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10/11/2019

Franz Kafka, vida e obra



Franz Kafka, vida e obra

Romancista e contista austríaco, nasceu em Praga no seio de uma abastada família de judeus tchecos. Franz dedicava grande afeição ao pai, Hermann Kafka, um homem feito pelo próprio esforço que, após persistentes lutas, estabeleceu-se com um sólido negócio de bijuteria. Julie, sua mãe, era uma mulher excepcionalmente inteligente. Com a morte em criança, de dois irmãos mais velhos, Franz não gozou do convívio de outras crianças até o nascimento, seis anos mais tarde, da primeira de suas três irmãs. A educação do menino foi confiada a uma moça francesa que o preparou para a escola primária e o instruiu em muitas coisas, sem excluir os primeiros passos no amor. Concluído o curso da escola pública, Franz, frequentou, em Alstadter Ring, o Gymnasium, uma instituição tipicamente alemã, de alto padrão humanístico. Ingressou, depois, na Faculdade de Direito, embora a literatura já constituísse o seu principal centro de interesse. Associou-se ao Lese-und Redehalle der Deutschen Studenten, onde travou seus primeiros prélios literários atacando os artificialismos de Oscar Wilde e Wedekind, que desfrutavam, então, de grande voga, e apoiando os sólidos valores do Tonio Kröger, de Thomas Mann e da Educação Sentimental de Flaubert.

Em 1906, Kafka inscreveu-se num concurso de contos patrocinado pelo jornal vienense Zeit. Isto marca o início da sua carreira de escritor. Em junho desse ano, diplomou-se em jurisprudência pela universidade alemã, Karls-Ferdinand, situada em Praga. À falta de coisa melhor, aceitou um modesto emprego numa companhia de seguros italiana. Em 1908 conseguiu uma colaboração semigovernamental muito cobiçada, com boa remuneração e poucas horas de expediente, num instituto de seguros contra acidentes de trabalhos.

Kafka, nas horas de folga, estudava a língua tcheca e, embora não fosse um político militante, assistia a comícios e debates sobre questões tchecas. Sofria de uma terrível dor de cabeça e de exaustão nervosa; desesperançado de cura, tornou-se vegetariano e chegou mesmo a levar a sério o antroposofismo. Causou-lhe enorme, impressão a afirmativa do Dr. Rudolph Steiner de que ele possuía poderes clarividentes. Pouco a pouco foi-se empolgando pela Cabala e convenceu-se de que estava investido de uma missão na vida (um mandato como costumava dizer). Esta tensão mística foi-se tornando cada vez mais acentuada à medida que sofria novas influências intelectuais, tais como sua amizade com o sionista Max Brod, com Franz Werfel, e seu estudo de Kierkegaard e Pascal. Por paradoxal que seja, Kafka também gostava de esportes. Esperava sempre com ansiedade suas férias da Páscoa e do verão e passava muitos fins de semana nadando e remando nos recantos pitorescos dos arredores, ou caminhando nos bosques com seus amigos.

Foi somente, em 1912 que Kafka surgiu como escritor inteiramente cônscio de seus poderes. À instância de Brod, Kafka finalmente reuniu em volumes algumas de suas "observações" que, apesar do enorme tipo usado, deram apenas uma brochura de noventa e nove páginas — o primeiro livro de Kafka. Entre setembro e novembro de 1913, Kafka, que então contraíra hábito do trabalho literário, terminou Das Urteil (O Julgamento), que foi publicado na Arkadia, de Brod, bem como o primeiro capítulo do seu planejado romance Amerika. Entrega-se simultaneamente, com verdadeira fúria, quase sem deter-se para comer ou dormir, à composição de suas Metamorfoses. O Julgamento foi oi dedicado à Fräulein Felice Bauer, que ele havia conhecido em agosto de 1912 e que foi sua inspiradora durante os seguintes cinco anos, impelindo-o às mais ousadas aventuras criadoras. Diga-se, a bem da verdade, que essa afeição levou-o quase às bordas do desespero mais, negativo.

A desastrosa paixão amorosa foi matada com o casamento de Fräulein F.B. com um cavalheiro qualquer, de quem teve dois filhos. Kafka, não obstante seus exercícios ao ar livre, seu gosto pela jardinagem e viagens a vários pontos de veraneio, ficou com a saúde ainda mais abalada.

Quando deflagrou a primeira Grande Guerra Mundial, Kafka, em virtude  das funções governamentais que desempenhava, foi isento do serviço militar. Em outubro de 1915, foi-lhe conferido o Prêmio Fontane por sua novela O Foguista e, durante o inverno de 1916-17, trabalhou arduamente em O Processo. Suas condições físicas iam  em franco declínio.

Os médicos prescreveram-lhe uma temporada num sanatório, mas ele aquiesceu apenas em ir viver na companhia da sua irmã mais nova que dirigia uma pequena propriedade em Zurau. A encantadora paisagem da região proporcionou-lhe o fundo para o seu romance seguinte O Castelo.

Kafka permaneceu em Zuran até o verão de 1919, ocasião em que reassumiu os seus trabalhos em Praga. A guerra tornou tremendamente difícil a vida cidade. Havia escassez e alimento e falta de carvão. Kafka empregava suas últimas energias para ganhar o pão e escrever seus livros. Percorria sanatório após sanatório em busca de alívio para os seus padecimentos. No verão de 1923, conheceu Dora Dymant, uma, jovem judia polonesa, em quem o exausto escritor de quarenta anos encontrou o último e mais reconfortante amor de sua atormentada vida.

Sua obra seguinte é Uma Mulherzinha, uma história jovial e cheia de vivacidade. Entre o Natal e o Ano Novo Kafka recolheu-se ao leito com uma febre insistente. Ao melhorar um pouco, mudou-se, com Dora, para Zehlendorf. Em 17 de março de 1924, Max Brod levou Kafka para a casa de seus país, onde permaneceu com Dora até 10 de abril. Nesse dia foi transferido num carro aberto e sob um aguaceiro inesperado, para um sanatório de tuberculosos.

Não havendo nenhum aposento disponível, Kafka foi acomodado junto a um enfermo agonizante. Dias depois, já no Kierling Sanatorium, cerrou seus olhos para sempre.

As obras de Kafka giram predominantemente em torno dos equívocos entre o homem e seu ambiente. Elas dramatizaram simbolicamente as ideias de Pascal e de Kierkegaard concernentes à implacável fatalidade da vida.

Os problemas envolvidos são morais e espirituais; como descobrir o seu verdadeiro lugar e vocação e como agir em consonância com a vontade das forças divinas.

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Revista “Leitura”, abril de 1946.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

10/06/2016

Um artista do trapézio (Conto), de Franz Kafka


Um artista do trapézio, de Franz Kafka
Publicado originalmente na “Revista da Semana”, em sua edição de 30 de março de 1946. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Um artista do trapézio — como se sabe, esta arte que se pratica no alto das cúpulas dos grandes circos é uma das mais difíceis entre todas aquelas possíveis ao homem — havia organizado sua vida de tal maneira que — primeiro por zelo profissional de perfeição, depois por um hábito que tinha se tornado tirânico — enquanto trabalhava para o mesmo patrão, permanecia dia e noite no trapézio. Todas suas necessidades — por outro lado, muito pequenas — eram satisfeitas por criados que se revezavam e ficavam, embaixo, vigiando. Tudo o que se necessitava em cima era levado e trazido em cestinhos construídos especialmente para aquela finalidade.
Dessa maneira de viver não resultavam para o trapezista dificuldades especiais com o resto do mundo. Era somente um pouco incômodo para os demais números do programa, porque não se podia ocultar que ficara lá em cima, se bem que se mantivesse quieto, alguns olhares do público se desviavam para ele. Mas os diretores perdoavam-no porque era um artista extraordinário, insubstituível. Ademais, sabia-se que não vivia assim por capricho e que só daquela maneira podia estar perfeitamente em forma e conservar a extrema perfeição de sua arte.
Além disso, lá em cima ele ficava muito bem. Quando, nos quentes dias de verão, se cobriam as janelas laterais que havia em redor da cúpula, e o sol e o ar irrompiam no crepuscular do circo, era até belo. Sua convivência humana era muito limitada, é claro. Às vezes trepava pela corda de ascensão algum colega de "tournée", sentava-se a seu lado, no trapézio, apoiado um na corda da direita, outro na da esquerda, e conversavam longamente. Os operários que consertavam o teto trocavam algumas palavras com ele através da claraboia, ou o eletricista que verificava os fios na galeria mais alta gritava alguma palavra respeitosa,  se bem que quase ininteligível.
A não ser nessas ocasiões, estava sempre sozinho. Às vezes, um empregado vagando na hora do descanso pelo circo vazio elevava o olhar à quase atraente altura em que o trapezista descansava ou se exercitava em sua arte, sem saber que era observado.
Assim, poderia viver tranquilo o artista do trapézio a não ser pelas inevitáveis viagens de um lugar para outro que o importunavam enormemente. Certo é que o empresário tratava de abreviar esse sofrimento.  
O trapezista era conduzido à estação num carro de corridas que ia de madrugada pelas ruas desertas a toda velocidade; demasiado lento, entretanto, para sua nostalgia do trapézio.
No trem estava preparado um lugar especialmente para ele com uma substituição mesquinha — mas de algum modo equivalente, de sua maneira de viver.
No local de destino, já estava armado o trapézio muito antes de sua chegada, mesmo antes de serem cerradas as tábuas e colocadas as portas. Para o empresário o momento mais agradável era aquele em que o trapezista apoiava o pé na corda de subida e ia se acomodar novamente em seu trapézio.
Apesar de todas essas precauções, as viagens perturbavam gravemente os nervos do trapezista, de modo que, por melhores que fossem, economicamente falando, para o empresário, sempre lhe resultavam penosos.
Uma vez em que viajavam, o artista no seu posto, sonhando, e o empresário perto da janela, lendo, o homem do trapézio interpelou-o suavemente. E disse-lhe, mordendo os lábios, que daquele dia em diante necessitava, para viver, não um trapézio, como até então, mas dois, um em frente do outro.
O empresário acedeu imediatamente. Mas o trapezista, como se quisesse demonstrar que  a aceitação do empresário não importava mais que sua oposição, acrescentou que nunca mais, em nenhuma ocasião, trabalharia unicamente sobre um trapézio. Parecia horrorizar-se diante da ideia que isso lhe pudesse acontecer alguma vez. O empresário, detendo-se e observando seu artista, reiterou sua absoluta conformidade. Dois trapézios é melhor do que um. Por outro lado, os exercícios seriam mais variados e mais agradáveis à vista.
Mas o artista, de repente, pôs-se a chorar. O empresário, profundamente comovido, levantou-se e perguntou o que havia. E, como não recebesse resposta, subiu para perto do artista, acariciou-o, abraçou-o e encostou seu rosto no dele, até sentir as lágrimas em sua pele. Depois de muitas perguntas e palavras carinhosas o trapezista exclamou soluçando:
Uma única barra nas mãos. Como eu poderia viver!
Então já se tornou mais fácil ao empresário consolá-lo. Prometeu-lhe que na primeira estação, na primeira parada, telegrafaria para que instalassem o segundo trapézio, e recriminou-se por ter deixado o artista trabalhar tanto tempo em um só trapézio. Enfim, agradeceu-lhe por ter-lhe feito notar aquela omissão imperdoável. Desta maneira, o empresário conseguiu tranquilizar o artista e retornar para seu lugar.
Em troca, ele é que não estava tranquilo. Com grave preocupação espiava, às ocultas, por cima do livro. Se semelhantes pensamentos haviam começado a atormentá-lo, poderiam cessar por completo? Não continuariam aumentando dia a dia? Não ameaçariam sua existência? E o empresário, alarmado, pensou ver naquele sonho aparentemente calmo, em que haviam terminado os soluços, começar a esboçar-se a primeira ruga na testa infantil do artista do trapézio.