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2/15/2019

Ana de Lisbeth (Conto), de Hans Christian Andersen


Ana de Lisbeth
Ana de Lisbeth era uma moça linda; seu rosto irradiava juvenil alegria. Os dentes pareciam pérolas finas, os olhos brilhavam como diamantes, diamantes risonhos. Na dança, os pés muito breves saltavam com maravilhosa ligeireza. Infelizmente, seus pensamentos eram ainda mais ligeiros. Apesar de inteligente, deixou-se seduzir por um aventureiro, que em breve a abandonou. Nunca mais houve notícias de tal homem.
Ana teve um filho, criança forte e sadia, mas terrivelmente feia; a mãe sentia vergonha do fruto da sua leviandade e encarregou da criação a mulher do coveiro, sua vizinha. Depois, entrou como ama de leite em casa de uma condessa.
No opulento palácio, deram-lhe um quarto elegante; deram-lhe também vestidos de veludo e de seda. Então, fez-se exigente e embirrenta. Não aceitava observações; a mínima contradição atacava-lhe os nervos.
O pequeno conde era delicado como um príncipe, belo como um anjo; ela consagrava-lhe todos os seus cuidados e caricias. E o seu filho continuava na casa do coveiro; lá, poucas vezes assobiavam as chaleiras; em compensação, não faltavam más palavras. O pobre menino estava quase sempre só, ninguém se importava com seus gemidos; chorava até dormir; quando se dorme, não se sente fome ou sede.
Vaso ruim não quebra, diz o provérbio; o filho de Ana de Lisbeth não o desmentiu. Cresceu, cresceu sem conhecer a mãe; o coveiro recebera dinheiro para guardar segredo.
Terminada a criação do filho da condessa, despediram a ama, que foi morar na cidade, onde se fez passar por burguesa honesta, vivendo de rendas, bem vestida, melhor tratada, donairosa. Abandonara o filho à desgraça, como o pai a havia abandonado.
O coveiro tirava do rapaz todo o partido possível. O filho de Ana de Lisbeth passava uma vida dura, sem vislumbre de esperança; sempre maltratado, suportando frios e chuvas sem queixume, e como era feio, muito feio, toda a aldeia motejava dele; ninguém o amava.
Mais tarde, entrou como grumete numa chalupa miserável, e aí encontrou novos sofrimentos. O capitão embriagava-se frequentemente, e em tais ocasiões o rapaz sofria uma chuva de pancadas. O pequeno Lisbeth parecia ter nascido sob má estrela.
Um dia estourou um vendaval. O capitão mal podia aguentar o leme, e, de repente, uma tromba d’água envolveu o pobre barquinho e o fez voltear, já sem governo.
— Jesus! Meu Deus! — gritou o rapaz; e chalupa, capitão e grumete, tudo mergulhou na voragem.
Ninguém presenciou o terrível acontecimento; só as gaivotas e os peixes poderiam contar alguma coisa.
Nenhum fragmento ficou boiando à tona para indicar onde o filho de Ana de Lisbeth havia perecido; ademais, a ninguém fazia falta, ninguém sentia saudades dele.
Ana vivia na cidade; muita gente a tratava por "minha senhora". Gostava de contar a história da sua mocidade, de quando habitava no palácio da condessa e andava de carro e conversava com baronesas e damas muito distintas. E não faltavam elogios ao filho da condessa; era o seu ai, Jesus! — lindo, lindíssimo, um verdadeiro anjo!
— Vou visitar o meu menino e o grande palácio campestre onde passei tantos dias de esplendor — disse ela certo dia. Ele há de lembrar-se de mim, daquele tempo em que me queria tão ternamente e me rodeava o pescoço com os bracinhos brancos de neve. Sim, hei de voltar a vê-lo.
Partiu, e depois de uma longa jornada, ora em diligência, ora a pé, chegou à nobre residência da condessa. Os criados eram-lhe estranhos, nenhum ouvira falar de Ana de Lisbeth.
Depois de ter esperado por muito tempo na antecâmara, um criado lhe abriu a porta do salão e ela entrou pouco antes da condessa e de seu filho.
A dama recebeu-a muito bem e dirigiu-lhe palavras muito amáveis; o condezinho estava alto e delgado, formosos ainda os olhos, a boca, pequena e delicada. Olhou friamente para Ana de Lisbeth. Sem proferir uma palavra, deixou-se abraçar por ela com indiferença, desviando-se logo um pouco, e saindo em seguida. Esse foi o acolhimento que ela teve da sua maior afeição, da criança amada de que se sentia tão vaidosa.
Retomou o caminho da cidade, sem poder conter as lágrimas. E, de súbito, um grande corvo negro como azeviche, crocitando em ásperos gritos, veio pousar num ramo à beira da estrada.
 — Ah! que mau agouro! — murmurou ela  — parece mesmo que está gritando para mim; que desgraça teremos?
E pela mente correram-lhe negros pensamentos, e sentiu calafrios por todo o corpo.
Pouco depois, passava ela pela casa do coveiro; a mulher que estava sentada à porta, disse-lhe:
— Como estás sadia e bem conservada, Ana de Lisbeth! Tens passado boa vida, sem cuidados e sem misérias.
— Nem sempre, nem sempre...
— Nunca mais houve notícias da chalupa, nem do grumete — continuou a mulher do coveiro. Afogaram-se, é o mais certo; e tenho pena, porque o rapaz, continuando naquela vida, podia de vez em quando mandar-me algum dinheiro.
— Ah! Julgas que morreram afogados? — disse Ana de Lisbeth. E passaram logo para outro assunto.
Ana estava ressentida pelo frio acolhimento do condezinho; nada disse, porém, à mulher do coveiro; queria que toda a gente julgasse ainda que estava em íntimas relações com o aristocrático palácio.
E de súbito apareceu outra vez o corvo com o seu crocitar lúgubre.
— Essa ave negra me quer mal, anda hoje a me perseguir — disse Ana, inquieta e nervosa.
A mulher do coveiro preparava o café e Ana, deitando-se no sofá, em breve adormeceu.
Viu, então, no sono agitado, pela primeira vez, aquele com quem nunca sonhara: o filho das suas entranhas, que naquela mesma casa havia sofrido fome e pancadas, e que repousava agora no fundo do mar, sabe Deus onde.
Parecia-lhe que um rapaz, alto e robusto, quase tão formoso como o condezinho, abria a porta e dizia:
— Aí vem o fim do mundo, agarra-te bem a mim, tu és minha mãe! No paraíso há um anjo que só quer te salvar. Segura-te bem, para que ele te leve para o céu.
E sentiu-se abraçada pelo mancebo; mas logo ouviu-se um grande ruído, como se o mundo baqueasse, e o anjo elevou-se para o céu, sustentando-a pelas roupagens. Então, começou uma luta tenaz, pois ao mesmo tempo que o anjo tentava levá-la para cima, uma multidão de mulheres a segurava pelo vestido, loucas, desesperadas, clamando em tumulto:
— Nós queremos salvar-nos, também! Seguremo-la bem! Não a larguemos de modo nenhum!
Por fim, rasgaram-se-lhe as roupas e Ana de Lisbeth viu-se abandonada do anjo, despenhada em fundo abismo... e nisso acordou de repente, porque ia caindo do canapé abaixo. De tal modo a perturbaram aquelas ideias que, a dizer a verdade, não poderia contar o extravagante sonho; todavia, estava cheia de desconsolo, de vagos, inexplicáveis sobressaltos.
Tomou uma chávena de café com a mulher do coveiro e partiu logo, para não perder a diligência; chegou, porém, atrasada, e só no dia seguinte partiria outra carruagem. Não quis, contudo, passar a noite em casa do coveiro, e, como havia esplêndido luar, resolveu ir a pé pela estrada, à beira-mar.
Na campina, nenhum ruído; nem o coaxar das rãs, nem os assobios das corujas, nem mesmo o brando marulhar das pequenas vagas. Naquele silêncio, havia um certo quê de solene, de lúgubre.
Ana caminhava; seguia resoluta pela estrada; a princípio, sem pensar em coisa alguma; os pensamentos, porém, nunca abandonam completamente a mente humana. Às vezes parecem adormecer, mais nada. Há muitas pessoas sempre tranquilas porque sabem que nada têm a temer das leis, da justiça de seu país; não pensam nas contas severas que têm de prestar ao Supremo Juízo das suas ações boas ou más, até das mais ocultas. Ana de Lisbeth era assim: passava por pessoa honesta e boa, e isso era-lhe o suficiente.
De súbito, parou para ver um objeto que se destacava na praia; era um chapéu velho, provavelmente arremessado pelo mar.
Depois de ter examinado o chapéu por um instante, recomeçou a caminhar e estacou de novo ante um objeto mais singular: julgou ver o corpo de um homem estendido sobre uma pedra comprida. Um calafrio de terror lhe percorreu o corpo. Tentou fugir; as pernas tremiam-lhe. E nada havia que temer; era apenas a sombra de uns altos caniços projetada pelo luar.
Pouco a pouco, porém, o pavor se apoderou dela e, agora, os seus pensamentos excitados concorriam para essa impressão.
Em criança, ouvira falar em fantasmas do mar, das almas penadas cujos corpos, não tendo sido enterrados, apareciam aos viajantes, agarrando-os para que os levassem ao cemitério e os cobrissem de terra sagrada.
— Segura! Agarra! — gritavam sempre os lúgubres fantasmas.
Essa lembrança recordou-lhe o pesadelo, o grito das mulheres que a tinham segurado, o jovem querendo levantá-la ao momento supremo. Seu filho, a criança que ela nunca amara, que havia esquecido, e que havia perecido tão miseravelmente no naufrágio, não poderia voltar como espectro a bradar também: Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada?
Esses terríveis pensamentos caíram como marteladas no coração de Ana de Lisbeth; a custo, respirava; inquieta, olhava o mar; uma névoa espessa surgia das águas e vinha rodear as árvores e os arbustos, dando-lhes aspectos inesperados.
Olhou para a lua, e o astro melancólico pareceu-lhe agora frio e esquálido como um rosto cadavérico; e no silêncio soturno do mar e na campina surgia, sim, surgia agora, uma voz indefinida, nem grito nem gemido, mas pronunciando rápida e constantemente:
— Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada!
Seria a alma errante de seu filho? Da criança nunca amada que se perdera no mar?
Ana de Lisbeth apertou o passo. Ia nervosa, febril. Resolveu tomar a direção da igreja; ali, talvez, encontraria a paz; tentou seguir o caminho mais curto, mas sentiu, então, um peso sobre os ombros e a tal voz, agora mesmo próxima do ouvido, a murmurar, como num sopro a repetir sem cessar:
 — Enterra-me, enterra-me!
Ana tropeçou, ajoelhou-se e por um bocado caminhou de rastos. Se o túmulo fosse o esquecimento de tudo, ela mesma teria aberto o seu túmulo. Levantando-se, viu, então, quatro cavalos relinchando e vomitando fogo pelos olhos e ventas; puxavam um carro fúnebre, e no carro ia sentado um malvado senhor que, havia um século, muitos crimes cometera naquele local.
Todas as noites, à hora dos fantasmas, rezava a tradição, ele entrava no velho castelo, e o seu rosto, em vez da palidez da morte, era escuro como carvão.
Passando, acenou a Lisbeth, dizendo-lhe:
— Cautela! Em breve esquecerás do filho e poderás andar como eu nesta carruagem brasonada.
Impelida pela coragem do desespero, Ana desatou a correr e entrou no cemitério. Estava coberto de cruzes e de corvos negros como azeviche, que, ao luar, agora fraco, apenas se podiam distinguir.
— A mãe dos corvos! Olhem a madrasta! — crocitaram as aves fúnebres, avistando Ana de Lisbeth.
Um pavor imenso se apoderou da mulher; temia ser transformada numa daquelas aves, se a sepultura não fosse aberta logo. Deitou-se sobre o solo e começou a abrir a cova; a terra estava dura; em breve, ficou com as mãos ensanguentadas. O queixume do fantasma continuava a soar nos seus ouvidos. Receava ouvir o cantar do galo ou de ver o primeiro raio do sol, pois, em tal caso, estaria perdida.
Ora, ao cantar do galo, ao romper da aurora, só havia metade da cova; sentiu uma gélida mão pousar-lhe sobre a fronte, e outra no coração.
— Metade de uma sepultura não basta! — gemeu o fantasma, que logo sumiu no fundo do mar.
Ana de Lisbeth caiu sem sentidos, como morta.
Naquela manhã, dois camponeses encontraram-na assim; não no cemitério, mas na praia junto do mar; ela abrira um buraco na areia e estava com os dedos feridos pelos seixos.
Ana padeceu prolongada enfermidade; as angústias da consciência despertada pelo temor de Deus transformaram-lhe a cabeça; acreditava ter só metade da alma; o filho havia-lhe arrebatado a outra metade, levando-a para o fundo do mar; sem ela, não poderia jamais entrar no Reino da Graça.
A custo  a reconheceriam agora; só falava do espectro do mar que devia enterrar em terreno sagrado, para ganhar a sua alma; muitas vezes passava a noite à beira-mar, à espera do fantasma; um dia, desapareceu.
Na tarde desse dia, quando o sineiro entrou na igreja, à hora do Angelus, viu Ana de Lisbeth de joelhos ante o altar. Estava fraca, muito curvada; mas os olhos luminosos, o rosto risonho e os últimos raios do sol, caindo sobre a Bíblia aberta, fizeram sobressair estas palavras do profeta Joel:
"Rasgai os vossos corações e não as vossas túnicas; lembrai-vos sempre do senhor".
Foi acaso, dirá alguém; mas há muitos acasos como esse.
Contou ela, depois, que durante a noite lhe aparecera a alma do filho.
"É verdade — ouvira ela — que tu só me cavaste metade da sepultura; mas, faz agora um ano que me sepultaste inteiro no teu coração, e é aí que as mães guardam bem os filhos".
E, entregando-lhe a outra metade da sua alma, conduzira-a à igreja.
— Agora — acrescentou ela — agora estou na Casa do Senhor, onde se é sempre feliz.
Quando o sol mergulhou não horizonte, a alma de Ana de Lisbeth subiu à morada onde nada temem os que muito se arrependeram e muito padeceram.

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Tradução anônima:
Revista Carioca, 18 de setembro de 1947.

10/25/2017

A menina dos fósforos (Conto), de Hans Christian Andersen


A menina dos fósforos

Tradução: José Joaquim Rodrigues de Freitas.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Estava horrivelmente frio, geava, e era quase noite escura, a última do ano.

Estava assim escuro e frio, quando caminhava pela rua uma menina com os pés nus e a cabeça descoberta. Tinha calçado chinelas ao sair de casa, mas de que lhe serviram? Eram muito grandes, e tanto, que a mãe as tinha usado até então; demais, a pequena perdeu-as ao atravessar à pressa uma rua, fugindo de dois carros que rodavam com velocidade de pôr medo. Uma das chinelas não a pôde tornar a achar; e a outra apanhou-a um rapaz, e lá foi a correr com ela; até se lembrou que lhe serviria de brinquedo, caso viesse a ter filhos.

Assim caminhou a menina com os pesinhos nus e roxos de frio. Trazia num avental velho uma porção de fósforos, e na mão um maço deles. Ninguém lhe comprara nada todo o dia, ninguém lhe fizera presente de cinco réis.

Imagem da miséria, a pobre pequena ia-se arrastando a tremer de frio e fome!

Os flocos de neve cobriam-lhe o cabelo comprido e louro, que em formosos anéis lhe caía pelo colo abaixo; mas, em verdade, nisto pensava ela!

De todas as janelas brilhavam luzes; e vinha de lá um delicioso cheiro a ganso assado; era a noite de São Silvestre; e nisto pensava ela!

A um canto formado por duas casas, uma das quais era mais saliente do que a outra, sentou-se ela, e, como pôde, conchegou-se; meteu bem para dentro os pesinhos, mas ainda mais lhe arrefeceram; e não ousava ir para casa por não ter vendido fósforos, nem arranjado dinheiro.

Bem sabia que o pai lhe havia de bater, e em casa também estava frio; cobria-a só o telhado, pelo qual o vento assobiava, ainda quando se tapavam os buracos maiores com palha e farrapos.

O frio quase lhe não deixava mover as mãos.

Ah! um fósforo podia fazer-lhe bem; se tirasse um do molho, se o acendesse na parede, e se aquecesse a ele os dedos!

Tirou um. Zahs! Como cintilava, como ardia! Era uma chama quente e brilhante, era uma luzinha; pôs sobre ela as mãos, era uma luzinha maravilhosa. A menina pareceu que estava diante de um grande fogão de ferro todo guarnecido de latão polido. Abençoado fogo, que tão bem aquecia! Mas a chamazinha apaga-se, o fogão desaparece, ficaram-lhe na mão só os restos do fósforo que ardera.

Acendeu outro na parede, este alumiava e tornava transparentes como um véu os lugares da parede em que os seus raios incidiam: podia assim ver para dentro da sala.

A mesa tinha uma toalha branca de neve, sobre a qual luzia louça de porcelana; o ganso assado, cheio de maçãs e ameixas secas, exalava deliciosos vapores. E o que ainda era mais belo: o ganso saltava do prato abaixo, cambaleava pelo chão adiante, e vinha até à pobre criança, trazendo no peito a faca e o garfo.

Lá se apagou o fósforo, e só ficou a parede, espessa, fria e úmida.

Ela acendeu ainda um fósforo. E eis que lhe pareceu estar sob a majestosa árvore do Natal, ainda maior e mais adornada, que a outra que vira ao través da janela da casa de um rico negociante. Milhares de luzes ardiam nos ramos verdes; e imagens variegadas, como numa vitrina, olhavam para a rapariga. A pequena estendeu para elas as mãos; e eis que se apagou o fósforo.

As luzes do Natal subiram mais e mais; pareciam-lhe estrelas no céu; uma delas caiu formando longo rasto luminoso.

Alguém que morre, disse consigo a menina; porque a avó, única que lhe tivera amor, e que já era falecida, lhe contara que uma alma sobe para Deus, quando uma estrela cai para a terra.

Acendeu mais outro fósforo; a luz fez-se de novo, e no meio do brilho dela erguia-se a velha avó, tão resplendente e pura, tão cheia de doçura e de amor!

Minha avó, exclamou a pequena. Oh! leva-me contigo. Eu sei que tu desaparecerás quando o fósforo se apagar. Hás de passar como o fogão quente, como o delicioso ganso assado, e como a grande e majestosa árvore do Natal!

E rapidamente acendeu todo o molho de fósforos, a fim de ter ali a avó bem segura.

E os fósforos fulguraram com tal brilho, que havia luz mais viva do que em pleno dia; a avó nunca fora tão alta nem tão formosa: tomou nos braços a menina, e ambas voaram pelas regiões da luz e da alegria até muito alto, muito alto; não havia lá nem frio, nem fome, nem angústia: eram perto de Deus.

Mas encostada ao canto da parede, quando veio o frio amanhecer, estava a pobre rapariga com as faces vermelhas e um sorriso nos lábios; matou-a o gelo na última noite do ano velho.

E o sol do ano novo passou sobre o seu cadaverzinho.

Imóvel estava a menina: ali estava ela com os fósforos, dos quais havia queimado um maço.

Ninguém suspeitava quanto ela vira de belo, e em que brilhante região entrara com a avó no dia de ano novo.

A roupa nova do rei (Conto), de Hans Christian Andersen


A roupa nova do rei 

Tradução: Bento Serrano.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

A roupa nova do rei  (Conto), de Hans Christian Andersen


Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se vestir todo o dinheiro que tinha.

Se passava revista aos seus soldados, se aparecia nos espetáculos ou passeios públicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia vestido. Era uma roupa para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: “Sua majestade está em conselho de ministros”, a respeito deste dizia-se: “Sua majestade está no seu guarda-roupa”.

A capital em que ele vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo grande número de estrangeiros que ali concorriam. Um dia chegaram aquela cidade dois impostores que se anunciaram como tecelões, dizendo que sabiam tecer um pano como nunca se vira. Era um estofo notável, não só pela beleza das cores e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de se tornar invisível para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estúpido.

— Uma roupa desse pano deve ser impagável— disse consigo o rei;— por meio dela chegarei a conhecer quais são os homens incapazes do meu reino, e poderei distinguir os inteligentes dos estúpidos. Um traje assim é uma coisa indispensável. — Em seguida mandou adiantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo à obra.
Os aventureiros armaram efetivamente dois teares e puseram-se a fingir que trabalhavam, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavam a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que iam ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vazios até alta noite.

Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o artefato. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adiante alguém que examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que ele tinha; cada um estava ansioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inábil.

— Vou mandar o meu velho e honrado ministro,— disse consigo o rei. — Ninguém, como ele, para avaliar a obra, porque além de ser um homem fino, é irrepreensível no desempenho das suas funções.

O ministro entrou na sala onde trabalhavam os dois impostores, e arregalando muito os olhos, disse de si para si: — Meu Deus, não vejo nada! — Mas, nem palavra. Os dois tecelões pediram-lhe que se aproximasse, e perguntaram que tal achava o desenho, e se as cores eram ou não magníficas. Ao mesmo tempo apontavam-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os olhos pregados, mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada que ver.

— Pois na realidade, serei eu também um asno?— perguntava ele a si mesmo. — É preciso que ninguém o suspeite. Serei eu incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguém que não vi o tecido.

— Então, que dizeis?— perguntou um dos tecelões.

— Admirável, é uma coisa surpreendente! — respondeu o ministro, pondo os óculos. — Este desenho, estas cores... vou imediatamente participar ao rei que fiquei satisfeitíssimo.

— Isso é uma grande honra para nós,— disseram os dois tecelões, e começaram a chamar-lhe a atenção sobre as cores e desenhos imaginários, aos quais eles tinham o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu atentamente, para repetir diante do rei tudo quanto eles diziam.

Alguns dias depois o rei mandou outro funcionário honesto examinar o estofo e ver se estava pronto. Aconteceu a este o que tinha acontecido já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.

— Não é verdade que isto é um tecido admirável?— perguntavam os dois impostores, e iam mostrando as cores e desenhos que não existiam.

— Pois eu não sou tolo! — pensava o homem. — Dar-se-á o caso que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei por o não perder. — E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo a escolha das cores e do desenho. Foi dizer ao rei que o estofo era magnífico, e daí a pouco não havia ninguém que não falasse nele.

Por último quis o rei ir vê-lo pessoalmente, enquanto estava ainda no tear, e acompanhado de um grande séquito de pessoas escolhidas, entre as quais se encontravam os dois funcionários honestos, dirigiu-se ao lugar onde os dois trapaceiros continuavam a trabalhar com todo o cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem espécie de fiado algum.

— Então não é excelente?— perguntaram os dois ministros. — O desenho e as cores são dignas de vossa majestade. — E apontavam para os teares vazios, como se os outros pudessem ver aí alguma coisa.

— Que é isto?— disse consigo o rei— eu não vejo nada. Acaso serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que me podia acontecer. — Depois exclamou de repente: — Magnífico! Declaro-me completamente satisfeito.

Abanou a cabeça em sinal de aprovação, e contemplou o tear sem se atrever a dizer a verdade. Todos os do séquito contemplaram também, sem contudo nada verem, e disseram com o rei: — É magnífico! — Depois aconselharam-no que estreasse a roupa nova numa procissão que devia sair daí a pouco. — É magnífico! admirável! excelente! — diziam todos à uma; e a alegria era indescritível.

Os dois impostores foram condecorados, e receberam o título de tecelões da casa real. Na véspera da procissão trabalharão toda a noite à luz de dezesseis velas.

Afinal fingiram tirar a peça do tear; cortaram, no ar, com grandes tesouras; coseram com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto disseram que estava pronta a roupa.

Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma coisa, disseram: — Aqui tem vossa majestade a calça, a casaca e o manto. Tudo isto é leve como uma teia de aranha. Há de parecer a vossa majestade que não traz nada sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a principal qualidade do tecido.

— É verdade,— responderam os ajudantes de campo, mas sem verem nada.

Em seguida os tecelões pediram ao rei que se colocasse diante de um espelho, a fim de lhe provarem a roupa, e depois de o despirem todo, fingiram que lhe vestiam uma por uma as diferentes peças. O rei ia-se mirando e remirando ao espelho.

— Que bem lhe fica! que bem talhado! — exclamavam todos os cortesãos. — Que desenhos! E as cores? É uma roupa preciosa!

— Está lá fora o palio, debaixo do qual vossa majestade tem de ir na procissão,— disse o mestre de cerimônias.

— Bom, eu estou pronto — respondeu o rei;— penso que assim não vou mal. — E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o esplendor em que ia.

Os caudatários apalparam o chão, como se quisessem levantar a cauda do manto, e caminharam com os braços estendidos como se segurassem alguma coisa, não querendo dar a entender que não viam nada.

Assim caminhava o rei debaixo do magnífico palio, e toda a gente da rua e das janelas exclamava: — Que suntuoso vestido! que bela cauda tem o manto! o feitio é irrepreensível! — Ninguém queria dar a conhecer que não via nada, para não ser taxado de estúpido ou incapaz de exercer o seu emprego. Nunca roupa alguma do rei tinha dado tanto na vista.

— Mas o rei vai nu;— gritou uma criancinha.

— Meu Deus! escutai a voz da inocência— disse o pai.

Imediatamente correu por toda a multidão, que uma criança dissera que o rei ia nu; e afinal exclamaram todos à uma: — O rei vai nu!

Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou ânimo e disse consigo: — Seja o que for, é indispensável que eu fique até ao fim. — Depois tomou uns ares ainda mais majestosos, e os caudatários continuaram a segurar, com todo o respeito, a cauda que não existia.

A roupa nova do rei (Conto), de Hans Christian Andersen


A roupa nova do rei

Tradução: Bento Serrano.Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017).

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Era uma vez um rei que gostava tanto de roupas novas, que empregava em se vestir todo o dinheiro que tinha.
Se passava revista aos seus soldados, se aparecia nos espetáculos ou passeios públicos, não tinha outro fim em vista que não fosse mostrar como ia vestido. Era uma roupa para cada hora do dia; de maneira que assim como é costume dizer-se de qualquer rei: “Sua majestade está em conselho de ministros”, a respeito deste dizia-se: “Sua majestade está no seu guarda-roupa”.
A capital em que ele vivia, era uma cidade alegre, principalmente pelo grande número de estrangeiros que ali concorriam. Um dia chegaram aquela cidade dois impostores que se anunciaram como tecelões, dizendo que sabiam tecer um pano como nunca se vira. Era um estofo notável, não só pela beleza das cores e do desenho, mas sobretudo porque tinha a maravilhosa qualidade de se tornar invisível para quem não exercesse, como devia, o seu emprego, ou fosse demasiadamente estúpido.
— Uma roupa desse pano deve ser impagável— disse consigo o rei;— por meio dela chegarei a conhecer quais são os homens incapazes do meu reino, e poderei distinguir os inteligentes dos estúpidos. Um traje assim é uma coisa indispensável. — Em seguida mandou adiantar aos homens muito dinheiro para poderem desde logo dar começo à obra.
Os aventureiros armaram efetivamente dois teares e puseram-se a fingir que trabalhavam, embora nas lançadeiras não houvesse nem sombra de fiado. A cada passo estavam a pedir seda da mais fina e ouro do melhor quilate, que iam ensacando, sem todavia deixarem de trabalhar nos teares vazios até alta noite.
Passado algum tempo, lembrou-se o rei de sair para ver em que altura ia o artefato. Sentiu-se porém seriamente embaraçado, quando se recordou de que o estofo não podia ser visto por quem fosse tolo ou não exercesse condignamente o seu mister. Não era porque duvidasse de si; em todo o caso julgou prudente, pelo sim, pelo não, mandar adiante alguém que examinasse o estofo. Toda a cidade sabia da qualidade maravilhosa que ele tinha; cada um estava ansioso por saber se o seu vizinho era idiota ou inábil.
— Vou mandar o meu velho e honrado ministro,— disse consigo o rei. — Ninguém, como ele, para avaliar a obra, porque além de ser um homem fino, é irrepreensível no desempenho das suas funções.
O ministro entrou na sala onde trabalhavam os dois impostores, e arregalando muito os olhos, disse de si para si: — Meu Deus, não vejo nada! — Mas, nem palavra. Os dois tecelões pediram-lhe que se aproximasse, e perguntaram que tal achava o desenho, e se as cores eram ou não magníficas. Ao mesmo tempo apontavam-lhe para os teares, onde o velho ministro tinha os olhos pregados, mas onde não via nada, pela simples razão de não haver lá nada que ver.
— Pois na realidade, serei eu também um asno?— perguntava ele a si mesmo. — É preciso que ninguém o suspeite. Serei eu incapaz de exercer o meu cargo? Não! não darei a saber a ninguém que não vi o tecido.
— Então, que dizeis?— perguntou um dos tecelões.
— Admirável, é uma coisa surpreendente! — respondeu o ministro, pondo os óculos. — Este desenho, estas cores... vou imediatamente participar ao rei que fiquei satisfeitíssimo.
— Isso é uma grande honra para nós,— disseram os dois tecelões, e começaram a chamar-lhe a atenção sobre as cores e desenhos imaginários, aos quais eles tinham o cuidado de ir dando um nome. O ministro ouviu atentamente, para repetir diante do rei tudo quanto eles diziam.
Alguns dias depois o rei mandou outro funcionário honesto examinar o estofo e ver se estava pronto. Aconteceu a este o que tinha acontecido já ao ministro: por mais que olhasse, não via nada.
— Não é verdade que isto é um tecido admirável?— perguntavam os dois impostores, e iam mostrando as cores e desenhos que não existiam.
— Pois eu não sou tolo! — pensava o homem. — Dar-se-á o caso que eu não seja digno de exercer o meu emprego? Isso é singular; mas eu farei por o não perder. — E em seguida elogiou muito o tecido, e louvou sobretudo a escolha das cores e do desenho. Foi dizer ao rei que o estofo era magnífico, e daí a pouco não havia ninguém que não falasse nele.
Por último quis o rei ir vê-lo pessoalmente, enquanto estava ainda no tear, e acompanhado de um grande séquito de pessoas escolhidas, entre as quais se encontravam os dois funcionários honestos, dirigiu-se ao lugar onde os dois trapaceiros continuavam a trabalhar com todo o cuidado, mas sem fio de seda ou de ouro, nem espécie de fiado algum.
— Então não é excelente?— perguntaram os dois ministros. — O desenho e as cores são dignas de vossa majestade. — E apontavam para os teares vazios, como se os outros pudessem ver aí alguma coisa.
— Que é isto?— disse consigo o rei— eu não vejo nada. Acaso serei eu imbecil?! Não serei digno de ser rei? Esta é a maior infelicidade que me podia acontecer. — Depois exclamou de repente: — Magnífico! Declaro-me completamente satisfeito.
Abanou a cabeça em sinal de aprovação, e contemplou o tear sem se atrever a dizer a verdade. Todos os do séquito contemplaram também, sem contudo nada verem, e disseram com o rei: — É magnífico! — Depois aconselharam-no que estreasse a roupa nova numa procissão que devia sair daí a pouco. — É magnífico! admirável! excelente! — diziam todos à uma; e a alegria era indescritível.
Os dois impostores foram condecorados, e receberam o título de tecelões da casa real. Na véspera da procissão trabalharão toda a noite à luz de dezesseis velas.
Afinal fingiram tirar a peça do tear; cortaram, no ar, com grandes tesouras; coseram com agulhas desenfiadas, e depois de tudo isto disseram que estava pronta a roupa.
Veio o rei em pessoa, acompanhado dos seus ajudantes de campo, e os dois trapaceiros com os braços levantados como se segurassem alguma coisa, disseram: — Aqui tem vossa majestade a calça, a casaca e o manto. Tudo isto é leve como uma teia de aranha. Há de parecer a vossa majestade que não traz nada sobre o corpo, mas é justamente nisto que está a principal qualidade do tecido.
— É verdade,— responderam os ajudantes de campo, mas sem verem nada.
Em seguida os tecelões pediram ao rei que se colocasse diante de um espelho, a fim de lhe provarem a roupa, e depois de o despirem todo, fingiram que lhe vestiam uma por uma as diferentes peças. O rei ia-se mirando e remirando ao espelho.
— Que bem lhe fica! que bem talhado! — exclamavam todos os cortesãos. — Que desenhos! E as cores? É uma roupa preciosa!
— Está lá fora o palio, debaixo do qual vossa majestade tem de ir na procissão,— disse o mestre de cerimônias.
— Bom, eu estou pronto — respondeu o rei;— penso que assim não vou mal. — E viu-se ainda uma vez ao espelho, para contemplar o esplendor em que ia.
Os caudatários apalparam o chão, como se quisessem levantar a cauda do manto, e caminharam com os braços estendidos como se segurassem alguma coisa, não querendo dar a entender que não viam nada.
Assim caminhava o rei debaixo do magnífico palio, e toda a gente da rua e das janelas exclamava: — Que suntuoso vestido! que bela cauda tem o manto! o feitio é irrepreensível! — Ninguém queria dar a conhecer que não via nada, para não ser taxado de estúpido ou incapaz de exercer o seu emprego. Nunca roupa alguma do rei tinha dado tanto na vista.
— Mas o rei vai nu;— gritou uma criancinha.
— Meu Deus! escutai a voz da inocência— disse o pai.
Imediatamente correu por toda a multidão, que uma criança dissera que o rei ia nu; e afinal exclamaram todos à uma: — O rei vai nu!
Este sentiu-se extremamente mortificado, porque lhe parecia que tinha razão; mas cobrou ânimo e disse consigo: — Seja o que for, é indispensável que eu fique até ao fim. — Depois tomou uns ares ainda mais majestosos, e os caudatários continuaram a segurar, com todo o respeito, a cauda que não existia.