quarta-feira, 27 de julho de 2022

Marta Sandomil (Conto), de Cláudia de Campos



MARTA SANDOMIL

 

Acabava de assentar-me à secretária, disposto a continuar um romance que o meu feroz editor me obrigava a concluir, em prazo muito breve.

Sentia-me acabrunhado com esta absurda necessidade de escrever por dinheiro, deixando adivinhar pela palavra, pela forma, pelo estilo, ao primeiro imbecil, a minha doce ou amarga maneira de desejar a felicidade, de gozar a vida, de suportar a dor.

Principiei a desenhar arabescos no papel, esperando a frase sintética, que correspondesse rigorosamente ao meu pensamento, e que me não era possível encontrar nessa ocasião. Mais uma vez media a imensa distância que separa a concepção, consoante ela existe no espírito, até à sua redução a forma e vulto em palavras, quando a porta do meu escritório se abriu, dando ingresso ao visconde de Lucena, elegante e correto no seu fato à inglesa, cortado no Keil, as mãos apertadas em luvas brancas, bordadas a torçal preto, um molho de violetas na lapela do veston.

A presença deste rapaz, orgulhoso da sua nobreza de parvenu, cômico nas suas pretensões a copurchic, sempre teve o poder de distrair-me.

Quanto ao físico, Raul é um belo homem, de estatura elevada, temperamento sanguíneo, músculos de atleta, cabelos negros e ondeados, bigode farto.

Desde que travamos relações, há bastantes anos, no colégio, onde ambos fizemos os primeiros estudos, interessou-me particularmente, prevendo logo as disposições naturais, que faziam dele, mais tarde, um snob de primeira ordem.

Quando o pai, já enriquecido, traspassou a importante fábrica de sabão, e comprou, em duas vidas, o título de visconde, uma ingênua expressão de vaidade transpareceu no rosto do filho, que principiou a dar de mão aos burgueses, como desdenhosamente chamava aos seus antigos companheiros, e a arranjar apresentações na primeira sociedade, imitando os hábitos, os gestos, os gostos da aristocracia autêntica.

E o seu luxo, elegância, maneiras fiel e pacientemente copiadas desse meio, chegavam a iludir — a distância. Um dos espetáculos mais curiosos que conheço é este gênero de metamorfoses.

Mas o que principalmente me atraía para ele, era a sinceridade absoluta no ridículo, e um certo ar pretensioso de erguer a cabeça, baixando as pálpebras, enquanto a boca falava, sorrindo, na evidente satisfação das próprias palavras.

— Afinal, és feliz na tua vida solitária, Gastão, disse-me Raul, sentando-se em uma poltrona; estás livre destas corvées que nos infligem... Vê tu, ontem à noite, baile na Embaixada de Espanha; hoje grande jantar, para festejar o aniversário da filha, no palácio do duque de... (aqui proferiu um dos nomes da mais alta nobreza); amanhã concerto no palacete dos condes de D...; no dia seguinte sauterie em casa da baronesa V..., uma belga muito pálida, de cabelos cor de vinho do Reno, que toca Chopin toda vestida de branco, com uma pontinha de tosse e uma pose lânguida, a fazer acreditar na realidade de uma tísica, que não existe... É de um homem ficar extenuado!

E tudo isto foi dito com um ar de aborrecimento, verdadeiramente irresistível.

— Mas se isso te incomoda, para que aceitas tantos convites? atrevi-me a observar-lhe.

— Impossível! Quando se vive em uma certa roda, contraem-se compromissos a que se não pode faltar... Imagina o que sucederia, se eu não comparecesse esta noite no jantar do duque...

Raul foi extraordinário de fatuidade nesta última frase. A inflexão fazia-nos temer um dilúvio universal, ou uma segunda guerra de Tróia, se o seu nome não fosse apregoado dali a pouco, pela boca de um criado de vistosa libré e gestos automáticos, nas vastas salas do alto personagem.

— Mas deixemos o assunto, para ti sem interesse, e falemos do que aqui me trouxe, continuou ele, esboçando um sorriso levemente irônico, como quem diz: Estas coisas só te podem fazer crescer água na boca, pobre diabo ignorante dos requintes do high-life, condenado a rabiscar em umas folhas de papel, pensamentos a que ninguém liga importância.

“Marta Sandomil gosta imenso dos teus livros, e sabendo que somos amigos (esta palavra foi pronunciada em um tom de proteção, que me seduziu), pediu-me para apresentar-te em sua casa.

“Não arranjes pretexto para uma recusa; põe em ordem essa papelada, que não perde em esperar mais um dia, e vem daí comigo.

— Estou à tua disposição, respondi sem hesitar, contente por ter ensejo de travar relações com esta senhora, que apenas conhecia de vista.

Não podia ignorar uma coisa sabida de toda a gente: que Raul era seu amante. E esse incompreensível amor de uma mulher inteligente, bonita, rica e livre, por um tal homem, despertava-me curiosidade. 

*** 

Quando chegamos a casa de Marta, o criado que nos veio abrir a porta disse-nos que ela recebia nesse momento a visita das senhoras Melos.

— As Melos! dois mostrengos, que horror! exclamou Raul contrariado; esperaremos no boudoir.

E, enfiando o braço no meu, seguiu familiarmente pelo corredor, fazendo-me entrar em uma sala, cuja porta fechou.

Enquanto ele me falava, eternamente preocupado da sua pessoa, temendo a possibilidade de o alfaiate lhe não mandar a casaca às quatro horas em ponto, eu examinava minuciosamente, com o prazer que sempre tive de participar da vida de uma alma, tudo quanto me rodeava.

A luz, filtrada pelos stores de seda azul-pálido, envolvia o aposento em uma suave claridade.

Os móveis estavam dispostos ao acaso, sem simetria, mesmo sem qualquer desordem estudada, como se um furacão os houvesse arremessado para ali, de encontro uns aos outros.

Tropeçava-se em livros, esbarrava-se em pilhas de almofadas e de bibelots de todos os feitios.

Para o observador atento, habituado a ler um mundo de coisas em um gesto, em um olhar, na disposição de um objeto, esta sala punha, por assim dizer, a descoberto, a complexa psicologia da mulher que a habitava.

Ao lado de uma chaise longue de pelúcia cor-de-rosa, erguia-se o vulto marmóreo da Vaga, abrindo no espaço, como duas asas de neve, os seus braços de deusa, enquanto os pés lhe ficavam presos na onda, como o símbolo das irrealizáveis aspirações, dos sonhos impossíveis daqueles que, fatalmente acorrentados à terra, sentem a cabeça roçar pelas estrelas.

As obras de Aristóteles, Kant, Spencer, Darwin, Büchner, Ribot, Montegazza e Hartmann, caídas no tapete, ou dispersas sobre as cadeiras, não indicavam o amor da ciência, mas a curiosidade de tudo saber...

Uma bela gravura colocada em frente do divan, representando Eva no Paraíso, sorrindo voluptuosamente ao aproximar dos lábios o pomo cobiçado, não seria o próprio retrato de Marta, saboreando com delícia o fruto proibido e o prazer íntimo da desobediência?

Sobre um guéridon de laca, entre uma jarra japonesa e um ramo de flores murchas — homenagem talvez de um admirador obscuro —, sobrepunham-se dois livros: Pensamentos, de Pascal, e a Vida de Jesus, de Renan.

Singular aproximação de ateísmo e fé!

A obra do fervente jansenista, possesso do mais intolerável catolicismo, devia arrastar essa mulher, dotada de uma sensibilidade mórbida, ao infinito terror, evocado pela visão de um Inferno crepitante de chamas, povoado de medonhos suplícios; ou à infinita esperança, na concepção mística de um Paraíso constelado de serafins e povoado de inefáveis delícias. Depois, levada pela magia do estilo e o poder do claro raciocínio do delicado e ímpio autor das Origens do Cristianismo, como ela devia estremecer de agonia perante o desmoronar de todas as crenças, entrando de novo na Dúvida, triste como uma noite sem astros...

E atestando ainda esse misto de superioridade intelectual e garridice mundana, que eu notara logo ao primeiro exame, viam-se sobre uma mesa antiga os últimos romances de Queirós, Zola, Bourget, Maizeroy, Maupassant e outros, confundidos com um grande número de fotografias de cantoras, tenores, dançarinas, escritoras, literatos, princesas e atrizes em voga.

A entrada de Marta, neste momento, veio interromper as minhas observações.

— Satisfazendo o seu desejo, minha senhora, apresento-lhe o meu amigo Gastão Ariel, disse Raul.

— Agradeço-lhe imenso ter acedido tão amavelmente ao meu pedido, respondeu ela, enquanto eu me inclinava respeitoso. Vou ser compensada do tempo perdido a escutar as duas senhoras que daqui saíram, e que me vi forçada a receber, pelo imperdoável esquecimento de não avisar o criado que só estaria em casa para os senhores.

Enquanto ela falava, examinava-lhe eu a natural distinção do porte, os olhos negros, alternadamente maliciosos e melancólicos, o estremecimento dos lábios, a palpitação das narinas, que imprimiam à fisionomia uma extraordinária mobilidade, denunciando a mulher apaixonada e fantasista.

Marta é alta e delgada; a toilette que vestia, de pelúcia creme, muito justa e singela, ia-lhe deliciosamente.

Os cabelos pretos, atados negligentemente sobre a nuca, muito anelados na testa, caindo-lhe em desordem até às sobrancelhas bem desenhadas, davam-lhe uma aparência juvenil, que decerto não obteria com um penteado correto, produto das mãos de um cabeleireiro.

Em resumo, uma mulher mais capitosa do que bonita, que será possível aborrecer um dia, que não temos a certeza de amar apaixonadamente durante muito tempo, mas que se deseja logo, à primeira vista.

E ela bem o sabia.

As doces inocências, filhas de um espírito ignorante, deviam ter há muito desferido o voo para o infinito, levando presas nas suas asas de ouro todos os sonhos ingênuos; contudo, no fundo desse coração agitado pelo tumultuoso mar de muitas paixões, quase embotado pela satisfação de muitas curiosidades, adivinhava-se ainda uma nesga de céu azul — do límpido céu de outrora.

— Mas não faz ideia, continuou Marta, sentando-se em um fauteuil e dirigindo-se a mim, não faz ideia até que ponto essas senhoras irritaram os meus pobres nervos!... O assunto por elas escolhido para me atormentarem foi a apreciação do Hamlet, que tinham ido ver representar na véspera.

“Nesse príncipe dinamarquês, que seguimos ansiosamente através do seu labirinto de pensamentos trágicos, de dolorosas incertezas, elas viram apenas um cretino, bom para meter em um hospital de doidos, sem compreenderem que todos nós temos estremecido de terrível perplexidade perante o eterno problema: ser ou não ser... Que todos temos conhecido as decepções da esplanada de Elsenor, e avistado, como ele, o trágico e miserável reverso desta pomposa farsa da existência, no relâmpago de uma desilusão aterradora!... Na genial produção de Shakespeare, exuberante de ardente sensibilidade e de torrentes de eloquência que fazem estremecer a alma, só encontraram uma série de disparates, que o público, afirmaram elas, decerto por indulgência não pateou...

“É horrível isto! Sinto em mim um desespero inexprimível quando ouço assim falar dos poetas que venero, das obras que admiro, das ideias que me são queridas... Por pouco me não escapou a frase de Flaubert, quando uma pretensiosa lhe falou, sem o devido respeito, de Renan. E o Sol não se apaga, as flores não murcham ouvindo estas coisas! Do céu não cai um raio que as fulmine, a terra não se abre para as engolir, o mundo continua na sua infatigável rotação através dos espaços, deixando vegetar em paz estes dois cúmulos!...

“Foi decerto em uma hora de amarga ironia que Rivarol fez a apologia da mulher estúpida; a sua paixão por Manette não passa de uma fábula, porque a vida seria suportável, se não fossem os idiotas...

— Para algumas pessoas, é verdade, respondi; mas não sabe vossa excelência que outras existem, para quem a vida não teria encantos sem a colaboração dos tolos? Há uma certa raça de homens, e homens superiores, que, como Rivarol, fazem consistir na imbecilidade da mulher um dos maiores atrativos da existência humana... Por inexplicáveis que se nos afigurem estas predileções, é incontestável que existem...

E enquanto lhe dizia isto, pensava que a ligação dela com o visconde era ainda mais inexplicável, e perguntava a mim mesmo que força a arrastara, que embriaguez a invadira, que vertigem a lançara nos braços daquele homem...

— Os poetas a maior parte das vezes são uns doidos, observou Raul, não sabem o que dizem nem o que desejam; não há nada mais delicioso sobre a Terra do que uma mulher bonita e inteligente (nisto relanceou um olhar demorado em Marta, que baixou os olhos); é necessário, porém, que não tenha pretensões a erudita, resvalando no pedantismo, mil vezes mais intolerável do que as desopilantes inépcias das outras...

A que duque ou a que príncipe teria ele ouvido esta apreciação?

Porque, no seu horror pelo plebeísmo, desde que fazia parte da nobreza, Raul nunca mais se permitiu arriscar uma opinião, que não fosse previamente emitida pela boca de um fidalgo de sangue azul.

Levantando-se em seguida, consultou o relógio e pediu licença a Marta para colher uma das pequeninas rosas brancas que pendiam de uma jarra de cristal da Boêmia, colocada sobre uma elegante secretária Luís XV.

— As minhas flores estão à sua disposição, visconde, disse ela, sorrindo, e acrescentou, acompanhando-o ao lado oposto da sala, onde estava o pequeno móvel: Se me permite, eu própria lhas colocarei na boutonnière?

E Marta, tirando-lhe da lapela as violetas quase murchas, tomou entre os dedos brancos e esguios uma rosa que entrelaçou com algumas folhas, pregando-a cuidadosamente no peito de Raul.

Ao vê-los assim juntos, ele forte, robusto, de uma beleza acentuadamente viril, os lábios sensuais, os cabelos fartos, descobrindo uma testa pequena onde nunca brilhara a chama de um pensamento, e ela tão fina e delicada, tão graciosa e sugestiva, de uma superioridade moral tão evidente, um fisiologista, embora pouco experiente, compreenderia como eu, naquele momento, as causas, de ordem puramente física, que determinaram esta ligação... 

*** 

Raul retirou-se.

Marta, pedindo-me para prolongar a minha visita, ofereceu-me um lugar ao seu lado, no sofá, e principiou a elogiar os meus romances, falando em seguida sobre literatura e belas-artes, com um fino e raro critério, que me admirou.

A despeito da sua aparente frivolidade, era evidente que lera e pensara muito.

Depois de um breve silêncio, corando ligeiramente, com alguma hesitação na voz, disse-me:

— Vou fazer-lhe simultaneamente uma confidência e um pedido... Desde muito que a minha grande ambição se resume em possuir a amizade desinteressada de um homem inteligente e leal... Amigas, não... Há sempre na mulher o quer que seja de vago... de indeciso... O que ambiciono é uma proteção viril, uma delicada afeição de irmão, um braço forte onde me ampare, um coração sincero e indulgente onde possa esconder todas as minhas lágrimas, todos os meus sorrisos, todos os meus prazeres e todas as minhas dores...

“Confiar a uma criatura nobre e generosa os mais recônditos sofrimentos que nos torturam, sem omitir coisa alguma, sem encobrir a verdade sob o doirado manto da mentira, que ventura, até agora para mim desconhecida!...

“Desde muito que penso em si; os seus livros, vibrantes de sensibilidade, encantaram-me. Que grande deve ser a alma para assim sentir, e a inteligência para assim conceber!...

Depois, mais baixo, quase suplicante:

— Quer ser esse amigo por mim sonhado, esse irmão dileto, sem desejos egoístas, sem absurda vaidade, sem tolas susceptibilidades de amor-próprio?

Perturbado pela estranha sedução que emanava de toda ela, lisonjeado por tantas frases amáveis — quem o não estaria no meu lugar? — aceitei, sem objeção, o papel que me era oferecido com tanta gentileza e sinceridade — se todavia a mulher pode possuir esse sentimento, quando faz a um homem tal proposta.

Mas embora devesse mais tarde arrepender-me, embora ela quisesse arrastar-me, com a inexplicável crueldade do seu sexo, para um labirinto mais emaranhado que o de Creta, a entrada, eflorescente de flores, exalava aromas tão enervantes, a imaginação fantasiava oásis tão belos, que me faltava a coragem para recusar, mesmo tendo a certeza de me estar reservada a sorte de Ícaro...

Agradecendo-me com efusão e abandonando uma das suas mãos nas minhas, como prova de delicada confiança — ou de perversa coquetterie, quem sabe? —, continuou, parecendo seguir o fio de uma ideia abstrata:

— Sou, decerto, o mais miserável depósito de matérias heterogêneas que tem existido... A Quimera fabulosa devia ser um animal de simples composição, comparado comigo... Sofro por futilidades que fazem rir os outros... Ambiciono coisas em que ninguém pensa... Não me compreendo bem!... Há em mim o quer que seja de obscuro, que me força a praticar atos reprovados pela minha consciência... Tudo quanto faço parece mais o resultado de um estado hipnótico, do que o de uma vontade livre... As mesquinhas realidades do mundo atormentam-me... A promiscuidade, a que nem sempre posso esquivar-me, martiriza-me... A hipocrisia da sociedade confunde-me... Namorada de todos os esplendores mundanos, sinto-me ao mesmo tempo atraída para o silêncio do túmulo... Detesto a vida e não sei renunciar a ela... Estorço-me na impotência tantálica do condenado mitológico... Para me subtrair a tudo isto, tento elevar-me, pelo pensamento, acima das esferas estreladas, no éter luminoso onde não chegam os miasmas da Terra, mas em vez de voltar consolada, volto abatida, cansada de devaneios inúteis, fitando sem esperança os páramos azuis, despovoados de deuses, ao passo que o spleen, a náusea da miserável condição humana me sufocam, fazendo-me exclamar por vezes, como o Santo António da Tentação: Desejava voar, nadar, ladrar, mugir, berrar, uivar, torcer o corpo, dividir-me por toda a parte, evolar-me com os perfumes, desenvolver-me como as plantas, correr como a água, vibrar como o som, brilhar como a luz, revestir todas as formas, penetrar em cada átomo, descer até ao fundo da natureza — ser a matéria!...

A tarde declinara, envolvendo os objetos em uma luz crepuscular, que a lua dissipou, coando-se através dos stores.

E a doce claridade, onde palpitavam, como vaporosas falenas, átomos prateados, beijando as estátuas, alastrando-se pelos móveis, esbatendo-se nas curvas dos cetins e das pelúcias, derramando-se sobre a massa escura das palmeiras e empalidecendo a alvura das pequeninas rosas, imprimia uma aparência fantástica a essa sala, capitosamente sugestiva.

Marta calou-se, fechando os olhos, como se quisesse fugir a uma visão importuna, enquanto duas lágrimas tremeram por um instante, desprendendo-se das pestanas compridas e recurvas, e deslizando em seguida, silenciosamente, ao longo das faces, agora sem cor.

É provável que outro rapaz, no meu lugar, procedesse de forma muito diferente.

Eu, porém, sem pensar aproveitar-me dos pequeninos artifícios, evidentemente postos em ação para me estontear, respeitei-lhe o silêncio e a fraqueza.

E contemplando-a demoradamente, senti o coração palpitar a ideia de poder dispensar-lhe a minha proteção, de penetrar nesse universo de sensações raras de que era composta a sua existência; de surpreendê-la, consolando-a, nas suas crises nervosas, nas suas terríveis prostrações; de partilhar as suas doidas alegrias e os seus irrefletidos entusiasmos...

Lastimo sinceramente o homem que nunca experimentasse, durante a mocidade, a profunda e puríssima comoção despertada por um sentimento desta ordem, e que preferisse quebrar com brutal audácia o encanto de tal momento... 

*** 

Na seguinte noite, em S. Carlos, enquanto as últimas notas do primeiro ato da Traviata morriam no espaço e a Patti acabava de atirar nas pontas dos dedos rosados, à plateia eletrizada pela sua voz de sereia, um último beijo, sublinhado pelo sorriso irônico dos seus lábios sensuais, retocados a carmim, e pela maliciosa expressão dos seus olhos de veludo, avivados a kohl, por entre o brouhaha dos bravos e das palmas, ouvi pronunciar, ao meu lado, o nome de Marta Sandomil.

Naturalmente, escutei.

Dois rapazes elegantes, que apenas conhecia de vista, conversavam com animação:

— Acho-a realmente interessante, dizia um deles, muito louro, de barba à Guise, cuidadosamente aparada, gardênia na boutonnière; agrada-me imenso e desejo fazer-lhe a corte... Apresentas-me?

— Com todo o gosto, retorquiu o outro, torcendo, com gestos de Lovelace, as guias do bigode negro e frisado.

— Parece-te que...?

— Parece-me que sim, atalhou o segundo; é uma extravagante; uma desequilibrada, uma epicurista... Uma mulher deliciosa e uma conquista que dispensa bem a diplomacia de um Metternich.

— Tem algum amante? interrogou de novo o primeiro.

— Um amante!... Santa ingenuidade! As mulheres como ela, só deixam de ter dois para terem quatro...

E voltaram-se ambos, assestando os binóculos para uma frisa.

Este diálogo produziu-me uma impressão dolorosa, como se acabasse de assistir à queda brutal de um astro...

Voltei-me e olhei na mesma direção.

Marta achava-se, efetivamente, nessa frisa; e tão elegante, com o seu vestido Império, avivado de rosas chá, um dos braços reclinado no parapeito de veludo escarlate, o leque de plumas brancas meio aberto, resguardando-a da luz crua reverberada pelos bicos de gás!

O visconde de Lucena, de pé, ao seu lado, curvando-se ligeiramente, parecia dizer-lhe alguma coisa que a interessava muito, visto que o escutava com evidente prazer.

Não parecia a mesma mulher que eu tinha visto chorar na véspera!

E, contudo, era ela, com todas as suas requintadas delicadezas de alma e coração, que ali se estava dando em espetáculo, voluptuosamente reclinada em um fauteuil, embalando-se com o ritmo monótono das frases ardentes de um homem inepto, deixando-se devorar pelo olhar lascivo de muitos admiradores egoístas, que ainda mais lhe maculariam a reputação, já poluída.

E não fugia, não sentia as faces queimadas pelo rubor da vergonha, ao ver-se impudicamente analisada por tantos olhos cobiçosos, ao sentir percorrer-lhe o corpo essa insolente maré de desejos!...

Ao ver-lhe os lábios vermelhos, entreabrindo-se em um sorriso provocante que atraía o beijo, o olhar úmido, de um brilho intenso, autorizando as mais ousadas esperanças, dir-se-ia que as admirações de que era alvo lhe agradavam e lisonjeavam extraordinariamente.

Que estranha vaidade a cegaria? Que pensamentos lhe atravessariam o cérebro nessas ocasiões? Que misteriosa sensualidade lhe faria assim vibrar os nervos?

Enigmática criatura, feita de lama e de estrelas, com todas as delicadezas de sentimento e todos os apetites da sensação!...

As palmas cessaram.

A meu lado, os dois amigos conversavam agora em voz mais baixa, trocando apreciações maliciosas.

O dos bigodes negros contava pormenores picantes, cheios de reticências equívocas, deixando adivinhar intimidades suspeitas...

Experimentei um desespero enorme contra mim mesmo, por ter tido a ridícula ingenuidade de acreditar na possibilidade de inspirar um afeto sério a essa leviana, que se entregaria, sem escrúpulo, quando a isso a instigassem os nervos, aos braços do primeiro imbecil, de olhar lânguido, flor ao peito e poses de tenor.

Senti-me mau.

Apoderou-se de mim, fitando Raul, um estúpido ciúme, essa raiva de mâle à mâle, de que fala Spinoza, e saí bruscamente do teatro, fugindo à tentação e à vertigem que me invadiam. 

*** 

Na manhã do dia imediato, recebi um bilhete de Marta, ordenando-me, com uma familiaridade adorável, que fosse sem perda de tempo a sua casa.

Hesitei um momento.

Há sempre um pouco de Dalila na natureza da mulher.

Desejaria ela enganar-me, fazendo-me representar um papel absurdo, de que se riria doidamente com algum desses homens que a requestavam, e que acharia, talvez com razão, menos tolos do que eu, ou teria realmente precisão de mim?

Esta última hipótese, auxiliada pela irresistível simpatia que ela me inspirava, decidiu-me completamente.

Fui recebido em um pequeno gabinete, mobiliado com extravagância.

Sob o dossel de brocado via-se uma ampla chaise longue, guardada por esfinges.

Nos espelhos de Veneza, que forravam as paredes, miravam-se poussahs chineses e pastorinhas de biscuit, em amável convívio com aves, tigres, e outros animais embalsamados.

Estes contrastes, porém, fundiam-se em uma harmonia de luxo e suave elegância, exalando o subtil aroma de uma feminilidade, perigosa para aquele que quisesse conservar a sua razão clara.

Se os fauteuils baixos, de braços abertos como em um êxtase, sugeriam a ideia de diálogos íntimos e hálitos confundidos, as almofadas, languidamente estendidas sobre o tapete, convidavam os joelhos a dobrar-se, na apaixonada contemplação de um ídolo...

Marta apareceu afinal, com os cabelos soltos, caindo-lhe sobre as espáduas, como um longo véu negro, vestindo um penteador de seda crua, e disse-me:

— Tomei a liberdade de escrever-lhe há pouco, por uma forma talvez indiscreta; mas visto termos celebrado um pacto de sincera amizade, julguei dispensáveis as formalidades do estilo. Não se zangou comigo? concluiu, assentando-se e indicando-me um lugar a seu lado.

— Por forma nenhuma, minha senhora.

— Então, continuou, vou explicar-lhe o motivo que me levou a incomodá-lo tão cedo, ou antes... veja se adivinha?

— Sou um mau decifrador de enigmas... Se a Esfinge de Tebas ainda existisse, vossa excelência pode crer que não me caberia a mim o privilégio de arrancar-lhe o segredo...

— É modéstia sua. O senhor é muito mais subtil do que o velho Édipo, e para nos convencermos, basta folhear um dos seus livros...

— Mesmo dada a hipótese que eu possua o poder de análise que vossa excelência gentilmente me atribui, afianço-lhe, minha senhora, que o mais hábil psicólogo não poderá nunca seguir e compreender a tempo, as estranhas fantasias que perpassam, com a rapidez das vistas de um caleidoscópio, pelo cérebro de uma mulher... e de uma mulher bonita...

— É possível... volveu ela, depois de meditar um instante. Vou então dizer-lhe... Desejava saber porque se retirou ontem do teatro tão apressadamente, sem entrar na minha frisa?...

Senti-me terrivelmente perplexo.

Como explicar-lhe, sem ofendê-la e sem faltar à verdade, as causas determinantes do meu procedimento da véspera?

A minha hesitação pareceu surpreendê-la. Calou-se fitando por instantes nos meus, os seus olhos negros e investigadores.

De súbito, com um estremecimento brusco, passando as mãos pelo rosto, como se acabasse de avistar a fauce hiante do precipício onde ia resvalando e na voragem do qual se afundariam os seus pudores de mulher, as ilusões da sua alma, as cintilações do seu espírito, exclamou, corando intensamente:

— Já sei... Não explique nada... Não procure uma mentira generosa para desculpar-se, desculpando-me... Compreendo agora!...

Depois, inconscientemente, com lágrimas na voz, continuou:

— Ambicionei o impossível!... Poderia eu nunca merecer a respeitosa dedicação de um homem como o senhor? Devia saber que essa felicidade me era vedada... Uma volúvel, uma inconsequente, como eu, pode lá nunca inspirar estas coisas?!... Contudo, não sou má... Possuo um coração acessível a todos os sentimentos nobres... Encanta-me a virtude... Compreendo todas as ideias elevadas... Que misteriosa força me obriga a cometer atos, que no íntimo reprovo?... Se não posso ser como a honesta e fria Récamier, descendo ao túmulo envolta em uma túnica sem mácula, porque não serei uma depravada sem dignidade, como essas desgraçadas que se vendem?...

“Espantoso tormento, o da consciência do Mal que se não pode evitar, amando o Bem, na impossibilidade de atingi-lo!... Dir-me-ão, talvez, que o remorso das minhas faltas é a justa punição das minhas culpas; porém, se existe o castigo, é forçoso que haja também o prêmio, e a parte boa do meu ser, esse outro eu que condena os meus desvarios e sofre dolorosamente, que recompensa lhe será dado fruir? Quem, na Terra ou no Céu, me compreenderá, me desculpará, me perdoará e me salvará?...

E tu expiraste, fazendo com o teu sacrifício desabrochar uma esperança sublime no coração da humanidade, ó doce mártir do Gólgota, para, decorridos dezenove séculos, morreres de novo e sem prestígio sob o implacável escalpelo dos filósofos, deixando-nos ainda mais desemparados sobre a Terra do que antes da tua vinda!

Agora, que voz, que eco longínquo responderão à angustiosa pergunta dessa mulher banhada em pranto, a quem a Ciência ensinou a duvidar?

Que cruz lhe abrirá os braços, como à formosa Madalena? Que luminoso paraíso lhe oferecerá um refúgio? Onde encontrará ela esse Pai que baixou do Céu, do vasto e inexorável Céu, mudo a todas as súplicas, indiferente a todas as preces, abandonando a alma — pobre Psique ferida por uma irreparável nostalgia —, na solidão dos espaços infinitos, em procura de uma fé que a salve, de uma criança que a console!

À medida que estes pensamentos se me debatiam no cérebro, sentia brotar de todo o meu ser um amor intenso e uma piedade ilimitada por essa criatura, que a natureza dotara com as disposições as mais funestas a uma mulher do seu nascimento, lançada no conflito da sociedade moderna: um coração romanesco e um temperamento apaixonado.

Faltando-me a religião divina, apoderou-se de mim, mais intensa, a religião humana.

Esqueci o passado, e sem pensar no futuro, fazendo calar o amor-próprio, o orgulho e o egoísmo naturais ao homem, ajoelhei aos seus pés, ofereci-lhe, incondicionalmente, todo o meu afeto e murmurei-lhe as frases apaixonadas que ela desejava ouvir da minha boca.

Em uma expansão de felicidade, devida talvez em parte, a satisfação da vaidade inerente ao seu sexo — não será secreta a quimera da maior parte das mulheres, por mais honestas que sejam, verem prostrados aos seus pés, loucos de amor ou ébrios de desejo, todos os homens, mesmo os que lhe são indiferentes ou que no íntimo desprezam? —, Marta agradeceu-me com um desses divinos sorrisos que despontam nos lábios da mulher, nos raros momentos em que nos é dado vê-la despretensiosa e sincera.

Pobre Marta! ou, com mais razão talvez, pobre de mim, que iria despojar-me das poucas ilusões que ainda me restavam... 

*** 

Decorreram quatro meses deliciosos na convivência íntima de Marta, que eu amei como nunca amara mulher alguma.

A posse exclusiva de uma criatura encantadora, dotada de uma alma superior, é, para o homem, uma voluptuosidade quase sobrenatural. Saber que são para ele, e só para ele, os sorrisos que lhe entreabrem a flor purpúrea dos lábios, o olhar que lhe transmite a impressão recebida pelas suas carícias; compreenderem-se e partilharem ambos os mesmos pensamentos, os mesmos desejos, a mesma sensação e o mesmo êxtase que os arranca à terra por momentos, é decerto a suprema ventura, e não conheço outra que se lhe compare.

Eu bem sei que o amor feliz não pode durar sempre. A nossa miserável condição humana não nos permite a constância em qualquer sentimento.

Mas embora ele devesse ter, como todas as coisas deste mundo, uma duração efêmera, a intensidade do prazer sentido era tal, que a impressão recebida em todas as moléculas do nosso ser vibrará nelas sem cessar até ao fim da vida.

Como Marta se ia a pouco e pouco transformando!...

A fisionomia readquirira uma expressão quase ingênua, reflexo da que devia ter possuído na adolescência, antes das primeiras iniciações feitas por um marido libertino, que a morte lhe arrebatara, um ano depois de casada.

Fechara a porta da sua casa ao visconde, que possuído do despeito cômico que caracteriza os tolos, foi consolar-se nos braços de uma francesa, toda ela cosméticos, mentiras e artifícios; uma destas mulheres, produto monstruoso das grandes cidades, que sem beleza, sem educação e sem mocidade, sabem ainda, pelo esforço de uma vontade inabalável, coadjuvado por uma consumada ciência do vício, inspirar desejos e extorquir libras.

Marta não se cansava de escutar os conselhos e as observações por mim feitas, a seu pedido.

Percebi, com um reconhecimento profundo, que todos os seus esforços convergiam a um único fim: tornar-se digna da afeição que eu lhe dedicara.

Por vezes, vendo-a sentar-se em um banco aos meus pés, cruzando sobre os meus joelhos os braços, em uma atitude tão meiga e submissa, cheguei a acreditar na veracidade do velho e estafado assunto de tantos dramas e romances: a redenção pelo amor; sem me lembrar que as causas que produziram a primeira falta, continuavam a subsistir latentes, a despeito do arrependimento e das boas resoluções.

Quando a queda de uma mulher é determinada por uma ilusão, por uma injustiça, ou pela miséria, é fácil regenerá-la; porém, quando as complexas causas que a levaram uma vez para o mal, têm a sua origem na parte mais profunda e obscura dos sentidos e dos órgãos, que amor poderá salvá-la em absoluto?

Mas no meu santo empenho em guiar-lhe o pensamento para a razão, fazendo-a compreender e amar o Bem, na posse do qual o espírito se liberta, criando em si e para si um mundo completo e transcendente, não vi logo a impossibilidade de atingir o fim a que me propunha.

Em Setembro, Marta, cuja saúde exigia nessa estação os banhos do mar, partiu, a pedido meu, para a praia de E...

Não queria separar-se de mim por tanto tempo; porém, na impossibilidade de acompanhá-la naquela ocasião, exigi-lhe esse sacrifício.

Por entre as lágrimas da despedida, ela jurou-me que a sua conduta seria de longe, como de perto, digna em tudo da minha confiança.

Escutava-a com o coração oprimido por uma tristeza invencível... O vago pressentimento de que ia perdê-la para sempre...

A ausência é a pedra de toque destas ligações; era ela que se encarregaria de dissipar as minhas dúvidas, ou de justificar os meus receios.

*** 

A princípio, Marta escrevia-me todos os dias, e essa era a única consolação para a saudade que me deixara.

Decorridas, porém, duas semanas, a correspondência principiou a afrouxar sensivelmente; apenas bilhetes rabiscados à pressa, desculpando-se com as amigas, que não a deixavam descansar com convites para passeios, picnics, e prometendo sempre para o dia seguinte uma extensa carta, que não chegava nunca.

Há pouco, duas folhas de papel não bastavam para descrever as impressões de um dia; agora, o pequeno cartão, recebido muito irregularmente, trazia margens em branco, como se fosse um imenso Saara, impossível de preencher com o seu elegante cursivo inglês.

Apoderou-se de mim uma suspeita atroz, impossível de afugentar, não obstante os argumentos formulados no intuito de a defender.

Para pôr termo a esta cruel perplexidade, resolvi partir sem preveni-la, buscando ensejo de observá-la, quando ainda me julgasse distante.

Que dolorosas desilusões, se todos os maridos e todos os amantes fizessem como eu!...

Cheguei a E... às oito da noite, entrei em um hotel, fiz à pressa a minha toilette e dirigi-me ao Clube, onde ela ia quase todas as noites “para se não tornar original, mas muito aborrecida”, segundo me dizia nas suas cartas.

Com precaução, para não ser visto senão em tempo oportuno, penetrei no corredor, aproximei-me de uma porta que encontrei aberta e relanceei os olhos pela sala de baile.

A orquestra tocava nesse momento uma valsa, os pares perpassavam enlaçados.

De súbito, entre aquele turbilhão de casacas pretas, braços nus, tules diáfanos, palpitações de fitas e cintilações de joias, ressaltou o vulto gentil de Marta, abandonando-se voluptuosamente nos braços de um rapaz muito alto e muito louro.

Que ela gostasse desta dança tão moderna, tão característica, tão sensual, não me surpreendia; é a dança predileta dos nervosos, dos frenéticos, dos que amam a vida agitada.

Mas saberia resistir às perigosas sugestões desse ritmo embriagador e às frases ardentes, balbuciadas próximo dos lábios?

A música cessou; os valsistas dispersaram.

Marta, largando o braço do seu par, sentou-se em um banco de veludo, logo rodeado por meia dúzia de elegantes, aspirando à intimidade de um diálogo, e talvez à liberdade de um rendez-vous sem testemunhas...

E ela consentia, depois do que me tinha jurado, que todos estes pensamentos, e outros porventura mais audaciosos, lhe fossem patenteados pela expressão dos olhares e pela ambiguidade dos sorrisos!

Acirrante, irrequieta, vaidosa e garrida, deixava explodir a excitabilidade do seu temperamento de histérica, em uma coquetterie diabólica, donde emanava uma fascinação perigosa para os que dela se aproximavam.

Era assim que seguia os meus conselhos, mistificando-me, calcando aos pés o nobre afecto que lhe dedicara e que poderia ter sido a reabilitação dos seus passados desvarios!

Recordei-me da noite da Traviata e das apreciações que então ouvira a seu respeito.

Os que assim falavam não mentiam...

Senti na alma uma dor lancinante, pela decepção brutal que acabava de receber, e por vê-la despenhar-se de novo no abismo, donde generosamente tentara arrancá-la.

Tornou-se-me insuportável aquele espetáculo; com a vista turva, afastei-me desse lugar, atravessei ao acaso dois ou três gabinetes, onde por felicidade não encontrei ninguém, e fui dar a um vasto terraço, deitando sobre o mar.

Ali, deixei-me cair sobre um banco de pedra, sombreado por uma enorme palmeira; sentindo-me, pela primeira vez na minha vida, sem coragem para reagir contra o mortal desalento que me invadia, escondi o rosto nas mãos, e chorei o pranto mais amargo de que tenho memória...

Um ligeiro sussurro e um frou-frou de sedas obrigaram-me a voltar a cabeça.

Uma senhora nova, em cabelo, com uma peliça branca sobre os ombros, acabava de entrar no terraço pelo braço de um rapaz alto.

Ao aproximarem-se, reconheci Marta e o seu louro valsista.

Assim o acaso, tão fértil em aventuras inesperadas, encarregava-se agora de mostrar-me o desenlace do episódio há pouco presenciado.

Passaram quase ao meu lado, sem repararem em mim, e foram encostar-se à pequena muralha que cercava aquele recinto.

Ele falava-lhe em voz baixa, com animação; ela escutava-o abstrata, com os olhos fitos no mar, que a lua bordava de palhetas luminosas, perdida no intangível e misterioso país dos seus sonhos, onde devia haver flores tão perfumadas como as rosas e as violetas, e plantas tão venenosas como a mancenilha e a árvore Upas.

Pouco a pouco, como se as brisas salgadas do oceano e o perfume forte da mata, sofregamente aspirados pelas narinas palpitantes e dilatadas, a fossem embriagando lentamente, cerrou as pálpebras e deixou pender a cabeça no ombro do seu companheiro, que a enlaçou, beijando-a com delírio.

Senti fugir-me a razão; perpassaram diante dos meus olhos visões sanguinárias; levantei-me de um pulo e encaminhei-me para eles com o desejo bestial de matá-los, a ela sobretudo, mais tentadora e pérfida do que a serpente bíblica.

Felizmente, a excitação deste momento, em que o instinto animal, aguçado até à ferocidade, me fizera esquecer a minha educação e os deveres impostos pela sociedade, abrandou um pouco, suavizada pelo dó que me inspiraram a palidez cadavérica e o grito angustioso de Marta, quando, ao desprender a boca desse longo beijo, me viu ao pé de si, como a consciência viva da sua vergonha.

Sem dizer-lhe coisa alguma, fugi dali desvairado, cambaleando como um ébrio.

Divaguei ao acaso pelas ruas, abismado em um caos de pensamentos insensatos, abalado por um mundo de sensações contraditórias, incapaz de formular uma ideia, de tomar uma resolução.

Recolhi ao hotel de madrugada.

Ao entrar no meu quarto, o criado disse-me que me esperava uma senhora.

Abri a porta e deparei com Marta.

Assim que me viu, levantou-se, dirigiu-se a mim vacilante, com os olhos vermelhos de lágrimas recentes, e exclamou:

— Gastão, perdoa-me ou castiga-me, mas não me desprezes nem me acuses... Tudo quanto possas dizer, já o disse a mim mesma... Se soubesses o espantoso sofrimento que me tortura!... Como pude fazer o que fiz, possuindo o teu amor, a maior, a única ventura da minha vida!... Que bom seria morrer já, para acabar com estas estranhas aberrações, estas tentações que me alucinam e perdem... Gastão, tem piedade!... Não vás abandonar-me... Salva-me de mim própria... E aproximou-se mais, tentando pegar-me nas mãos.

Este apelo, feito à minha generosidade, não encontrou eco no meu coração, porque entre nós interpôs-se a visão física da carícia de há pouco.

Recuei, dizendo-lhe:

— É inútil, Marta; entre nós está tudo acabado...

— Tudo acabado?!... Não, não, não é possível... Não quero!... Tu hás de perdoar-me... Serei tua escrava... Serei o que tu quiseres... Mas não me abandones... Nem um instante deixei de amar-te... Não sei viver sem o teu amor!...

E Marta caiu de joelhos, soluçante, rojando-se aos meus pés, agarrando-se ao meu fato.

Aquela dor, tocando as raias da loucura, comovia-me, mas o ciúme continuava a cegar-me, tornando-me feroz.

Afastei-a de mim com violência, gritando-lhe:

— Não! mil vezes não! O outro, com quem me enganaste, em cujos braços estarias a estas horas, se eu não tivesse aparecido, que te console... Que te proteja... Dilaceraste-me a alma nos espinhos das tuas falsidades, mentindo-me nas tuas cartas, como me mentirias ainda, se eu não visse! Não te quero!... Partirei, levando intacta a minha dignidade, antes de tu a manchares no lodo em que te afundas e para onde tentas arrastar-me...

— É a tua última decisão? perguntou, fazendo-se lívida.

— Sim!

— Ah! murmurou ela, presa de um estremecimento convulsivo, estendendo os braços e fitando no espaço os olhos, desmedidamente dilatados, como se acabasse de ver surgir um pavoroso espectro, que viesse buscá-la para algum inferno desconhecido, com suplícios mais tenebrosos que os do Dante. Em seguida, soltando um gemido rouco, como o estertor de um moribundo, caiu sem sentidos sobre o tapete.

Por um impulso de caridade, tomei-a nos braços e deitei-a no sofá.

Nesse instante, o sino de uma igreja próxima batia três horas — três badaladas, dolorosamente repercutidas no meu coração, como um dobre fúnebre pela pobre alma ali agonizante...

Meu Deus! que miséria a desta criatura, sem coragem para suportar o meu desprezo e sem forças para se tornar digna do meu amor!... Que luta titânica entre o bem e o mal, acabando talvez por despedaçar esse corpo franzino! Que sede de puras comoções e de degradantes sensualidades! Que Céu e que Inferno!...

E como estava idealmente bonita, assim deitada, os cabelos em desalinho, o rosto de uma palidez doentia, os braços e o colo descobertos, as flores do corpete murchas e soltas, matizando de pétalas rosadas a seda branca do vestido de baile!

Impelido por uma misteriosa atração, debrucei-me para vê-la melhor.

Como se a requintada nevrose do seu sentir lhe houvesse transmitido, apesar desse aparente letargo, a impressão que me dominava naquele instante, quebrando-me a energia, um sorriso inefável dourou-lhe de súbito a fisionomia; estendeu as mãos, sem descerrar as pálpebras, encontrou a minha cabeça, enlaçou-a nos braços e estreitou-a docemente contra o seio.

A inesperada sensação em mim despertada ao contato da sua pele fresca, da sua carne palpitante, fez-me pulsar com força as artérias e correr no sangue uma chama quente como metal fundido, avivando-me a recordação — impossível de apagar por completo no espírito daqueles que uma vez a tivessem conhecido — das suas estranhas e enervantes carícias, onde havia instintivos pudores de virgem e insensatos ardores de cortesã.

Apoderou-se de mim a paixão física, obscura, desordenada, com uma intensidade brutal, como até então nunca tinha experimentado.

Chamei em meu auxílio a dignidade, o bom senso, o raciocínio...

Apelo inútil!

A febre vertiginosa e abrasadora do desejo empolgou-me com tal violência, que me paralisou a razão, violentando-me a sucumbir...

Triste e humilhante verdade, que o ciúme, ideia de que outros cobiçam o que nós possuímos, e até o conhecimento da própria infâmia, em vez de serem para o homem motivos de afastamento, compaixão ou nojo, se transformem em novos agentes da paixão que o devora... 

*** 

A manhã rompia alegremente, enchendo de uma claridade suave o aposento, quando Marta acordou do seu torpor, na plena consciência do que se passara na véspera, e ergueu para mim, timidamente, os seus belos olhos suplicantes, que cobri de beijos, concedendo-lhes não só o perdão que imploravam, como pedindo-lho também para a minha injustiça e para a minha fraqueza.

Compreender é perdoar, como disse a Staël.

E eu acabava não só de compreender que há na natureza humana instintos a que é impossível opor por muito tempo os estreitos diques do dever, e encerrar para sempre nos acanhados limites do convencionalismo, como também de sentir a impossibilidade de lutar contra uma tentação obcecante.

Se há em todos nós duas partes distintas, uma superior, que emana da alma e nos faz amar a virtude e o bem, a outra inferior, que emana do animal e nos obriga a praticar os atos mais repulsivos, como exigir de uma mulher, enfraquecida por hereditariedades mórbidas, produto híbrido de uma civilização decadente, cuja vida psíquica é constantemente perturbada pelas crises da sua vida fisiológica, o equilíbrio que deverá corrigir a obra da natureza, quando nenhum de nós, mesmo dos mais superiores, se pode vangloriar de possuí-lo em absoluto?

Seria mais do que desumanidade, seria estupidez ou demência.

Só um tolo, ou um malvado, por inépcia, ou por lhe faltar a santa religião da dor humana, ousaria negar o perdão e cuspir todo o seu desprezo sobre Marta Sandomil.

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