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5/17/2025

D. João Câmara: Os dez melhores contos (Seleção de Iba Mendes)

 

D. João Câmara (João Maria Evangelista Gonçalves Zarco da Câmara) legou ao panteão literário português (e  consequentemente aos países de fala portuguesa)  uma vasta produção como jornalista, dramaturgo, romancista e contista. Como contista nos legou leituras maravilhosas como o conto “Perdido”, que faz parte desta coletânea. 

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12/01/2017

O presépio (Conto), de D. João Câmara


O presépio
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)
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Havia quase um ano que estava na loja, mercearia num bairro escuro, em que mal entrava de esguelha, como espreitando a medo, um raio de sol, entre as casarias muito altas da rua tortuosa.
Com doze anos, que saudades tinha da aldeia, da família, dos antigos companheiros de escola, dos cães amigos que ladravam de noite a vigiar a casa!
Tudo lá tão longe! Ah! Se ele soubesse!...
Pois nem uma lágrima lhe viera anuviar o último adeus, quando a diligência dera volta na estrada e ele vira sumirem-se os choupos da ribeira e o lenço que mão saudosa sacudia no alto do cabeço.
É que o deslumbrava a ideia de Lisboa, de que tantas maravilhas grandes lhe contavam. Ainda agora partia, e já se via de volta na aldeia, de relógio e cadeia de ouro, a falar de alto, a puxar o bigode, a dar enchente, como o Januário, que lhe arranjara o lugar.
Com o seu examezinho de instrução primária, marçano de uma tenda... Não, que os pais não o queriam para cavador.
Tinham sido consultados o mestre-escola, o prior, o senhor Freitas, lavrador muito importante que arrastava tudo nas eleições, o Custódio, velhote de muito bom conselho, e todos se tinham mostrado de acordo: não havia como Lisboa para fazer um homem. Era ver o Januário que tinha casado com a viúva do patrão. A loja era de um cunhado dele, bom homem, áspero mas bom homem. Os olhos baixos do Manuelzito, fitos no chão, viam no tijolo resplandecer auréolas, que giravam como o fogo de vistas pelas festas.
Ah estava, havia quase um ano; e no desvão da escada, onde às dez horas o mandavam deitar, a morrer de calor no Verão, no Inverno a morrer de frio, punha-se a rever os campos e a casa deixados sem as lágrimas, que lhe corriam agora em grossos fios pelas faces.
Os primeiros dias tinham passado muito lentos.
A conselho do Januário, um biscoito ou outro da mão papuda e oleosa do merceeiro tinham-no ajudado na tarefa. Assim é que ele havia de ser homem, um dia. Mas o patrão mostrava maior pressa.
Pai, mãe e mestre-escola nunca lhe tinham batido. Atreveu-se uma vez a declará-lo. Foi pior. Chegou o Verão. As festas de São João e São Pedro aumentaram-lhe a tristeza. Reviu nesses dias mais intensamente a alegria da aldeia, os bailes à noite em volta da fogueira, a ida à fonte pela manhã, o sino a tocar à missa, e ele a pensar que, quando fosse crescido, havia de ter uma namorada por quem queimasse uma alcachofra, a quem cantasse umas quadras falando de estrelas e de flores.
A bulha nas ruas, nessas noites, não o deixara dormir. Cada bomba era uma pancada no coração. Um sol-e-dó que passou tocando arrancou-lhe lágrimas de imensa saudade.
Pelos Santos, com a melancolia do tempo, ainda foi pior.
Depois veio o Inverno, começaram os dias de chuva.
O mau tempo irritava o patrão, porque lhe afugentava fregueses. Na loja, com recantos muito negros, acendiam-se muito cedo os candeeiros, e o Manuelzito tinha pena da sombra em que se acolhia com maior amor. Pasmava os olhos, fugia com o pensamento para muito longe.
— Acorda, ralaço! — gritava-lhe o patrão.
Estava a chegar o Natal.
Que lindo era o Natal lá na aldeia!
Andavam na rua a abrir um cano; quase ninguém ali passava; os passeios eram cheios de lama. O patrão andava furioso.
Então o pequeno teve uma ideia.
***
Lembrou-se de fazer muito misteriosamente um presépio. O segredo em que havia de trabalhar mais o animava na tarefa.
Todos os dias, muito a medo, enquanto o patrão almoçava ou saía da loja algum instante, vinha à porta, se não havia freguês a servir, espreitava, corria, apanhava um nadinha de barro nas escavações do cano. Escondia-o, e debaixo do balcão, quase às apalpadelas, ia fazendo as figurinhas.
Assim modelou o menino Jesus, que deitou num berço de caixa de fósforos, Nossa Senhora de mãos postas, São José de grandes barbas, os três Reis Magos a cavalo, e os pastores, um a tocar gaita de foles, outro com um cordeirinho às costas, e uma mulher com uma bilha. Não se pareceriam lá muito; mas ele deu provas de que sabia puxar pela imaginação.
Sempre lhe faltava alguma coisa. Havia problemas difíceis de resolver.
Um dia, engraxando as botas do patrão, lembrou-se de engraxar um dos reis, e pôs-lhe depois umas bolinhas brancas, de papel a fingir os olhos.
Aos anjos fez asas com as penas de uma galinha que depenou para um jantar de festa que não comeu. Moeu vidro para fingir as águas do rio, e no papel de embrulho recortou um moinho que só havia de armar à última hora.
Levou nisso parte de novembro e dezembro todo, até ao Natal.
Escondia os materiais debaixo da enxerga e, de vez em quando, revia-se na obra.
O que mais o encantava era o menino Jesus, com a cabeça do tamanho de um grão de milho, com buraquinhos a fingirem olhos, ouvidos, nariz e boca. Tinha mãos com cinco dedos riscados a canivete e dois pezinhos que ele achava um encanto.
Com tiras de papel azul havia de fazer o céu e, como o não tinha dourado onde recortasse a estrela, fez em papel branco uma meia Lua; vinha quase a dar na mesma
Aquele mês passou correndo.
Era a véspera do Natal. As dez e meia, o patrão mandou-o deitar e saiu.
Que alegria estar só!
Não lhe deixavam luz; mas que importava? Às escuras armaria o presépio. E logo começou. Enrolou o moinho, pôs-lhe as velas; esticou o papel azul que fingia o céu e pregou nele com um alfinete a meia Lua; espalhou o vidro moído, num S em volta das palhas; dispôs as figurinhas, suspendeu os anjos. Depois fez uma carreira de fósforos de cera, que todos se tinham de acender ao mesmo tempo, num deslumbramento, quando desse meia noite.
Deram onze e três quartos.
Ajoelhou.
Batia-lhe o coração, que lhe parecia que deviam de ser milagrosas as figurinhas, que delas lhe viria algum bem, consolação da sua vida triste.
Que seria quando ele iluminasse o desvão da escada e os santinhos se pusessem todos a luzir quase tanto como os verdadeiros? Rezava-lhes... Rezava-lhes... Àquela hora, lá na aldeia, tocavam os sinos alegres e iam ranchos contentes a caminho da igreja. Lá dentro reluzia o trono, e o sacristão muito atarefado ia, vinha...
Meia noite!
Acendeu os fósforos e ficou embasbacado!
Nunca assim vira coisa tão perfeita. Os anjos voavam deveras, os cavalos dos reis galopavam, o rio corria, as velas giravam no moinho e os pontinhos do Menino Jesus sorriam-lhe no rosto a São José e a Nossa Senhora!
Pôs-se a cantar, como lá na aldeia:
Andava nessas campinas,
Esta noite, um querubim.
Tão enlevado cantava, que nem ouviu o patrão abrir a porta, entrar na loja, chegar ao desvão.
Acordou-o do êxtase um pontapé.
— Isso... Agora larga-me fogo à escada!... Varre-me já esse lixo!
E ele, a chorar, levantou-se, foi buscar a vassoura.
O bruto continuava aos pontapés.
— Vá?... Vá!
Mas quando se deitou, encontrou na enxerga uma figurinha. Apalpou-a, conheceu-a logo: era a do Menino Jesus. Beijou-a muito. Pior vida levara do que ele...
Sentiu de repente um dó muito grande do patrão, que não vira nada, nem que era tão bonito aquele Menino, com um olhar tão meigo nos seus olhinhos picados.

10/08/2017

As mães (Conto), de D. João Câmara


As mães

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O sol despedia os raios mais vividos. O suão aquecido nas cinzas das queimadas soprava abrasador. Via-se tudo em volta como através de vidros amarelos.

O caminho era ruim, apenas indicado por velhos muros afogados em silvas e cheios e musgo como ferrugem, que lindavam as tapadas. No meio da estrada erguiam-se de espaço a espaço enormes penedos, que ainda conservavam os furos das brocas, mostrando um trabalho abandonado de um dia para outro, falta de dinheiro, alguma eleição perdida. Massas enormes de granito esbranquiçado erguiam-se de uma e outra banda, umas por cima das outras, acasteladas. Por entre as pedras cresciam as giestas sequiosas, cujo fruto crepitava abrindo-se aos beijos do sol e deixava cair a semente na terra. Nos pontos mais elevados ressaíam do trêmulo azul celeste uns carvalhos raquíticos e tortos, que não davam sombra.

Ele caminhava alegre, estrada afora, parando de vez em quando para escolher nos cachos das amoras, que reluziam ao sol, as menos maduras, avermelhadas, rijas, cujo ácido lhe mitigava a sede.

Ainda vinha com o seu bigode, com as calças de linho e as botas pretas de soldado, em que brilhavam como lantejoulas os pedacinhos de mica do granito desfeito.

O gosto com que ele diria lá na terra ao Antônio — “Deite-me isto abaixo, ó mestre, e talhe-me nesta cara uma suíça como a que eu tinha antes e a tinha meu pai que Deus haja”.

E passava a unha pela cara, satisfeito, marcando a suíça que havia de usar.

O gosto com que atiraria para o lado aquelas botas engraxadas, a mortificarem-lhe os pés e que, apesar do bom tamanho, lhe pareciam botas de senhora, boas, quando muito, para o domingo, quando fosse à missa. As botas altas, brancas, de bom salto de prateleira muito cômodo e tão bom para andar, lá tinham ficado penduradas num prego, defronte da lareira, muito bem ensebadas e recomendadas. Tinham umas tombas, é verdade, mas eram botas amigas. Como havia de calçá-las, contente, para sair com elas para o trabalho, quando vem rompendo a aurora, quando o céu é cheio de luz e ainda não há sombras na terra!

Ia morto por voltar aos hábitos velhos, à santa vida do campo.

Lembrava-se, cheio de saudades, das boas histórias, que se contam pela estrada afora, na volta do trabalho, caminhando lentamente atrás dos burros, que, de orelhas muito caídas, projetam na alvura da poeira sombras de gigantes.

O que hão de rir os ganhões com as histórias novas que ele traz do quartel!

Quase ao chegar à vila, ao pé da volta da estrada, um nadinha para baixo, à direita, é a fonte. Quando ali se chega, grita-se chó! aos burros, para-se um bocado a conversar e contende-se com as raparigas que passam de bilhas à cabeça, bem aprumadas, de ancas fortes e caras sadias, com uns fios de dentes, que o pão de centeio torna muito brancos, como folhinhas de malmequeres, e que elas gostam muito de mostrar, abrindo em grandes risos, por qualquer dichote amável, as bocas muito vermelhas, mais frescas e perfumadas que uma ginja.

Aquele bocado de tempo era sempre o melhor do dia.

E, ao pensar na fonte, alargou o passo.

É coisa aborrecida estar de sentinela duas horas, uma noite de inverno. E a água pela valeta a correr, barrenta, cheia de espuma, precipitando-se na sarjeta, com Uma bulha muito triste, muito monótona, tão diferente do estrépito das ribeiras quebrando as águas nos rochedos das voltas!

Ele pensava na fonte e nos tais lábios vermelhos. E o tempo assim lá passava mais depressa.

Um outro, às vezes, tão triste como ele talvez, gritava-lhe de uma guarita perdida na treva:

— Sentinela, alerta!

E ele respondia, engrossando a voz:

— Alerta, está!... Sentinela alerta!

E, enquanto os gritos repetidos se iam perdendo ao longe, recaía no mesmo pensar constante, a fonte, sempre a fonte, e triste, sempre triste.

Mas afinal estava livre! Naquela mesma tarde, à hora em que as chaminés começam fumegando e debaixo das parreiras, enquanto a ceia aquece, se toca alegremente nas buzinas, estaria batendo à porta de casa, disfarçando a voz, fingindo ser um pobrezinho a pedir esmola e agasalho.

E ria feliz com aquela ideia divertida.

A alegria da mãe! Era capaz de morrer de gosto a pobre velha, coitadinha!

Sabe Deus, quantas vezes, quando ele pelas madrugadas frias tremia enregelado na guarita, não molhava ela com lágrimas o travesseiro, a chorar a sua pobreza.

Recebera duas cartas dela muito ternas, cheias de notícias e de conselhos. Pedia a todos que lhas lessem e por fim sabia-as de cor; trazia-as sempre consigo entre a fardeta e a camisa, metidas num saquinho de couro, para não se estragarem.

E, ao lembrar-se de que afinal o tempo, de que tantas saudades tivera, ia novamente voltar, enchia-se-lhe a alma de alegria, e caminhava ligeiro, cantando em voz de falsete uma cantiga de São João.

Ainda lhe faltavam três léguas para chegar a casa.

Aqueles sítios já eram dele muito conhecidos. Lembrava-se perfeitamente de que, por detrás daquelas pedras, que lhe ficavam à esquerda, crescia basta a erva, regada pela água de uma fontezita, onde, por mais de uma vez, de madrugada, quando ali andava guardando as cabras da viúva, viera armar aos passarinhos.
Não havia sítio melhor para descansar um bocado.

No fardel trazia um pedaço de pão e o conduto, meia dúzia de azeitonas e um queijinho pequeno.

É comer! E, se nos der o sono, dorme-se uma sesta até que abrande o calor!

Saiu da estrada galgando a parede e encaminhou-se para a fonte, pondo em fuga as cotovias, muito mansas, muito alegres, que saltitavam nas pedras, enquanto muito alto, parecendo pontos negros no azul do céu, umas poucas de águias descreviam curvas enormes, com a mira num burro morto, que apodrecia entre os rochedos.

***

Quando acordou, já o sol descera muito; o vento tinha virado para o norte e algum tanto abrandara o calor.

Do outro lado do cabeço, ouvia-se um som de chocalhinhos. Eram as cabras da viúva, que andavam pastando. No alto, donde a propriedade se descobria quase toda, um pastorito de dez anos, deitado sobre as pedras, com o chapéu de abas largas, todo roto, a servir-lhe de travesseiro, fazia dançar um bogalho na ponta esmagada de uma palha de centeio, por onde soprava.

Sensibilizou-o tal recordação da infância, que ali passara como aquele pequeno.

— Adeus, à cachopinho! — gritou.

— Saúde! — respondeu o pequeno.

Teria dormido duas horas e achava-se completamente descansado. Ergueu-se, espreguiçou-se, coçou desesperada — mente a cabeça, bateu com os pés no chão para desentorpecer as pernas e por fim, agarrando no chapéu e no bordão, pôs-se alegremente a caminho.

Como por ali não havia vinhas, e isto era no mês das vindimas, não encontrara ninguém por aqueles sítios, abandonados até ao tempo das sementeiras.

Caminhava depressa, batendo com o bordão nas pedras, querendo chegar a casa antes do anoitecer.

Faltava-lhe ainda quase uma légua, quando o sol se escondeu.

As calhandras tinham erguido o voo e trinavam doidamente, muito alto, constantes no mesmo lugar, batendo muito as asas.

Chegou a uma encruzilhada e parou. Parecia estar em dúvida sobre o caminho que havia de tomar. Passava a mão pela cara, devagarinho, sem se resolver. O caminho da esquerda parecia tentá-lo muito, sorria-se para ele, mas como quem tem medo de ceder à tentação.

E que tentação não era!... Se nunca mais vira uns olhos daquele azul!

A pobre mãe, àquelas horas, sentada à porta de casa, cruzadas sobre os joelhos as mãos, onde umas veias em relevo ressaem sobre uma rede confusa de rugas pequeninas, pensava nele talvez cheia de amor e de quantas tristezas! Quem passava por defronte da porta tirava o chapéu àqueles cabelos brancos, muito bem alisados por debaixo do lenço negro da viúva. Naqueles olhos meio apagados brilhavam talvez as lágrimas duma saudade... E ele parado ali... cheio de dúvidas!

Seguindo sempre em frente, mal chegasse ao alto, veria na encosta fronteira a casa onde nascera, muito caiada, com a cimalha pintada de azul, a porta vermelha, a nogueira a que se encosta a vide cheia de cachos tentadores, e uma volutazinha de fumo azulado a subir, a subir até desvanecer-se, sinal da recompensa depois do dia de trabalho, a boa ceia quente, o lume que desenregela. Seguindo sempre em frente, passado um quarto de hora, estaria nos braços da mãe, secando-lhe as lágrimas, trazendo-lhe o coração que levara.

E continuava em dúvidas! Pois a quem mais do que à mãe queria ele?

E por fim quando se resolveu... tomou para a esquerda.

Pobre mãe!

O baile dos velhos (Conto), de D. João Câmara


O baile dos velhos

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Houve esta noite festa rija em casa dos padeiros.

Casados há 50 anos, festejaram com estrondo o aniversário do casamento. E não pensem que por não haver lá gente moça a festa desmereceu. Isso sim! Das oito à meia-noite, nem o Bento das mãos largou a guitarra, nem faltaram pares no meio da casa.

Ficou logo combinado, mal o Antônio Pataco falou naquilo: — quem não foi convidado para a boda, também não dançou naquela noite, nem comeu os leitões assados. Então é que se viu como as mulheres se atiram pela velhice afora com alma e coragem; eram 12 nem mais nem menos, e os homens apenas seis, todos muito atrapalhados, (tanto mais que o prior não contava) tendo que atender a tanta senhora, não querendo escandalizar nenhuma.

A casa, segundo contam, estava um brinco. Começava logo pela iluminação. Das vigas do teto pendiam sete candeias e, como reforço, ardiam quatro velas sobre as mesas dos cantos. À roda da casa, no friso caiado, tinham disposto a louça branca e na chaminé um grande tronco de azinho ardia, rodeado de piorno, fazendo passar clarões vermelhos na bateria de cobre, disposta, como um troféu, do outro lado da casa.

Quando um homem pensa que, além daquela riqueza, o Antônio Pataco tinha mais do que outro tanto em serviço na cozinha, e que tudo aquilo não é nada em comparação com o muito que nós sabemos que ele tem, haverá rapaz na aldeia que mereça a linda neta tão branquinha e tão rica, fechada provisoriamente naquela noite num dos quartos do sótão da casa?

O prior velho foi quem presidiu à festa como é de ver. Está cego de todo, coitado; mas, apesar disso e de andar algum tanto acabrunhado desde que não pôde ler no missal, atendendo a ter sido quem os casara, lá se arrastou conforme pôde, e não foi talvez dos que menos se divertiram. Abordoado à grossa bengala de castãozinho de prata, amarelada pelo uso, tremendo na mão dele, assistiu a toda a festa, até de madrugada, sacudindo em ar de aprovação a cabeça muito calva, onde apenas meia dúzia de cabelos brancos muito compridos esvoaçavam, tenuíssimos, no ar agitado.

Até à meia-noite não se fez outra coisa senão dançar e mais dançar.

O Bento não se cansou de tocar na guitarra, apresentando, como pretexto para não se mexer, o tamanho do ventre, que vai tomando com a idade proporções medonhas. Alguns quiseram insinuar que eram as pernas que lhe começavam a enfraquecer, mas logo desarmou a intriga, atirando um pontapé, que acertou, como por acaso, nas canelas do mestre-escola.

A pobre guitarra, velha também, rachada e fanhosa, não se lembrou senão de fandangos antigos, e era de ver como aqueles bons velhos, talvez enganados pelo som daquelas cordas que os transportava 50 anos para trás, ouvindo aquela música alegre, que lhes trazia recordações risonhas da mocidade, criaram novas forças e, cheios de animação, dançaram, no meio dos bravos, ligeiros como arveloas sorrindo-se como se ainda se namorassem, como, havia meio século, se sorriam e namoravam.

Quem abriu o baile foi o padeiro, dançando com a mulher.

— Ai, rapaz! — gritou-lhe o Bento.

Mas era lá preciso que o animassem! Com o seu belo calção de briche fino, o colete verde de botões de vidro, as boas polainas espanholas, parecia ter voltado aos 30 anos, bem aprumado, de cabeça erguida, arqueando o peito, balouçando os braços, fazendo estalar os dedos.

A mulher custou-lhe mais por causa do reumatismo; mas, apesar de muito dobrada, lá se animou. Levando aquilo muito a sério, dançou perto de um quarto de hora, diante do marido, que sapateava, tentando recordar as habilidades que noutros tempos o tornaram falado por todas aquelas aldeias.

E só a ideia daquela saiazinha amarela, remexendo-se, trêmula, por toda a casa, perseguida por aquele velho cheio de cabelos brancos e de rugas, fazia rir às gargalhadas estrondosas o prior, que não via nada e lançava o olhar incerto, ora para um lado, ora para o outro, num menear constante de cabeça.

— Está século e meio dançando — disse o mestre — escola com a gravidade do ofício.

E muitos pozinhos, e muitos pozinhos! — acrescentou o prior, continuando a rir.

Todos aplaudiam. O Bento na guitarra apressava o andamento.

— Não posso, não posso mais! — declarou a velhinha deixando-se cair esfalfada num tropeço, ao pé da lareira.

— Quem vem então? — perguntou o Antônio, limpando o suor.

E ficou parado no meio da casa, de mãos na cintura, olhar altivo, esticando a perna, com um sorriso orgulhoso.

Muito se dançou naquela noite, em casa dos padeiros!

Mas o melhor foi a ceia.

O Bento esteve famoso. De mais a mais o Antônio, muito naturalmente de propósito, sentou-o logo entre a Mariana Coxa e a Maria do Rosário. Imaginem!
Todos se lembravam ainda de quando elas, à volta da fonte, se arranharam, por detrás do moinho, no meio dos cacos das bilhas partidas.

Agora, muito trêmulas, muito engelhadas, de um lado e outro daquele coração de bronze, mastigavam lentamente, enchendo as bochechas, de beiços muito recolhidos, tocando quase com as barbas para cima nos narizes para baixo.

Enquanto se tomou a canja, houve um silêncio quase geral, apenas interrompido pelos recados do padeiro à velha criada Matilde ou pelos convites aos assistentes.


— O canjirão. Vai já deitando. Começa aqui pelo Sr. prior. Mais uma colherinha de canja, tia Inês?

E os velhos, todos em volta, sopravam longamente com as colheres ao pé da boca e sorviam depois o caldo, com uns apitozinhos gulosos, fechando os olhos; alguns amoleciam na canja as côdeas de pão, e o padeiro, de pé, observando, com a concha metida na enorme terrina, lançava em redor um olhar atento de bom dono de casa, pronto para dar mais a quem pedisse.

— Senta-te e come — disse-lhe a mulher. — Que aflição!

— Sente-se e coma; isso mesmo! Entre rapazes não há cerimônias Quem quiser mais peça por boca — gritou o Bento — estendendo o prato.


Mas já então a Matilde vinha trazendo os assados.

Os convidados limpavam os beiços à toalha e os homens despejavam os copos para abrir o apetite.

Então começou tudo a falar. Só o professor é que não tomou parte nas discussões, por não perder a gravidade. Chamando a si uma travessa, onde um magnífico peru ostentava a opulência das carnes aloiradas, espetou-lhes o garfo e, pondo as lunetas redondas na ponta do nariz afiladíssimo, depois de atentamente ter examinado o fio da faca, principiou, cheio de sua perícia, a trinchar, seguindo com olhares gulosos os bocados, que iam caindo.

O canjirão já voltara por três vezes à cozinha, quando a padeira começou a servir o pato bravo. E da pinha enorme de arroz, que tremia na colher, iam caindo os baguinhos na toalha.

O Bento repetia todos os pratos e desabotoava os botões do colete.

Foi então que, depois dum segredo, que o Antônio Pataco lhe disse ao ouvido com ar de muito mistério, a Matilde saiu, entrando pouco depois com os leitões e trazendo debaixo dos braços umas poucas garrafas, que pôs sobre a mesa defronte do padeiro.

— Sabem, meus senhores? Garrafas lacradas por mim no dia do meu casamento. Os seus copos, façam favor... Ora adeus! O que é isso, Sr. professor? O copo maior... Então? O vinho é o sangue dos velhos.

O sangue não sei, a língua é com certeza. Instantes depois a algazarra subira de tom a tal ponto, que o professor, de pé, examinando à luz a transparência da ametista enorme que lhe refulgia no copo, teve de pedir auxílio ao dono da casa para impor silêncio à velhada.

— Meus senhores... — começou.

Mas as velhas não se continham; haviam de palrar por força. Mal o mestre-escola, com ar choroso, começou falando de tantos que faltavam àquela festa, puseram-se elas a gritar.

— Basta! Basta! Não queremos tristezas!

Deus me perdoe, mas está-me parecendo que o vinho lhes subira às cabecinhas brancas.

Não sei se o professor também desconfiou da coisa. Muito ofendido, todo vermelho, sem poder dominar com a sua fanhosa voz de falsete a imensa berraria, pousou o copo sobre a mesa e começou a atacar o queijo, resmungando.

O Bento é que teve as honras da noite, contando histórias de sua mocidade.

Rapaz perfeito, dono de três moinhos, era mais a mim, mais a mim, todas o queriam.

— E mal sabes tu, Antônio, uma coisa. A tua Josefa também me esperava à porta, quando eu passava, atirando-me cada olhadela!

— Que é lá isso? — perguntou o Antônio, erguendo-se, entornando o copo sobre a mesa e deixando correr em dois fios pelas rugas do queixo o bochecho que tinha na boca.

Como o Antônio tem mau gênio, a questão esteve por um triz a azedar-se.

— Ainda tu acreditas naquele traste! — disse a Josefa levantando a mão e como que ameaçando o Bento duma tremenda bofetada.

— E verdade, sim senhores, é verdade! — teimava o Bento, estirado por cima da mesa, de colete já todo desabotoado.

Os outros velhos protestavam, rindo muito. O prior serenava o Antônio. Ele bem devia ver que tudo aquilo era troça e que o Bento estava a brincar.

— E quem sabe? — continuou este. Talvez que você não festejasse hoje o aniversário do seu casamento, se eu nesse tempo não andasse meio parvo por causa ali da tia Domingas.

— Ah? — perguntou a tia Domingas, aproximando da orelha o côncavo da mão.

— Que andou meio parvo por vocemecê — explicou o prior a berrar.

A tia Domingas, um poucochinho tonta, engoliu com muito esforço um grande bocado de leitão, que ruminava havia um bom quarto de hora, e disse toda comovida:

— Não me fale nesse tempo, Sr. Bento, não me fale nesse tempo!

E durante toda a ceia houve sempre alegria, menos na cara do mestre-escola.

— Que tem, Sr. Mateus? perguntou-lhe o prior. — Há muito que lhe não ouço a voz.

— Vossa Reverência bem sabe que nunca fui...

— Sei, sei — interrompeu o prior. — Aqui a Sra. Bernarda que diga o que vocemecê foi. Pela madrugada, quando já as cotovias cantavam pelos campos e as figas das janelas luziam como fios de cristal, levantaram-se todos para sair.

O prior cabeceava, havia um bocado, e o Bento, depois de muito contar e muito mentir, assentara sobre o peitilho bordado a segunda barba rubicunda, olhando por baixo, com olhar acarneirado, cheio de meiguice avinhada e de sono mal combatido.

Havia longos silêncios e bocejos profundos.

Então as velhas lembraram-se de, como havia 50 anos, acompanhar a Josefa ao quarto.

E pelo corredor a Josefa, com a sua saiazinha amarela, bordada, com largas fitas de veludo preto, muito envergonhada, era seguida pelo Antônio, que, por brincadeira, queria impedir que os amigos viessem, dizendo que não era costume.

Pararam todos à porta.

Pela janela entreaberta a luz fria da manhã entrava no quarto, enchendo-o duma serena meia claridade.

O quarto estava na mesma: o oratório defronte da porta sobre a cômoda de pau santo, à direita o baú encourado, tapado com uma chita de ramagens, ao fundo o leito antigo, muito alto, coberto com uma colcha escarlate e onde, uma ao lado da outra, muito chegadas, duas almofadas bordadas, pequeninas, alvejavam na penumbra.

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Havia 50 anos!

A outra (Conto), de D. João Câmara


A outra

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Era fins de agosto, à hora do meio-dia.

Havia um instante, que, na torre pequenina da igreja, o sacristão, com a cabeça abrigada do sol por um grande lenço de fundo vermelho com ramagens amarelas, tinha feito soar vagarosamente as ave-marias.

Hora do descanso. Alguns dos que trabalhavam mais perto recolheram a casa para jantar e sossegar um pedaço, durante a sesta.

Depois tudo pareceu adormecer na aldeia. Junto aos muros, enfileiradas todas na nesgazinha de sombra, as galinhas dormitavam; os pássaros nos salgueirais, que sombreavam o ribeiro, tinham emudecido. No interior das casas nenhum rumor, por entre a folhagem nenhuma viração. Até as carroças, nos pátios, com os varais aprumados, pareciam, como num espreguiçamento, dispor-se para o sono.

O sol quase a prumo dardejava sobre a aldeia os raios quentíssimos, reverberados pelas paredes caiadas de fresco e pelos telhados novos vidrados, que pareciam em brasa, e atravessava com eles as ramarias, enchendo o ribeiro de manchas movediças, multiformes, cheias de cintilações, como pedacinhos de metal.

Era aquela a hora a que dantes costumava recolher a casa o José Miguel, o melhor caçador da aldeia, com a rede quase a transbordar, tão cheia a trazia sempre de perdigotos e láparos.

Ainda ele vinha longe, já se ouviam os latidos alegres do cão, correndo na frente.

Então a mulher, depois de haver posto a mesa, vinha para o limiar da porta, encostava-se à ombreira, e punha-se à espera, toda risonha, feliz, fresquinha como uma flor, com o seu vestido de linho muito engomado.

Os que passavam iam lhe dando as boas tardes.

— Não tarda aí — diziam-lhe cumprimentando-a. — E é como sempre: bolsa cheia e cartucheira vazia.

Tempos!... Tempos!

Havia quase um mês que a pobre Mariana debalde esperava o marido àquela hora.

Agora, quando ouvia soar as ave-marias, vinha encostar a testa aos vidros da janela e, com as faces incendiadas, o ouvido atento, fitando os olhos numa casa que alvejava ao longe sobre a serra, deixava correr em fio as lágrimas silenciosas. E os que passavam, recolhendo às casas, olhavam para ela com um modo tão triste, que ainda mais a entristecia, e iam dizendo uns para os outros: Coitadinha!

O que lhe custava!... E quanto mais, ao recordar-se do outro verão que passara!

Para aquilo tinha casado, para mal decorrido um ano, um ano pouco mais, ali se ver sozinha, chorando o marido que lhe fugira!

Por que assim fora rebelde aos conselhos do pai? Bem lho tinha ele pregado no próprio dia em que dera por aqueles amores!

O pobre mestre-escola, ouvindo-a conversar uma noite, à porta da rua, viera buscá-la por um braço, arrastara-a pela escada até o quarto lá em cima, e ali, meneando a cabeça, de braços cruzados, lançando chispas pelos olhos, dissera-lhe apenas: Senhora!

E ela começara a chorar e logo ele, terníssimo e aflito, a enchera de beijos.
Ainda não pensara naquilo!... Pois tão nova ainda, havia de assim deixá-lo? E então por quem? Pelo José Miguel, um valdevinos, um doido, um conquistador!

Recordara-lhe a morte da mãe que a deixara com três anos entregue a ele, o que ele sofrera, os cuidados de que a rodeara, a educação que lhe dera.

Era à noite, noite muito serena, cheia de murmúrios misteriosos, que se elevavam dos campos numa grande serenidade. Ouviam-se ao longe a queda das águas do ribeiro e o rodar das azenhas. A janela estava aberta e lá de fora vinham perfumes quentes, fortes, no bafo carinhoso da primavera.

Junto da porta crescia uma roseira, que metera para dentro do quarto uma pernada insubmissa, toda cheia de cachos de rosas pequeninas. Um rouxinol cantava no salgueiral, porque isto era no tempo dos ninhos.

O mestre-escola aproximou-se da janela e esteve por algum tempo respirando aquele ar que o refrescava agora, mas que lhe trouxe não sei que recordações.

Olhou para a filha e viu-a crescida, com os peitos desenvolvidos, o pescoço muito bem torneado, o cabelo farto, enrolado no alto em duas tranças; viu-lhe a cama — dura branca, sadia e forte.

O rouxinol continuava a cantar e a pernada cheia de flores teve um movimento lânguido, vergando a um suspiro da noite.

O mestre-escola tomou uma respiração funda e fez um movimento de ombros resignado.

— É preciso casar-te, não há remédio.

Como por miúdos se lembrava de toda a cena que tivera com o pai e dos conselhos que então lhe ouvira! Bem o previra ele que o José Miguel a havia de abandonar um dia, não porque fosse mau, mas porque era leviano, que havia de deixar a mulher como deixava agora as namoradas, que tinham sido, uma após outra, todas as raparigas da aldeia.

Que mal empregadas lágrimas ela chorara, até que afinal o pai consentira no casamento!

Quantas vezes, feitas as pazes, tinham os três comentado aquela história!

Um dia o mestre-escola fora pelo prior e outros convidado para uma caçada a que iria também o José Miguel.

Foi este quem, bastante atrapalhado, veio pela manhã bater-lhe à porta.

— Pronto, Sr. Eustáquio? Olhe que o prior, há mais de um quarto de hora que está à sua espera no adro

— Lá vou! lá vou! — gritou de dentro o Eustáquio.

E apareceu pouco depois, com a sua bota alta branca e o boné de pala verde, que usava havia dez anos.

— Adeus! — disse ao José Miguel com mau modo.

— Senhor Eustáquio!... — respondeu este, cumprimentando-o, entre irônico e atarantado.

E, erguendo os olhos, entreviu na única janela do primeiro andar, detrás das folhas da roseira, uma carinha muito bonita, mas muito triste, que lhe sorria por entre muitas lágrimas.

— Vamos! — disse o Eustáquio, pondo-se a caminho e olhando de revés para o outro.

— Deixa estar, grande patife! — ia pensando o José Miguel. — Ainda hoje mas hás de pagar!

Chegaram ao adro, onde o prior e mais dois amigos os esperavam com impaciência.

Depois de muitas recriminações e descomposturas, a que o Eustáquio respondeu com desculpas gaguejadas, começaram ali mesmo a caçada, porque a igreja era no fim da aldeia e no sopé dum cabeço predileto das perdizes.

Vinte minutos depois, o cão do mestre-escola parava, e este, com o dedo no gatilho, esperava que as perdizes levantassem.

— Entra, cão!

Ouviram-se dois tiros; mas as perdizes foram-se voando com saúde. O velho caçador fez um movimento de mau gênio.

Então o José Miguel, colocado um pouco mais longe, apontou serenamente, descarregou por duas vezes a espingarda, e as perdizes, depois de por um instante haverem batido convulsamente as asas, inclinaram as cabeças e deixaram-se cair a prumo, como coisas inertes.

— Que é lá isso? — perguntou o Eustáquio.

— O senhor não vê? — disse-lhe o José Miguel, mostrando-lhe a caça morta. — São duas perdizes.

E depois baixinho para o prior, mas não tão baixo que o Eustáquio o não ouvisse:

— E dois bigodes. Ele que os vá contando.

E contou-os, e não foram poucos.

Felizmente o Eustáquio não era de reservas. O rapaz entusiasmou-o.

— Bravo! — dizia ele ao fim da tarde, com o olhito a luzir, o que era também dumas beijocas a mais na borracha do prior.

E depois, muito amigavelmente, pondo-lhe a mão no ombro:

— Sabes que tens quase uma riqueza nessa espingarda?

***

Com que saudades a Mariana recordava esse momento em que, pela primeira vez, ouvira da boca do pai um elogio ao namorado!

— Mas isto não obsta. Não quero! — teimava ainda o Eustáquio. — Aquilo é um cabeça no ar. Um dia deixa-te e ficas pior do que viúva!

Afinal consentira. Que lhe havia de fazer?

O José Miguel acirrara-se com aquela resistência e, em vez de abandonar a rapariga, como fizera às outras, cada vez se mostrava mais assíduo junto da filha do mestre-escola. A Mariana definhava-se, que era um dó vê-la.

O Eustáquio, bem contra vontade, não teve outro remédio, consentiu.

***

O bom tempo tem asas.

Com os olhos fitos na casa pequenina, que alvejava no alto da serra, a triste chorava amargamente, lembrando-se daqueles primeiros meses de casada e das alegrias que tinha quando ouvia ao longe os latidos do Valente, que voltava da caça.

Logo tirava da arca a toalha de linho muito alva, riscada pelo ferro; puxava a mesa para defronte da janela, que uma parreira sombreava; dispunha-a com muito cuidado, o lugar dela e o dele, um defronte do outro, o canjirão cheio de vinho, o pão alvo partido em quartos, os pratos de fruta, que perfumavam a casa.

Então o Valente entrava muito bruto, saltando, muito desordeiro, querendo que lhe abrissem a porta do pátio, para onde logo saía a correr, enterrando o focinho na panela cheia de caldo e de grandes bocados de pão de munição.

O José Miguel muito estafado, atirava para cima da arca a bolsa de caça, sorria ao ver aqueles arranjos e, enchendo a caneca de vinho muito fresco, bebia-o depois, de uma vez, de olhos continuando a sorrir, soltando ao acabar um belo ah! de satisfação.

— Vamos a isto, mulher, vamos a isto! — dizia aproximando da mesa a grande cadeira de pau santo.

E, todo olhares gulosos, muito sorridente, de beiços estendidos, destapava a terrina e enterrava a concha nas sopas.

Enquanto ia comendo, vinham as histórias do dia.

Ela pouco podia adiantar: estivera em casa trabalhando, não sabia nada de novo.
Ele então contava façanhas do Valente, que, saciada a fome, muito sujo, muito lambuzado, sentado a um canto, de olhos meio cerrados, esperava com paciência o fim do jantar e a côdea de queijo da sobremesa.

Estava muito velho, coitado do bicho! mas ainda nenhum lhe chegava.

Depois queixava-se da caça. As perdizes por aquele calor andavam levadas da breca! O que ele andara por aqueles matos!

A mulher, sentada defronte dele, ria muito contente, mostrando-lhe os dentes muito brancos entre os lábios vermelhos, com duas covinhas aos cantos.

Pois as perdizes andavam assim como ele dizia, e estava a rede ali tão cheia!

— Mas vê lá se outro consegue o mesmo — dizia o José Miguel todo orgulhoso. — que daquilo e destas não há outro que as tenha na aldeia.

E apontava para a espingarda e batia nas barrigas das pernas.

— São de ferro!

O mestre-escola vinha muita vez, depois do jantar, ter com eles à sobremesa, beber um copo de vinho e depenicar no queijo.

Caçador velho, muito conhecedor daqueles terrenos, gostava de dar conselhos ao genro, que o escutava atencioso.

Isto não obstava a que, saindo juntos, o José Miguel, fizesse enfurecer o sogro, matando-lhe a caça que este errava.

— Ora anda lã, meu velho — resmungava muito alegre — apanha lá mais este, para a conta.

***

Agora o José Miguel continuava a sair todas as manhãs, mas só recolhia alta noite. Às vezes, nem recolhia, e ela, coitadita, levava as noites a chorar.

Quando o marido saía, punha-se à janela e via-o desaparecer por detrás da igreja, onde o sol nascente batia de chapa. Passados minutos, avistava-lhe o vulto, ao longe, na calva do pinhal. O Valente seguia-o cabisbaixo, triste, desconfiado, como que a estranhar o dono. Desapareciam depois entre os pinheiros e ela já não podia cá debaixo tornar a avistá-los. Mas da chaminé da casa, que alvejava no alto, começava a elevar-se no ar muito sereno da manhã um penachinho de fumo azulado, que logo se desfazia no azul do céu.

Ela então deitava-se de bruços na cama, e chorava convulsamente.

***

Nesse dia pela uma hora, o Eustáquio entrou em casa da filha.

— O teu homem?

— Foi para a caça — respondeu a Mariana, sentando-se no leito e à pressa limpando as lágrimas.

O mestre-escola trazia o boné de pala verde, a espingarda a tiracolo, o polvarinho e o chumbo. Não trazia a rede.

— Bem. Deixa-te estar. Escusas de te incomodar. Deita-te, filha, que eu vou procurá-lo.

A Marina quis retê-lo, estranhando-lhe os modos.

— Talvez não encontre. Sabe Deus onde ele para!

— Sabe-o Deus, sei-o eu e sabe-o a aldeia em peso, que é uma vergonha! — respondeu o Eustáquio, apontando com a espingarda para o alto do pinhal. Olha, sabes o que vou fazer?

— Ó meu pai!... — disse a rapariga, levantando-se do leito e vindo segurar-lhe os braços.

— Deixa-me! Muito tenho eu esperado! Não têm mais que o castigo que ambos merecem. Tu sabes quem ela é?

A Mariana disse que não com a cabeça.

Mas não havia de saber!...

— A Maria da Escusa, aquela cigana, que, não contente com ter dado cabo do marido, morto de desgostos, quer fazer outro tanto ao teu homem... e a ti! Mas eu vou lá e mato-a, mato-a como quem mata uma loba!

E, apertando, nervoso, a espingarda contra o peito, saiu arrebatadamente.

A Mariana, cheia de susto, sem forças para seguir o pai, sem forças para gritar, deixou-se cair no leito, desmaiada quase, sem ânimo para pensar na desgraça que lhe estava acontecendo.

***

Assim esteve por muito tempo. Despertaram-na afinal uns latidos alegres, tão conhecidos dela. Sentou-se no leito. Os latidos aproximaram-se, e por fim o Valente rompeu pelo quarto, saltando, cheio de fome, pedindo o jantar, a arranhar na porta do pátio.

Ouviu então a voz do José Miguel. Vinha conversando com o pai e o que diziam não era coisa triste, porque ambos riam às gargalhadas.

A Mariana correu, muito chorosa, até à porta e, muito excitada, caiu soluçando nos braços do marido.

O que é isso? O que é isso? — perguntava o Eustáquio, também com um nozito na garganta. — Choras então, por que eu te trouxe o homem? Se adivinhasse o disparate, tinha-o deixado lá ficar.

— Então, mulher, então? Que tens tu? — dizia o José Miguel muito comovido.

***

Passada meia hora, arranjado o jantar à pressa, sentaram-se todos à mesa.

A curiosidade, que nem um dito, uma alusão deram motivo para saciar, sorria nos olhos vivos da Mariana.

Que se haveria passado?

Mas, quase ao fim do jantar, o mestre-escola, que estava conversando muito animadamente, enganou-se e, querendo beber à saúde da filha, pegou no copo d’água: o José Miguel, muito lampeiro, antes que o sogro desse pela distração, lançou-lhe mão ao vinho e bebeu-o de um trago.

— Não é só na caça que se apanham bigodes, Sr. Eustáquio.

Não, não — respondeu o velho. — E tu que o sabes de hoje!...

O José Miguel fez-se muito vermelho, e, porque percebesse na mulher um sorriso em que a malícia apagara a tristeza, levantou-se da mesa e veio beijá-la muito.

— Coitada da Mariana!

— Então ela... enganou-te?

— Por que falas nisso? Que te importa? Que me importa?

A curiosidade da Mariana ainda não estava satisfeita. Com quem?... Dize... Dize... Com quem?

Então o mestre-escola, muito corado — era talvez da pinga — entendeu dever deixá-los sós, e saiu a rir, com um arzinho trocista, muito contente, a esfregar as mãos.