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7/22/2020

Os presentes do povo pequenino (Conto), dos Irmãos Grimm



Os presentes do povo pequenino
Traduzido por: Ernesto Grégoire e Luiz Moland, com adaptação ortográfica de: Iba Mendes (2020)
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Dois amigos, um alfaiate e um ourives, viajavam pela Alemanha. Um dia, tendo-se demorado muito, achavam-se ainda na estrada depois do sol posto quando ouviram ao longe os sons de uma música tão alegre, tão convidativa, que, esquecendo a fadiga, meteram-se por um atalho na direção do som. A lua brilhava com grande intensidade. Ao chegarem a uma colina, os dois companheiros viram uma multidão de homens e mulheres pequeníssimos, da raça dos gnomos, que de mãos dadas, pulavam, saltavam alegremente, dançando de mãos dadas, ao mesmo tempo em que cantavam em coro com uma voz deliciosamente melodiosa: era a música que os dois amigos tinham escutado.
No meio do círculo estava um velho, de estatura um pouco mais elevada do que a dos outros, o qual tinha toda a roupa bordada a ouro, prata e pedras preciosas, e cuja barba branca e comprida chegava-lhe até à cintura. Este fez um sinal convidando os dois companheiros, que, surpreendidos, olhavam o curioso espetáculo, enquanto adentravam no círculo; os demais abriram caminho para os deixar passar.
O ourives, que era corcunda e por isso mesmo era mais atrevido, aventurou-se primeiro e foi colocar-se ao pé do velho; o alfaiate, mais tímido, acabou por imitá-lo. Então o círculo fechou-se, e os pequenos duendes começaram uma sarabanda cada vez mais enlouquecida. De repente, o velho tirou da cinta uma faca e pôs-se a afiá-la com cuidado. Os dois homens já estavam desconfiados e, quando tentavam fugir, o velho agarrou-os pelo pescoço com uma força extraordinária, rapou-lhes a cabeça e a barba num abrir e fechar de olhos; depois largou-os, e, batendo-lhes no ombro, sorriu, querendo fazer-lhes perceber que estava satisfeito com eles, e que tinham feito bem de não se defenderem. Em seguida, mostrou-lhes com a mão um monte de carvão que estava de um lado, e deu-lhes a entender por meio de sinais, que, em recompensa da sua boa vontade, os autorizava a encher os bolsos. Foi o que fizeram, ignorando contudo qual o proveito que disso poderiam tirar. Depois o velho disse-lhes adeus e eles saíram do local, seguiram pelo atalho e chegaram à estrada real. Voltaram ainda uma vez os olhos para contemplar os gentis bailarinos, foi quando soou meia-noite na igreja de um mosteiro vizinho. Imediatamente cessaram os cantos e toda aquela gente miúda desapareceu pela terra dentro.
Os dois viajantes acabaram por encontrar uma hospedaria; estavam tão cansados que deitaram-se vestidos sobre a palha que lhes deram para dormir. Acordaram pela manhã muito cedo com a sensação de que eram puxados pelas abas do casaco, porém, era simplesmente o peso enorme que tinham nos bolsos. Meteram as mãos, e qual não foi a agradável surpresa quando viram que o carvão se havia transformado em ouro maciço, e também notaram que os cabelos e a barba tinham crescido.
De pobres que eram, estavam agora ricos. O ourives que, devido ao seu caráter avarento, tinha, por instinto, apanhado mais carvão do que o bom alfaiate, possuía duas vezes mais ouro do que ele: tinha uns cinquenta quilos. Mas isto ainda não lhe bastava; lastimava não ter também enchido o chapéu, e propôs ao amigo voltar à noite à colina, a fim de buscar um novo tesouro. Mas o alfaiate, de natureza modesta, respondeu:
— Não, eu tenho o suficiente; volto para a minha terrinha, faço-me contramestre e caso com a Joana, a minha noiva; seremos muito felizes. Quanto a ti, faz com quiseres; se lá voltares cá te espero até amanhã.
À noite, o ourives levou dois grandes sacos e pôs-se à procura do atalho que conduzia à colina; descobriu-o e encontrou novamente os gnomos dançando e cantando em alta voz. Tudo passou-se como na véspera. O velho rapou-o e mostrou-lhe o monte de carvão. O ourives encheu as algibeiras e os sacos até mais não poder mais; depois retirou-se e, de volta à hospedaria, custou-lhe a adormecer, tal era a ansiedade que tinha ao lembrar-se das riquezas que ia possuir dentro de algumas horas.
Quando acordou pela manhã, correu aos sacos para apalpar as barras de ouro que lá esperava encontrar. Mas, que desgraça! só retirou carvões negros. Nas algibeiras, a mesma coisa.
Quando caiu em si dessa cruel decepção, disse para consigo: "Enfim, foi apenas um belo sonho; mas ao menos ainda me resta o ouro da véspera." 
Foi ao armário onde o tinha guardado, mas o belo e brilhante metal transformara-se em carvão, cheio de pó. Caiu no chão, o coração despedaçado por uma dor aguda; levou a mão à cabeça para arrancar os cabelos, mas os não encontrou, pois estava careca.
Chorou de raiva, porém seu infortúnio não chegara ainda ao fim, pois a corcunda, que antes apenas tinha nas costas, viera-lhe também à frente no dorso.
Então reconheceu que tudo isso era o justo castigo da sua cobiça, e chorou amargamente. O bom alfaiate, que aparecera nesse instante, consolou-o melhor que pode e disse-lhe:
— Tudo não está perdido para ti; és pobre, mas és meu amigo e vou dar-te a metade do meu ouro. Com o que me resta, ainda sou mais rico do que nunca esperei ser.
O bom alfaiate cumpriu a sua palavra; o ourives pode estabelecer-se e chegou a ter uma vida honesta. No entanto, como castigo pela excessiva cobiça, teve que viver até a morte com a segunda deformidade, além de usar sempre um barrete para esconder a careca.

6/08/2019

Os sete corvos (Fábula), dos Irmãos Grimm



Os sete corvos

Era uma vez um homem que tinha sete filhos, todos meninos, e vivia suspirando por uma menina. Afinal, um dia, a mulher anunciou-lhe que estava mais uma vez esperando criança.

No tempo certo, quando ela deu à luz, veio uma menina. Foi imensa a alegria deles. Mas, ao mesmo tempo, ficaram muito preocupados, pois a recém-nascida era pequena e fraquinha, e precisava ser batizada com urgência.

Então, o pai mandou um dos filhos ir bem depressa até a fonte e trazer água para o batismo. O menino foi correndo e, atrás dele, seus seis irmãos. Chegando lá, cada um queria encher o cântaro primeiro; na disputa, o cântaro caiu na água e desapareceu.

Os meninos ficaram sem saber o que fazer. Em casa, como eles estavam demorando muito, o pai disse, impaciente: — Na certa, ficaram brincando e se esqueceram da vida!

E, cada vez mais angustiado, exclamou com raiva:

— Queria que todos eles se transformassem em corvos! Nem bem falou isso, ouviu um ruflar de asas por cima de sua cabeça e, quando olhou, viu sete corvos pretos como carvão passando a voar por cima da casa.

Os pais fizeram de tudo para anular a maldição, mas nada conseguiram; ficaram tristíssimos com a perda dos sete filhos. Mas, de alguma forma, se consolaram com a filhinha, que logo ficou mais forte e foi crescendo, cada dia mais bonita.

Passaram-se anos. A menina nunca soube que tinha irmãos, pois os pais jamais falaram deles. Um dia, porém, escutou acidentalmente algumas pessoas falando dela:

— A menina é muito bonita, mas foi por culpa dela que os irmãos se desgraçaram...

Com grande aflição, ela procurou os pais e perguntou-lhes se tinha irmãos, e onde eles estavam. Os pais não puderam mais guardar segredo. Disseram que havia sido uma predestinação do céu, mas que o batismo dela fora a inocente causa.

A partir desse momento, não se passou um dia sem que a menina se culpasse pela perda dos irmãos, pensando no que fazer para salvá-los. Não tinha mais paz nem sossego.

Um dia, ela fugiu de casa, decidida a encontrar os irmão onde quer que eles estivessem, nesse vasto mundo, custasse o que custasse.

Levou consigo apenas um anel de seus pais como lembrança, um pão grande para quando tivesse fome, um cantil de água para matar a sede e um banquinho para quando quisesse descansar.

Foi andando, andando, se afastando cada vez mais, e assim chegou ao fim do mundo.

Então, foi falar com o sol. Mas ele era assustador, quente demais e comia crianças.

A menina fugiu e foi falar com a lua. Ela era horrorosa, mais fria que o gelo, e também comia crianças. Quando viu a menina, disse com um sorriso mau:

— Hum, hum... que cheirinho bom de carne humana! A menina se afastou correndo e foi falar com as estrelas. Encontrou-as sentadas, cada uma na sua cadeirinha. Todas elas foram bondosas e amáveis com ela. A Estrela D'alva ficou em pé e lhe deu um ossinho de frango, dizendo:

— Sem este ossinho, você não poderá abrir a Montanha de Cristal, e é na Montanha de Cristal que estão seus irmãos.

A menina pegou o ossinho, embrulhou-o num pedaço de pano, e de novo se pôs a andar.

Andou, andou e afinal chegou na Montanha de Cristal. O portão estava fechado; quando desembrulhou o paninho para pegar o osso, ele estava vazio! Ela havia perdido o presente da estrela...

E agora, o que fazer? Queria salvar os irmãos, mas não tinha mais a chave da Montanha de Cristal.

Sem pensar muito, meteu o dedo indicador dentro do buraco da fechadura e girou-o, mas o portão continuou fechado.

Então, pegou uma faca em sua trouxinha, cortou fora um pedaço do dedo mindinho, meteu o pedaço do dedo na fechadura: felizmente, o portão se abriu.

Assim que ela entrou, um anãozinho veio a seu encontro:

— O que esta procurando, minha menina?

— Procuro meus irmãos, os sete corvos.

— Os senhores corvos não estão em casa e vão se demorar bastante. Mas, se quiser esperar, entre e fique à vontade.

Assim dizendo, o anãozinho foi para dentro e voltou trazendo a comida dos corvos em sete pratinhos, e a bebida em sete copinhos. A menina comeu um bocadinho de cada prato e bebeu um golinho de cada copo, mas deixou cair o anel que trouxera dentro do último copinho.

Nesse momento, ouviu-se um zunido e um bater de asas no ar.

— São os senhores corvos que vêm vindo - explicou o anãozinho.

Eles entraram, quiseram logo comer e beber e se dirigiram para seus pratos e copos. Então um disse para o outro:

— Alguém comeu no meu prato! Alguém bebeu no meu copo! E foi boca humana!

E quando o sétimo corvo acabou de beber a última gota de seu copo, o anel rolou até o seu bico. Ele reconheceu o anel de seus pais e exclamou:

— Queira Deus que nossa irmãzinha esteja aqui! Então, estaremos salvos!

Ao ouvir esse pedido, a menina, que estava atrás da porta, saiu e foi ao encontro deles. Imediatamente, os corvos recuperaram sua forma humana.

Abraçaram-se e se beijaram na maior alegria e, muito felizes, voltaram todos para casa.

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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).

Cinderela (Fábula), dos Irmãos Grimm



Cinderela

Há muito tempo, aconteceu que a esposa de um rico comerciante adoeceu gravemente e, sentindo seu fim se aproximar, chamou sua única filha e disse:

— Querida filha, continue piedosa e boa menina que Deus a protegerá sempre. Lá do céu olharei por você, e estarei sempre a seu lado — mal acabou de dizer isso, fechou os olhos e morreu.

A jovem ia todos os dias visitar o túmulo da mãe, sempre chorando muito.

Veio o inverno, e a neve cobriu o túmulo com seu alvo manto. Chegou a primavera, e o sol derreteu a neve. Foi então

que o viúvo resolveu se casar outra vez.

A nova esposa trouxe suas duas filhas, ambas louras e bonitas — mas só exteriormente. As duas tinham a alma feia e cruel.

A partir desse momento, dias difíceis começaram para a pobre enteada.

— Essa imbecil não vai ficar no quarto conosco! — Reclamaram as moças. — O lugar dela é na cozinha! Se quiser comer pão, que trabalhe!

Tiraram-lhe o vestido bonito que ela usava, obrigaram-na a vestir outro, velho e desbotado, e a calçar tamancos.

— Vejam só como está toda enfeitada, a orgulhosa princesinha de antes! — Disseram a rir, levando-a para a cozinha.

A partir de então, ela foi obrigada a trabalhar, da manhã à noite, nos serviços mais pesados. Era obrigada a se levantar de madrugada, para ir buscar água e acender o fogo. Só ela cozinhava e lavava para todos.

Como se tudo isso não bastasse, as irmãs caçoavam dela e a humilhavam. Espalhavam lentilhas e feijões nas cinzas do fogão e obrigavam-na a catar um a um.

A noite, exausta de tanto trabalhar, a jovem não tinha onde dormir e era obrigada a se deitar nas cinzas do fogão. E, como andasse sempre suja e cheia de cinza, só a chamavam de Cinderela.

Uma vez, o pai resolveu ir a uma feira. Antes de sair, perguntou às enteadas o que desejavam que ele trouxesse.

— Vestidos bonitos — disse uma.

— Pérolas e pedras preciosas — disse a outra.

— E você, Cinderela, o que vai querer? - perguntou o pai.

— No caminho de volta, pai, quebre o primeiro ramo que bater no seu chapéu e traga-o para mim.

Ele partiu para a feira, comprou vestidos bonitos para uma das enteadas, pérolas e pedras preciosas para a outra e, de volta para casa, quando cavalgava por um bosque, um ramo de aveleira bateu no seu chapéu. Ele quebrou o ramo e levou-o. Chegando em casa, deu às enteadas o que haviam pedido e à Cinderela, o ramo de aveleira.

Ela agradeceu, levou o ramo para o túmulo da mãe, plantou-o ali, e chorou tanto que suas lágrimas regaram o ramo. Ele cresceu e se tornou uma aveleira linda. Três vezes, todos os dias, a menina ia chorar e rezar embaixo dela. Sempre que a via chegar, um passarinho branco voava para a árvore e, se a ouvia pedir baixinho alguma coisa, jogava-lhe o que ela havia pedido.

Um dia, o rei mandou anunciar uma festa, que duraria três dias. Todas as jovens bonitas do reino seriam convidadas, pois o filho dele queria escolher entre elas aquela que seria sua futura esposa.

Quando souberam que também deveriam comparecer, as duas filhas da madrasta ficaram contentíssimas.

— Cinderela! — Gritaram. — Venha pentear nosso cabelo, escovar nossos sapatos e nos ajudar a vestir, pois vamos a uma festa no castelo do rei!

Cinderela obedeceu chorando, porque ela também queria ir ao baile. Perguntou à madrasta se poderia ir, e esta respondeu:

— Você, Cinderela! Suja e cheia de pó, está querendo ir à festa? Como vai dançar, se não tem roupa nem sapatos?

Mas Cinderela insistiu tanto, que afinal ela disse:

— Está bem. Eu despejei nas cinzas do fogão um tacho cheio de lentilhas. Se você conseguir catá-las todas em duas horas, poderá ir.

A jovem saiu pela porta dos fundos, correu para o quintal e chamou:

— Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham me ajudar a catar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As ruins para o seu papo!

Logo entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir, vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.

As pombas abaixavam a cabecinha e pie, pie, pie, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. As outras avezinhas faziam o mesmo. Não levou nem uma hora, o tacho ficou cheio e as aves todas voaram para fora.

Cheia de alegria, a menina pegou o tacho e levou para a madrasta, certa de que agora poderia ir à festa. Porém a madrasta disse:

— Não, Cinderela. Você não tem roupa e não sabe dançar. Só serviria de caçoada para os outros.

Como a menina começou a chorar, ela propôs:

— Se você conseguir catar dois tachos de lentilhas nas cinzas em uma hora, poderá ir conosco.

Enquanto isso, pensou consigo mesma: "Isso ela não vai conseguir..."

Assim que a madrasta acabou de espalhar os grãos nas cinzas, Cinderela correu para o quintal e chamou:

— Mansas pombinhas e rolinhas!
Passarinhos do céu inteiro!
Venham me ajudar a catar lentilhas!
As boas vão para o tacho!
As ruins para o seu papo!

E entraram pela janela da cozinha duas pombas brancas; a seguir vieram as rolinhas e, por último, todos os passarinhos do céu chegaram numa revoada e pousaram nas cinzas.

As pombas abaixavam a cabecinha e pie, pie, pie, apanhavam os grãos bons e deixavam cair no tacho. Os outros pássaros faziam o mesmo. Não passou nem meia hora, e os dois tachos ficaram cheios. As aves se foram voando pela janela.

Então, a menina levou os dois tachos para a madrasta, certa de que, desta vez, poderia ir à festa.

Porém, a madrasta disse:

— Não adianta, Cinderela! Você não vai ao baile! Não tem vestido, não sabe dançar e só nos faria passar vergonha!

E, dando-lhe as costas, partiu com suas orgulhosas filhas.

Quando ficou sozinha, Cinderela foi ao túmulo da mãe e embaixo da aveleira, disse:

— Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!

Então o pássaro branco jogou para ela um vestido de ouro e prata e sapatos de seda bordada de prata. Cinderela se vestiu, a toda pressa, e foi para a festa.

Estava tão linda, no seu vestido dourado, que nem as irmãs, nem a madrasta a reconheceram. Pensaram que fosse uma princesa estrangeira — para elas, Cinderela só poderia estar em casa, catando lentilhas nas cinzas.

Logo que a viu, o príncipe veio a seu encontro e, pegando-lhe a mão, levou-a para dançar. Só dançou com ela, sem largar de sua mão por um instante.

Quando alguém a convidava para dançar, ele dizia:

— Ela é minha dama.

Dançaram até altas horas da noite e, afinal, Cinderela quis voltar para casa.

— Eu a acompanho — disse o príncipe. Na verdade, ele queria saber a que família ela pertencia.

Mas Cinderela conseguiu escapar dele, correu para casa e se escondeu no pombal. O príncipe esperou o pai dela chegar e contou-lhe que a jovem desconhecida tinha saltado para dentro do pombal.

"Deve ser Cinderela...", pensou o pai. E mandou vir um machado para arrombar a porta do pombal. Mas não havia ninguém lá dentro.

Quando chegaram em casa, encontraram Cinderela com suas roupas sujas, dormindo nas cinzas, à luz mortiça de uma lamparina.

A verdade é que, assim que entrou no pombal, a menina saiu pelo lado de trás e correu para a aveleira. Ali, rapidamente tirou seu belo vestido e deixou-o sobre o túmulo. Veio o passarinho, apanhou o vestido e levou-o. Ela vestiu novamente seu vestidinho velho e sujo, correu para casa e se deitou nas cinzas da cozinha.

No dia seguinte, o segundo dia da festa, quando os pais e as irmãs partiram para o castelo, Cinderela foi até a aveleira e disse:

— Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!

E o pássaro atirou para ela um vestido ainda mais bonito que o da véspera. Quando ela entrou no salão assim vestida, todos ficaram pasmados com sua beleza.

O príncipe, que a esperava, tomou-lhe a mão e só dançou com ela. Quando alguém convidava a jovem para dançar, ele dizia:

— Ela é minha dama.

Já era noite avançada quando Cinderela quis ir embora.

O príncipe seguiu-a, para ver em que casa entraria.

A jovem seguiu seu caminho e, inesperadamente, entrou no quintal atrás da casa. Ágil como um esquilo, subiu pela galharia de uma frondosa pereira carregada de frutos que havia ali. O príncipe não conseguiu descobri-la e, quando viu o pai dela chegar, disse:

— A moça desconhecida escondeu-se nessa pereira. "Deve ser Cinderela", pensou o pai. Mandou buscar um machado e derrubou a pereira. Mas não encontraram ninguém na galharia.

Como na véspera, Cinderela já estava na cozinha dormindo nas cinzas, pois havia escorregado pelo outro lado da pereira, correra para a aveleira, e devolvera o lindo vestido ao pássaro. Depois, vestiu o feio vestidinho de sempre, e correu para casa.

No terceiro dia, assim que os pais e as irmãs saíram para a festa, Cinderela foi até o túmulo da mãe e pediu à aveleira:

— Balance e se agite,
árvore adorada,
cubra-me toda
de ouro e prata!

E o pássaro atirou-lhe o vestido mais suntuoso e brilhante jamais visto, acompanhado de um par de sapatinhos de puro ouro.

Ela estava tão linda, tão linda, que, quando chegou ao castelo, todos emudeceram de assombro. O príncipe só dançou com ela e, como das outras vezes, dizia a todos que vinham tirá-la para dançar:

— Ela é minha dama.

Já era noite alta, quando Cinderela quis voltar para casa. O príncipe tentou segui-la, mas ela escapuliu tão depressa, que ele não pode alcançá-la.

Dessa vez, porém, o príncipe usara um estratagema: untou com piche um degrau da escada e, quando a moça passou, o sapato do pé esquerdo ficou grudado. Ela deixou-o ali e continuou correndo.

O príncipe pegou o sapatinho: era pequenino, gracioso e todo de ouro. No outro dia, de manhã, ele procurou o pai e disse:

— Só me casarei com a dona do pé que couber neste sapato.

As irmãs de Cinderela ficaram felizes e esperançosas quando souberam disso, pois tinham pés delicados e bonitos.

Quando o príncipe chegou à casa delas, a mais velha  foi para o quarto acompanhada da mãe e experimentou o sapato. Mas, por mais que se esforçasse, não conseguia meter dentro dele o dedo grande do pé. Então, a mãe deu-lhe uma faca, dizendo:

— Corte fora o dedo. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.

Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele recebeu-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.

Quando passavam pelo túmulo da mãe de Cinderela, que ficava bem no caminho, duas pombas pousaram na aveleira e cantaram:

— Olhe para trás! Olhe para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!

O príncipe virou-se, olhou o pé da moça e logo viu o sangue escorrendo do sapato. Fez o cavalo voltar e levou-a para a casa dela.

Chegando lá, ordenou à outra filha da madrasta que calçasse o sapato. Ela foi para o quarto e calçou-o. Os dedos do pé entraram facilmente, mas o calcanhar era grande demais e ficou de fora. Então, a mãe deu-lhe uma faca dizendo:

— Corte fora um pedaço do calcanhar. Quando você for rainha, vai andar muito pouco a pé.

Assim fez a moça. O pé entrou no sapato e, disfarçando a dor, ela foi ao encontro do príncipe. Ele aceitou-a como sua noiva e levou-a na garupa do seu cavalo.

Quando passavam pela aveleira, duas pombinhas pousaram num dos ramos e cantaram:

— Olhe para trás! Olhe para trás!
Há sangue no sapato,
que é pequeno demais!
Não é a noiva certa
que vai sentada atrás!

O príncipe olhou o pé da moça, viu o sangue escorrendo e a meia branca, vermelha de sangue. Então virou seu cavalo, levou a falsa noiva de volta para casa e disse ao pai:

— Esta também não é a verdadeira noiva. Vocês não têm outra filha?

— Não — respondeu o pai — a não ser a pequena Cinderela, filha de minha falecida esposa. Mas e impossível que seja ela a noiva que procura.

O príncipe ordenou que fossem buscá-la.

— Oh, não! Ela está sempre muito suja! Seria uma afronta trazê-la a vossa presença! — protestou a madrasta.

Porém o príncipe insistiu, exigindo que ela fosse chamada. Depois de lavar o rosto e as mãos ela veio, curvou-se diante do príncipe e pegou o sapato de ouro que ele lhe estendeu.

Sentou-se num banquinho, tirou do pé o pesado tamanco e calçou o sapato, que lhe serviu como uma luva. Quando ela se levantou, o príncipe viu seu rosto e reconheceu logo a linda jovem com quem havia dançado.

— É esta a noiva verdadeira! — exclamou, feliz.

A madrasta e as filhas levaram um susto e ficaram brancas de raiva. O príncipe ergueu Cinderela, colocou-a na garupa do seu cavalo e partiram. Quando passaram pela aveleira, as duas pombinhas brancas cantaram:

— Olhe pare trás! Olhe pare trás!
Não há sangue no sapato,
que serviu bem demais!
Essa é a noiva certa.
Pode ir em paz!

E, quando acabaram de cantar, elas voaram e foram pousar, uma no ombro direito de Cinderela, outra no esquerdo; ali ficaram.

Quando o casamento de Cinderela com o príncipe se realizou, as falsas irmãs foram à festa. A mais velha ficou à direita do altar, e a mais nova, à esquerda.

Subitamente, sem que ninguém pudesse impedir, a pomba pousada no ombro direito da noiva voou para cima da irmã mais velha e furou-lhe os olhos. A pomba do ombro esquerdo fez o mesmo com a mais nova, e ambas ficaram cegas para o resto de suas vidas.


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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).

Rapunzel (Fábula), dos Irmãos Grimm


Rapunzel

Era uma vez um casal que há muito tempo desejava inutilmente ter um filho. Os anos se passavam, e seu sonho não se realizava. Afinal, um belo dia, a mulher percebeu que Deus ouvira suas preces. Ela ia ter uma criança!

Por uma janelinha que havia na parte dos fundos da casa deles, era possível ver, no quintal vizinho, um magnífico jardim cheio das mais lindas flores e das mais viçosas hortaliças. Mas em torno de tudo se erguia um muro altíssimo, que ninguém se atrevia a escalar. Afinal, era a propriedade de uma feiticeira muito temida e poderosa.

Um dia, espiando pela janelinha, a mulher se admirou ao ver um canteiro cheio dos mais belos pés de rabanete que jamais imaginara. As folhas eram tão verdes e fresquinhas que abriram seu apetite. E ela sentiu um enorme desejo de provar os rabanetes.

A cada dia seu desejo aumentava mais. Mas ela sabia que não havia jeito de conseguir o que queria e por isso foi ficando triste, abatida e com um aspecto doentio, até que um dia o marido se assustou e perguntou:

— O que está acontecendo contigo, querida?

— Ah! — respondeu ela. — Se não comer um rabanete do jardim da feiticeira, vou morrer logo, logo!

O marido, que a amava muito, pensou: "Não posso deixar minha mulher morrer... Tenho que conseguir esses rabanetes, custe o que custar!"

Ao anoitecer, ele encostou uma escada no muro, pulou para o quintal vizinho, arrancou apressadamente um punhado de rabanetes e levou para a mulher. Mais que depressa, ela preparou uma salada que comeu imediatamente, deliciada.

Ela achou o sabor da salada tão bom, mas tão bom,

que no dia seguinte seu desejo de comer rabanetes ficou ainda mais forte. Para sossegá-la, o marido prometeu-lhe que iria buscar mais um pouco. Quando a noite chegou, pulou novamente o muro mas, mal pisou no chão do outro lado, levou um tremendo susto: de pé, diante dele, estava a feiticeira.

— Como se atreve a entrar no meu quintal como um ladrão, para roubar meus rabanetes? — perguntou ela com os olhos chispando de raiva. — Vai ver só o que te espera!

— Oh! Tenha piedade! — implorou o homem. — Só fiz isso porque fui obrigado! Minha mulher viu seus rabanetes pela nossa janela e sentiu tanta vontade de comê-los, mas tanta vontade, que na certa morrerá se eu não levar alguns!

A feiticeira se acalmou e disse:

— Se é assim como diz, deixo você levar quantos rabanetes quiser, mas com uma condição: irá me dar a criança que sua mulher vai ter. Cuidarei dela como se fosse sua própria mãe, e nada lhe faltará.

O homem estava tão apavorado, que concordou. Pouco tempo depois, o bebê nasceu. Era uma menina. A feiticeira surgiu no mesmo instante, deu à criança o nome de Rapunzel e levou-a embora.

Rapunzel cresceu e se tomou a mais linda criança sob o sol. Quando fez doze anos, a feiticeira trancou-a no alto de uma torre, no meio de uma floresta.

A torre não possuía nem escada, nem porta: apenas uma janelinha, no lugar mais alto. Quando a velha desejava entrar, ficava embaixo da janela e gritava:

— Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas trancas! Rapunzel tinha magníficos cabelos compridos, finos como fios de ouro. Quando ouvia o chamado da velha, abria a janela, desenrolava as trancas e jogava-as para fora. As trancas caíam vinte metros abaixo, e por elas a feiticeira subia.

Alguns anos depois, o filho do rei estava cavalgando pela floresta e passou perto da torre. Ouviu um canto tão bonito que parou, encantado. Rapunzel, para espantar a solidão, cantava para si mesma com sua doce voz.

Imediatamente o príncipe quis subir, procurou uma porta por toda parte, mas não encontrou. Inconformado, voltou para casa. Mas o maravilhoso canto tocara seu coração de tal maneira que ele começou a ir para a floresta todos os dias, querendo ouvi-lo outra vez.

Em uma dessas vezes, o príncipe estava descansando atrás de uma árvore e viu a feiticeira aproximar-se da torre e gritar: "Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas trancas!". E viu quando a feiticeira subiu pelas trancas.

"É essa a escada pela qual se sobe?", pensou o príncipe.

"Pois eu vou tentar a sorte...".

No dia seguinte, quando escureceu, ele se aproximou da torre e, bem embaixo da janelinha, gritou:

— Rapunzel, Rapunzel! Joga abaixo tuas trancas! As trancas caíram pela janela abaixo, e ele subiu. Rapunzel ficou muito assustada ao vê-lo entrar, pois jamais tinha visto um homem. Mas o príncipe falou-lhe com muita doçura e contou como seu coração ficara transtornado desde que a ouvira cantar, explicando que não teria sossego enquanto não a conhecesse.

Rapunzel foi se acalmando, e quando o príncipe lhe perguntou se o aceitava como marido, reparou que ele era jovem e belo, e pensou: "Ele é mil vezes preferível à velha senhora...". E, pondo a mão dela sobre a dele, respondeu:

— Sim! Eu quero ir com você! Mas não sei como descer... Sempre que vier me ver, traga uma meada de seda. Com ela vou trançar uma escada e, quando ficar pronta, eu desço, e você me leva no seu cavalo.

Combinaram que ele sempre viria ao cair da noite, porque a velha costumava vir durante o dia. Assim foi, e a feiticeira de nada desconfiava até que um dia Rapunzel, sem querer, perguntou a ela:

— Diga-me, senhora, como é que lhe custa tanto subir, enquanto o jovem filho do rei chega aqui num instantinho?

— Ah, menina ruim! — gritou a feiticeira. — Pensei que tinha isolado você do mundo, e você me engana!

Na sua fúria, agarrou Rapunzel pelo cabelos e esbofeteou-a. Depois, com a outra mão, pegou uma tesoura e tec, tec! cortou as belas trancas, largando-as no chão. Não contente, a malvada levou a pobre menina para um deserto e abandonou-a ali, para que sofresse e passasse todo tipo de privação.

Na tarde do mesmo dia em que Rapunzel foi expulsa, a feiticeira prendeu as longas trancas num gancho da janela e ficou esperando. Quando o príncipe veio e chamou: "Rapunzel! Rapunzel! Joga abaixo tuas trancas!", ela deixou as trancas caírem para fora e ficou esperando.

Ao entrar, o pobre rapaz não encontrou sua querida Rapunzel, mas sim a terrível feiticeira. Com um olhar chamejante de ódio, ela gritou zombeteira:

— Ah, ah! Você veio buscar sua amada? Pois a linda avezinha não está mais no ninho, nem canta mais! O gato apanhou-a, levou-a, e agora vai arranhar os seus olhos! Nunca mais você verá Rapunzel! Ela está perdida para você!

Ao ouvir isso, o príncipe ficou fora de si e, em seu desespero, se atirou pela janela. O jovem não morreu, mas caiu sobre espinhos que furaram seus olhos e ele ficou cego.

Desesperado, ficou perambulando pela floresta, alimentando-se apenas de frutos e raízes, sem fazer outra coisa que se lamentar e chorar a perda da esposa tão querida.

Passaram-se os anos. Um dia, por acaso, o príncipe chegou ao deserto no qual Rapunzel vivia, na maior tristeza, com seus filhos gêmeos, um menino e uma menina, que haviam nascido ali.

Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, o príncipe caminhou na direção de Rapunzel. Assim que chegou perto, ela logo o reconheceu e se atirou em seus braços, a chorar.

Duas das lágrimas da moça caíram nos olhos dele e, no mesmo instante, o príncipe recuperou a visão e ficou enxergando tão bem quanto antes.

Então, levou Rapunzel e as crianças para seu reino, onde foram recebidos com grande alegria. Ali viveram felizes e contentes.

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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).

O Gato de Botas (Fábula), dos Irmãos Grimm



O Gato de Botas

Um lavrador trabalhara muito, durante a vida toda, ganhando sempre o suficiente para o sustento da família. Quando faleceu, deixou sua herança para os filhos: um sítio, um burrinho e um gato.

Ao filho mais velho coube o sítio; ao segundo, o burrinho; e o caçula ficou com o gato.

Este último, nada satisfeito com o que lhe coubera, resmungou: "Meus irmãos sobreviverão honestamente. Mas, e eu? O que vou fazer? Talvez possa jantar o gato e com o couro fazer um tamborim. Mas, e depois?"

O gato logo endireitou as orelhas, querendo ouvir melhor um assunto de tamanho interesse. Então, percebendo que precisava agir, foi dizendo:

— Não se desespere, patrãozinho, pois eu tenho um plano. Consiga-me um par de botas e um saco de pano, e deixe o resto comigo.

O jovem achou que valeria a pena tentar; afinal, o gato parecia inteligente e astuto. Deu-lhe então um saco e um par de botas, desejou-lhe muito boa sorte, e deixou-o partir.

O gato dirigiu-se a uma mata na qual sabia que viviam coelhos de carne deliciosa. Mas eram bichos difíceis de apanhar. O esperto bichano enfiou no saco um punhado de farelo e outro de capim. Deixou o saco no chão e ficou bem pertinho, imóvel, à espera de que algum coelho jovem e inexperiente caísse na arapuca.

Nosso gato esperou pacientemente. Por fim, viu suas esperanças se tornarem realidade: um coelhinho se enfiou no saco, atraído pelo cheiro do farelo, e começou a comer tranquila e gostosamente.

Rápido como um relâmpago, o felino passou um cordão na abertura do saco e prendeu o coelho. Com a caça nas costas, dirigiu-se ao palácio real.

— Quero falar com o rei — disse aos guardas, com ares de muita importância.

Foi conduzido à presença real. Afinal, não era sempre que um gato aparecia pedindo audiência.

Na presença do soberano, o gato se curvou em respeitoso cumprimento.

— Majestade! Meu patrão, o marquês de Sacobotas, me encarregou de oferecer-lhe este coelho, caçado nas matas de propriedade dele.

O rei, que apreciava muito carne de coelho, se alegrou com o presente:

— Diga a seu patrão que agradeço muito a gentileza. Alguns dias depois, o gato apanhou duas grandes rolinhas numa emboscada, num campo de milho. Guardou as aves no saco e foi logo levá-las ao rei.

O rei aceitou com todo prazer essa segunda oferta, pois adorava carne de rolinha!

Nos meses seguintes, o gato continuou indo à corte para levar caças ao rei, sempre agradando muito ao paladar do soberano. A cada novo presente, afirmava que as carnes vinham das terras de seu patrão, o marquês de Sacobotas.

Um dia, quando estava saindo do palácio, escutou a conversa de dois criados:

— Amanhã o rei passará de carruagem pelas margens do rio, junto com sua filha, a mais bela moça de todo o reino.
O gato correu logo ao patrão, dizendo:

— Patrãozinho, se seguir meus conselhos poderá se tornar rico, nobre e feliz.

— E o que deverei fazer? — perguntou o jovem patrão, confiante no gato que herdara.

— Amanhã você deverá ir ao rio e tomar banho no lugar exato em que eu indicar. O resto, deixe comigo.

No dia seguinte, enquanto se banhava nas águas do rio, o rapaz viu se aproximar o rei, acompanhado pela princesa e por alguns nobres. O gato, que lá estava à espera, saiu de trás de uma moita e começou a gritar, com todo o fôlego:

— Socorro! Socorro! Ajudem o marquês de Sacobotas, ele está se afogando no rio! Ajudem!

O rei escutou os gritos e reconheceu o gato que tantas vezes lhe levara carnes deliciosas. Imediatamente deu ordem aos guardas para que corressem e acudissem o marquês de Sacobotas.

Enquanto o jovem estava sendo retirado do rio, nosso gato se aproximou da carruagem real dizendo, com o ar mais entristecido do mundo:

— Majestade, meu patrão estava tomando banho no rio e chegaram uns ladrões, que levaram toda a roupa dele. E agora, como ele poderá se apresentar a Vossa Majestade, inteiramente nu?

Na verdade, o gato, muito vivo, havia escondido os trapos do moço embaixo de umas pedras... Mas o rei, penalizado, ordenou a um de seus guardas que corresse ao palácio e pegasse umas roupas para o pobre marquês espoliado.

A roupa trazida era esplêndida. Com ela, o falso marquês, que aliás era um jovem bem bonito, ficou com ótima aparência. Logo a princesa se apaixonou pelo jovem, e o rei convidou-o a subir na carruagem, para juntos continuarem o passeio.

Mas, e o gato?

O gato, contente com o sucesso inicial de seu projeto, correu na frente da carruagem, que avançava lentamente.

Um pouco adiante, viu um grupo de lavradores capinando. O gato fez uma careta bem feia e gritou com um vozeirão ameaçador:

— Atenção! O rei passará aqui já, já! Se vocês não disserem que esse campo pertence ao marquês de Sacobotas, serão todos demitidos!

Assustadíssimos, os coitados juraram que obedeceriam. Quando o rei, curioso, perguntou aos lavradores a quem pertencia aquele belo campo, estes responderam a uma só voz:

— Ao senhor marquês de Sacobotas!

E o rei parabenizou seu convidado pela beleza e fertilidade de suas terras.

Enquanto isso, nosso gato, sempre bem à frente da comitiva real, parou num canavial em que camponeses ceifavam.

— Atenção! Daqui a pouco o rei passará por aqui. Vocês vão dizer a ele que este canavial pertence ao marquês de Sacobotas. Se não disserem, serão todos presos.

Assustados, os cortadores de cana prometeram obedecer.

E assim fizeram também os criadores de porcos, os vaqueiros, os cultivadores de uvas e tantos mais que o gato encontrou em seu caminho.

Tudo pertencia ao marquês de Sacobotas! E a estima do rei pelo novo nobre crescia a cada quilômetro percorrido.

Sempre à frente, o gato, chegou a um castelo no qual vivia um terrível mago, muito rico. A ele pertenciam todas as terras que o esperto gato atribuíra ao marquês de Sacobotas!

O gato sem dúvida precisava, com urgência, de uma nova ideia brilhante. Como ideias não lhe faltavam, pensou um pouquinho e pediu para ser levado à presença do mago. Assim que chegou ao salão, curvou-se respeitosamente e começou a fazer elogios:

— Eu estava passando por estas bandas, meu senhor, e achei que era meu dever homenagear o mais poderoso mago da região. Ouvi falar que o senhor pode se transformar em qualquer animal. Mas eu duvido que isto seja verdade.

— Quer ver? — respondeu o mago, irritado com a provocação.

Em um instante, no lugar do mago estava um leão rugindo, com sua grande boca aberta. O gato levou tamanho susto que por pouco não caiu para trás!

— E agora, está convencido, seu gato?

— Bem, senhor, até certo ponto... Não deve ter sido tão difícil, grandalhão como é, se transformar em um animal enorme. Eu só queria ver se conseguia se transformar em um animal pequeno, como um ratinho, por exemplo. Que tal? Consegue?

— Eu consigo me transformar em qualquer animal, ouviu bem? — gritou o mago.

E logo ele virou um ratinho, que começou a correr veloz pela sala toda. Com toda sua astúcia, o gato devorou-o numa só bocada.

A carruagem real já estava chegando ao castelo. O rei, curioso, quis visitá-lo.

O marquês de Sacobotas nem sabia o que fazer. Por sorte, o gato logo apareceu, cumprimentando:

— Bem-vinda, majestade, ao castelo do marquês de Sacobotas.

O rei ficou admirado.

— Oh! Não me diga, marquês, que também este belo castelo lhe pertence? E não falava nada, hein?

O rei entrou no castelo, acompanhado pelo marquês e pela princesa. No salão principal do luxuoso castelo havia uma comprida mesa, na qual já estava servido um verdadeiro banquete. Os recém-chegados, inclusive o gato, comeram e beberam a fartar, satisfazendo a fome após tão longo passeio.

No final da refeição, o rei, que já estava percebendo os olhares apaixonados da filha para o jovem marquês, tão rico e tão belo, disse:

— Meu caro marquês, vejo que minha filha tem por você muita simpatia. Se sentir o mesmo por ela, então ofereço-lhe sua mão.

Não cabendo em si de felicidade, o jovem logo respondeu que sim.

Naquele mesmo dia foram celebradas as bodas, e o filho do lavrador se tornou príncipe.

E o gato, autor de tanta fortuna? Ele se tornou um senhor... E, se de vez em quando caçava algum rato, era por pura diversão.


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Fonte:
"Contos tradicionais, fábulas, lendas e mitos": Ministério da Educação - Fundescola - Projeto Nordeste - Secretaria de Ensino Fundamental. Brasília, 2000 - Volume 2. (A imagem que acompanha o texto, não se inclui na referida obra).