí dezoito, quando muito…

– Lisonjeiro…

– Afianço-lhe que não sou…

E, com o pretexto de servir-lhe o doce, fui aproximando a minha cadeira da sua.

– Quê… Pois o senhor ainda vai abrir essa terceira garrafa?…

– Não nos havemos de servir de Borgonha para o doce…

– Não lhe faça mal!…

– Qual! Sou de cabeça muito forte!

– Então, à sua saúde!

– Obrigado. Toque!

– Sim; mas não precisa chegar-se tanto ….

– Eu não me estou chegando…

– Deixe-se disso! Lembre-se do que me prometeu!…

– Tem razão. Desculpe, e bebamos à saúde do feliz mortal que possui o seu coração…

– Não sei quem seja, mas acompanhado. Passe-me aquele queijo.

Em vez do queijo, o que lhe passei foi o braço em volta dos quadris, chamando-lhe a cabeça para junto dos meus lábios.

– Mau, mau, mau! exclamou ela, defendendo-se. O senhor parece que bebeu demais! Já não estou achando muita graça!

– Não são os vinhos que me embriagam… A senhora bem o vê.

– Não quero ver coisa alguma…

– Então, bem o sente…

– Não sinto nada!

– Adivinhe então, minha senhora, adivinhe o que não tenho ânimo de dizer, meu anjo!

– Ora bolas! Isso já passa de desaforo! solte-me! Se eu desconfiasse disto, não tinha entrado!

– Que queres?… A gente nem sempre se governa em certas ocasiões! És tão bela! tão bela! eu te amo! Sim! eu já te amo, minha flor!

E, como acompanhasse estas palavras com uma gesticulação em extremo correlativa, ela ergueu-se de improviso e fez menção de sair.

Alcancei-a já na porta do quarto e caí aos seus pés, envolvendo-a nos braços.

– Perdoa, perdoa, minha santa! exclamara, a cobrir-lhe de beijos as duas mãozinhas, que nessa ocasião me pareciam mais bonitas, sem luvas.

– Perdoa! sou um bruto, sou um grosseiro, mas…

– Quero sair! Já! Não fico aqui nem mais um instante! Deixe-me! Deixe-me!

– Pois sim, mas hás de sair depois de haver perdoado! Juro que estou arrependido do que fiz!

– Não sei! Deixe-me!

– Oh! Ainda chove tanto! Espere ao menos que chegue o carro que mandei buscar pelo caixeiro da confeitaria.

– Um carro?…

– Sim, e não deve tardar. É mais um segundo! Um segundo apenas!

– Mas se o senhor está com tolices!.

– Prometo não fazer nada!

– Jura!

– Juro!

– Ora, vamos a ver!

Acabamos de tomar café, quando a carruagem parou à porta.

– Ei-la aí! disse a tirana pondo-se de pé.

– Ainda chove… observei eu timidamente.

– Não faz mal!…

– Ao menos não se vá, fazendo de mim um juízo desfavorável, creia que…

– Não. Adeus. Não vou fazendo juízo algum! Adeus, obrigada!

– Jura que não está ressentida?…

– Pode ficar descansado. Adeus.

– Acredite que…

– Adeus!

– Não. Diga primeiro se ainda está contrariada! Com franqueza!

– Com franqueza – estou!

– Não me perdoa?…

– Não. Boa noite!

Acompanhei-a ao corredor e, já na porta da rua, ainda lhe pedi perdão.

***

Dois dias depois, entrando num hotel, habitado só por mulheres, fugiu-me da garganta um grito de pasmo:

– Que vejo?!... Pois é a senhora?! A senhora aqui?!

Ela soltou uma gargalhada e apontou-me com o dedo a três companheiras que lá se achavam.

– É o tal!…

– Ora esta!… resmunguei. Para que então me iludiu daquele modo?

– Iludi! Ó filho, eu estava no meu papel, fazendo o que fiz; tu é que não estavas no teu acreditando! Quem te mandou ser tolo?…

– É boa! disse um dos velhotes. É muito boa!

E as três barrigas tornaram-se a agitar nas convulsões do riso.