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7/31/2023

Fragmento de um romance inédito (Conto), de Inês Sabino

 

FRAGMENTO DE UM ROMANCE INÉDITO
(AO DR. SÍLVIO ROMERO)

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Não era surpresa aquilo. Tudo na vida é natural pela forma das circunstâncias. Além Disso, o tempo do romance piegas já passou. Com a idade medieval foram-se as castelãs; com a época do romantismo tombaram os poetas de palidez marmórea, acabaram-se os tísicos e aqueles que faziam da vida uma serie de conjunto tão poeticamente contornada, a ponto de hoje parecerem ridículos, irrisórios, mesmo até incompreensíveis.

A atualidade quer robustez. A geração presente é uma geração de fortes. O chique, o ideal das moças já não é o ar doentio e débil, mas sim o da saúde, o da vida, o do bem-estai da alma, educando-se para viver sem sucumbir, tendo no rosto duas rosas estampadas; não de carmim artificial, mas sim do sangue bom, transmissor da saúde, da força e da vida.

É possível que a leitora que folhear estas páginas conheça algumas noções da psicologia positiva que se esforça a não perder de vista a combinação da física com a moral, do agente e da ação, considerando o tecido nervoso, o tecido por excelência. Para conhecer-se o temperamento de qualquer individuo, a sua energia elástica e vital, e até mesmo para julgar do seu valor individual, bastará medir exatamente por ele o sistema nervoso nos diversos modos de ação e reação combinados com a noção do volume do centro dos mesmos.

Pessoas há que possuem uma impressionabilidade de imaginação muito fraca, não podendo por isso guardar por muito tempo uma impressão moral.

Para esses, os atos que dependem do cérebro são lentos; não se lhe podendo exigir esforço violento ou enérgico. Os seus afetos são calmos; encontrão facilidade na vida, porque a estes não se lhes liga muita importância em atenção ao caráter.

Há outros, porém, que são da cabeça aos pés muito impressionáveis; tudo os agita; tudo os faz gozar; ou mesmo até sofrer. Nestes, a ação nervosa é rápida, enérgica, e, posto que esta impressão jamais repouse, o seu caráter tem uma mobilidade excessiva.

As faculdades intelectuais, mesmo quando sejam bem pronunciadas, não podem ser fixas por não conservarem por muito tempo uma impressão, buscando em seguida outra; sendo por essa forma interrompidas as emoções que privam a inteligência de agir com certa presteza, muito embora reúna ela facilmente o colorido da imaginação que obedece, sem o acoite das paixões, dando preferência ao que emana da razão.

 Nas criaturas, ainda há um outro predicado adicionado aos de cima, descritos palidamente por mim. É ainda a sensibilidade elevada ao mais alto grau.

A imaginação neles é mais ardente e vigorosa, posto que inconstante. Alegres, corajosos e ativos, são-lhes comuns os atos da vida; nada estranham, tudo percebem e atuam sem restrições. A fisiologia, minha cara leitora, designa o primeiro como linfático; o segundo, como nervoso, e o terceiro, como sanguíneo.

E é da formação do caráter que o indivíduo atrai sobre si as atenções pessoais de outrem, criando muitas vezes afetuosos nos que julgava indiferentes; e amigos quase sempre sinceros, nestes que cria apenas gozar de mera simpatia.

A viscondessa vira o nome daquele a quem amara no número dos passageiros chegados.

Era justo que viesse; o amor esfria com o tempo; ela casara-se embora forçada com um velho titular a quem não amava mas que a moral obrigava a respeitá-lo, não caindo sobre a sua coroa de nobreza um único salpico do pó das más línguas Havia dois anos que Corbela vivia como uma verdadeira fidalga, embora muito nova, aos vinte anos, apenas, considerava que os desperdícios do visconde não podiam, nem deviam ir além. Ele não media despesa: gastava em casa, gastava na rua, gastava no jogo. E a última companhia lírica quantos contos de réis lhe havia devorado; e com a atual, quanto não esperdiçava com essa cantora, de quem publicamente fizera-se amante?!...

Olhou em roda: o boudoir era caprichosamente adornado; o palacete, mobiliado cem luxo; as carruagens, ótimas; a criadagem, escolhida; boa capa, boa adega. Nada mais faltava-lhe a não ser o amor, a confiança que ele não lhe despertava, e que ela não lha pedia, por não lhe ser isso facultado.

Ao ficar viúva, o que restar-lhe-ia?  

Com as mãos cruzadas á toa sobre o regaço, a moça volveu um olhar pelo livro do passado e virou-lhe a primeira folha. Era a da infância; volveu a segunda, era a da adolescência; virou ainda a imediata. Era a da juventude cheia de risos e de mimos daquele velho avô, que a criara na mediania, mas pela ambição que tinha de vê-la feliz, sacrificara-lhe o futuro inteiro. Se ao menos tivesse um filho?

O pródigo do marido sem dúvida não teria ainda feito testamento, porque no tresloucamento em que vivia não julgava que a vida se assemelha a luz vacilante da vela que a crepitar, apaga-se de vez.

Nestas cismas, procurando riscar da memória a imagem que buscara apagar do coração desde que ligou-se ao titular, lembrou-se que ainda conservava dele uma relíquia. Eram sonhos do passado, provação para o presente, mas baixeza para o futuro. Resolutamente abriu uma das gavetas da secretaria de charão, de onde tirou um saquinho de veludo, dentro do qual ao pegar numa fotografia, a mão trem e o; depois, retirou umas cartas, e depois flores secas.

Sem dúvida que uma recordação agradável perpassou-lhe na mente. Desanuviou o semblante; o sulco frontal indicando resolução e energia, tornou-se menos profundo; ela sorriu, e inconsciente, beijou tudo como quem beija uma relíquia, ou a lembrança legada por pessoa que morreu. Depois, num ímpeto, estraçalhou o retrato, a carta, e as flores; findo o que, acendendo um fósforo chegou-o aos destroços, não querendo ver porém, a pequena chama que produzia o incêndio dos objetos queimados.

Seriam cinco horas da tarde. Nessa noite havia espetáculo, e ao jantar esperava visitas. O ruído que fez alguém entrando no aposento obrigou-a a voltar a cabeça. Era o marido que dela aproximava-se dando-lhe as pontas dos  dedos os quais ela apertou na aristocrática e bem feita mão.

— Aí na sala está o ministro francês; convidei-o a jantar, são cinco e meia, e é bom não fazê-lo demorar. Temos hoje a nossa recita de assinatura, como sabes.

— Sim, respondeu encaminhando-se para o botão elétrico da porta. Pede-lhe desculpa se por acaso me demorar um pouco; preciso fazer uns reparos neste cabelo. Até já; e estendeu-lhe a mão que foi apertada por ele glacialmente, como se assim demonstrasse ser de mais aquela atenção, saiu o visconde sem dirigir a sua mulher mais que um olhar de indiferença.

Como fora frio o contato daquelas duas mãos, a que tão sem calor correspondeu ele, não visando esse bem que sentimos quando apertamos a mão da pessoa a quem estimamos, e que lhe fora dada por ela com certo interesse, e quase cordialidade!...

É exato que, embora denote polidez, um aperto de mão entre nós brasileiros, ele quase que não traduz emocionabilidade ou efusão, fazendo-nos inversos dos ingleses que tornam característico, tradicional e com certo viso de originalidade o seu shake-hands sacudido, meio rude, mas franco, leal e generoso.

Entre nós, o aperto de mão é sem vida, sem expressão, limitando-nos muitas vezes a tocarmos, não as mãos, mas apenas as pontas dos dedos apresentadas.

Por mim, tenho analisado. Educada à inglesa, habituei-me a sentir-me bem, quando aperto como essa boa gente a mão de uma pessoa amiga. num bom aperto de mão, sincero, amistoso, cordial, humorístico, conhece-se o caráter de quem o dá, ou o transmite, mostrando espírito, importância pela pessoa estimada, repartindo assim o fluido magnético estabelecido pelo contato da simpatia mútua.

Corbella dirigiu-se ao salão, e daí pelo braço do diplomata passou à sala de jantar. Felizmente estavam todos de bom humor, conversavam sem etiqueta, familiarmente, comendo-se sem constrangimento, adubando a refeição algum dito picante ou alguma anedota contada pelo ricaço. As iguarias eram abundantes, a mesa bem servida, os vinhos finos, a sobremesa variada, e a louça de preço.

Depois do café todos retiraram-se, dirigindo-se os donos da casa aos seus aposentos que eram separados por um corredor raramente por eles frequentado.

A titular começava a mudar de vestuário; sem querer, quando, olhando para o chão, viu as cinzas que ficaram do incêndio, as quais o sopro da aragem que entrava pela janela embalando os cortinados, espalharam-se sem deixar mais do que leves vestígios. Do passado só lhe restavam as cinzas do coração e as cinzas das provas materiais que agora uma lufada de vento incumbia-se de as levar de vez.

O moreno-claro de Corbella sobressaía em um vestido vieux rose, decotado, coberto de rendas presas ao lado, por um grupo de rosas e jasmins. Sobre o colo nu colocou um simples fio de grossas pérolas que pousavam garbosas fazendo mais sobressair e realçar os contornos de um pescoço bem torneado, como o dela. Nos cabelos, prendeu um pente de tartaruga e brilhantes. Apenas dois simples braceletes viam-se sobre as luvas cor de carne. Tomando o leque de gaze, na sua simplicidade moderna estava elegantíssima.

Como último reparo forçado, colocou sobre a cabeça um véu de rendas finas, mandando por na cadeira por um gesto a capa de casimira que a criada lhe oferecera.

Às oito e meia, já impaciente, entrou com o marido na carruagem que a trote largo partiu de São Clemente, puxada por uma parelha de cavalos de raça e guiada por um cocheiro e um growm  com farda de luxo.

 O teatro refulgia de luzes; o que havia de mais fashionable na sociedade fluminense lá estava.

Principiou o primeiro ato ouvido religiosamente, findo o qual, no camarote dos nossos conhecidos entraram dois cavalheiros, .apresentando aos barões de Santa Helena, o mais idoso dos dois, o mais novo, um moço de uns vinte e cinco anos pelo menos.

A jovem estendeu a mão a Mr. de Varennes, secretario da legação francesa no Brasil, e que chegara há pouco, não sabendo no entretanto disfarçar um certo quê de desprazer ao receber os comprimentos do diplomata, com quem logo antipatizou. Desagradava-lhe o todo do apresentado, conservando-se muda quase durante todo o tempo que durou a visita. Se fosse um pouco mais experiente notaria que o sorriso daquele homem era maligno, que o olhar ao fitar-lhe o colo provocante, moreno e arredondado, tornara-se impudico, que uma faísca de sensualidade passara ligeira como o raio ao mostrar-se para si, de um a esquisita amabilidade e delicadeza, na correta expressão de homem habituado a viver no grande mundo.

Enquanto prestava atenção ao diplomata, pareceu-lhe ver alguém bem conhecido seu. A emoção fora breve; um engano talvez... porém, aquele que estava em frente era tão parecido com o Carlos, a quem amara... Pobre mulher!... E estava ali, ao lado de seu marido, ostentando a posição que tinha, com o coração cheio de fel, mas com os lábios em sorrisos, para mostrar ao público a felicidade que não gozava, mas que era preciso aparentar.

O mundo é cruel; está sempre ao lado da fraude, do perjúrio, do irracionalismo; crê sempre a maior das vezes na mulher, a única culpada dos naufrágios conjugais. Existem, é certo, senhoras sem critério, sem discernimento,  de fazer pecar o Cristo, se ele viesse de novo à terra, mas na maior parte das vezes os maridos (perdoem-me eles e até o meu) são os únicos autores das infelicidades e mesmo das divergências conjugais da parte das esposas. Nem todas têm a condescendência precisa, nem todas pensão retamente com tino, e sobretudo rara é a que tem a filosofia necessária para perdoar fraquezas e fracassos do companheiro dado pelo coração e pelo casamento.

Diz Lamenais que o matrimônio só tem uma fase: “a moral, que deveria ser imposta com preceitos iguais para ambos os cônjuges.” É lógico isso, razoável, mas impraticável pelas leis estabelecidas pelo Código Penal e Social. Daí, veja-se: o homem que tem a seu favor a liberdade, a ação, faz o que lhe parece, se trai a esposa deixando-a na penúria, infamemente, a sociedade está sempre pronta a desculpá-lo e a apontar-lhe a regeneração no futuro, que o tornará então um homem de bem. Se porém vê-se iludido, a lei faculta-lhe ainda o direito de matar aquela que o traiu, porque sujou-lhe o nome, emporcalhou-lhe a honra. Indo preso, ou entregando-se à prisão que é de melhor efeito,  sob o manto da mesma lei, sai absolvido, vitorioso, dizendo a sociedade que ele é um homem de bem, que cumpriu com o seu dever.

À mulher tudo a fere, sei. A bem da sua dignidade é que deve manter-se sempre no seu papel de senhora, para não cingir-se ao de escrava, porque, a matar ela o marido num caso fortuito, levada pelo desespero do ciúme seria simplesmente reputada uma assassina infame, concordando eu que, sendo a mesma fraca, nunca ao seu todo gracioso e gentil estaria bem o alfanje de uma Judite, estampada numa mulher da atualidade.

O sábio que veio ao mundo resgatar a mulher tirando-a da torpeza em que vivia como coisa, plantou-lhe a igualdade de par com o seu másculo companheiro. Igualdade, por confraternização e caridade, foi essa a doutrina de Jesus.

A mulher oferece atualmente um ponto de estudo filosófico muito sério.

Uns querem a sua completa emancipação; outros o seu aniquilamento, plantando sempre esses dois modos de pensar — a discórdia na uniam que deveria haver no lar doméstico. A educação é o principal fim, porque os filhos mais tarde são outros tantos cidadãos que, sendo depois também pais de família, seguiram o exemplo que tiveram, educando por seu turno, as suas vergônteas sob a influência moral em que foram criados.

O homem casado que se compenetra dos seus deveres, não só dá direito à esposa que faça dele o seu conselheiro, o seu melhor amigo, como, tornando-se ela esposa e amante, sob o influxo da luz que adormece e desperta na felicidade, fará do lar um paraíso, e do amor a cadeia eterna que liga o coração à terra, e o prende, por meio da virtude e das boas ações, a Deus.

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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023. 

Angelita (Conto), de Inês Sabino

 

ANGELITA
(A DAMASCENO VIEIRA) 

Rico, viúvo, honrado, muito econômico, mas pouco civilizado, era o Sr. Ventura Coelho, um português genuíno, de ar bondoso, olhos pequenos mas vivos, gordo, corado, com o rosto bochechudo ornado de uma barba a particular cuidadosamente feita, usando ao peito da camisa uns botões grandes e fortes feitos no Porto, de onde era filho. Nas mãos habituadas ao trabalho com dedos curtos e calosos tinha dois anéis: o nupcial, e um outro com um grande solitário de primeira água engastado à inglesa.

Caráter sisudo, homem que não era de meias medidas, desses que vão direito ao caso sem palavras fofas, nem reticências, era tido na roda em que vivia como um casca grossa, embora dotado de excelente coração.

A economia do negociante já tocava às raias da sovinaria, no que era de vez em quando censurado por algum íntimo a quem respondia

— O diabo as tece; e se por infelicidade gastar estes contecos que tanto suor me fizeram perder, aqueles que hoje me bajulam deixar-me-ão com desdém. Além disso tenho a pequena que já está com os seus onze anos, que é preciso educar no estrangeiro, embora eu não saiba lá bem o que seja educação, instrução e todas essas coisas precisas a uma senhora para fazer bom casamento.

— Guarde o seu dinheiro para melhor fim, respondeu um amigo. Aqui no Rio já se educa muito bem e gasta-se menos.

— Eu cá me entendo, continuou. Sou português, homem já pratico, portanto, a menina há de ir para Lisboa aprender o que eu não sei.

***

Daí a um mês partia para a Europa a Angelita que de feições expressivas e olhos negros, era muito gentil, embora magrinha e pálida, porém cheia de vida.

Passados tempos, o correspondente começou a mandar os boletins, por onde via o bom do homem que sua filha era de uma inteligência rara, e, mais raro ainda, muito estudiosa, o que é incompatível quase com o primeiro predicado.

 Depois lá veio a primeira carta escrita com essa letra-desigual, trêmula, incerta, que nota-se nas crianças quando principiam a ensaiar o bastardinho.

Em seguida, de mês em mês já acompanhava o boletim que estava mais aumentado pelo crescente adiantamento da brasileira, a esperada missiva que era mostrada pelo pai aos amigos, analisando com prazer a diferença da primeira.

A papelada não lhe cabia mais na carteira, quando ele com receio de perdê-la guardou-a na sua casa de comercio, conservando com tudo sempre a última carta que recebia.

Os anos voavam. Os cinco, marcados pela vontade paterna já estavam findos. O Ventura vivia satisfeito, alegríssimo. A Angelita mandara-lhe a fotografia que reproduzia a sua imagem de mocinha, agora robusta, e senhoril, e com muitos desejos de voltar à pátria.

O negociante ficou deveras comocionado. Ele que não era homem lá de grandes expansões, abraçou o retrato, chorou beijando-o e dizendo aos amigos que a pequena saíra à mãe, possuindo a mesma fisionomia franca, a mesma expressão de olhar, o mesmo talhe de corpo, e que talvez Até... o mesmo modo de andar.

— E de você, então o que herdou ela? — perguntou um malicioso.

— Nada, nada!... respondeu sacudindo a cabeça e pondo a fotografia mais ao longe para vê-la melhor. Já não é pouco o parecer-se ela com a mãe que era mesmo uma rapariga de truz e trabalhadora. Nunca paguei fora engomado; também nesse tempo era preciso uma certa economia, era...

Nessas e em outras considerações tornava-se às vezes maçante o pobre pai que resolveu ir buscar a mocinha, escrevendo nesse sentido à diretora.

Logo que viu-se a bordo, com a carteira repleta de ordens francas para casas comerciais e cheques para diversos Bancos, ele cismava na filha; remontava à idade em que a vira pequenita trepar-lhe nos joelhos, a puxar-lhe a meia barba não muito aparada então; e a sujar-lhe as calças com aquelas mãozinhas emporcalhadas de doce e pó... Depois, via a sua defunta Joaninha junto a si aos domingos, lá no cômodo que tinha no fundo da mercearia a conversar sobre as novidades da semana e pedindo para ler-lhe no Jornal do Comércio as novidades que o caixeirito ouvia contar à freguesia.

A sós, sentado na preguiçosa escutando o rumorejar das águas, recordava-se do navio em que tinha vindo para o Brasil há trinta anos passados, com os pés descalços, uma roupa ordinária a cobrir-lhe os membros rijos, gordos, fortes e rosados, indo para casa de um patrão que era ruim como um condenado... A felicidade, porém, bafejara-lhe a vida; em vez de pobre e mi como viera, voltava à terra, rico, com a comenda da Conceição de Vila Viçosa ao peito, considerado e feliz. — Que diferença de posições?... Como era bom ter-se dinheiro?!...

Depois da estada no Lazareto, lá foi ao colégio, sendo tal alegria que teve ao ver a filha, que suspendeu ao ar a menina num amplexo quase sufocante.

***

— Angelita com o pai foi “correr mundo” como dizia ele.

Chegando em Paris achou o Sr. Ventura que a ex-colegial devia ter bons vestidos, bons chapéus, boas joias, abrindo-lhe a bolsa prodigamente, e aproveitando-a ela ainda com mais prodigalidade instigada por uma condiscípula que em sua companhia e na do Sr. Ventura, vinha também para o Brasil.

Depois de uns seis meses de excursão por diversos países, voltarão ao Rio onde ele preparou-lhe uma casa dando como dama de companhia à filha, uma senhora de sua inteira confiança.

Bonita, instruída, prendada, viva e meiga, frequentando a sociedade, viu-se o português atarefado querendo que a Angelita brilhasse, que sobressaísse, que usasse um adereço antigo de grandes brilhantes que pertencera à mãe, mostrando pelas joias ter bastante dinheiro.

—Tomara já casar a pequena, disse um dia confidencialmente ao sócio. — Esta vida assim de bailes e concertos, obrigando-me a sair fora dos meus cômodos, já não é comigo que estou velho.

No entretanto, os pretendentes choviam, sendo o escolhido um médico novo, rapaz bonito e de esperanças.

A filha do negociante deu-lhe corda, resultando um namoro travado às direitas querendo casar. O pretendente tornou-se a sombra dela que, toda enamorada chocou-se ao ver que o pai rejeitava o médico, apresentando-lhe o sócio que a pedira igualmente e que ela recusara.

— Deus me livre!.. exclamara o português iracundo dirigindo-se à moça. Eu consentir que te cases com um boneco de pastinhas, e lunetas, perfumado, com flor ao peito, um pelintra, um médico sem clinica, que não tem futuro!... Ah! ah! ah! tinha bem que ver!... Que esperança!

— Além disso eu não sei tratar com essa gente; não nasci para baboseiras, nem excelências, nem senhorias. Eu sou homem do trabalho, e hás de casar com quem eu quiser... com um meu igual a quem tenho de vista há muito tempo como o sabes.

Depois da cólera, passai a o português à brandura invocando a falecida esposa, e os seus cabelos brancos, até que afinal convenceu-a.

O Bernardino Fiúza apaixonado pela filha do sócio capitalista ficou louco de satisfação ao saber que era o preferido, prometendo à pobre criatura muitas regalias e prazeres.

Sem educação, quase impolido, rusguento, se bem que sempre um pouco mais limado do que o futuro sogro, não discorreu que a mulher educada há de necessariamente pensar de forma diferente daquela que o não é. Ele, que a conhecera desde pequena, achou que o Ventura não tinha razão em ser tão exigente com o coração da filha. Pensando moderadamente sobre o caso, não obstante amar a Angelita, viu que o partido antigo não era de todo mau, mas que a si, cabia a sorte de possuí-la como desejava.

Ela então aceitou o casamento, que realizou-se em dois meses.

***

Depois de casada viu que a situação em que estava era em tudo falsa.

Respeitando o marido, no meio do luxo, ela delicada por natureza não censurava-lhe a frase mais dura, para não provocar discussões. Vivia numa doubadoura cuidando da sua casa, dos seus criados, da economia domestica, das suas compras, das suas visitas.

O marido não ligava-lhe a importância que ela merecia, aceitando contudo convites para saraus e concertos, assinando companhias líricas, mandando buscar da Europa atavios, mas tudo isto sem mostrar interesse, como por obrigação.

Tempos depois, começou ele a tornar-se sovina. Suspendeu os cem mil réis que mensalmente dava à esposa para seus alfinetes, dizendo que os gastos eram supérfluos, que os negócios iam maus, que o Sr. Ventura perdera grandes somas com a quebra de uma companhia.

Proibiu-lhe amizades, visitas, recepções, pois que estava morto coma canseira de divertimentos que até ali tivera.

A pobre senhora ficou perplexa. Já não era somente a indiferença e as grosserias que magoavam-na. Ele, taciturno, respondia-lhe às perguntas ou por monossílabos, ou virando-lhe as costas.

Como de costume, os convites sucediam-se sendo recebidos com desabrimentos, rolando depois 'os impressos pelas étagères e porta-cartões.

— A mulher fez-se para dona de casa, disse-lhe uma vez que recebera um cartão para o Cassino. Quando solteira, lá havia sua razão de querer divertir-se e gozar, porém, agora o caso muda de figura, já é mãe, precisa cuidar mais de sua filha, a qual afianço-lhe que não será educada a sua moda, mas sim, sob a minha administração, sem os seus preconceitos nem hábitos.

Inquirida a causa do homem proceder assim, soube-se que prevaricava por uma forma medonha, tomando para norma a um amigo que empobrecera à custa do capricho de una mundana de alto coturno.

A vida da moça mudou completamente. A menor palavra era recebida com um arremesso, a mais simples observação com ameaças.

 O Sr. Ventura no estrangeiro ignorava o que se passava com a jovem, quando ao voltar para o Brasil, em um naufrágio, faleceu, perdendo com isso a filha uma boa parte da fortuna, trazida em poder paterno.

Longe, pois, de consolar a desgraçada que não recalcitrava, o sócio do falecido passou de más palavras a ameaças para com a esposa, e daí... (que horror!...) à execução física, ferindo-a uma ocasião.

Era demais!... tornava-se preciso reagir, e ela fê-lo abandonando aquela casa onde julgara terminar seus dias, e para onde entrara crendo ser o Éden que amenizasse-lhe a chaga do coração, pelo corretivo do seu proceder de senhora educada.

***

Em casos tais, por um advogado, mandou propor ao marido ação de divorcio, que este não aceitou, estipulando-lhe, porém, uma mesada que mal a colocava ao abrigo das necessidades mais urgentes.

Depois, respondeu que a menina que considerava sua filha pertencer-lhe-ia desde a data, em que completasse três anos, idade essa marcada pela lei para serem conservados os filhos no poder materno.

É para lastimar-se realmente em casos tais, que no Brasil não haja como na França, a lei de divorcio instituída por Quinet.

O nosso divórcio legal ressente-se de antigas praxes e preconceitos, dando margem a que o cônjuge desgraçado, conserve-se sempre desgraçado pela indissolubilidade do ato que só garante e reconhece estabelecendo como principio a separação de corpos e bens, extinguindo-se isso com a morte de qualquer um dos cônjuges.

Nas condições anormais de Angelita, ela tinha a seu favor três clausulas bem destacadas e sensíveis: adultério, sevícia e injúria grave.

Quanto ao adultério, na França a lei do divorcio é justamente severa para com o adultero, seja qual for o sexo, proibindo-o de casar.

Eu creio que a lei do divorcio aqui, seria um bem por estabelecer no seio de algumas famílias a moral, o amor, e toda essa alegria compatível e precisa ao espírito, à sociedade e sobretudo ao coração.

Angelita afastou-se das antigas relações, conservando apenas as mais intimas, que a não abandonaram.

No doloroso Gólgota em que plantara a cruz do sacrifício do seu futuro, fazia-se mais terna para com a pequenina que sem compreender a tempestade que rugia na vida de sua mãe, tornara-se para a mesma uma necessidade suprema. O coração materno é um cofre de afetos recônditos, traduzidos pela manifestação de sacrifícios e abnegações inimitáveis.

Quantas vezes, ao fitar a filhinha, os grandes olhos da mártir empanavam-se de pranto, por não poder remediara falta desse louco asilado na própria ignomínia de suas ações, que a sociedade no tremendo tribunal da indiferença julgava-o inocente, sendo culpado, sem refletir que a maior parte das vezes, o homem casado é o responsável único dessas reações vergonhosas que dão-se sob os tetos domésticos, atirando-se depois chufas desprezíveis à mulher que muitas vezes, inocente, veste contudo a estamenha da culpada.

Três anos... pensava ela!... Pois só três anos compensariam acaso o trabalho que dera-lhe a menina? E depois?... o que fica para os juros da natureza? E a paciência? e o amor?... É terrível, sei. O suicídio moral do pensamento não corrompe, no entretanto, o caráter da mulher sensata nem autoriza juízos mal fundados, porém... a luta é monstruosa, a razão nunca lhe é dada, por isso Angelita, desejava morrer.

As circunstâncias em que via-se, adoentavam-na; uma tristeza profunda absorvia-a. Ela comia mal, e ainda assim não digeria os alimentos; estava dispéptica, anêmica, doentia... Além Disso, tantos choques sucessivos tornaram-na impaciente, nervosa, histérica, mostrando-se mulher.

E os dias e meses atropelavam-se.

A ampulheta do tempo estava prestes a marcar os três anos para a separação.

A pobre mãe definhava; contava minuto por minuto, hora por hora, segundo por segundo...

Se ele cedesse!... a menina era tão fraquinha!... Por vezes, o excesso do amor materno quis suplantar o dever e a dignidade nesse vacilamento da razão e do direito.

As ofensas então erguiam-se para suster a moral e o caráter, dando lugar ao ódio que lembrava-lhe como revindita o desprezo e o asco que aquele insensato merecia.

Felizmente a justiça eterna lavrou por fim a sentença de liberdade da jovem, por meio de um insulto apoplético que fulminou o Fiúza.

A mãe, pôde então, como viúva, ter sobre a filha o privilegio concedido pela lei.


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023.

O celibatário (Conto), de Inês Sabino


O CELIBATÁRIO
(A BELARMINO CARNEIRO)

Em moço tivera o seu romance.

Já com os seus cinquenta e quatro, solteiro, gozava boa saúde; era capitão reformado; havia defendido a pátria contra o Paraguai; fora condecorado com o habito de campanha, com o oficialato da Rosa, comenda de Cristo, sendo nomeado por remuneração, primeiro oficial da secretaria da Agricultura, em seguida à sua vinda ao Brasil.

 Depois de fechada a sua repartição, lá ia. ele em seguida para o Carceller dar dois dedos de prosa, como dizia, findo o que, após a invariável garrafa de cerveja, bebida com dois velhos companheiros militares, como ele, reformados, tomava o bonde do Lavradio e Carceller, apeava-se, caminhava até o plano inclinado de Santa Tereza, onde durante o “trajeto, lá ia a conversar com algum conhecido, tendo já mostrado o seu bilhete de assinatura mensal.

Depois de mais alguns minutos de uma conversa chã, interessante e um pouco maliciosa às vezes, ao descer, tomava para o lado do Curvelo, onde em dez minutos de marcha chegava ao seu chalé, resguardado por um gradil todo tecido de trepadeiras, com jardim na frente e aos lados com um pequeno parreiral; à direita o à esquerda uns soberbos pés de camélias brancas e vermelhas, aparecendo ao fundo o pomar, onde depois de jantar saboreava o seu café bem feito e forte, como só sabia-o fazer a Maria das Dores, criada portuguesa, casada com um feitor que mensalmente podava-lhe as roseiras e aparava os arbustos e a grama do jardim, assim como as soberbas palmeiras que ostentavam-se em grandes tinas pintadas.

Só, num silêncio profundo, com o cigarro a boca, pela manhã acordava muito cedo, tratava dos pássaros em gaiolas distribuídas pela sala de jantar, depois, passava revista ao pequeno viveiro de aves diversas que tinha logo atrás da casa; lia os jornais do dia, apanhava as flores para a sala que eram postas dentro de duas magníficas jarras de porcelana da China, passando em revista as camélias que estavam em botão, assim como as magnólias, as rosas de diferentes espécies, cujos espécimes, alguns raros, faziam as delicias do ex-militar, que aos domingos, como mimo, levava-as em ramalhete à esposa do amigo onde passava o dia jogando o voltarete, esse delicioso entretenimento marcado a cem réis a fixa.

Depois, lá ia ao pomar ver se os figos que ensacara, havia três dias, estavam bons de ser colhidos, pois que prometera-os a um convalescente seu amigo; se os pessegueiros já tinham rebentos novos; se os sapotis estavam já de vez...

Em seguida, baixando a vista, os olhos deparavam com bem arranjados canteiros de verdura, onde a couve-flor, os rabanetes, os repolhos, os agriões e a salsa ostentavam a seiva exuberante. Um perfume suave, porém, embriagava-lhe o olfato: eram as violetas, as queridas e mimosas flores, que eram levadas em ramo adornado de folhas de malva, á Idalina, sua afilhada, aquela a quem vira nascer e que fora entregue aos seus cuidados por um amigo velho, médico do exército, que ao morrer, entregara-lha aos seus cuidados, nomeando-o tutor, e como tal conservando intatos os vinte contos de réis deixados pelo falecido, utilizando os juros com a educação da menina.

Sem grande família, apenas com uma irmã ainda moça, filha de segundas núpcias de seu pai, casada com um tabelião que mudou-se para Friburgo, porém que de tempos a tempos vinha à cidade para distrair a esposa, dava-lhe o irmão como residência o chalé da rua do Curvelo que embora pequeno, tinha sempre um quarto devoluto para esse fim.

Quando retiravam-se, ele sentia saudades das crianças, pois que elas entretinham a valer... mas, meu Deus! que criançada! como eram traquinas, maliciosas, barulhentas, mal ouvidas, tudo isto porém, levado a bulha, com tanto que não tocassem nas suas flores, , nem na horta, nem no viveiro.

À tarde, os diabretes bem vestidos iam esperai-o ao portão aguardando as bailas que eram repartidas irmãmente, cabendo no entretanto à Chiquinha mais duas de quebra... como afilhada, e além de tudo, menina, com grande desapontamento dos três pequenos que tinham Disso a sua invejazinha.

As quartas feiras e sábados recebia invariavelmente três amigos sinceros para jantar, dos quais, tirava a desforra ainda no Voltarete do que houvesse perdido na última partida jogada.

Enquanto, porém, se esperava o último parceiro, palestravam amigavelmente, a son aise, nessa reciprocidade de trocas confidenciais das recordações do passado; não esquecendo até mesmo aquelas que solapara o coração, sem receio de serem criticados, , pois que em comum quase haviam vivido, habituando-se ao mesmo modo de pensar, conservando o caráter impoluto das cancerosas chagas da quebra da dignidade comum.

Quando sucedia morar alguma mocinha bonita pela vizinhança, era ele o alvo de umas pilheriazinhas a que dava a resposta seguinte:

— Estou já morto, meus amigos. Hoje em dia os meus cabelos brancos autorizam somente ligeiras liberdades, conselhos sérios, e a tornar-me agradável, servir até... para patrocinar namoros.

Depois do jantar, matavam o tempo ao jogo até a meia noite, e assim corria a vida do capitão Peixoto.

***

Estavam prestes a dar-se as férias no colégio das irmãs de caridade de Botafogo, que vinham a tempo, porque a Idalina com os seus dezesseis anos estava nervosa, anêmica, pálida, quando ao ter o primeiro ataque histérico, o médico aconselhou ao padrinho retirá-la d ali, fazê-la tomar ares novos, outra alimentação mais sadia, e sobretudo, divertir-se.

As férias do colégio aproximavam-se, e por tanto valia a pena a mocinha aproveitá-las estudando um pouco mais, findo o que saía de vez.

Uma dúvida, porém, assaltava o espírito do Sr. Peixoto. Com quem ficaria ela depois? Lembrou-se que devia, após algum tempo na roça, ir ela para Friburgo, podendo ser que neste ínterim aparecesse-lhe algum casamento.

— As moças precisão casar; ter, enfim, quem as ampare, dizia aos seus conhecidos.

Passaram-se dois meses, e no dia imediato às férias, com uma família que ia para o campo, lá se foi a Idalina gozar dos preceitos higiênicos impostos pelo esculápio.

***

Não sei se a leitora conhece por si a vida passada longe da cidade, os seus costumes, os seus atrativos, e tudo mais que sob a forma chã da natureza constituo para quem tem o espírito da observação, um tema variado e belo como motivo de distração e estudo.

Por mim, já tive o prazer de gozar por algum tempo o ar puro das montanhas, o silêncio morno das selvas, o ar tépido de um ambiente sem manchas, o sussurrar continuo dos leques das palmeiras, o variado matiz das flores incultas, o perfume da baunilha agreste, e o alvo lençol de flores rasteiras, entrelaçando-se a um prado coberto de paqueretes e madressilvas escarlates.

Observei ainda os costumes sem artifícios dos filhos da roça, a sua ingenuidade, sinceridade e tino.

Gozei da boa impressão que me impregnou a inovação do ar, do frio, a mudança de higiene que estamparam-me nas faces duas boas rosas escarlates, robustecendo o meu tecido celular e linfático com algumas gotas de sangue mais rubro; tudo isto sob o teto fraterno e leal, dando-me em compensação da monotonia do meu viver temporariamente insípido a paz do coração e a alegria comunicativa d’alma, dispensando as etiquetas e certas pretensiosidades necessárias ao viver das salas mas precisai lá, onde o meio é por demais exíguo.

Tornei-me uma criança em curiosidade porque pretendia depois escrever alguma coisa nesse sentido.

Ah! como divertiam-me os batizados, os casamentos, as novenas cantadas por vozes esganiçadas cada qual procurando gritar mais, acompanhadas de uma música de pancadaria, impossível, onde o zabumba fazia vezes de timbale, tudo sem arte, sem método, sem noção da estética musical, enfim, um conjunto de notas organizadas sabe Deus como, que no coro tocava a polca Quem comeu do boi? como se estivesse tocando uma harmonia de Rossini?!

Os batizados, não perdia e u; porque quando são em grande número, o padre coloca-se no centro, as mulheres com os afilhados à roda, o sacristão com ar de imbecil ao lado com a água benta e os óleos, principiando o ministro a perguntar os nomes dos neófitos do cristianismo, isto ao som da choraminga das crianças, impaciência do celebrante, amuos dos compadres, pitos e mesmo algum recado impróprio do lugar ainda pelo reverendo, do riso dos circunstantes, saindo então uma ou outra pilhéria da parte de algum gaiato.

Principiam as orações; unge-se a todos apressadamente, espargindo o padre a água lustral assim com honras de quem sacode moscas, findando por nomear os Manoés, Joãos, Franciscos e Marias perguntando-lhes conforme o ritual:

Volo Baptisare?

Volo, responde o sacristão indo na frente.

E lá se vão todos numa berraria de ferir ouvidos para a pia confirmar o sacramento por meio d’água, conforme deu-nos o exemplo Jesus, deixando-se batizar por São João.

Os casamentos são impagáveis.

Imagine-se que juntam-se muitas vezes de oito a dez num só dia.

Os pobres vão a cavalo com as noivas na frente, já ataviadas de branco, quando não, vestem na sacristia; assim os mais arranjados, ou ricos, então têm outras cerimônias, vão de carroça ou carro de boi. Imagine-se, pelo seguinte exemplo que verifiquei e tomei nota.

O ter o noivo uma situação de café, alguns metros de terra, uns dois cavalos de sela, e animais de aluguel, já não é nada para desprezar; já se é rico entre camponeses, por isso, o Quincas do Riacho, pede para fazer negaça à Mariazinha lá do alto, a filha do Chico do Ribeirão. Aquela achava o rapaz feio; que a olhava de soslaio; que vestia roupa de ganga amarela; que era desengraçado; que puxava muito os bigodes amarelados pelo sol; que tinha a tez queimada; que usava os cabelos cortados ainda à nazarena e empastados de óleo.

Ele, como homem de brio, tendo-se em conta de elegante, pediu à Xandoca filha do Zeca que tinha pescaria na lagoa, e depois de conchavado tudo, mandou o noivo caiar de amarelo a casa da situação, pintar as portas de azul, forrar a sala de papel cor de enxofre com flores encarnadas, a alcova nupcial de verde claro, e frisos roxos, a sala de jantar de papel fingindo tijolos franceses, todo sarapantado, mas julgado de fino gosto pelo futuro sogro que nunca sonhou ver a filha casar com sujeito tão endinheirado.

No dia das núpcias, uma carroça de toldo puxada por duas juntas de bois e guiados por dois negros de camisa nova, chapéu de palha, e pés no chão, para em frente à casa da noiva que de roupas alvas com véu de filó de linho, flores ordinárias de laranjeiras, e luvas de seda branca, seguida de duas madrinhas, entra vitoriosa no carro, acompanhando-a o noivo que toma um ar apatetado, e vai vestido de preto, chapéu redondo, luvas brancas de fio de Escócia, tendo uma das mãos nos quadris e a outra segurando na brida do animal, tornando-se o alvo de todos os olhares. Ele, vermelho, suarento, mal cumprimenta a quem o corteja, dando graças a Deus quando depois do ato volta para sua casa, onde na mesa posta, espera esposos e convidados um leitão com flor à boca, um quarto de porco, um peru recheado e doces de arroz sem ovos, aletria com leite de coco, cerveja, vinho do porto e garrafas de parati que fazem a alegria de todos que com grande sucesso discussão verdadeiros disparates em favor dos noivos!...

Depois há dança, a que assisti de longe com muita atenção, em vista das esquisitas marcas, sendo a do candeeiro a mais notável, por tomar uma dama um lampião de querosene aceso e com ele andar a roda dos dançantes em risco dc haver explosão ou um fracasso qualquer, enlutando assim a boda!...

***

A Idalina, robusteceu-se, gostando tanto da roça que casou com um fazendeiro moço, e político, mas que não pôde resignar-se à abolição do dia 13 de Maio. Em quanto que o capitão Peixoto como abolicionista tomava parte nos festejos aqui na capital, ele olhava tristemente para a fazenda deserta, abandonada pelos escravos, fitando inconsolável os morros com os arbustos plantados em linha, cobertos de frutos já amadurecidos que ofereciam-lhe vantajosa colheita na presente safra.

O dote ainda intato, que trouxera-lhe à esposa, animou-o a alugar braços livres, vindo depois de algum tempo passar com a cara metade uma temporada na casa da rua do Curvelo a fim de batizar seu primogênito que era afilhado do oficial de secretaria que já tendo direito à aposentadoria, obteve-a sem grande custo.

Uma nuvem negra, porém, passou pela nova vida do ex-militar:  morreu-lhe o cunhado, pobre, e a irmã, com os filhos vieram de vez habitar o antigo quarto do tranquilo chalé nosso conhecido, cujo dono raramente ia agora à cidade, só não esquecendo os Domingos que como outrora eram os seus dias de recreio.

— Então, está se vendendo caro, não é? perguntou-lhe um camarada antigo.

— Ah! meu amigo!., . Fugi de casar no meu tempo, para ser condenado a ter família agora até a morte. Minha irmã ficou pobre; é moça, precisa quem a ampare. Meus sobrinhos já estão em idade de ir para a escola. Sabe pois em que me arvorei?... Em professor dos meninos, pois que as crianças, como sabe, têm grandes atrativos para nós, e na minha idade, o ser útil a alguém já é um consolo. 


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023.

A Enjeitada (Conto), de Inês Sabino


A ENJEITADA
(A ADÉLIA)

Salva-me, filha. De ti depende o Visconde não abrir-me a falência. Casando-te com ele levas intato o dote de tua mãe, uns cinquenta contos insuficientes ainda para pagar-lhe o que devo. Ele é rancoroso, mas diz que ama-te. Sei que as idades são desproporcionais; embora! porém ao menos, eu, no último quartel da minha vida não me verei forçado a trabalhar de novo, ou então a mendigar, porque o viver-se à custa dos outros, é ser-se também mendigo; é descer, descer, obrigar a altivez natural a relaxar-se; é assim uma espécie de abandono do sentimento. Amas? o que resulta daí? Apenas o sacrifício do teu coração em proveito do bem estar de teu pai. Choras? Comocionas-te? É natural, admissível, e isso não to proíbo; o que porém não quero, o que não consinto, é casares-te com um tipo que vive de fazer livros, de ganhar em cada linha uns magros sessenta ou oitenta reis... escritor de meia tigela, sujeito valdevinos que anda pelas redações, pelos cafés, pelos teatros,  assim com cara de palhaço de circo, magro como um espeto, a assestar a luneta às moças que passam, como assestava a ti... Que futuro tirarás daí? Namorou-te porque sabia que eras rica, e do que mais me arrependo é de tê-lo admitido às nossas reuniões, à nossa intimidade!

 

Assim falava à sua filha única o Sr. Guilherme Roxo, chefe de uma ótima casa de café, mas agora meio desfalcado pela situação financeira em que o havia colocado a quebra de alguns devedores seus, e a exigência de alguns credores pirrônicos com letras já reformadas prestes de novo a vencer, sendo um dos seus maiores perseguidores o Visconde de Vila Seca, velho solteirão, devasso, libidinoso, avarento, ostentando virtudes que não possuía, entre elas a caridade, que só sobressaía pro-fórmula, quando para interesse seu, pudesse ostentá-la a fim de angariar bom nome.

Conhecendo a fundo a situação precária do Sr. Roxo, ele que não queria perder um só vintém, propôs o casar-se com a Terezinha, moça que não herdando as péssimas qualidades de seu pai, e em nada ambiciosa, amou a um principiante de letras, sem mais interesse do que os juros sacados pelo coração, resultando dessa paixão um passo dado sem consciência, sem guia, irrefletido...

E o casamento forçado fez-se. Todos julgando o Visconde feliz por ter escolhido uma mulher nova, educada e bonita, porém ignorando que esse consórcio acarretava a vergonha, a ignomínia do sentimento materno que viu-se obrigado a bem das aparências, a sacrificar o ente sem culpa, às condições de um nome ralé: enjeitada!

Pobre inocente, que sem ter o batismo do reconhecimento social, achou felizmente numa porta, os umbrais de um teto que lhe seria dado pela benfazeja mão de uma mãe adotiva.

É que quando as mães rejeitam os filhos e não têm a coragem para sustentar seus atos, uma outra mãe — a Caridade — abre o regaço materno para acolher em seu seio a criancinha, que sorria sem ser recompensada pelo calor que a deveria aquecer, e que chorando achou quem, por intermédio do coração, lhe desse amor, pão e carinho.

***

D. Maria Benedita Borges da Cunha surpreendeu-se um dia, indo à missa pela manhã, ao ver à sua porta uma menina recém-nascida, com os lábios quase negros pelo frio, as mãozinhas cerradas e muito roxas, e a face pálida e marmórea pela ação do ar rijo de um nevoento dia de junho.

Tomar o anjinho e ir para o interior foi obra de um segundo.

A boa senhora perdeu nessa ocasião a sua missa diária, porém ganhou mais para com Deus pelo ato que praticara. Desde esse dia, a pequena Noêmia, de quem a velha protetora fora madrinha, encontrou nela uma verdadeira mãe, porque o coração havia perfilhado aquela criancinha, a quem todos que a conheciam festejavam, cobriam de presentinhos, de beijos, de carícias. Ao passo que a natureza repugnara de abraçá-la em seu regaço, a bondade de um coração de arcanjo a fez tornar querida, sendo para D. Maria Benedita o maior prazer, quando via a pequena afagar-lhe o rosto e vir nuns amuos procurar-lhe o colo, dizendo em linguagem ininteligível esse fraseado infantil, suave, mas engraçado, que em paga merece uma contribuição de beijos.

A respeitável matrona perfilhou a menina por uma escritura pública, pondo-a aos dez anos no colégio, onde ia vê-la mensalmente.

Oh!... com que prazer recebeu, como lembrança, o primeiro crochê, o primeiro, bordado o primeiro desenho, comovida até às lágrimas, mostrando tudo às amigas, guardando os objetos com avareza! Depois, com que enlevo não ouvia a menina tocar os estudos ainda incorretos, indo sentar-se muitas vezes ao lado do instrumento a ponto de adormecer!...

Aos dezesseis anos, educada, instruída e prendada, Noêmia ao sair do colégio ia com sua mãe, como a chamava ela, a espetáculos, a saraus, sempre elegantemente vestida, e já cercada de um certo grupo de admiradores.

Como morassem num pitoresco arrabalde, a moça, com diversas amigas, saía a passeio quando uma tarde bem defronte da casa onde residiam, virão de braço com um médico conhecido, o Dr. Ribeiro, a quem saudaram, uma senhora, que ainda bonita tinha estampado no olhar o quer que fosse de anormal.

E os encontros sucederam-se, dizendo-lhes o médico que a Viscondessa de Vila-Seca era uma infortunada a quem a razão abandonara há pouco, por desgostos íntimos.

O Dr. Ribeiro, especialista em tratamento de loucura, declarara a principio que, em vista dos grandes intervalos lúcidos que tinha a titular, seria até para presumir algum resultado satisfatório do tratamento a que submetera-se, não sendo para estranhar que, em vista de ter sido a moléstia produzida por um grande choque, outro igual lhe produziria a cura.

***

Os desgraçados que, em vez das luzes da inteligência, têm simplesmente na vida a noite do infortúnio produzido pelo descalabro das ideias, dispõem quase sempre de uma vontade indomável, que, ou se amolgam pela muita doçura, ou então pelo rigor ilimitado; e, nessa epopeia de dores, onde todos nós temos quinhão mais ou menos farto, a loucura, se bem que seja a morte moral do indivíduo, contudo é muitas vezes um grande beneficio por se tornarem indiferentes para nós as dores alheias e as nossas igualmente.

Creio que é preferível à sociedade e à moral a loucura, mas nunca o suicídio, embora seja este considerado por muitos um ato de estoicismo, de heroicidade para quem o comete.

Eu acho simplesmente absurda semelhante teoria, onde o egoísmo da conservação humana é desprezada da maneira a mais torpe, a mais irracional mesmo, tanto que, veja-se: a loucura faz logo descer aos corações que palpitam o olhar cheio de comiseração e piedade, ao passo que o suicídio ofende não só os direitos humanos como os divinos também. A vida, , quer seja pelo lado materialista, quer pelo que reza o Evangelho, é-nos emprestada, sendo a morte natural, pela lei das coisas, a única autorizada a nos levar ao túmulo.

O homem que mata-se, calmo e refletido, sem ter ao menos amor pela conservação da espécie, é o carrasco de si próprio, tornando-se no seu papel de carrasco antipático e repulsivo.

Na loucura dá-se, com raras exceções, o fenômeno da lucidez espontânea do cérebro.

Os médicos de hoje têm aproveitado para por à prova, a ciência estudada agora sob a forma de: Sugestão hipnótica, que pelo seu todo científico tem grande analogia com o magnetismo animal tornando-o mais aperfeiçoado talvez. Pelo que tenho lido por simples curiosidade, muito embora procurando esmiuçar a razão de semelhante fenômeno, creio que só mais tarde poder-se-á colher maiores vantagens.

Charcot, tem assombrado os seus discípulos com suas lições, e Júlio Claretie, membro da Academia francesa, já ensaiou com a robustez da sua pena, um belo livro: o João Mornas, que temos à vista. O hipnotismo, pois, não sendo uma ciência nova, com tudo agora é que se o está estudando com mais interesse, com mais atenção, sendo o principal móvel a completa obediência do sugestionado ao sugestionador.

Há pouco tempo, o Dr. Erico Coelho, bem conhecido médico nesta capital, fez algumas experiências que calaram no espírito dos profanos que achavam-se presentes, estando entre eles a minha humilde pessoa.

***

O médico alienista preso das graças de Noêmia, sem procurar indagar a origem daquela que julgava ser filha da rica viúva, pediu-a em casamento.

Produziu esse pedido na virtuosa senhora uma verdadeira serie de comoções diversas, porque... a sociedade é tão severa!... Sem querer, porém, ferira moça, declarou-lhe o que havia e o receio em que estava do insucesso da pretensão.

Ela empalideceu. Caíra-lhe aos pés todas as ilusões, todas as primícias do sentimento que a engolfara escrevendo no caderno do futuro o resultado da soma do seu amor com parcelas fartas, dobradas, angariando para si uma riqueza dada por si própria.

Ela uma enjeitada!... Uma agitação involuntária e nervosa, fê-la segurar-se a um movei, e o coração, esse órgão, oculto receptáculo de todas as dores, de todas as alegrias, pela primeira vez agitou-se tão fortemente, que roubou-lhe a voz e os sentidos.

O coração, é muito susceptível, muito melindroso, para receber assim o aguilhão que o fere, que o estraçalha, e que o mata. O coração humano é tão delicado, tão cheio de melindres, que haja a prova o longo catalogo de sofrimentos que ao mesmo afetam, em vão combatidos pela medicina que procura os meios para debelar o mal que o rói, que o dilacera, quando o mesmo não pode ser indiferente aos miasmas pestilentos das misérias sociais.

Poupemo-nos mutuamente o tocar no coração, que sendo um bem para a saúde e para a moral, significa igualmente um preceito Evangélico.

O Dr. Ribeiro quis saber da causa que retinha no leito de dor a sua amada, que o fez conhecedor do que havia.

Um sorriso de complacência passou pelos lábios do moço.

— Enjeitados, respondeu ele, são aqueles que se incorporam nos asilos, sem família, sem proteção, sem apoio.

A vossa excelência não sucede isto: quer ser a minha esposa adorada?

Agradecendo-lhe, ela tomou a mão do médico, apertou-a contra o peito no mudo reconhecimento de uma sincera gratidão, vendo ele, o noivo, o homem conhecedor da fisiologia, duas gotas d’água que puras e transparentes, vieram ornar os castos cílios, deixando-as lentamente cair sobre o rosto aveludado.

O coração, tão somente o coração, foi o mudo transmissor das pérolas cristalinas, que, como prova da sensibilidade recebida pelo cérebro e transmitida ao centro nervoso, veio provar ao médico que ela lhe agradecia, e que, livre do grande peso que lhe ocasionara a terrível revelação; o coração, o pobre órgão palpitante tornou-se assim aliviado das dores que o afligiam.

***

Chegou enfim o dia do noivado. D. Maria contente, abençoou o novo par.

A sociedade, em vista da posição do noivo, calou o que poderia murmurar, vendo-o não desprezar a moça, por se não conhecer dela, pelo menos, o pai, que muitas vezes a vira, a cumprimentara, sem ter ao menos a lembrança de que bem perto de se estivesse aquela que a ele devia a vida; e, mesmo quando o soubesse, mandava ainda a sociedade que ele não deixasse transparecer um único resquício de ternura, porque o murmúrio irracional e irreverente iria ferir sem compaixão os próprios direitos da natureza, que, em vista das circunstâncias, tinha de calcar aos pés o coração e o sentimento. 



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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023

Marianita (Conto), de Inês Sabino

 

MARIANITA
(À MARIANA GONÇALVES)

Diga-me, minha senhora, se no Brasil a mulher tivesse o direito de voto, ou interesse na política, vossa excelência o que faria?

A interpelada, como que despertando de um sonho, fitou um cavalheiro baixote, idoso, com bastante vivacidade nos olhos pequenos mas expressivos, sem contudo responder-lhe.

Ele repetiu-lhe a pergunta.

— Nem mesmo sei dizer nada a respeito, Sr. Desembargador. Semelhante ideia não passará de uma utopia por enquanto. Aqui no Brasil a mulher jamais salientar-se-á, porque não está preparada ainda para o desenvolvimento dos grandes problemas sociais.

A moça tinha razão.

A política brasileira tem muito ainda que metamorfosear-se; tem muito que consolidar-se, para, de acordo com a fase por que está passando, definir de vez a sua autoridade pensante junto dos grandes centros civilizados do velho mundo. Falta a eles, os políticos, uma certa autoridade de pensamento e mesmo de ação, e, daí, veja-se a divergência das ideias na época atual, onde cada qual quer emitir a sua opinião, procurando melhorar a situação meio falsa com que se acentua o grande congresso da crise social, aliás já encaminhada por espíritos, que embora superiores, contudo muito terão de lutar para acentuar suas ideias e enraizar suas convicções, melhorando pela nova forma de governo as finanças, a instrução pública, e o bem estar da nação em geral.

Quanto à posição da mulher brasileira, intelectualmente falando, agora é que tem ela de forçosamente inativar-se, procurando apenas sobressair nos salões, desenvolvendo o espírito como mulher instruída e educada, mas nunca como mulher útil, salvo na instrução pública.

Fecharam-lhe as portas das Academias pelo sistema errôneo da religião Contista, absurda e irracional, porque, como um ser frágil, tem apenas ela o direito de restringir-se a condições especiais adaptadas ao sexo e ao meio.

Não direi, todavia, que, a mulher moderna  transforma o sexo em desproveito do pudor o seu mais belo ornamento. A mulher, é sempre mulher: mas por Deus! aquela que por um ímpeto evolutivo quisesse sobressair, afastando-se do circulo apertado em que vive deixassem-na sobressair, não se lhe fechassem assim os templos da ciência, que na Europa e na América do Norte são franqueados às mesmas cortesmente.

A ciência e a arte, são duas irmãs gêmeas precisas ao desenvolvimento da intelectualidade feminina daqui, dali, e d’além.

A mulher de hoje, felizmente, já não é uma simples figura alegórica de ornato, nem uma Cariatide enfim.

Veja-se a mulher russa, e negue-se depois a veracidade dos fatos. Nem todas serão Sands; nem todas serão Staels; sei eu; porém como o século é das grandes cabeças, dos grandes desenvolvimentos científicos e literários, se a sociologia tem bases solidas para o desenvolvimento da síntese da perfectibilidade humana, encarando a evolução como a força motriz do cérebro nas leis da dinâmica social, por que razão entre as grandes cabeças não poderá possuir igualmente uma grande cabeça a mulher?

***

A pergunta acima feita pelo Desembargador Sebastião Sertório à moça, não era nenhum disparate, visto ser ela entendida em política, na qual foi nascida, criada, e educada, distraindo-se com isso lá na roça, no engenho, onde com a Georgeta, irmã mais velha de Alina, as duas, inteligentes, discutiam política com o pai e com os potentados do lugar, o que muito os divertia.

Filhas ambas do Major Francisco Cavalcanti de Siqueira, rico agricultor e chefe do partido conservador lá da Escada, bom pai de família, completo fidalgo no trato, grande influencia política no distrito, mandara educaras filhas com certo esmero, atendendo à sua posição, e á altivez dos seus predicados de fidalgo.

Nos seus domínios rurais, em época de eleições, punha a sua mesa à disposição do pretendente, ativando os cambalachos nas tricas eleitorais, conhecendo cada individuo tão bem como conhecia o fundo comercial da casa, a quem consignava o produto da sua fabrica que rendia-lhe não poucos contos de réis.

No Recife, à Rua da Aurora, onde tinha uma boa residência, vivia no inverno com todo o conforto possível. Entre os seus frequentadores, viam-se alguns acadêmicos. Um deles, o Maciel da Silva, enlevado pelo espírito da filha mais nova do major, amava-a com toda a plenitude de um afeto sincero.

Alina, correspondeu-o; limitando-se a ocultar o que sentia, deixava ele tocar-lhe no assunto.

Engolfado no idílio da sua alma, a moça avara do seu primeiro amor, nem à irmã comunicava as suas impressões, notando que Georgeta, de tão alegre que era, tornara-se macambúzia, pensativa, como que imersa em um pensamento único e constante.

A filha do agricultor procurando adivinhar o que dava-se no coração da irmã, indagou, obtendo, porém, uma evasiva por desculpa dada pela mesma.

Ela calou-se e magoou-se. Os seus dezessete anos ainda não davam-lhe uma certa lógica para desprezar situações. Desde então, houve entre elas uma certa reserva nas comunicações íntimas, fugiam de fazer confidências, fugiam de falar no nome do acadêmico, e no entretanto amavam-se, eram amicíssimas, salvo, , quando por um instinto especial, conheciam que o coração tinha por lema o mesmo indivíduo. O ódio mútuo era todo parcial então; Georgeta, ao ver o Maciel olhar singela mente para si, julgava perscrutar-lhe no brilho das pupilas um lampejo de amor; e Alina, senhora quase do coração do namorado, sentia um agudo espinho quando adivinhava o que os olhos dele diziam sem querer, deixando trair assim o pensamento que o absorvia.

Mais moça, menos experiente, uma ou outra vez consentia escapar do coração junto a irmã um suspiro doce e imperceptível que a outrem, que não fosse a Georgeta, sentiria paralisar o sangue nas veias, encrespando todavia ligeiramente o sobrolho ao percebê-lo.

A mãe, por intuição especial, adivinhava o que sucedia e procurava afastá-las do moço, que às noites, ia infalivelmente jogar com o major o xadrez, não imaginando sequer que fosse o motivo do desequilíbrio de afeto que dava-se entre as duas espirituosas filhas d o senhor de engenho.

O mês de Setembro já ia em meio. O calor sufocante exigia um ar mais puro do que o respirado na poética capital que conhecemos. A família Cavalcanti resolveu ir passar uma temporada no campo, abandonando a propriedade rural por grassar na mesma a varíola, isto com grande desapontamento do major que precipitadamente com a esposa, foram para Caxangá.

***

No campo, à tarde, é delicioso o panorama que tem-se à vista quando o sol a fugir vai deixando escoar pelas cristas dos montes um arco Iris de cores rubras, formando cambiantes diversas, onde a cor de rubi predomina, transformando-se em amarelo fogueado, incandescente, que desmaia aos poucos, até confundir-se com as cores sombrias da noite que lentamente descem sobre a terra envolvendo-a no manto escuro, onde surge em intervalos uma ou outra estrela, aparecendo em seguida essa multidão de pontos luminosos que embelezam a vasta amplidão do mundo etéreo.

Estamos em Caxangá. Nesta hora, aí, a paisagem é esplendida, independente de ser mesquinha a povoação, e nem mesmo atraente o conjunto do todo, tendo somente casinhas sem importância que se alugam a alto preço no tempo do calor, a quem deseja passar a festa e que não olha a dinheiro para usufruir banhos do rio, os passeios, e manter com outros mais uma estação característica à gente do norte, isto é, à recifense. Uma meia dúzia de prédios confortáveis pertencentes a particulares, é o que nota-se de mais importância, assim como a capelinha dedicada a São Vicente de Paulo, toda elegante na sua simplicidade arquitetônica, sem douraduras nem arabescos, mas clara, limpa, com o altar-mor alcatifado, e separado do corpo do edifício por uma grade dc madeira envernizada.

Tudo nela respira pureza e recolhimento. O coro com uma serafina, tem grandes janelas de vidraças que abrem no dia da festa do patrono, deixando a luz banhar em jorros o centro do edifício que aos Domingos, no tempo da festa, vê-se repleto de devotos que fazem d ali um ponto de encontros matutinos.

À tarde, pois, nessa hora, na longa e larga estrada que principia na Madalena e perde-se no interior da província, ergue-se uma enorme nuvem de poeira produzida pelos animais que quotidianamente cruzam o caminho, sendo os mesmos tangidos pelos cargueiros, que, de pé, vestidos de calça e camisa de cores, com o clássico chapéu de couro, andam apressados a fim de pernoitarem em algum rancho próximo.

Atravessa Caxangá um rio, o Capibaribe, que aí é estreito e raso como um regato, sobre o qual já figurou uma ponte pênsil destruída por uma inundação, sendo substituída agora por uma outra mais solida, visto ser temida a correnteza do rio que no inverno torna-se caudaloso a ponto de reduzir a nada tudo que encontra como obstáculo à impetuosidade da sua carreira.

No verão, porém, quando a concorrência dos passadores de festa, é grande, vê-se inúmeros banheiros de pindoba, ornando uma  e outra margem desse braço do Capibaribe, onde, ainda no lado esquerdo, haviam dois hotéis muito concorridos. O trem de ferro dos subúrbios para na povoação e segue para a Várzea, tornando-se agradável o passeio por desfrutar-se simpáticos golpes de vista alcançando a vista muitas casinhas poéticas, quase todas pertencentes a estrangeiros abastados.

Nos outeiros onde os pobres têm as suas casinhas de barro cobertas de telha ou de um tecido de folhas de coqueiro, à hora poética do por do sol, vê-se uma mulher dando a última ração do dia à cabra que sustenta com o leite as crianças da casa; acolá, um camponês conduzindo ao curral as vacas que pastam durante o dia, e que agora, a passo, ao som do canto monótono do pastor e acompanhadas dos cães, embalando metodicamente os chocalhos presos ao pescoço, entram no curral urrando tristemente.

Depois, tangendo as aves domesticas que cacarejam no terreiro, além, um ou outro menino, com uma varinha, corre atrás das mesmas fazendo-as trepar no galho dos ingazeiros, indo depois eles, os pequeninos, despreocupados lançarem-se na água, nessa alegria infantil própria dos primeiros anos e da qual tantas saudades restam-nos depois.

***

Há há grande animação nas casas habitadas, onde aos domingos uma nuvem de imigrantes frequentam-nas, sendo bonito de ver-se a concorrência de amigos que se encontrão em grupos pelas ruas gramadas, cortejando-se, abraçando-se, beijando-se, indo depois para casa de algum conhecido, onde quase sempre dançam e tocam até à saída do último trem que parte para a cidade.

Numa das melhores casas do arrabalde vamos encontrar o Major Calvacanti nesse domingo à tarde, vestido de roupa branca, cercado de amigos que no terraço jogavam o voltarete. D. Lauriana, sua esposa, ocupava-se em conversar com algumas senhoras, ao passo que Alina e Georgeta entretidas em prosar com algumas moças, de vez em quando olhavam a furto para um rapaz simpático que, embora entretido a jogar, contudo lançava rápidos olhares para a morena filha do agricultor, que certa de ser amada, tendo-se comprometido com o moço, esperava ser pedida em breve, ao passo que Georgeta, depois de muita luta, e, a bem de sua irmã, da sua dignidade mesmo, sacrificara o seu amor em proveito de Alina. As condições excepcionais em que o destino as havia colocado amando o mesmo homem, faziam com que ela impusesse ao coração umas condições muito fora do natural, sobretudo depois que sua irmã, a preferida, confessou que amava o moço e que casaria com o mesmo, não obstante a desconfiança que tinha de ser ele também amado por alguém a quem muito conhecia.

Georgeta corou, atrapalhou-se um pouco e resolutamente confessou que houvera sido por efeito de mera fantasia o curto estado psicológico de sua alma, mas que depois cerrara o coração fazendo-o votar à indiferença essa fase doentia em que o mesmo achava-se por efeito de uma impressão passageira.

Ela mentira. Em questão de amor, onde a alma é o receptáculo dos sentimentos, o  coração, o transmissor deles, e a imaginação o alvo dos sonhos espontâneos, só se encarando o assunto pelo seu lado moral é que reage-se, tanto que vimos, de quando em vez, ela fitar disfarçadamente o rapaz enquanto conversava com as amigas. Alina acreditava-a; Georgeta fugia de ambos, procurava distrair e falava até com certo desprendimento que dir-se-ia nunca haver ela sentido pelo estudante qualquer impressão menos passageira.

Nessa noite a sala do pai das duas irmãs estava repleta. Na véspera haviam dançado muito. Estavam quase cansadas; mas, como no tempo de festa não se cansa, e nessa ocasião tinham entre os visitantes o Sinhozinho, um mártir da vontade despótica das moças que dançavam muitos dias seguidos à custa do pobre rapaz, que tocava, como uma manivela, sem parar, sujeitando-se aos caprichos delas, resolveram dançar ainda.

A D. Lauriana convidou a todos para tomarem par. A dança é tão boa! tão atraente!... Porém... quem tocaria? Estafar as moças ao piano era um suplício, uma falta de delicadeza... quem tocaria então?

— O Sinhozinho, respondeu alguém.

— Oh! Sinhozinho!... onde estará ele? perguntava um rapaz, procurando o mísero que foi trazido para a sala a reboque pelo braço de um amigo, indo sentar-se ao piano, embora um pouco contrafeito.

— Tirem pares, meus senhores, disse preludiando; mas observo-lhes que estou cansadíssimo. Há dois dias que toco sem cessar e não tenho dançado nada.

— Coitado!... respondeu uma menina loura e esbelta, vou substituí-lo, meu amigo.

— Nada! disse a dona da casa, onde há homens, as senhoras não se enfadam. Toque o Sinhozinho.

As danças corriam animadas. O rapaz já tocava como um realejo: sem compasso, quase á toa. Do chão erguiam-se nuvens de pó, quando já cansados, suados, ofegantes, com os pés em brasas e uns perros de uns calos a doer a ponto de fazer alguém ver estrelas, pararam para recomeçar.

As senhoras abanavam-se, sorriam, falavam baixinho ao ouvido das outras, segredando uma criticaznha sutil e ligeira, como ligeiro era o sarau que improvisavam; e o Sinhozinho a bufar de cansado, teve de sentar-se de novo ao piano com ar abatido.

— Toque uma polca, diziam uns.

— Toque uma valsa, gritavam outros.

— Em que ficam, meus senhores? perguntou o pianista.

— Valsa, valsa! repetiam as moças.

A valsa foi tocada com bravura, finalizando-a o rapaz num galope desenfreado.

O apito do trem ordenou as despedidas, e quando o Maciel despediu-se da filha mais nova do dono da casa sentiu que a mão da jovem escaldava, ao passo que a de Georgeta parecia haver saído do túmulo.

***

A temporada da festa passada pela família Cavalcanti no campo, não foi feliz. O acadêmico considerado já noivo, tendo a liberdade outorgada pela sua posição, notou que a sua prometida depois de um piquenique que houvera na Caixa d’água, tinha febre diariamente.

Ela, sem fazer caso dos assaltos intermitentes, andava de pé, se bem que um pouco pálida. A mandado do médico teve de recolher-se ao leito, porém já era tarde. Estava escrito que não se ornaria com as suas flores de laranjeiras.

Degenerando em tifo, a febre levou-a à sepultura. Georgeta foi sublime de dedicação.

O moço retirando-se de Pernambuco, deixou uma lágrima ornando a coroa de rosas que pusera por suas mãos no tumulo de Alina Cavalcanti.

***

Uma manhã, a família do major almoçava no engenho, quando na correspondência veio uma carta do Maciel, que, formado e já em boa posição, pedia a Georgeta em casamento.

Meses depois efetuava-se o consórcio com muito prazer dos pais.

— Eu o amava de há muito, disse a desposada confidencialmente a uma amiga, mas daria a minha vida para ter feito feliz a minha irmã, a quem amei ainda mais, depois de refletir que a rivalidade seria um absurdo desde que eu não era amada pelo que hoje é meu marido.

— E o egoísmo?

— Esse, o coração que compreende o que seja sacrifício põe-no à margem, porque não se vive somente da felicidade própria: é-se feliz igualmente quando se pode tornar a outrem feliz também.


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Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2023