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3/15/2025

A Menina dos Fósforos (Hans Christian Andersen), por Monteiro Lobato


O PEQUENO TUQUE

Era uma vez um menino chamado Tuque, apelido pelo qual todos o conheciam: ninguém o tratava pelo verdadeiro nome. Apesar de ter sua lição a estudar, era o pequeno Tuque obrigado a pajear a irmãzinha, duas tarefas muito pesadas para um menininho só. Horas a fio passava com a irmãzinha ao colo, embalando-a com todas as canções que sabia de cor. De quando em quando lançava uma olhadela para a geografia aberta à sua frente. E era com pesar que se lembrava que teria de repetir de cor na aula do dia seguinte os nomes das principais cidades da Dinamarca e tudo mais que sobre elas soubesse.

Sua mãe, que estivera fora de casa, ao chegar tomou a filhinha nos braços e Tuque correu à janela, ansioso por estudar a sua lição. Repetidas vezes leu e releu o capítulo referente à Zelândia, que é uma ilha da Dinamarca, até que seus olhos principiaram a doer, pois fazia-se noite e não havia uma só vela na casa.

— Lá vai a lavadeira subindo a rua, disse a mãe de Tuque chegando à janela. Mal pode consigo, a pobre. Seja um bom menino, Tuque, e vá ajudá-la a carregar o pote d’água.

Obedecendo à mamãe, o pequenino Tuque correu a auxiliar a lavadeira. De volta veio encontrar o quarto imerso em densa penumbra, e como nem vela tivesse resolveu deitar-se. Longo tempo ficou a pensar na lição de geografia e em tudo mais que lhe ensinara o mestre naquele dia. Devia ter estudado mais; infelizmente, porém, não lhe fora possível. Por fim colocou o livro debaixo do travesseiro — já ouvira dizer na escola que isto auxiliava o estudante a não esquecer a lição, embora não tivesse grande confiança na eficácia do método...

Continuou pensando numa porção de coisas e afinal, ao ser vencido pelo sono, sentiu que alguém o beijava na boca. Pareceu-lhe ouvir a velha lavadeira murmurar com voz carinhosa:

—Seria um pecado se você não soubesse a lição amanhã. E como foi bom para comigo, ajudando-me a carregar o pote d’água, vou ajudá-lo a estudar sua lição.

Nem bem a boa mulher acabara de falar, a geografia, que se achava debaixo do travesseiro, pôs-se a mover-se como um ser animado.

— "Có! Có! Có!" cacarejou uma galinha saindo do livro. Sou de Kioge, disse ela — e contou ao menino tudo quanto sabia sobre a cidade de Kioge, desde o número de habitantes, edifícios principais, história, até a batalha travada entre ingleses e dinamarqueses, combate, aliás, que não foi de grande importância.

Mal a galinha parou de falar, surgiu do livro um pássaro de madeira, uma espécie de periquito usado como alvo na cidade de Prastoe. Segundo contou ele, o número de habitantes da vila não ultrapassava o das tachinhas espetadas no seu corpo — e isto o tornava extremamente orgulhoso.

— Thorwaldsen foi meu vizinho, e aqui estou são e salvo!

Eis que de um momento para outro o pequeno Tuque se vê à garupa de um belo corcel, cavalgado por um guerreiro de capacete de ferro enfeitado de plumas. Velozmente galopou através de florestas e campos até à cidade de Vordingborg, cujo edifício mais importante era o castelo real, com as suas torres e janelas iluminadas. Do interior desse castelo vinham sons de música — era o Rei Valdemar que bailava com as damas da corte.

Pela manhã, com o nascer do sol, o castelo desmanchou-se como por encanto. Umas após outra as majestosas torres desabaram e toda a cidade fez-se em ruínas. Onde se erguera o castelo só havia agora uma torre. Tão insignificante se tornara a cidade, que os meninos que passavam sobraçando livros, a caminho da escola, gritavam com desprezo: "Só dois mil habitantes!" E mesmo isso era exagero.

Novamente o pequeno Tuque se viu em sua cama. Parecia-lhe estar sonhando e ao mesmo tempo tinha a impressão de estar desperto. Nisto alguém se aproximou.

— Tuque, Tuque, chamou um pequenino marinheiro. Trago-lhe as saudações do Corsor. É uma cidadezinha muito nova ainda, mas cheia de vida, com muitos carros e navios. Foi antigamente um porto muito feio, sem o menor atrativo, pois era lá que os navios ficavam à espera de bom vento para prosseguirem viagem. Agora, porém, com a invenção dos barcos a vapor, tudo mudou.

— Fico situada na costa do país, disse Corsor entrando na conversa. Tenho boas estradas e belos parques onde brincam as crianças. Sou o berço natal de um grande poeta que foi o encanto de milhares de pessoas. Já uma vez projetei construir um navio para dar volta ao mundo; mas a idéia não foi avante. Sou muito perfumada, porque as mais cheirosas flores crescem nos meus jardins.

Estendendo o olhar para a frente, o pequeno Tuque percebeu uma nuvem pintalgada; aos poucos a sua visão foi-se aclarando e o menino distinguiu o lombo de um outeiro recoberto de rosas, em cujo topo se erguia velha igreja com duas torres góticas. Ribeiros barulhentos desciam pela colina abaixo e junto a um desses ribeiros estava sentado um rei velho, tendo na cabeça toda branca uma coroa de ouro. Era o Rei Hraor; perto dele apareceu a cidade de Roeskilde, na qual todos os soberanos da Dinamarca, com as suas coroas na cabeça e de mãos dadas, se mostravam a caminho da velha igreja. O órgão chorava um hino sacro e os regatos corriam marulhantes. Era lá que tinham sido enterrados quase todos os reis do país.

O pequeno Tuque nada perdia do que se passava. Em certo momento o Rei Hraor lhe disse que não esquecesse as províncias.

Repentinamente tudo desapareceu como por encanto — como se tivesse sido virada a página de um livro. E então surgiu diante de Tuque uma velha camponesa de Soroe, pacato burgo onde o mato cresce nas praças, Cobria-lhe a cabeça e os ombros um avental de linho amarelado, todo molhado.

Essa camponesa narrou-lhe muitas coisas interessantes sobre as comédias de Holberg, também fundador de uma academia militar em Soroe, e sobre Valdemar e Absalão.

Súbito, a velha começou a tremer e a esticar a cabeça.

Creque! creque! coaxou ela. Está úmido! Está úmido! E num abrir e fechar de olhos transformou-se em rã, para no mesmo instante coaxar de novo e retomar a forma de mulher. E disse: A gente deve trajar-se de acordo com o tempo. Está muito úmido. Minha terra já exportou os melhores peixes e hoje possui meninos de faces rosadas, que estudam filosofia, o grego e o hebraico. Creque! Creque!

Tudo isto soava aos ouvidos de Tuque como um coaxar de rãs, ou como se alguém estivesse a patinhar num charco; tão monótona era a voz da mulher que em breve o menino adormeceu.

Sonhou que sua irmãzinha se tornara uma jovem esbelta de olhos azuis e castelos dourados, e que podia voar, embora não tivesse asas. E ambos, então, voaram sobre a Zelândia passando por cima de floresta e de mares azuis.

— Está ouvindo o galo cantar, Tuque? Có-có-ri-có! As galinhas vêm voando de Kioge. Você terá uma grande propriedade e jamais saberá o que seja a miséria. Terá gansos de ouro e será rico e feliz. Sua residência será tão grandiosa como o palácio do Rei Valdemar, e terá colunas de mármore vindas de Prastoe. Seu nome dará volta ao mundo, como o navio que foi projetado em Corsor...

— Não se esqueça das províncias, disse o Rei Hraor. Você será sempre uma criatura sensata e quando morrer dormirá em paz...

Tuque afinal acordou. Ia amanhecendo e por mais esforço que fizesse não pôde reconstruir o que havia sonhado. Mas não importava — não há necessidade de a gente saber aquilo que ainda irá ver.

Saltando da cama, releu a lição e imediatamente soube-a de cor. Nisto a lavadeira entreabriu a porta e disse com voz amiga:

— Muito obrigada pelo ajutório de ontem, meu bom menino. Que Deus o abençoe e faça que se realizem todos os seus sonhos dourados.

Aqui termina a história do nosso herói. Jamais soube ele o que havia sonhado; mas não importa — Deus o soube.


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2025) 

A Menina dos Fósforos (Hans Christian Andersen), por Monteiro Lobato


A MENINA DOS FÓSFOROS

Isto foi num desses países onde a neve cai durante o tempo de inverno — e fazia um horrível frio naquela noite, que era a última noite do ano.

Dentro do frio e dentro do escuro da noite a menininha lá seguia, de pés descalços pela cidade deserta. Descalça? Sim. É verdade que saíra de casa com um par de chinelas muito grandes para seus pés, pois tinham sido de sua mãe. Ao atravessar a rua, porém, teve de correr para desviar-se duma carruagem na disparada, e perdeu as chinelas; quando voltou para procurá-las, viu que um moleque havia apanhado um pé, saindo a correr com ele na mão. "Vou fazer um berço desta chinela!" dizia ele. O outro pé não foi possível encontrar — com certeza sumiu enterrado na neve pelas patas dos cavalos.

Por isso lá ia a menina de pés nus e já azuis do frio. Era uma vendedeira de fósforos, do tempo em que os fósforos se vendiam soltos e não em caixa; no avental trazia uma porção deles e na mão um punhadinho. Mas ninguém lhe comprara ainda um só, e lá se ia ela, tiritando de frio, sem um vintém no bolso. Verdadeiro retrato da miséria, a coitadinha!

Flocos de neve recobriam seus cabelos cor de ouro, todo cacheados, sem que a menina desse por isso.

Em muitas casas a luz do interior saía pelas janelas misturada com um saboroso cheiro de ganso assado — porque era o dia de São Silvestre, dia em que todos que podem comem um ganso assado.

Em certo ponto a menina sentou-se encolhidinha rente a uma parede e cruzou os pés debaixo da saia. Nada adiantou. Sentiu-os mais enregelados ainda. Como não tivesse vendido nenhum fósforo não se animava a voltar para casa. Sem dinheiro no bolso estava proibida de aparecer lá.

Seu pai com certeza que a surraria — além disso o frio era lá tanto como ali. Uma casa velha, de teto esburacado e paredes rachadas por onde o vento entrava zunindo.

Suas mãozinhas começaram a perder os movimentos.

Teve uma ideia: acender um daqueles fósforos para aquecer os dedos entanguidos. Assim fez. Riscou um fósforo na parede — chit! Que luz bonita e que agradável quentura! O fósforo queimava qual velinha, com a chama defendida do vento pela sua mão em concha. Que bom! A menina sentia como se estivesse sentada diante dum grande fogão, com ferros para mexer as brasas e uma caixa de lenha ao lado. Tão agradável aquele calorzinho do fósforo, que ela espichou o pé para que também aproveitasse um pouco — mas nisto a chama foi morrendo e afinal apagou-se. Só ficou em sua mão um toquinho carbonizado.

A menina riscou outro fósforo, e à luz dele a parede da casa a que estava encostada tornou-se transparente como um véu, deixando ver tudo quanto se passava lá dentro. Estava posta uma grande mesa, com toalha alvíssima e prataria de porcelana; no centro, um ganso recheado com maçãs e ameixas, que rescendia um perfume delicioso. De repente o ganso ergueu-se da travessa e, ainda com a faca e o garfo de trinchar espetados no papo, veio na direção dela.

Nisto o fósforo apagou-se e tudo desapareceu. A menina riscou outro fósforo, e imediatamente se achou sentada debaixo da mais bela árvore de Natal que seus olhos ainda tinham visto nas casas de brinquedos. Mil velinhas ardiam na ponta dos galhos, e os enfeites dependurados pareciam olhar para ela. Mas esse fósforo também foi-se apagando, e à medida que se ia apagando a árvore de Natal ia crescendo, crescendo, e as velinhas subindo até ficarem como estrelas no céu. Uma delas caiu, traçando um longo risco de luz.

Alguém está morrendo, pensou a menina com a idéia em sua avó. A boa velhinha fora a única pessoa na vida que lhe dera amor, e costumava dizer que quando uma estrela cai é sinal de que alguém está morrendo e com a alma a ir para o céu.

A menina acendeu outro fósforo — e desta vez o que apareceu foi a sua própria vovó, brilhante como um espírito e com o mesmo olhar meigo de sempre.

— Vovó! exclamou ela. Leve-me consigo! Eu sei que a senhora vai sumir-se quando este fósforo chegar ao fim, como aconteceu com o ganso recheado e a linda árvore de Natal...

E para que isso não acontecesse a menina tratou de acender um fósforo atrás do outro, sem esperar que a chama morresse. Era o meio de conservar a vovó perto de si.

E os fósforos foram ardendo com luz brilhante como a do dia, e sua vovó nunca lhe apareceu tão bela, nem tão grande. Foi-se chegando, tomou a netinha nos braços e com ela voou, radiante, para as alturas onde não há neve, nem frio mortal, nem fome, nem cuidados — para o céu.

No outro dia encontraram o corpo da menina entanguido na calçada, com as faces roxas e um sorriso feliz nos lábios. Havia morrido de fome e frio na última noite daquele dezembro.

O sol do novo ano veio brincar sobre o pequenino cadáver. Em sua mãozinha rígida estavam ainda os fósforos que não tivera tempo de acender. Os passantes olhavam e diziam: "A coitada procurou aquecer-se com os fósforos", mas ninguém suspeitou as lindas coisas que ela viu, nem o deslumbramento com que começou o ano novo em companhia de sua vovó.


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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2025) 

2/15/2019

Ana de Lisbeth (Conto), de Hans Christian Andersen


Ana de Lisbeth
Ana de Lisbeth era uma moça linda; seu rosto irradiava juvenil alegria. Os dentes pareciam pérolas finas, os olhos brilhavam como diamantes, diamantes risonhos. Na dança, os pés muito breves saltavam com maravilhosa ligeireza. Infelizmente, seus pensamentos eram ainda mais ligeiros. Apesar de inteligente, deixou-se seduzir por um aventureiro, que em breve a abandonou. Nunca mais houve notícias de tal homem.
Ana teve um filho, criança forte e sadia, mas terrivelmente feia; a mãe sentia vergonha do fruto da sua leviandade e encarregou da criação a mulher do coveiro, sua vizinha. Depois, entrou como ama de leite em casa de uma condessa.
No opulento palácio, deram-lhe um quarto elegante; deram-lhe também vestidos de veludo e de seda. Então, fez-se exigente e embirrenta. Não aceitava observações; a mínima contradição atacava-lhe os nervos.
O pequeno conde era delicado como um príncipe, belo como um anjo; ela consagrava-lhe todos os seus cuidados e caricias. E o seu filho continuava na casa do coveiro; lá, poucas vezes assobiavam as chaleiras; em compensação, não faltavam más palavras. O pobre menino estava quase sempre só, ninguém se importava com seus gemidos; chorava até dormir; quando se dorme, não se sente fome ou sede.
Vaso ruim não quebra, diz o provérbio; o filho de Ana de Lisbeth não o desmentiu. Cresceu, cresceu sem conhecer a mãe; o coveiro recebera dinheiro para guardar segredo.
Terminada a criação do filho da condessa, despediram a ama, que foi morar na cidade, onde se fez passar por burguesa honesta, vivendo de rendas, bem vestida, melhor tratada, donairosa. Abandonara o filho à desgraça, como o pai a havia abandonado.
O coveiro tirava do rapaz todo o partido possível. O filho de Ana de Lisbeth passava uma vida dura, sem vislumbre de esperança; sempre maltratado, suportando frios e chuvas sem queixume, e como era feio, muito feio, toda a aldeia motejava dele; ninguém o amava.
Mais tarde, entrou como grumete numa chalupa miserável, e aí encontrou novos sofrimentos. O capitão embriagava-se frequentemente, e em tais ocasiões o rapaz sofria uma chuva de pancadas. O pequeno Lisbeth parecia ter nascido sob má estrela.
Um dia estourou um vendaval. O capitão mal podia aguentar o leme, e, de repente, uma tromba d’água envolveu o pobre barquinho e o fez voltear, já sem governo.
— Jesus! Meu Deus! — gritou o rapaz; e chalupa, capitão e grumete, tudo mergulhou na voragem.
Ninguém presenciou o terrível acontecimento; só as gaivotas e os peixes poderiam contar alguma coisa.
Nenhum fragmento ficou boiando à tona para indicar onde o filho de Ana de Lisbeth havia perecido; ademais, a ninguém fazia falta, ninguém sentia saudades dele.
Ana vivia na cidade; muita gente a tratava por "minha senhora". Gostava de contar a história da sua mocidade, de quando habitava no palácio da condessa e andava de carro e conversava com baronesas e damas muito distintas. E não faltavam elogios ao filho da condessa; era o seu ai, Jesus! — lindo, lindíssimo, um verdadeiro anjo!
— Vou visitar o meu menino e o grande palácio campestre onde passei tantos dias de esplendor — disse ela certo dia. Ele há de lembrar-se de mim, daquele tempo em que me queria tão ternamente e me rodeava o pescoço com os bracinhos brancos de neve. Sim, hei de voltar a vê-lo.
Partiu, e depois de uma longa jornada, ora em diligência, ora a pé, chegou à nobre residência da condessa. Os criados eram-lhe estranhos, nenhum ouvira falar de Ana de Lisbeth.
Depois de ter esperado por muito tempo na antecâmara, um criado lhe abriu a porta do salão e ela entrou pouco antes da condessa e de seu filho.
A dama recebeu-a muito bem e dirigiu-lhe palavras muito amáveis; o condezinho estava alto e delgado, formosos ainda os olhos, a boca, pequena e delicada. Olhou friamente para Ana de Lisbeth. Sem proferir uma palavra, deixou-se abraçar por ela com indiferença, desviando-se logo um pouco, e saindo em seguida. Esse foi o acolhimento que ela teve da sua maior afeição, da criança amada de que se sentia tão vaidosa.
Retomou o caminho da cidade, sem poder conter as lágrimas. E, de súbito, um grande corvo negro como azeviche, crocitando em ásperos gritos, veio pousar num ramo à beira da estrada.
 — Ah! que mau agouro! — murmurou ela  — parece mesmo que está gritando para mim; que desgraça teremos?
E pela mente correram-lhe negros pensamentos, e sentiu calafrios por todo o corpo.
Pouco depois, passava ela pela casa do coveiro; a mulher que estava sentada à porta, disse-lhe:
— Como estás sadia e bem conservada, Ana de Lisbeth! Tens passado boa vida, sem cuidados e sem misérias.
— Nem sempre, nem sempre...
— Nunca mais houve notícias da chalupa, nem do grumete — continuou a mulher do coveiro. Afogaram-se, é o mais certo; e tenho pena, porque o rapaz, continuando naquela vida, podia de vez em quando mandar-me algum dinheiro.
— Ah! Julgas que morreram afogados? — disse Ana de Lisbeth. E passaram logo para outro assunto.
Ana estava ressentida pelo frio acolhimento do condezinho; nada disse, porém, à mulher do coveiro; queria que toda a gente julgasse ainda que estava em íntimas relações com o aristocrático palácio.
E de súbito apareceu outra vez o corvo com o seu crocitar lúgubre.
— Essa ave negra me quer mal, anda hoje a me perseguir — disse Ana, inquieta e nervosa.
A mulher do coveiro preparava o café e Ana, deitando-se no sofá, em breve adormeceu.
Viu, então, no sono agitado, pela primeira vez, aquele com quem nunca sonhara: o filho das suas entranhas, que naquela mesma casa havia sofrido fome e pancadas, e que repousava agora no fundo do mar, sabe Deus onde.
Parecia-lhe que um rapaz, alto e robusto, quase tão formoso como o condezinho, abria a porta e dizia:
— Aí vem o fim do mundo, agarra-te bem a mim, tu és minha mãe! No paraíso há um anjo que só quer te salvar. Segura-te bem, para que ele te leve para o céu.
E sentiu-se abraçada pelo mancebo; mas logo ouviu-se um grande ruído, como se o mundo baqueasse, e o anjo elevou-se para o céu, sustentando-a pelas roupagens. Então, começou uma luta tenaz, pois ao mesmo tempo que o anjo tentava levá-la para cima, uma multidão de mulheres a segurava pelo vestido, loucas, desesperadas, clamando em tumulto:
— Nós queremos salvar-nos, também! Seguremo-la bem! Não a larguemos de modo nenhum!
Por fim, rasgaram-se-lhe as roupas e Ana de Lisbeth viu-se abandonada do anjo, despenhada em fundo abismo... e nisso acordou de repente, porque ia caindo do canapé abaixo. De tal modo a perturbaram aquelas ideias que, a dizer a verdade, não poderia contar o extravagante sonho; todavia, estava cheia de desconsolo, de vagos, inexplicáveis sobressaltos.
Tomou uma chávena de café com a mulher do coveiro e partiu logo, para não perder a diligência; chegou, porém, atrasada, e só no dia seguinte partiria outra carruagem. Não quis, contudo, passar a noite em casa do coveiro, e, como havia esplêndido luar, resolveu ir a pé pela estrada, à beira-mar.
Na campina, nenhum ruído; nem o coaxar das rãs, nem os assobios das corujas, nem mesmo o brando marulhar das pequenas vagas. Naquele silêncio, havia um certo quê de solene, de lúgubre.
Ana caminhava; seguia resoluta pela estrada; a princípio, sem pensar em coisa alguma; os pensamentos, porém, nunca abandonam completamente a mente humana. Às vezes parecem adormecer, mais nada. Há muitas pessoas sempre tranquilas porque sabem que nada têm a temer das leis, da justiça de seu país; não pensam nas contas severas que têm de prestar ao Supremo Juízo das suas ações boas ou más, até das mais ocultas. Ana de Lisbeth era assim: passava por pessoa honesta e boa, e isso era-lhe o suficiente.
De súbito, parou para ver um objeto que se destacava na praia; era um chapéu velho, provavelmente arremessado pelo mar.
Depois de ter examinado o chapéu por um instante, recomeçou a caminhar e estacou de novo ante um objeto mais singular: julgou ver o corpo de um homem estendido sobre uma pedra comprida. Um calafrio de terror lhe percorreu o corpo. Tentou fugir; as pernas tremiam-lhe. E nada havia que temer; era apenas a sombra de uns altos caniços projetada pelo luar.
Pouco a pouco, porém, o pavor se apoderou dela e, agora, os seus pensamentos excitados concorriam para essa impressão.
Em criança, ouvira falar em fantasmas do mar, das almas penadas cujos corpos, não tendo sido enterrados, apareciam aos viajantes, agarrando-os para que os levassem ao cemitério e os cobrissem de terra sagrada.
— Segura! Agarra! — gritavam sempre os lúgubres fantasmas.
Essa lembrança recordou-lhe o pesadelo, o grito das mulheres que a tinham segurado, o jovem querendo levantá-la ao momento supremo. Seu filho, a criança que ela nunca amara, que havia esquecido, e que havia perecido tão miseravelmente no naufrágio, não poderia voltar como espectro a bradar também: Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada?
Esses terríveis pensamentos caíram como marteladas no coração de Ana de Lisbeth; a custo, respirava; inquieta, olhava o mar; uma névoa espessa surgia das águas e vinha rodear as árvores e os arbustos, dando-lhes aspectos inesperados.
Olhou para a lua, e o astro melancólico pareceu-lhe agora frio e esquálido como um rosto cadavérico; e no silêncio soturno do mar e na campina surgia, sim, surgia agora, uma voz indefinida, nem grito nem gemido, mas pronunciando rápida e constantemente:
— Segura! Agarra! Leva-me para a terra sagrada!
Seria a alma errante de seu filho? Da criança nunca amada que se perdera no mar?
Ana de Lisbeth apertou o passo. Ia nervosa, febril. Resolveu tomar a direção da igreja; ali, talvez, encontraria a paz; tentou seguir o caminho mais curto, mas sentiu, então, um peso sobre os ombros e a tal voz, agora mesmo próxima do ouvido, a murmurar, como num sopro a repetir sem cessar:
 — Enterra-me, enterra-me!
Ana tropeçou, ajoelhou-se e por um bocado caminhou de rastos. Se o túmulo fosse o esquecimento de tudo, ela mesma teria aberto o seu túmulo. Levantando-se, viu, então, quatro cavalos relinchando e vomitando fogo pelos olhos e ventas; puxavam um carro fúnebre, e no carro ia sentado um malvado senhor que, havia um século, muitos crimes cometera naquele local.
Todas as noites, à hora dos fantasmas, rezava a tradição, ele entrava no velho castelo, e o seu rosto, em vez da palidez da morte, era escuro como carvão.
Passando, acenou a Lisbeth, dizendo-lhe:
— Cautela! Em breve esquecerás do filho e poderás andar como eu nesta carruagem brasonada.
Impelida pela coragem do desespero, Ana desatou a correr e entrou no cemitério. Estava coberto de cruzes e de corvos negros como azeviche, que, ao luar, agora fraco, apenas se podiam distinguir.
— A mãe dos corvos! Olhem a madrasta! — crocitaram as aves fúnebres, avistando Ana de Lisbeth.
Um pavor imenso se apoderou da mulher; temia ser transformada numa daquelas aves, se a sepultura não fosse aberta logo. Deitou-se sobre o solo e começou a abrir a cova; a terra estava dura; em breve, ficou com as mãos ensanguentadas. O queixume do fantasma continuava a soar nos seus ouvidos. Receava ouvir o cantar do galo ou de ver o primeiro raio do sol, pois, em tal caso, estaria perdida.
Ora, ao cantar do galo, ao romper da aurora, só havia metade da cova; sentiu uma gélida mão pousar-lhe sobre a fronte, e outra no coração.
— Metade de uma sepultura não basta! — gemeu o fantasma, que logo sumiu no fundo do mar.
Ana de Lisbeth caiu sem sentidos, como morta.
Naquela manhã, dois camponeses encontraram-na assim; não no cemitério, mas na praia junto do mar; ela abrira um buraco na areia e estava com os dedos feridos pelos seixos.
Ana padeceu prolongada enfermidade; as angústias da consciência despertada pelo temor de Deus transformaram-lhe a cabeça; acreditava ter só metade da alma; o filho havia-lhe arrebatado a outra metade, levando-a para o fundo do mar; sem ela, não poderia jamais entrar no Reino da Graça.
A custo  a reconheceriam agora; só falava do espectro do mar que devia enterrar em terreno sagrado, para ganhar a sua alma; muitas vezes passava a noite à beira-mar, à espera do fantasma; um dia, desapareceu.
Na tarde desse dia, quando o sineiro entrou na igreja, à hora do Angelus, viu Ana de Lisbeth de joelhos ante o altar. Estava fraca, muito curvada; mas os olhos luminosos, o rosto risonho e os últimos raios do sol, caindo sobre a Bíblia aberta, fizeram sobressair estas palavras do profeta Joel:
"Rasgai os vossos corações e não as vossas túnicas; lembrai-vos sempre do senhor".
Foi acaso, dirá alguém; mas há muitos acasos como esse.
Contou ela, depois, que durante a noite lhe aparecera a alma do filho.
"É verdade — ouvira ela — que tu só me cavaste metade da sepultura; mas, faz agora um ano que me sepultaste inteiro no teu coração, e é aí que as mães guardam bem os filhos".
E, entregando-lhe a outra metade da sua alma, conduzira-a à igreja.
— Agora — acrescentou ela — agora estou na Casa do Senhor, onde se é sempre feliz.
Quando o sol mergulhou não horizonte, a alma de Ana de Lisbeth subiu à morada onde nada temem os que muito se arrependeram e muito padeceram.

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Tradução anônima:
Revista Carioca, 18 de setembro de 1947.

10/25/2017

A menina dos fósforos (Conto), de Hans Christian Andersen


A menina dos fósforos

Tradução: José Joaquim Rodrigues de Freitas.
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Estava horrivelmente frio, geava, e era quase noite escura, a última do ano.

Estava assim escuro e frio, quando caminhava pela rua uma menina com os pés nus e a cabeça descoberta. Tinha calçado chinelas ao sair de casa, mas de que lhe serviram? Eram muito grandes, e tanto, que a mãe as tinha usado até então; demais, a pequena perdeu-as ao atravessar à pressa uma rua, fugindo de dois carros que rodavam com velocidade de pôr medo. Uma das chinelas não a pôde tornar a achar; e a outra apanhou-a um rapaz, e lá foi a correr com ela; até se lembrou que lhe serviria de brinquedo, caso viesse a ter filhos.

Assim caminhou a menina com os pesinhos nus e roxos de frio. Trazia num avental velho uma porção de fósforos, e na mão um maço deles. Ninguém lhe comprara nada todo o dia, ninguém lhe fizera presente de cinco réis.

Imagem da miséria, a pobre pequena ia-se arrastando a tremer de frio e fome!

Os flocos de neve cobriam-lhe o cabelo comprido e louro, que em formosos anéis lhe caía pelo colo abaixo; mas, em verdade, nisto pensava ela!

De todas as janelas brilhavam luzes; e vinha de lá um delicioso cheiro a ganso assado; era a noite de São Silvestre; e nisto pensava ela!

A um canto formado por duas casas, uma das quais era mais saliente do que a outra, sentou-se ela, e, como pôde, conchegou-se; meteu bem para dentro os pesinhos, mas ainda mais lhe arrefeceram; e não ousava ir para casa por não ter vendido fósforos, nem arranjado dinheiro.

Bem sabia que o pai lhe havia de bater, e em casa também estava frio; cobria-a só o telhado, pelo qual o vento assobiava, ainda quando se tapavam os buracos maiores com palha e farrapos.

O frio quase lhe não deixava mover as mãos.

Ah! um fósforo podia fazer-lhe bem; se tirasse um do molho, se o acendesse na parede, e se aquecesse a ele os dedos!

Tirou um. Zahs! Como cintilava, como ardia! Era uma chama quente e brilhante, era uma luzinha; pôs sobre ela as mãos, era uma luzinha maravilhosa. A menina pareceu que estava diante de um grande fogão de ferro todo guarnecido de latão polido. Abençoado fogo, que tão bem aquecia! Mas a chamazinha apaga-se, o fogão desaparece, ficaram-lhe na mão só os restos do fósforo que ardera.

Acendeu outro na parede, este alumiava e tornava transparentes como um véu os lugares da parede em que os seus raios incidiam: podia assim ver para dentro da sala.

A mesa tinha uma toalha branca de neve, sobre a qual luzia louça de porcelana; o ganso assado, cheio de maçãs e ameixas secas, exalava deliciosos vapores. E o que ainda era mais belo: o ganso saltava do prato abaixo, cambaleava pelo chão adiante, e vinha até à pobre criança, trazendo no peito a faca e o garfo.

Lá se apagou o fósforo, e só ficou a parede, espessa, fria e úmida.

Ela acendeu ainda um fósforo. E eis que lhe pareceu estar sob a majestosa árvore do Natal, ainda maior e mais adornada, que a outra que vira ao través da janela da casa de um rico negociante. Milhares de luzes ardiam nos ramos verdes; e imagens variegadas, como numa vitrina, olhavam para a rapariga. A pequena estendeu para elas as mãos; e eis que se apagou o fósforo.

As luzes do Natal subiram mais e mais; pareciam-lhe estrelas no céu; uma delas caiu formando longo rasto luminoso.

Alguém que morre, disse consigo a menina; porque a avó, única que lhe tivera amor, e que já era falecida, lhe contara que uma alma sobe para Deus, quando uma estrela cai para a terra.

Acendeu mais outro fósforo; a luz fez-se de novo, e no meio do brilho dela erguia-se a velha avó, tão resplendente e pura, tão cheia de doçura e de amor!

Minha avó, exclamou a pequena. Oh! leva-me contigo. Eu sei que tu desaparecerás quando o fósforo se apagar. Hás de passar como o fogão quente, como o delicioso ganso assado, e como a grande e majestosa árvore do Natal!

E rapidamente acendeu todo o molho de fósforos, a fim de ter ali a avó bem segura.

E os fósforos fulguraram com tal brilho, que havia luz mais viva do que em pleno dia; a avó nunca fora tão alta nem tão formosa: tomou nos braços a menina, e ambas voaram pelas regiões da luz e da alegria até muito alto, muito alto; não havia lá nem frio, nem fome, nem angústia: eram perto de Deus.

Mas encostada ao canto da parede, quando veio o frio amanhecer, estava a pobre rapariga com as faces vermelhas e um sorriso nos lábios; matou-a o gelo na última noite do ano velho.

E o sol do ano novo passou sobre o seu cadaverzinho.

Imóvel estava a menina: ali estava ela com os fósforos, dos quais havia queimado um maço.

Ninguém suspeitava quanto ela vira de belo, e em que brilhante região entrara com a avó no dia de ano novo.