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7/05/2019

O Patinho Disforme (Conto), de Hans Christian Andersen



O Patinho Disforme
Traduzido por: Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921) e Gonçalves Crespo (1846-1886)
O campo estava uma lindeza. Era em pleno estio. Os campos de trigo tinham uma cor de um amarelo de ouro, a aveia estava ainda verde. Nos prados de um verde mais carregado, levantavam-se montes de feno que embalsamavam o ar. Um grupo de cegonhas circulava com as suas compridas pernas vermelhas, falando uma língua que elas somente entendiam.
Campos e prados eram cercados de grandes matas: aqui e ali brilhava ao sol um espaçoso e vasto lago.
No meio desta formosa região erguia-se um antigo castelo, rodeado de fossos cheios de água, e cujos muros estavam revestidos de um espesso e emaranhado manto de trepadeiras, que se vinham juntar aos caniços e aos nenúfares de largas folhas que se estendiam sobre a superfície das águas.
Numa fenda da parede do castelo uma pata tinha feito o ninho, e estava chocando os ovos. Já lhe ia faltando a paciência; a solidão aborrecia-a, as outras patas, suas comadres, vinham lá de longe a longe fazer-lhe uma visita; as egoístas preferiam ficar a patinhar na água.
Afinal um belo dia, um ovo apareceu picado, a casca estalou, e ouviu, "pip, pip!" e uma cabeça de patinho apareceu pelo buraco. No dia seguinte apareceu segundo patinho, e logo depois outro e outro. Os animaizinhos já se mexiam muito, e soltavam muito distintamente o seu alegre "quá, quá", estendendo com muita curiosidade a cabecinha por entre as folhas verdes que serviam de cortinado ao ninho.
A primeira palavra que eles disseram, foi:
– Sempre isto que vemos é muito grande!
Efetivamente estavam mais à vontade que dentro da casca.
– Ah! vocês julgam que o que estão vendo é todo o universo? – disse a mãe – Desenganem-se; vai muito além do jardim, e além da igreja, cuja torre eu já vi uma vez; é verdade que não fui ainda mais longe.
– Ora vamos a ver uma coisa: vocês já nasceram todos? Qual! Falta um, o maior dos ovos, que está ainda intacto. Que tempo levará este a ser picado? Já me vai parecendo comprido o tempo...
E foi colocar-se de novo sobre os ovos.
– Como vai, comadre? — perguntou-lhe uma pata, que vinha fazer-lhe uma visita.
– Ora, como vou! muito aborrecida, minha comadre, com um dos meus ovos, que nem à mão de Deus Padre se quer abrir! Em compensação olhe para esta rica ninhada que aqui tenho! Já se viram umas criaturinhas mais bonitas? São o vivo retrato do pai! que por sinal ainda me não veio visitar, o maroto!
– Se dá licença, minha comadre, eu sempre queria ver o tal ovo. Quer saber? E nada mais nada menos que um ovo de peru. Já uma vez me sucedeu uma dessas; quando esses malditos perus, que me deram para tirar, nasceram, tive um trabalhão incrível com eles: cansei-me para os levar para a água; foi-me impossível. Mas deixe-mo ver; é o que eu digo, um ovo de peru. Quer saber, minha comadre? Eu no seu caso, deixava-o para aí, e tratava de ensinar os meus pequenos a nadar.
– Nada, isso não faço, eu já agora espero ainda alguns dias.
– Sua alma, sua palma, tornou a outra.
E foi-se embora.
Enfim o ovo apareceu picado, ouviu-se um "pip, pip", e saiu um patinho mais forte que os outros, mas muito feio e desajeitado.
– Ó pai do céu! que monstro! – disse a mãe, – não se parece nada com os outros: dar-se-á caso que ele seja um peru? Vamos fazer uma experiência. É preciso que ele se a tire à água: deitá-lo-ei se não for por sua vontade.
No dia seguinte fazia um tempo lindíssimo. A pata saiu com a sua ninhada, e desceu até à beira do fosso cheio de água. Deitou-se à água e começou a chamar pelos pequerruchos: q"uá, quá", e os patinhos iam-se lançando à água, onde mergulhavam a cabeça, e nadavam admiravelmente, mexendo as pernas, segundo as regras. Todos se tinham atirado à água, até o próprio que nascera mais tarde.
– Pelo que vejo, não é um peru – disse a mãe. – Vejam a perfeição com que ele mexe as pernas, e como ele vai direitinho. É meu filho, não tem que ver. Afinal quando reparo bem para ele, vê-se que não é nada feio.
– "Quá, quá!" Sigam-me, meus filhos, vamos por aí fora, quero apresentá-los aos outros patos. Aproximem-se mais de mim, e cautela com o gato!
No lago havia um grande barulho. Dois bandos de patos, disputavam, a grandes bicadas, uma cabeça de enguia. No mais aceso da batalha o gato, que, à beira do lago, parecia dormir, deu uma sapatada e fez cair em terra a cabeça da enguia, que imediatamente devorou.
– Vejam, e aprendam – disse a pata aos
filhos – a vida é cheia de embustes e de enganos. É preciso que se vão acostumando cedo como se hão de haver neste mundo. Curvem o pescoço e cumprimentem respeitosamente aquele pato velho e gordo que está ali em baixo; é de raça espanhola, reparem-lhe para os pés, orlados de vermelho. Aquilo é um sinal de alta distinção; tem aquilo para que a cozinheira se não engane e o mate.
– Vamos, aprendam a dizer: "Quá quá", e não me ponham os pés para fora. É feio.
Os pequeninos obedeciam fielmente à mãe, mas por mais que fizessem os outros patos olhavam para eles com muito maus olhos, e diziam alto:
– Ora aí temos nós outra ninhada!
Como se não fossemos já bastantes para o poucochinho que nos dão de comer!
– E então, não querem ver? – observou um patinho – onde é que a tia foi buscar um filho tão feio?
E atirou-se ao pobre do bichinho, e deu-lhe algumas bicadas.
A mãe correu a proteger o filho, e perguntou:
– O que foi que ele te fez, grande mau, para lhe bateres?
– A mim, nada, mas nunca se viu um pato assim tão grande, com aquela idade. É tão desgraçado, que desonrou a nossa espécie.
O pato espanhol aproximou-se, e elogiou muito o aspecto e as maneiras dos patinhos:
– Pena é que entre vocês esteja uma criatura tão feia!
– É verdade, – respondeu a mãe, – não é bonito, mas é muito bonzinho. Nada na perfeição. Com o tempo talvez que fique melhor; esteve muitos dias no ovo, foi isso que o fez assim. E depois – continuou ela, alisando-lhe as penas que estavam eriçadas das pancadas que lhe tinham dado – é um macho, pouco importa que seja bonito ou feio.
– Se vossemecê se consola, acabou-se, –  tornou o pato espanhol. – O que eu lhe digo porém, é que os seus filhos são uma perfeição. Que sejam bem vindos; em todo o caso se encontrarem alguma petisqueira por aí, devem trazer-ma, porque eu aqui sou o chefe, e quero que me respeitem.
A nova ninhada foi pois muito bem recebida por todos, salvo o patinho, que não deixou de ser mordido, empurrado, escarnecido e repelido. As próprias galinhas riam-se dele, e achavam-no disforme. Havia no pátio um peru, que passeava com o papo muito cheio e assoprado, como se julgasse que o mundo lhe pertencia. Quando viu o patinho ficou furioso, e atirou-se ao desgraçado: chegando à beira do lago, e vendo que não podia alcançar o objeto da sua cólera, fez-se muito vermelho, e soltou terríveis "glús glús".
Para o patinho não havia uma hora de descanso. Nem sequer de noite podia dormir, pensando nas amarguras que tinha sofrido de dia.
Cada dia era pior. Os seus próprios irmãos riam-se dele, e diziam:
– Não sei o motivo por que o gato o não apanha, a este maldito que nos anda envergonhando!
A mãe, que ao princípio o defendia, acabou por dizer:
– Quem dera que ele morresse!
E os outros patos cada vez eram piores para ele, e até a criada quando vinha trazer a comida para a criação, dava-lhe pontapés se acaso o bichinho se aproximava dela.
Afinal o patinho viu-se tão apoquentado da sua vida, que um belo dia largou a voar por cima das sebes, dos jardins e dos campos. Os passaritos que se aninhavam nos ramos das árvores, ouvindo o barulho daquelas asas pesadas e inexperientes, fugiam cheios de susto.
– Têm medo da minha fealdade, – pensou consigo o patinho, e fechou os olhos para não ver aqueles lindos animaizinhos fugirem ao avistá-lo. Foi voando, voando, até que chegou a uma grande lagoa onde havia patos bravos. Parou ali, e escondeu-se nos juncos: estava cansado, e morto de tristeza. Pela manhã os patos começaram a observar com curiosidade o recém-chegado.
– De onde é que vens? De que raça és? – perguntaram.
O patinho entrou a fazer cumprimentos acanhados, próprios de uma pessoa que está muito envergonhada.
– Podes gabar-te de que és rasgadamente feio, – disseram-lhe os outros. – Mas isso pouco nos importa, com tanto que se te não meta na cabeça o casares com uma das nossas filhas.
Coitado! como se ele pensasse em casar-se! Muito feliz se julgava ele em que o deixassem ali ficar, e era que lhe consentissem que procurasse a caça e o abrigo naqueles juncos! Permaneceu ali pois coisa de alguns dias. De repente arribaram dois patos que vinham do norte; eram moços, e a mocidade gostou sempre de aventuras.
– Olá, amigo, – disseram eles ao patinho. – Tens um feitio tão patusco que nos diverte bastante. Anda daí conosco, e serás, como nós, ave de arribação. Não longe daqui, numa outra lagoa, há algumas patas que não deixam de ser amáveis: como não têm visto muitos patos, não sabem o que é ser bonito ou feio; talvez que tu, apesar de seres feio, consigas agradar a alguma delas.
Nisto ouviu-se "piff, paff", e os dois patos caíram mortos na água. Daí a pouco ouviu-se de novo "piff, paff". Bandos de patos e marrecos saíram dos caniços e deitaram a fugir para todos os lados. Os tiros de espingarda repetiram-se; era uma grande caçada. Os caçadores estavam uns nas margens da lagoa, outros por entre os ramos dos salgueiros e dos choupais. O fumo azul da pólvora formava uma nuvem espessa. Os cães atiraram-se à água, fazendo "plask, plask"; e metendo-se por entre os juncos iam já próximos do esconderijo do patinho. Que sustos para o pobrezinho! já ia esconder a cabeça debaixo da asa para não ver aquela cena horrorosa, quando viu diante de si um enorme cão, de olhos vivos e brilhantes cheios de raiva, e de boca aberta onde alvejavam dentes afinados e terríveis. O cão rangeu os dentes olhando para o patinho, depois "plask, plask", nadou para diante e foi em busca de uma caça melhor.
– Afinal a minha fealdade já me serviu de algum proveito. Até este cão teve nojo de mim! – disse consigo o pato quando o perigo passou.
E meteu-se no mais espesso dos juncos, enquanto as balas assobiavam, e que se ouviam as detonações dos tiros. Aquilo durou cerca de um dia inteiro. Depois os caçadores foram-se embora. Mas o patinho ficou ainda algumas horas sem se mexer. Afinal depois de muitas precauções, saiu da água, e deitou a fugir o mais depressa que pôde, atravessando campos e vales, no meio de um temporal que o não deixava ir tão depressa como queria. O que desejava a todo o preço era fugir daquela maldita lagoa.
À boca da noite chegou a uma pequena e pobre cabana de lavrador: tão arruinada estava esta habitação que bem se podia dizer que o que a sustentava de pé era justamente o não saber a pobre para que lado havia de cair. O vento era de tal modo violento, que o patinho teve de se encostar à cabana para não cair. Viu então que a porta não estava muito segura: vai o patinho, meteu-se por uma fenda e penetrou no interior. Na cabana morava uma velhinha, com um gato e uma galinha. O gato que ela chamava meu filho era um magnífico animal, que gostava muito que lhe fizessem festas no lombo; a galinha tinha os pés ridiculamente curtos, mas era muito poedeira, e a mulher estimava-a bastante por isso.
Pela manhã quando se deu com o intruso, o gato começou a roncar o seu "ron-ron", e a galinha entrou a fazer "glu-glu".
– O que é isto? – perguntou a velha.
Foi ver e deu com o fugitivo. Julgou que era uma pata e exclamou:
– Ora ainda bem, ainda bem, vamos ter ovos de pata, havemos de tirar uma ninhada.
Tomou conta do bichinho, e deu-lhe agasalho e boa comida. Foram estes os melhores dias da vida do pato. Mas três semanas depois, quando se percebeu que ele não punha, começaram de novo as atribulações e aflições do desgraçado.
A galinha era como que a senhora em casa, dizia sempre nós e os outros. Este nós que lhe dizia respeito a ela, à mulher e ao gato, colocava-o ela acima de todo o universo. O pato ousou um dia emitir uma opinião diferente.
A galinha gritou logo:
– Sabes pôr ovos?
– Eu, não – respondeu o pato.
– Pois nesse caso, tem a bondade de te calares; não tens préstimo nenhum.
– Sabes pôr em arco a espinha, e fazer "ron-ron"? — perguntou o gato.
– Eu, não – respondeu o pobrezinho.
– Pois então o melhor que tens a fazer, é calares esse bico; contenta-te em ouvir as pessoas de juízo.
O patinho calou-se, e meteu-se a um canto. Via-se de novo infeliz e desgraçado. O sol e o ar fresco penetravam na cabana, e ele sentiu uma grande vontade de nadar. Foi dizer isto à galinha.
– Ora aí está o perigo de não fazer nada! Vem-nos dessas ideias extravagantes. Pusesses tu ovos e fizesses "ron-ron", já não te passariam pela cabeça essas tolices.
— Mas é tão bom retouçar na água, mergulhar a cabeça, e ir até ao fundo duma lagoa!
— Estás doido completamente — respondeu a galinha. — Pergunta ali ao gato, que tem juízo para dar e vender, se é bom meter-se a gente na água. Não falo por mim; mas vai ter com a nossa patroa e pergunta-lho: ninguém sabe mais do que ela. Sempre quero ver se ela gosta de chafurdar na água.
— Nada, vocês não me compreendem — ousou replicar o pato.
— O que dizes tu? Que te não compreendemos! Ora esta! Então julgas que és mais esperto que a patroa e o gato? Não falo de mim, repara bem. Ora vamos, meu amiguinho, tenha juízo e seja modesto. Deus pode cansar-se de ser tão bom como tem sido até agora para ti. Fez com que viesses ter aqui; tens a nossa sociedade, poderias aproveitar-te dela para te instruíres. Tomara eu poder-te ensinar alguma coisa. Não deixo de ser tua amiga, e se te digo algumas verdades amargas, é para teu bem. Nota o que te digo: não há neste mundo senão duas coisas: pôr ovos, e fazer "ron-ron". Trata de aprender isto.
— Talvez que em viajando eu venha a saber isso – disse o patinho.
— Olha que isto não pode senão fazer-te bem, disse a galinha. Por ora ainda és chapado tolo.
O patinho saiu dali, dirigiu-se a uma lagoa solitária, e deitando-se à água, nadou à sua vontade, mergulhou, tornou a mergulhar, e assim se esqueceu das tolices da galinha.
Chegou o outono. As folhas amareleceram, secaram, o vento levou-as, e fê-las redemoinhar nos ares. Veio depois o inverno; nuvens pesadas de neve encobriam o sol. Ouviam-se os corvos passar, grasnando, transidos de frio.
Recomeçaram as aflições do patinho. Uma vez contudo o bichinho teve um momento de felicidade. O dia tinha sido muito bonito: o sol pusera-se envolvido em nuvens de uma cor vermelha esplendida. Nisto passou um bando de grandes e magníficas aves; o patinho nunca vira aves daquela espécie. Eram de uma alvura extraordinária, tinham pescoços compridos, que recurvavam graciosamente; eram cisnes. Soltaram um grito especial. De asas abertas, voavam para os países do sul, em busca de calor. Subiam, subiam sempre; e o patinho, ao vê-los, sentia uma sensação até ali desconhecida. Vivou-se e revirou-se na água, estendeu o pescoço para eles, e soltou um grito vibrante e singular, que o encheu a ele próprio de susto.
Ah! como ele gostava daquelas aves, sem as conhecer, sem saber onde iam! Quando desapareceram, o pato mergulhou até ao fundo da água, e quando veio à superfície sentiu uma comoção como até ali nunca sentira. Admirava aquelas magníficas aves, e não lhes tinha inveja. O desgraçadinho, que teria sido tão feliz se os patos o quisessem admitir na sua companhia, pensava de certo que seria sempre uma criatura repugnante.
O inverno foi muito rigoroso: gelaram as lagoas e tanques, e o patinho viu-se obrigado a nadar continuamente, mexendo os pés até de noite, para que a neve se não formasse em volta do seu corpo. Mas por mais que fizesse, o círculo em que ele estava metido ia-se apertando, apertando, até que uma noite não pôde mais lutar, não se mexeu, e ficou imóvel, preso, adormecido no gelo.
Pela manhã, um camponês que passava, quebrou com os tamancos o gelo, e levou para casa o patinho, que se reanimou com o calor. As crianças queriam brincar com ele, mas o pobrezinho, com medo de novas judiarias, julgou que eles lhe queriam fazer mal, e fugiu atordoado indo cair numa grande panela cheia de leite, que se derramou pelo chão. A camponesa, zangada, agarrou em umas tenazes, e foi para lhe bater, mas o patinho começou a esvoaçar, indo afinal cair numa barrica de farinha; ao sacudir-se levantou uma nuvem branca que encheu a casa toda, mas a mulher cada vez estava mais furiosa e cada vez o perseguia com mais raiva.
As crianças estavam contentíssimas com esta cena: riam a bandeiras despregadas, e corriam como doidas atrás do pato, que não sabia onde se meter.
Felizmente uma rajada de vento escancarou a porta, e o desgraçado fugiu, indo esconder-se num montão de lenha.
Foi uma vida dura e triste a do pobre patinho em todo aquele inverno. Afinal o sol tornou a aparecer, e a cotovia cantava de novo. A primavera surgiu tão bonita quanto o inverno fora feio.
O patinho tinha também crescido bastante, e adquirira mais força nas asas. Sem pensar em tal, um belo dia ergueu-se por esses ares, e foi mais alto do que nunca pensara. Depois de ter pairado muito à sua vontade nos ares, desceu, e achou-se numa grande e lindíssima quinta. Estavam em flor os espinheiros e os sabugueiros. Através de maciços das árvores, serpenteava um ribeiro cristalino que ia desaguar num grande lago orlado de uma relva macia e verde. Que bonita coisa! Como se estava bem naquela sombra! De repente o patinho viu aparecer no lago três cisnes formosíssimos. Deslizaram também sobre a água! O vento enfunava-lhe as asas, estendidas como as velas de um barco.
Ao vê-los, o pato sentiu-se dominado de uma doce melancolia.
– Bem sei, reconheço – disse – estas aves reais; vou admirá-las de mais perto, matar-me-ão decerto, e têm razão para isso: um feiarrão como eu não tem direito de se aproximar deles. Mas acabou-se: mais doce me é ser morto por estes, do que ser maltratado pelos meus irmãos patos, escarnecido pelas galinhas, e repelido por toda a gente.
E nadou em direção das lindas aves; estas assim que o viram, foram ao seu encontro, fendendo os ares.
— Bem sei o que me espera, matem-me, matem-me! – exclamou o infeliz, e abaixou a cabeça para a superfície das águas, esperando a morte.
Mas o que viu ele no cristal do lago? A sua própria imagem: não era uma criatura desajeitada, sem graça, e de um cinzento sujo, era um cisne.
Importa pouco que sejamos chocados por uma pata, no meio de patos; quando se sai de um ovo de cisne, sempre afinal se reconhece a raça a que pertencemos.
O cisne já não se lembrava dos trabalhos por que tinha passado, diante da doçura da sua felicidade atual. Os outros cisnes cercavam-no, faziam-lhe festas. Muitas crianças vieram à margem do lago, lançando para a água, pão e hortaliça, e o mais pequeno dos meninos exclamou:
— Repara, há mais um cisne!
— E é verdade, é um novo, é um novo!
– gritaram os outros cheios de júbilo, e foram a correr dizer aos pais. Voltaram com bolos e doces que atiraram de novo à água.
— É o mais bonito de todos. Que lindo, que bonito!
Quanto ao patinho nem sabia o que fazia, tal era o seu espanto! Em vez de se encher de orgulho, como tantos o faziam, sentia-se envergonhado e escondia a cabeça debaixo da asa. Pensava em todas as amarguras que tinha padecido, e agora chamavam-no o mais belo daquelas magníficas aves que ali estavam! Foi reinar com eles sobre esse formosíssimo lago, cercado de bosques encantadores. Levantou então o pescoço gracioso e flexível, curvou as asas, que a brisa enfunou e fez sussurrar, e deixou-se deslizar elegantemente sobre o cristal das águas.
E cheio de uma felicidade íntima, dizia consigo:
— Nunca, nunca, nem ainda quando eu era o patinho feio e disforme, me passou pela ideia que teria uma felicidade como esta!
Esta história tão bonita, tem um sentido oculto que é ainda mais bonito. Quer ela dizer que as pessoas que nascem com aptidão, talento ou virtudes verdadeiramente grandes, por muito pouco compreendidas, por muito pouco conhecidas, por muito maltratadas que sejam, sempre no fim de contas vêm a sair vencedoras de todos os contratempos.

Cinco na mesma Vagem (Conto), de Hans Christian Andersen



Cinco na mesma Vagem
Traduzido por: Gabriel Pereira (1847-1911)
Numa vagem estavam cinco ervilhas. Estavam ainda verdes e verde era também a vagem; por esta razão acreditavam que o mundo era verde; – que o leitor se considere na posição das ervilhas, e facilmente perceberia esta ilusão. Cresceu a vagem, cresciam as ervilhas, tendo sempre o cuidado de se conservarem bem alinhadas e nas respectivas distâncias.
O sol aquecia a vagem; a chuva e as gotas de orvalho a tornavam clara e transparente, e assim, durante o dia, gozavam as ervilhas uma doce claridade e durante a noite as trevas lhes favoreciam o sono. Mas, crescendo, tornaram-se sérias e cismadoras.
– Então ficaremos sempre aqui? disse uma delas. Muitas coisas há de haver lá fora dignas de admiração. Passaram algumas semanas e elas amareleceram.
– Agora está tudo amarelo, diziam as cinco ervilhas; muitas voltas dá o mundo.
Subitamente sentiram uma viva comoção; um homem arrancara a vagem e a lançara num cesto com muitas outras.
– Ora enfim, vamos ter a liberdade, disseram as ervilhas; e esperavam com impaciência o grande e venturoso momento.
– Qual de nós irá mais longe no mundo, e chegará a uma posição mais elevada? disse a mais pequena das cinco. Em breve o saberemos.
– Seja feita a vontade do Senhor! disse a maior, com sincera resignação.
Traz! abriu-se a vagem: e as cinco ervilhas rolaram na mãozita dum rapaz.
– Oh! que belas balas para a minha espingarda! exclamou ele, e meteu uma no tubo de lata e largou a espiral.
– Vou correr mundo, pensou a ervilha cheia de entusiasmo. E desapareceu. O rapaz introduziu a segunda no cano.
– Agora vou parar ao sol, pensou a ervilha, descrevendo a sua parábola. Que vagem tão quentinha que hei de ter lá.
As três ervilhas restantes, menos ambiciosas, assustaram-se vendo as grandes cambalhotas das suas companheiras, e deixaram-se escorregar e cair no chão; mas o rapazito apanhou-as também, dando lhes o mesmo destino.
– Chegou a minha vez, disse a última, cumpra-se a vontade do Senhor! e foi cair na janela duma casa pobre, antes uma choupana, numa fenda cheia de musgo e terra.
O musgo em breve cercou e envolveu o pequeno grão. Na choupana morava uma infeliz mulher que vivia de fazer recados e de pesados trabalhos. Aceitava os trabalhos mais custosos, porque era forte e corajosa e... era mãe; e a_ filha, uma criança pálida e loura, flutuava, havia quase um ano, entre a vida e a morte.
– Também esta vai para o céu, dizia a pobre mãe; vai juntar-se à irmãzinha. Meu Deus! já me levastes uma, deixai-me esta, Senhor! Estás tão doente, tão fraca, parece-me que não escapas, filha!
Chegou a primavera, e, uma manhã, quando a mãe ia sair, o sol, rompendo a neve iluminou com tal intensidade a janela da choupana, que a doente olhou para lá admirada.
– Parece-me, disse ela, ver o que quer que é, a tremer, ali na janela. Que é?
A mãe abriu a janela.
– Olha a graça! disse ela, é uma ervilha que está aqui entre o musgo; já tem umas folhinhas; como viria ela aqui parar?
– Não a arranque, mãe, deixe ver se ela cresce muito...
– Não, filha, não a arranco. Queres vê-la mais de perto?
E aproximou o leito da janela, para que a filha visse melhor a planta delicada; depois abraçou-a e saiu.
À noite, assim que entrou, disse-lhe a pequena:
– Já estou melhor, fez-me bem o calor do sol, e, olhe, vendo como a ervilha ali nasceu e vai crescendo, pensei que me havia de curar e que o sol e o ar me fariam bem.
— Queira Deus! respondeu a mãe, ainda assim com bem pouca esperança.
No dia seguinte a pobrezinha rodeou a ervilha com um pequeno caniçado; passados dias as hastes verdes e sarmentosas se entrelaçavam cheias de viço e frescura, e não tardou muito a aparecer a primeira flor.
– Feliz presságio! pensou a mãe, e começou a ter também esperanças na cura da pobre criança. A doentinha falava já com mais animação; levantava-se e assentava-se sem ajuda, e olhava sempre com o maior prazer, com afeição até, a planta que revestira a janela com um cortinado de verdura. Uma semana mais tarde, podia ela já estar algumas horas fora do leito, todos os dias. Assentava-se junto da janela e aí, em companhia das flores alvas e rosadas, gozava da suavidade do ar e do calor do sol.
— Foi o bom Deus, dizia a alegre mãe, foi o bom Deus, minha filha, que fez crescer a pobre planta numa fenda cheia de musgo para que o seu aspecto alegrasse os teus olhos e nos desse a ambas coragem e esperança.
E as outras ervilhas? que seria feito delas? Uma caíra num telhado e foi engolida por um pombo, e a mesma sorte tiveram as outras duas; sempre serviram para alguma cousa. A outra, a tal que desejava ir para o sol, caiu mesmo no meio da regueira, e aí ficou, na lama, cada vez mais inchada.
– Se isto continua, dizia ela, arrebentarei sem dúvida. Estou certa que nenhuma outra ervilha atingiu um tão colossal desenvolvimento; das cinco que estávamos na mesma vagem sou eu a mais notável, mas muito mais notável.
Talvez minhas irmãs tenham alcançado posições eminentes? Mas o importante é engordar.
Um dia a rapariga da choupana, completamente restabelecida, os olhos brilhantes, as faces rosadas, aproximou-se da janela, elevou ao céu as mãozinhas postas e do íntimo do seu coração agradeceu a Deus o ter-lhe restituído a saúde, e o ter poupado á mãe a dor imensa de ver morrer a sua ultima filha; e depois inclinou o olhar sobre a planta, que tinha as folhas ainda verdes, mas cujas flores haviam já sido substituídas por formosas vagens.
– E tu, minha pobre planta, verde como a esperança e que foste para mim o primeiro sinal da proteção divina, tu não tardarás a amarelecer e a secar. Mas eu não te esquecerei; colherei os teus grãos e todos os anos os teus descendentes crescerão tratados pelas minhas mãos aqui nesta janela; e as suas flores serão sempre para mim as mais encantadoras e mimosas. E a ervilha, confiada nesta promessa da inocente, regozijou-se pensando que o beneficio dela seria útil à sua posteridade.
– Seja feita a vontade do Senhor! repetia ela. Pobre ervilha como sou, a minha existência limita-se a uma estação; mas como é agradável pensar que hei de sobreviver nos filhos, e que eles serão ainda protegidos pelas recordações que eu deixar! Não será este um modo de ir longe, bem longe no mundo? 
E no entretanto a regueira lá ia levando a sua água fétida e turva, murmurando:
– Cá levo a minha ervilha. Tanto engordou, tanto se saturou de lama, que se desfez em podridão. Não deixou nem um gérmen, nem uma lembrança. Serviu apenas para ajuntar alguns átomos sem nome aos que eu tenho já e que servem para alimentar a terra e os animais imundos. Fim dos ambiciosos! Querem a princípio ir para o sol e quando lhes sucede cair na lama, acham-se tão bem, tão no seu elemento que não pedem mais nada. A este respeito as ervilhas parecem-se muito com os homens.

O Anjo e a Flor do Campo (Conto), de Hans Christian Andersen




O Anjo e a Flor do Campo

Traduzido por: Xavier da Cunha (1840-1920) 


– Sempre que sucede morrer uma criança boa, desce um anjo do céu a buscá-la, e, depois de a recolher em seu regaço, desdobra as asas brancas, dadas pelo Criador, afim de ir percorrendo em seguida todos os sítios com que na terra a criança mais simpatizou. As flores que nesta digressão apanham, levam-nas ambos ao Pai Celeste, para ele as fazer lá reflorir no empíreo mais formosas e odoríferas, imarcescíveis mesmo. Deus então aconchega ao peito essas flores, – e na que mais lhe apraz deposita um beijo. Esse beijo tem o condão miraculoso de inocular na flor animação e voz.
Destarte a flor transfigurada passa a tomar parte também nos harmoniosos coros dos bem-aventurados. Assim falava um anjo de Deus na ocasião de transportar para a mansão celestial uma criança morta. E a criança escutava o anjo, absorta, embevecida, como se a envolvessem cintilantes brumas de um sonho fagueiro. E o anjo, conchegando ao regaço a criancinha, voava naquele momento por sobre os sítios, de que ela mais tinha gostado em vida, – jardins esmaltados de flores lindíssimas.
– Quais destas queres, perguntava o anjo, que daqui levemos para lá plantarmos no céu?
Aconteceu passarem por junto de uma roseira magnífica. Mãos daninhas, porém, de qualquer mal-intencionado, haviam barbaramente praticado o ato brutal de quebrar-lhe o tronco, por forma que os desditosos ramos, carregadinhos de rubros botões prestes quase a desabrocharem, pendiam tristemente emurchecidos, enquanto de todo não secassem.
– Que dó que me faz o pobrezinho do arbusto! exclamou a criança. Ah! que se pudéssemos levá-lo conosco para ir lá no céu reverdecer e reflorir!...
Fez-lhe o anjo a vontade e apanhou a roseira. Depois continuaram a colher flores de variadas castas, até reunirem um volumoso braçado.
– Parece-me que bastam agora já essas que levamos, observou a criança.
O anjo fez um aceno de condescendência, mas sem remontar ainda o voo para o firmamento. Começava a pronunciar-se cada vez mais a escuridão da noite incipiente. Reinava em torno um silêncio profundíssimo. Nisto aconteceu passarem quase rentes com uma ruazita estreita e sombria, em cujo pavimento jaziam dispersos, abandonados, desprezados por entre o lixo do solo, fragmentos de louça quebrada, vidros partidos, chinelos velhos, farrapos e trapalhadas, que denunciavam esse conjunto de peripécias sempre mais ou menos inerentes a qualquer mudança de domicílio. Algum morador, que dali se ausentara, – ao transportar para a nova residência seus pobres tarecos, havia certamente arremessado à rua a inútil frandulagem de que já não precisava.
Por entre estes destroços mostrou o anjo à criança os cacos de um vasito de flores. Junto aos cacos viam-se os torrões esboroados da terra que em tempo enchera o vaso. A um desses torrões prendiam-se ainda as raízes de uma singela planta campestre, com a sua florinha de mimosas cores emurchecida já e quase esfolhada, suja de pó, amachucada e pisada pelos pés dos transeuntes. E, ao mostrar-lha, disse o anjo à criança:
– Levaremos também esta, coitada, no caminho te irei contando os motivos.
Depois começou a erguer, a erguer o voo para o céu. Foi então que o anjo deu princípio à narrativa seguinte:
– Ali, naquela rua sombria que tu viste, morava numa espécie de toca uma criancinha enfermiça. Era um pequenito que nascera enfezado e raquítico. Sua moléstia congênita impunha-lhe a necessidade tristíssima de permanecer quase sempre na cama. Se alguma vez acontecia sentir melhoras, o mais que lograva era percorrer o quarto em roda, amparado nas muletas. Quando chegava o estio, entravam-lhe pela janela uns raios de sol a iluminarem-lhe o acanhado âmbito do seu miserável domicílio. A criança aproveitava então a visita fugitiva daquelas ondulações luminosas e nelas se aquecia, e nelas buscava revivificar-se, como se fora aquilo a benéfica influência de um higiênico passeio pelo campo. Este pequenito nunca em sua vida tinha pois podido apreciar a magnífica verdura das florestas, e delas só podia formar uma longínqua ideia por algum ramo de faia que o filho do vizinho lhe trazia de tempos a tempos, como lembrança. Pegava então no ramo, e dependurava-o por sobre a cabeceira, fazendo assim de conta que estava repousando à sombra de virente arvoredo, com as ondulações doiradas de um sol em perspectiva e um delicioso chilreio de mil passaritos a encher-lhe de música os ouvidos. Numa bela manhã de primavera trouxeram-lhe umas flores do campo; casualmente uma destas vinha ainda com a raiz intacta. Tira-se de cuidados o pequeno, e trata de plantar cautelosamente o vegetalzito num vasinho de barro, que daí por diante ficou constituindo o seu constante enlevo, pousado no parapeito da janela, à ilharga do leito em que jazia. Plantado por mãos carinhosas, regado, tratado, acariciado, o vegetal campestre soube na sua humildade agradecer os afagos de tanta solicitude; em breve lhe pulularam viçosos rebentos; e todos os anos se desatava em novas flores, como a festejar o seu desvelado cultor. Para o pobre doentinho era aquilo o seu estimado jardim, o seu único tesouro neste mundo; queria-lhe com todo o afeto da sua alma; prodigalizava-lhe os seus mais encarecidos mimos; da água, que bebia, dava-lhe sempre as primícias; colocava-o de modo que nunca perdesse um raio sequer do sol que escassamente lhe entrava pela janela. E a humilde planta vegetava e desenvolvia-se; revestia-se cada vez mais de folhedo; toucava-se de botões que desabrochavam em flores; irradiava-lhe perfumes; parecia até sorrir-lhe com requintes de galanteio. Por sua parte o pequenito, – quando afinal Deus o chamou à sua eterna presença, – o pequenito, antes de soltar o derradeiro suspiro, inclinou-se comovido para a sua verde companheira e segredou-lhe de mansinho, muito de mansinho, as suas ternas, últimas despedidas. Faz agora um ano, que o pobre enfermo faleceu; e durante este ano todo lá ficou desprezada, esquecida a um canto, no mesmo parapeito da esguia fresta, a planta campesina em que outrora havia docemente concentrado seus cuidados e alegrias o infantil doentinho. Faltando-lhe os mimos, a que se acostumara, pouco a pouco murchou e se foi o triste vegetal mirrando, até que o próprio vaso agora lhe deitaram à rua, como inútil pejamento, por ocasião de sair dali quem habitava naquela miserável toca. Foi esta a flor, que ora acabamos de cuidadosamente recolher de entre o lixo da rua; e, se em nosso ramalhete a arrecadei com tanto carinho, é porque, – onde a vês, amachucada, espezinhada, — causou já mais alegrias e mais enlevos, do que se fora uma flor raríssima no jardim de uma rainha!
– E como é que tu sabes os pormenores todos dessa história? perguntou a criança ao anjo.
– Como é que os sei? é porque se passaram comigo estas particularidades; o pequenito das muletas sou eu; não querias que reconhecesse a minha estimadíssima flor?
A criança olhou então deslumbrada para o rosto esplendoroso do anjo. Chegavam naquele momento às luminosas portas da privilegiada mansão, em que ninguém respira senão júbilo inefável e felicidade eterna.
Quando o Pai do Céu estreitou em seus braços o corpinho da criancita morta, sentiu esta, como por encanto, despontarem-lhe milagrosamente nas costas duas azas brancas, muito brancas, de plumagem fina, acetinada, exatamente iguais às do anjo que o transportara.
E ambos de mãos dados, agora perfeitamente idênticos na sua essência imutável, ambos graciosamente unidos em fraternal amplexo, foram então voando risonhos pela estrelada amplidão do empíreo.
Em seguida recolheu Deus no regaço as flores que os recém-chegados lhe haviam trazido; todas amimou e agasalhou por igual; – mas na pobre planta que o anjo apanhara de entre o lixo, nessa, como se quis esse distingui-la com o privativo selo da sua espe­cial predileção, depositaram seus divinos lábios um beijo.
É logo a florinha dos campos, que abandonada e desprezada jazera na lama da rua, de pronto renasceu transfigurada; brotou-lhe instantaneamente voz; incorporada no grupo infinito das criaturas angélicas que flutuam em torno do Omnipotente, ficou simultaneamente com estas entoando os solenes cânticos da felicidade celeste.