quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Um artista do trapézio (Conto), de Franz Kafka


Um artista do trapézio, de Franz Kafka
Publicado originalmente na “Revista da Semana”, em sua edição de 30 de março de 1946. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Um artista do trapézio — como se sabe, esta arte que se pratica no alto das cúpulas dos grandes circos é uma das mais difíceis entre todas aquelas possíveis ao homem — havia organizado sua vida de tal maneira que — primeiro por zelo profissional de perfeição, depois por um hábito que tinha se tornado tirânico — enquanto trabalhava para o mesmo patrão, permanecia dia e noite no trapézio. Todas suas necessidades — por outro lado, muito pequenas — eram satisfeitas por criados que se revezavam e ficavam, embaixo, vigiando. Tudo o que se necessitava em cima era levado e trazido em cestinhos construídos especialmente para aquela finalidade.
Dessa maneira de viver não resultavam para o trapezista dificuldades especiais com o resto do mundo. Era somente um pouco incômodo para os demais números do programa, porque não se podia ocultar que ficara lá em cima, se bem que se mantivesse quieto, alguns olhares do público se desviavam para ele. Mas os diretores perdoavam-no porque era um artista extraordinário, insubstituível. Ademais, sabia-se que não vivia assim por capricho e que só daquela maneira podia estar perfeitamente em forma e conservar a extrema perfeição de sua arte.
Além disso, lá em cima ele ficava muito bem. Quando, nos quentes dias de verão, se cobriam as janelas laterais que havia em redor da cúpula, e o sol e o ar irrompiam no crepuscular do circo, era até belo. Sua convivência humana era muito limitada, é claro. Às vezes trepava pela corda de ascensão algum colega de "tournée", sentava-se a seu lado, no trapézio, apoiado um na corda da direita, outro na da esquerda, e conversavam longamente. Os operários que consertavam o teto trocavam algumas palavras com ele através da claraboia, ou o eletricista que verificava os fios na galeria mais alta gritava alguma palavra respeitosa,  se bem que quase ininteligível.
A não ser nessas ocasiões, estava sempre sozinho. Às vezes, um empregado vagando na hora do descanso pelo circo vazio elevava o olhar à quase atraente altura em que o trapezista descansava ou se exercitava em sua arte, sem saber que era observado.
Assim, poderia viver tranquilo o artista do trapézio a não ser pelas inevitáveis viagens de um lugar para outro que o importunavam enormemente. Certo é que o empresário tratava de abreviar esse sofrimento.  
O trapezista era conduzido à estação num carro de corridas que ia de madrugada pelas ruas desertas a toda velocidade; demasiado lento, entretanto, para sua nostalgia do trapézio.
No trem estava preparado um lugar especialmente para ele com uma substituição mesquinha — mas de algum modo equivalente, de sua maneira de viver.
No local de destino, já estava armado o trapézio muito antes de sua chegada, mesmo antes de serem cerradas as tábuas e colocadas as portas. Para o empresário o momento mais agradável era aquele em que o trapezista apoiava o pé na corda de subida e ia se acomodar novamente em seu trapézio.
Apesar de todas essas precauções, as viagens perturbavam gravemente os nervos do trapezista, de modo que, por melhores que fossem, economicamente falando, para o empresário, sempre lhe resultavam penosos.
Uma vez em que viajavam, o artista no seu posto, sonhando, e o empresário perto da janela, lendo, o homem do trapézio interpelou-o suavemente. E disse-lhe, mordendo os lábios, que daquele dia em diante necessitava, para viver, não um trapézio, como até então, mas dois, um em frente do outro.
O empresário acedeu imediatamente. Mas o trapezista, como se quisesse demonstrar que  a aceitação do empresário não importava mais que sua oposição, acrescentou que nunca mais, em nenhuma ocasião, trabalharia unicamente sobre um trapézio. Parecia horrorizar-se diante da ideia que isso lhe pudesse acontecer alguma vez. O empresário, detendo-se e observando seu artista, reiterou sua absoluta conformidade. Dois trapézios é melhor do que um. Por outro lado, os exercícios seriam mais variados e mais agradáveis à vista.
Mas o artista, de repente, pôs-se a chorar. O empresário, profundamente comovido, levantou-se e perguntou o que havia. E, como não recebesse resposta, subiu para perto do artista, acariciou-o, abraçou-o e encostou seu rosto no dele, até sentir as lágrimas em sua pele. Depois de muitas perguntas e palavras carinhosas o trapezista exclamou soluçando:
Uma única barra nas mãos. Como eu poderia viver!
Então já se tornou mais fácil ao empresário consolá-lo. Prometeu-lhe que na primeira estação, na primeira parada, telegrafaria para que instalassem o segundo trapézio, e recriminou-se por ter deixado o artista trabalhar tanto tempo em um só trapézio. Enfim, agradeceu-lhe por ter-lhe feito notar aquela omissão imperdoável. Desta maneira, o empresário conseguiu tranquilizar o artista e retornar para seu lugar.
Em troca, ele é que não estava tranquilo. Com grave preocupação espiava, às ocultas, por cima do livro. Se semelhantes pensamentos haviam começado a atormentá-lo, poderiam cessar por completo? Não continuariam aumentando dia a dia? Não ameaçariam sua existência? E o empresário, alarmado, pensou ver naquele sonho aparentemente calmo, em que haviam terminado os soluços, começar a esboçar-se a primeira ruga na testa infantil do artista do trapézio.

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