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2/12/2023

Não há gosto sem pesar (Conto), de Rebelo da Silva

 

NÃO HÁ GOSTO SEM PESAR

Naquele tempo, em terras de além Douro, que rico homem era mais poderoso e rico do que D. Ordonho, conde? Estendendo a vista dos eirados do castelo por vales, montes e campos, sabia que tudo era seu. A um aceno trinta cavaleiros metiam o pé no estribo, e centos de homens de armas e peões seguiam o seu pendão. Descendia da grande raça dos primeiros lidadores das Astúrias, raça de bronze nos ódios, e de ferro nas vinganças. A idade gasta os mais fortes, e açor velho não se remonta às águias. Quando na carreira o vento lhe sacudia as madeixas brancas, D. Ordonho sentia que os anos não haviam passado em vão. Só a neta, a formosa Auzenda, único amor da sua vida, podia distraí-lo das horas de tristeza. Mais do que filha, porque duas vezes era o sangue da sua alma, um sorriso dela quebrava-lhe a vontade, e uma lágrima só daqueles olhos lindos, transformava em cordeiro o leão embravecido.

Os atalaias vigiam dos altos miradouros da torre de menagem. Os homens de armas cruzam-se nos eirados. Espreitam se rompe ao longe uma lustrosa cavalgada, que se espera?

O sol já se escondeu de traz do último outeiro; desmaiaram os derradeiros clarões no topo da cruz de pedra; levantou-se por fim a lua sobre as campinas, e nenhum cavaleiro, ou sombra dele, se avista em larga distância ao redor.

No castelo era véspera de noivado. Auzenda, a bela Auzenda, ia casar-se com Moço Ansures. Estava por horas a festejada véspera de São João, e por horas também estavam a cumprir-se quatorze anos desde que os monges negros rezaram o ofício de finados em volta da tumba do cavaleiro assassinado.

Porque se via Auzenda tão pensativa olhando do seu balcão para a coroa do outeiro, que fica defronte? Córdoba e Granada, os dois Édens da formosura, entre mil não se ufanavam de possuir perola de igual valia. Aquela beleza era sem par. Sorria-lhe o céu nos lábios; ondeavam os cabelos em tranças douro soltas à brisa; e os olhos azuis, aonde amor suspira, oh! quem pudera vencê-los depois de vencidos por eles! Delgado cinto aperta-lhe as roupas no corpo esbelto. O véu de tisso bordado ora folga livre com o vento, ora desce em pregas graciosas sobre o seio palpitante. Ao raiar da alva tinha saído. Os pés, como os da corsa gentil, que a acompanha, fogem tão leves, que mal trilham os musgos das fragas na serra íngreme. As rosas acendem o rubor na face acetinada desmaiando os lírios. Boninas e cecéns tecem a coroa silvestre pousada na fronte. Ajoelhou à cruz solitária, e a oração matinal subiu casta e pura do coração ao trono do Senhor, no meio das fragrâncias da aurora. O vestido branco desenha confusamente as formas, e visto de longe flutua nos vapores da madrugada. Dir-se-ia visão celeste que os raios da primeira luz vão desvanecer. Ela a chegar, e um cavaleiro a correr do lado oposto. O açor do Douro remata-lhe o capelo de aço. É D. Moço Ansures. Ajoelha a seu lado e juntos oferecem a Deus as primícias do amor.

— Voltais logo? perguntou a donzela corando.

— Ao cerrar da tarde! responde metendo-a na alma com o apaixonado olhar.

— Tão tarde!?

— Quereis que fique? Mas o voto que fiz?!...

— Não! Mas!...

— Ao cerrar da tarde, vivo ou morto, estarei aqui!

Separaram-se. Ele despediu o cavalo pelas gargantas da montanha, ela seguiu-o com a vista, saudosa até desaparecer por traz do último outeiro.

Porque chora a bela Auzenda? O que lhe diz o coração? É por isso que a donzela cismava sozinha ao cair do dia no seu balcão? Seriam receios de noiva a combatê-la, ou saudades de namorada? Baixou a tarde, fechou-se a noite, e quando as estrelas começavam a tremer na abobada do céu, recolheu-se suspirando. Quase ao mesmo tempo soava a sineta da atalaia. Donas, cavaleiros e pajens principiavam a entrar no castelo, atraídos pelos festejos. As armas reluzentes, as plumas de cores diversas, os tabardos de matizes variegados deslumbravam, vistos à luz dos fachos. O som das trompas, os latidos dos lebréus, os relinchos dos cavalos, e as vozes dos peões animavam de mil ruídos alegres o quadro do noivado. O conde Ordonho sobressaía no meio de todos pela estatura. Era como o carvalho antigo abrigando os arbustos debaixo da sombra. O seu brado vencia o estrépito.

— Pajens! Escudeiros! Fazei honra! exclamava cortejando os recém-chegados com a boca cheia de riso.

Falta, porém, um homem na festa e com ele tudo falta. A última hora do dia, segundo sua promessa, deveria tê-lo trazido aos pés de Auzenda, e com a noite cerrada não chegava!... Do lado das montanha não havia rebate de mouros. As almenaras apagadas não davam sinal de inimigos. Que motivo demorava pois o mancebo, quando o amor estava-o chamando tão meigo e desejado? Por que se ausentara naquele dia, em que tantos extremos o convidavam a não se apartar dos belos olhos que o prendiam? Um juramento sagrado! Um voto! Prometera a Deus, para expiar aos olhos de todos a união das duas casas, passar doze horas ajoelhado sobre o túmulo de seu pai. Por isso deixara Auzenda junto da cruz de pedra ao romper da aurora. Por isso as horas passavam e a saudade impaciente da noiva as contava tão vagarosas!


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Revisão ortográfica: Iba Mendes (2023)

9/20/2017

A Torre de Caim (Conto), de Rebelo da Silva


A Torre de Caim

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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I - DE UM BOM IRMÃO UM MAU CRISTÃO

O monge começou assim a sua história:

No tempo em que os vális de Córdova tinham quase todo o reino sujeito é que sucedeu o que vou contar. Estava o conde d. Henrique a entrar por dias, e com ele vinham boas lanças para o ajudarem a resgatar do poder dos infiéis as Províncias de Portugal. A essa hora nos castelos da fronteira não se descansava dê dia, nem de noite; ninguém despia as armas; e quer luzisse a manhã, quer cerrasse a tarde, o clarão das almenaras, ou o rebate das trombetas não consentia nem de leve repouso aos defensores da verdadeira lei. Nas ameias, ou no campo de peleja, não se sossegava um momento. Os melhores castelos ainda tinham a voz dos descridos; muitas terras pagavam-lhes tributo; e as belas tapadas do Minho e do Alentejo eram para eles correrem os veados, os cursos dos javalis. Do mármore de nossas pedreiras arrancavam as colunas e as ricas laçarias de seus paços. Tudo na abençoada primavera deste formoso jardim chamado Portugal era dos sarracenos e em tudo punham o seu deleite. Nas campinas floridas, em que a lua nasce suave como sorriso infantil, e o céu brilha radioso corno olhar de virgem namorada, a tristeza até parecia desmaiar o sol. Antes de o tragar o inferno, cujo é, o árabe sensual passava pelo paraíso, que nos tinha roubado! Por isso a saudade do que perdeu lhe punge tão viva hoje o coração!...

— E não havia cavaleiros, que lhes escalassem as lanças no peito, bradando: esta terra é nossa! — acudiu Martim Pais.

— Havia! — redarguiu o frade. — Mas eram poucos. Naqueles dias de cativeiro todos inclinavam a fronte, regando de lágrimas os sulcos da charrua, guiada por mãos de escravos. Deus exalte o braço vitorioso, que nos deu outra vez a terra de nossos pais, que fez nossos a casa em que abrimos os olhos, o cemitério onde dormem os que nos amaram, a árvore que nos cobriu com a sombra a infância e a velhice, e a fronte que ferve ao pé do rosal!... Naquele tempo, quando o mouro passava, baixavam todos a vista, porque ele era o senhor.

— Mas a terra havia de ser então quase um deserto, padre?

— Não. As espigas douravam-se nas searas como agora; os campos vestiam-se de relvas e de arvoredos; as noras gemiam nas hortas; e os gados pastavam nos montes. Mas a terra, tão alegre por fora, toda era mágoa e desconsolo por dentro; porque a terra, em que somos escravos, mesmo que seja a da pátria, parece-nos mais só e vazia, do que um ermo. A casa alheia, a courela que é de outro, e o fogo aceso na lareira a medo, fazem-nos chorar porque nada daquilo é nosso, e hoje, ou amanhã, podem dizer-nos: sai! O reino vivia, como vive agora; o que estava morto era o coração do homem. Resplandecia o mesmo sol, corriam as mesmas águas, nasciam as mesmas flores; porém as crianças não brincavam por baixo dos pâmpanos da vinha, como brincam estas; e a donzela assustada, tremendo de se ver formosa, não se assentava tranquila, como aquela, debaixo da amendoeira em flor ouvindo descantar o rouxinol por cima da cabeça. O harém do sarraceno, aberto diante dela, como um abismo, fazia-a empalidecer. De um momento para outro podia ser obrigada a escolher entre a desonra e a morte.

— Que martírio não seria a vida assim?!

— Era! Foi!... Mas viveu-se, e por quantos anos!... O dia declina. Faz-se tarde. Quereis que continue?

— Oh, decerto. Falai!... Todos vos ouvimos.

— No tempo que disse, lavrava a discórdia entre dois ricos-homens nas terras de além-Douro, afirmavam uns que por amor dos lindos olhos de certa dama, juravam outros que por causa da aposta de um cavalo. De seus castelos dois inimigos, postos defronte, corriam o campo talando vinhas, pomares e searas, e mal um se descuidava, o outro, assaltando-o, vinha logo acordá-lo a ferro e fogo. Em suas mesnadas, ou companhas de homens de armas, ardia a guerra em toda a fúria. Nos casais assolados de ambos, o solarengo ou o pastor nunca sabia se ao anoitecer recolheria os frutos, e os rebanhos a salvo, ou se despertaria ao clarão das labaredas, para enterrar algum dos seus assassinados.

Por fim o cavaleiro mais velho acometeu o paço acastelado do contrário, tomou-o à traição, deixando a cabeça do senhor cravada nas ameias. Aconteceu isto véspera de São João, por alta noite, quando todos festejavam o bendito santo com fogueiras, cantigas e folias. O cavaleiro tinha um filho e um irmão. O filho de idade tenra; o irmão temido pela índole e pelo braço. Entraram e saíram os anos assim; a criança fez-se homem; e de parte a parte a aversão das duas famílias cada vez crescia mais. O rio que as separava tingiu-se de sangue por muitas vezes, e os sinos não cessavam de dobrar na igreja pelos que morriam. O tempo, que tudo gasta de dia para dia, parecia avivar mais aquela rixa. A este tempo o herdeiro do cavaleiro assassinado era já um mancebo louvado pela destreza nas armas e pela presença gentil a cavalo e nos saraus. Chamava-se d. Moço Ansures, e vendo-o passar, esbelto e afogueado da carreira, com o falcão no punho, as donzelas sorriam-se e coravam, e os homens saudavam-no admirando a fiel imagem do rico-homem morto na véspera de São João.

D. Moço ainda não dissera a mulher nenhuma: amo-te! Um dia, por desgraça, viu a neta do senhor do solar inimigo, e logo o coração esquecido da vingança guardou para sempre a doce imagem. O sangue do pai derramado à falsa fé, as malquerenças de tantos anos, as promessas da meninice e da juventude, tudo daí em diante se apagou da sua alma para não ver outro sol, outra luz, senão o dos belos olhos, que o tinham feito seu cativo. Segredos de Deus! Do maior ódio rebentou o mais constante amor!... Correram meses, e o afeto escondido saltou aos olhos de todos. Os parentes lançaram em rosto ao mancebo a sua fraqueza, mas a paixão pôde mais que as memórias do túmulo, que deixava sem vingança. Por último, cansados das guerras dilatadas, os rancores cederam, e o casamento ajustou-se. Uma rosa veio unir as duas casas inimigas. O sorriso de uma dama Veio aplacar no sepulcro os que não podiam dormir o sono eterno, e os que haviam jurado não perdoar. Aprazou-se para a véspera de São João o ditoso enlace. Seria propósito, ou acaso? Nesse dia contavam-se justamente catorze anos, que o pai de d. Moço de Ansures fora assassinado.

O homem põe e Deus dispõe!

O cavaleiro morto tinha, como disse, um irmão, que lhe queria mais do que a própria vida. Haviam nascido ambos na véspera de São Pedro, e escusado fora procurar mais do que uma vontade e um afeto nas duas almas. D. Inigo Lopes, era o nome do irmão mais novo, andava ausente. Acertou chegar de longe, quando estavam pregando as tábuas do caixão do infeliz. A dor fez de d. Inigo uma estátua, e sete dias com sete noites o viram todos jazer deitado sobre a sepultura. Parece que a terra, comendo-lhe os ossos do irmão, consumia ao mesmo tempo nele tudo que tinha de humano. Quando rompeu a alva do oitavo dia, e se levantou, trazia a cabeça e as barbas brancas como neve. Envelhecera ali um século em sete dias! Nem uma lágrima nos olhos secos! Nem um soluço do peito mudo. Deixou sobre a campa espada e arnês, e levou só consigo o punhal. Ao entrar ainda fizera o sinal da cruz, mas, saindo, Jesus! voltou as costas ao altar. Os anjos nos defendam!

O que fez sete dias com sete noites d. Inigo só e encerrado na capela? Se alguém o soube foi a cova fria. Contavam, depois, que um monge na última noite vira a pedra do túmulo erguida sem lhe tocarem, e um corpo crescer da sepultura e a mão do morto apertar a mão do vivo. Ilusões! Quem vai nunca mais torna. O que não foi fábula, porque todos o presenciaram, foi ao oitavo dia rebentar com o primeiro raio de luz uma roseira do centro da cova, tão viçosa e robusta como se existisse há muitos anos. Que frescas rosas e que lindos botões nos ramos! Mas se queriam apanhá-los os por devoção, murchavam nos dedos; se tentavam cortar uma pelo pé, o sangue corria da haste como se corresse de veia aberta. Em cada ramo abriam sete rosas brancas e sete rosas vermelhas. E que outros tantos dias se contavam também desde que o corpo do valente cavaleiro descera à sepultura trespassado de sete feridas.

Nunca mais se soube, ou se falou de d. Inigo. Dizia-se que sete anos com mais cinco vagueara como peregrino, pelos desertos, que Deus pisou, comendo das ervas do monte, bebendo da água das nascentes, dormindo às inclemências do tempo. Que vida penitente a daquele santo! Vozes do mundo! O Senhor, que lê nos corações, há muito que tinha desviado os olhos dele. Com ser cristão nascido nunca mais ajoelhara à cruz ou se encomendara à Virgem. Quase ao cabo do longo desterro anoiteceu-lhe no deserto da tentação ao atravessar pela terceira vez a Palestina. Valha-nos Maria Santíssima!... De repente as areias inflamaram-se em um mar de fogo; o céu cobriu-se de trevas; e nas pontas recortadas das altas rochas dançaram, cruzando-se, milhares de luzeiros. Ouviu-se então na vasta solidão do ermo um brado imenso. D. Inigo respondeu, e o pacto, que ali firmou, foi tão negro, que a lua tornou-se cor de sangue e sumiu-se, que as estrelas esconderam trêmulas a sua luz. O cristão acabava de vender ali a alma ao inferno pela vingança. Desde aquela hora seguiu sempre por toda parte, como a sombra segue o corpo, a imagem do irmão assassinado. Ajoelhado ao poder de Satanás, ele que não se prostrara diante da cruz, e rasgando as veias afirmara o juramento. Quando se ergueu soou o cantar do galo por três vezes rio espaço, repetido pelos ecos, e risadas tremendas, levantando-se das águas imóveis do mar Morto, aplaudiram a vitória do espírito do mal. O réprobo escarneceu do passado. Uma blasfêmia atroz saltou-lhe da boca. Mas ele que se ria de Deus e do inferno, estremeceu sentindo fugir-lhe a terra debaixo dos pés, como horrorizada do peso do seu crime. Aos primeiros passos o clarão dos relâmpagos cegou-lhe a vista. O temporal rebentava ao mesmo tempo no mar onde as ondas se empolaram como serras; no céu onde os trovões estalavam uns após outros; na terra, que se abria em voragens; e no deserto, onde o furacão, bramindo, cavava abismos, e alteava montanhas, revolvendo em vórtice as areias. Cedros antigos, como os do Líbano, desabavam de pancada. As feras, tímidas que nem cordeiros, acoitavam-se submissas nos povoados. Os homens elevavam suas orações a Deus pedindo-lhe piedade. Quando tudo se fazia humilde e pequeno para a súplica, por que riria só o orgulho do culpado? Dali em diante não passou uma hora sem ele se despenhar mais e mais fundo no precipício. Raiava a manhã um dia e curvado sobre a corrente do Jordão, debruçava o cântaro e enchia-o. As ramas das árvores enfezadas torciam-se em toldo raro sobre a ribeira. A duas passadas de distância caíra um velho desfalecido de sede e de fadiga. Bastava uma gota daquela água para lhe restituir a vida. D. Inigo negou-lha entornando-lhe de propósito o cântaro diante dos olhos para lhe exacerbar o tormento diante dos olhos que estavam tragando de longe a água, que o maldito derramava zombando da sua agonia, e dizendo-lhe por mofa: “chama pelo teu Deus e pede-lhe uma nascente ao pé de ti!” O Senhor não acudiu com prodígios ao seu servo. Quis que expirasse vencedor do inferno. Mas desde aquele crime, a sede intensa atoada nas entranhas do réprobo, nunca mais se aplacou. Os rios e as fontes convertiam a fresquidão em fogo para o abrasar. A gota de água negada no deserto pesara na balança do Senhor largos séculos de culpas.

Cumpridos doze anos, d. Inigo voltou, sem se saber como, à terra em que nascera. Disseram que um cavalo da cor da noite com os olhos todos chamas, o trouxera em breves instantes da Judeia a Portugal. A cauda varria o pó, a respiração era toda fogo, e as crinas ondeavam ao vento. Diante dele as mais altas montanhas encolhiam-se e tornavam-se outeiros; o mar e os abismos solidificados aplanavam-se; e no perpassar do galope infernal os carvalhos inclinados tremiam e beijavam o chão, flexíveis como juncos. Cavalo e cavaleiro não corriam, voavam! Debaixo da ferradura mágica as águas tomavam a dureza do diamante: a terra oscilava, e mil faíscas, saltando da cratera dos vulcões, vinham coroar o rei do fogo. Ao romper da aurora o corcel retraiu-se, e estacou. Apontava o dia no topo de uma cruz de pedra. Não passou dali. À medida que ia aclarando a manhã adelgaçavam-se-lhe as formas e ao primeiro raio de sol dissolveu-se desfeito em fumo.

Quando acabou de desaparecer, tangia um sino. D. Inigo olhou e conheceu o sítio. Estava junto da igreja onde fora sepultado seu irmão. Ao primeiro passo que deu, descerrou-se portal por si mesmo; ao segundo iluminou-se a capela repentinamente; ao terceiro as rosas vermelhas caíram secas e as brancas floriram juntas. Um cântico suave dentro levantava o Ave maris stella. Estava aplacada a vingança do morto. A fé, porém, debalde chamava ali por Inigo; ele não a ouvia. A voz do céu em vão lhe oferecia o perdão; ele, surdo, não escutava a palavra de misericórdia! Orava naquele momento a Deus muito longe, um santo ermita pelo maior pecador. Arrebatado em espírito, viu um homem cuspindo por ódio na cruz porta de uma igreja. O anjo Custódio, ajoelhado no cruzeiro, banhava de lágrimas as vestes luminosas; mas o desacato gelou-lhe o pranto, e, cobrindo o rosto com as asas, subiu na aragem até se perder nos raios dourados do sol nascente.

“A tua demência, Senhor, é infinita! — exclamou o justo. — Haverá perdão para o que renega o teu santo nome?”

Neste ponto a visão sumiu-se; as portas da ermida fecharam-se com estrondo; e uma voz, semelhante à da tempestade, bramindo nas selvas, repetiu ao longe: memento, homo, quia pulvis es!


II - NÃO HÁ GOSTO SEM PESAR

Naquele tempo, em terras de além-Douro, que rico-homem era mais poderoso e rico do que d. Ordonho, conde? Estendendo a vista dos eirados do castelo por vales, montes e campos, sabia que tudo era seu. A um aceno trinta cavaleiros metiam o pé no estribo, e centos de homens de armas e peões seguiam o seu pendão. Descendia da grande raça dos primeiros lidadores das Astúrias, raça de bronze nos ódios, e de ferro nas vinganças. A idade gasta os mais fortes, e açor velho não se remonta às águias. Quando na carreira o vento lhe sacudia as madeixas brancas, d. Ordonho sentia que os anos não haviam passado em vão. Só a neta, a formosa Ausenda, único amor da sua vida, podia distraí-lo das horas de tristeza. Mais do que filha, porque duas vezes era o sangue da sua alma, um sorriso dela quebrava-lhe a vontade, e uma lágrima só daqueles olhos lindos transformava em cordeiro o leão embravecido.

Os atalaias vigiam dos altos miradouros da torre de menagem. Os homens de armas cruzam-se nos eirados. Espreitam se rompe ao longe uma lustrosa cavalgada, que se espera?

O sol já se escondeu detrás do último outeiro; desmaiaram os derradeiros clarões no topo da cruz de pedra; levantou-se por fim a lua sobre as campinas, e nenhum cavaleiro, ou sombra dele, se avista em larga distância ao redor.

No castelo era véspera de noivado. Ausenda, a bela Ausenda, ia casar-se com Moço Ansures. Estava por horas a festejada véspera de São João, e por horas também estavam a cumprir-se catorze anos desde que os monges negros rezaram o ofício de finados em volta da tumba do cavaleiro assassinado.

Por que se via Ausenda tão pensativa olhando do seu balcão para a coroa do outeiro, que fica defronte? Córdova e Granada, os dois Édenes da formosura, entre mil não se ufanavam de possuir pérola de igual valia. Aquela beleza era sem par. Sorria-lhe o céu nos lábios; ondeavam os cabelos em tranças de ouro soltas à brisa; e os olhos azuis, onde amor suspira, oh! quem pudera vencê-los depois de vencido por eles! Delgado cinto aperta-lhe as roupas no corpo esbelto. O véu de tisso bordado ora folga livre com o vento, ora desce em pregas graciosas sobre o seio palpitante. Ao raiar da alva tinha saído. Os pés, como os da corça gentil, que a acompanha, fogem tão leves, que mal trilham os musgos das fragas na serra íngreme. As rosas acendem o rubor na face acetinada desmaiando os lírios. Boninas e cecéns tecem a coroa silvestre pousada na fronte. Ajoelhou à cruz solitária, e a oração matinal subiu casta e pura do coração ao trono do Senhor, nu meio das fragrâncias da aurora. O vestido branco desenha confusamente as formas, e visto de longe flutua nos vapores da madrugada. Dir-se-ia visão celeste que os raios da primeira luz vão desvanecer. Ela a chegar, e um cavaleiro a correr do lado oposto. O açor do Douro remata-lhe o capelo de aço. É d. Moço Ansures. Ajoelha a seu lado e juntos oferecem a Deus as primícias do amor.

— Voltais logo? — perguntou a donzela corando.

— Ao cerrar da tarde! — responde metendo-a na alma com apaixonado olhar.

— Tão tarde!?

— Quereis que fique? Mas o voto que fiz?!...

— Não! Mais...

— Ao cerrar da tarde, vivo ou morto, estarei aqui!

Separaram-se. Ele despediu o cavalo pelas gargantas da montanha, ela seguiu com a vista saudosa até desaparecer por trás do último outeiro.

Por que chora a bela Ausenda? O que lhe diz o coração? É por isso que a donzela cismava sozinha ao cair do dia no seu balcão? Seriam receios de noiva a combatê-la, ou saudades de namorada? Baixou a tarde, fechou-se a noite, e quando as estrelas começavam a tremer na abóbada do céu, recolheu suspirando. Quase ao mesmo tempo soava a sineta da atalaia. Donas, cavaleiros e pajens principiavam a entrar no castelo atraí dos pelos festejos. As armas reluzentes, as plumas de cores diversas, os tabardos de matizes variegados deslumbravam, vistos à luz dos fachos. O som das trompas, os latidos dos lebréus, os relinchos dos cavalos, e as vozes dos peões animavam de mil ruídos alegres o quadro do noivado. O conde Ordonho sobressaía no meio de todos pela estatura. Era como o carvalho antigo abrigando os arbustos debaixo da sombra. O seu brado vencia o estrépito.

— Pajens! Escudeiros! Fazei honra! — exclamava cortejando os recém-chegados com a boca cheia de riso.

Falta, porém, um homem na festa e com ele tudo falta. A última hora do dia, segundo sua promessa, deveria tê-lo trazido aos pés de Ausenda, e com a noite cerrada não chegava!... Do lado das montanhas não havia rebate de mouros. As almenaras apagadas não davam sinal de inimigos. Que motivo demorava pois o mancebo, quando o amor estava-o chamando tão meigo e desejado? Por que se ausentara naquele dia, em que tantos extremos o convidavam a não se apartar dos belos olhos que o prendiam? Um juramento sagrado! Um voto! Prometera a Deus, para expiar aos olhos de todos a união das duas casas, passar doze horas ajoelhado sobre o túmulo de seu pai. Por isso deixara Ausenda junto da cruz de pedra ao romper da aurora. Por isso as horas passavam e a saudade impaciente da noiva as contava tão vagarosas!

III - DEUS SEJA CONOSCO

Na sala de armas do castelo soam mil vozes de júbilo. Que luz faísca das malhas polidas e que reflexos, que cegam, saltam dos dourados capelos! Cavaleiros moços falam de amores, inclinados sobre os estrados das donas e donzelas. Violas e doçainas acompanham as cópias dos trovadores. Mais adiante, em turbilhões de cem cores, em colos ondeados e graciosos, giram e volteiam as danças, e o olhar furtivo de alguns pares promete, em breve, dias semelhantes a mais de um solar.

Na vasta quadra aparelhada para o festim, enquanto os convivas não entram, o vento geme por entre frisos e laçarias dos delgados colunelos. A lua, alta no céu, entorna pelos vidros corados das frestas golfadas de luz branca. De repente as trompas quebram o silêncio. Avizinha-se, e já se reflete nas paredes, o clarão de muitas tochas. Povoa-se a sala inundada de luz subitamente. Os escansões enchem as taças e fazem-nas circular em roda. Saúdes, aclamações, e vozes cruzam-se, trocam-se e voam em confusão jovial de um a outro extremo da casa. D. Ordenho parece remoçado. À sua direita senta-se Ausenda. Da esquerda um escanho vazio aguarda d. Moço Ansures. Defronte, em outro escanho, também vazio, estaria o pai do noivo, se pudesse deixar a sepultura. Cobre-o um véu de luto.

A meio do banquete as danças tornam a entrançar os pares como grinaldas vivas do festejo. Pelas portas abertas do alçáçar enxameiam incessantemente donas, cavaleiros e monges, convidados pela hospitalidade quase régia do rico-homem. As taças cheias de licor espumoso correm de mão ira mão. D. Ordonho, de pé, alça a sua, e com a fronte erguida brada:

— À paz dos cristãos! À ruína e confusão dos infiéis!

Uma longa aclamação responde à sua voz:

— Assim findem todas as discórdias entre irmãos!

Ainda não tinha pousado o vaso na mesa quando, voltando a vista, soltou um grito. Os convivas olharam também ficaram imóveis com a taças suspensas.

No lugar vazio destinado a honrar a memória do pai de Ansures, apareceu de repente um homem sentado. Vestia armas pretas com a viseira calada e na cota o açor bordado. Descalçando o guante direito, e empunhando a primeira taça cheia, ergueu-a lentamente.

— Bem falado, conde Ordonho! — exclamou. — À paz da noite de São João!...

Não bebeu, derramou o vaso, e o vinho, maculando a toalha, tornou-se vermelho vivo como sangue. No sítio em que pousou a taça uma malha de ferro em brasa queimou a alvura do linho. Alçou então a viseira. Os olhos, as feições e os modos eram exatamente os do cavaleiro assassinado havia catorze anos; porém os cabelos e as barbas brancas lembravam que por cima do seu corpo passara o frio da sepultura.

Alguns dos que o viram desejaram fugir, mas, petrificados por um poder oculto, não puderam mover-se. O horror gelava a todos.


IV - ENTERRO POR NOIVADO

Aqui frei Munio fez uma pequena pausa. Depois prosseguiu:

Dava meia-noite. A sineta da ermida repicou três dobres compassados. Ao primeiro as danças estacaram. Homens e damas, suspensos e petrificados, ficaram imóveis como estátuas. Ao segundo os sons emudeceram nas cordas das violas e alaúdes. A última nota tremeu solitária e reboou pelos vãos profundos das salas. Era surdo o sopro das trompas, e o canto dos jograis transformou-se repentinamente em dies irae que retumbou. Os cabelos erriçaram-se de horror. Ao terceiro dobre o castelo tremeu e vacilou nos alicerces, como se um terremoto o abalasse. Os eirados jogaram, as torres inclinaram pendidas. E o cavaleiro negro? Ainda o sino dobrava já tinha desaparecido. Que susto! Que pavor! Que imensos clamores! Muitos intentaram fugir. Debalde! As portas, sem ninguém lhes tocar, fecharam-se diante deles. O portal maciço gemeu nos quícios e cerrou-se por si mesmo. Mãos invisíveis alaram as dobradiças.

Ai noite de São João, noite aziaga! Valiam remos os olhos que por amor de ti choraram; a alcachofra benta ardendo não brotou a flor de esperança; o palmito simbólico, em vez de rosas e de frutas, só ramas de cipreste esfolhou sobre o leito do noivado. Nos paços do conde ninguém se entendia. Estava sobre eles o poder do inferno. O suor frio borbulhava nas faces dos cavaleiros, e o tremor dos mais ousados fazia tinir a espada contra a espora. De repente raiou uma pluma de fogo na escuridão. Cresceu, alastrou-se e em breve as nuvens de fumo enrolaram-se com as labaredas enroscadas nos grossos madeiros dos tetos. Jesus! Acudi! O castelo está a arder! Tudo isto se viu e se obrou em um abrir e fechar de olhos. E as portas cerradas, e os eirados tão altos, e o fosso tão fundo! Neste momento rompeu a lua outra vez o toldo sombrio, que a velava, e o seu clarão pálido lançou como um sudário sobre o rochedo talhado a pique, que se aprumava a curta distância sobranceiro ao castelo. As águas, rebentando ali à sombra de antigos choupos, ferviam de encontro às fragas, e despenhadas espumaram batendo em cachões no leito da ribeira, que lá embaixo bramia arremessada por entre a bronca penedia.

Onde está d. Ordonho? Junto de Ausenda desmaiada! Com ela nos braços por entre as chamas, que lhe crestavam o rosto, não correu, voou baixando de andar em andar, até ao terreiro. Aí, olhando, viu tudo cerrado, as labaredas serpeando cada vez mais vivas e o castelo pedra por pedra quase a desconjuntar-se. Os cavaleiros escondiam as lágrimas, envergonhados.

— Erusigis! Escudeiro!... A minha acha adamascada! — clamou o senhor de Santa Olaia. — Este pulso pode com ela. Nem diamantes a embotaram. Aqui todos! — gritou depois em grande brado.

Palpitou a esperança esmorecida nos peitos mais desalentados. Ergueram-se as achas... Golpes de cem machados, vigor furioso de cem robustos braços ferem a um tempo com ânsia mortal a porta maciça e chapeada. O roble gemeu, o ferro chispou fogo, os gonzos tremem... Mas nas tábuas nem sinais dos finos gumes. Os machados, estalando, lascam até aos cabos. Por cima do ruído das pancadas e do alarido das vozes rompem risadas altas. D. Ordonho volveu os olhos. Na coroa do rochedo campeia o cavaleiro negro. As águas espumavam por baixo dos pés do corcel; a mão direita brandia um facho; a esquerda sopeava com as rédeas o cavalo preto, quase no ar sobre o abismo.

— Conde Ordonho! Esta fogueira faltava à tua festa de São João. Acendi-a eu. Pago as arras da formosa noiva.

— Maldito!...

— Esquecias já d. Pedro Ansures, morto por ti há catorze anos?! Chegou o dia e a hora das últimas contas. O sangue dos teus vingará o sangue dos meus. Cumpriu-se o voto de Inigo Lopes.

Ditas estas palavras, como se o inferno as soprasse, as chamas em vagas furiosas investiram o castelo por todas as partes. D. Ordonho ajoelhou. No ombro tinha reclinado outra vez o lindo corpo de Ausenda sem sentidos. As faces desbotadas da donzela tocavam o rosto queimado do velho; as tranças de ouro misturavam-se com as madeixas brancas, os olhos lânguidos, em que expirava a doce luz da vida, cerravam-se mortais.

— Castigai-me, Senhor! — bradava o conde, chorando como criança. — O sangue verteu-o esta mão culpada... Feri a cabeça do pecador saciado de anos e de amarguras! Mas esta inocente! O que fez para acabar assim?... Poupai-a em vossa justiça!

Dizendo isto apertava a neta contra o coração. O que não daria naquele instante o senhor de tantos vassalos e castelos por alguns palmos de terra livre, por uma respiração pura da brisa noturna, que nos serros vizinhos refrigerava as misérias do escravo?

O conde ergueu-se de novo. Às almas viris podem vergar um momento, mas não quebram... As maiores dores calaram-se diante da sua dor; o pranto enxugou-se em todos os olhos; e os mais intrépidos estremeceram, vendo passar muda e terrível aquela vingança! Ei-lo, vai o velho fronteiro! Nem capelo de aço lhe cobre a fronte nua, nem arnês lhe veste o peito descoberto. Leva porém a morte escrita no rosto. O sombrio clarão do desespero reluz nas órbitas ensanguentadas. A voz emudeceu nos lábios, brancos e descorados. Deixai-o ir! É o castigo de Deus que se adianta! Inclinai-vos! É o santo amor de pai que o inspira!

A águia real não caiu logo. Varado o peito, sobe e perde-se nas alturas para depois baixar inerte. Vai morrer longe da terra sobre as nuvens. Que fogo ameaçador na vista imóvel! Que fria raiva no voo lento! Guarde-se o falcão. Primeiro perderá a vida que o rei dos ares. Assim era d. Ordonho!...

A lua escondeu-se. A tormenta rugia ao longe. O vento lastimava-se soturno. A distância, nos outeiros e piamos, refletia-se o clarão avermelhado do incêndio. O fumo em rolos salpicados de faíscas estendia-se como toldo imenso. As águas e o furacão confundiam os bramidos. Os relâmpagos lambiam a crista dos montes. O trovão estourava em estampidos medonhos.

A asa negra da tempestade varria a face da terra... Que vulto é aquele, que as labaredas rodeiam emoldurando-o encostado ao arco no eirado da torre Albarrã? Fogem-lhe aluídas debaixo dos pés as lájeas abrasadas e não recua. Sobre a cabeça cruzam-se mil centelhas e não as sente. Ao lado estalam e desabam os madeiros com fragor, racham-se e abatem as paredes, e não as vê! O temporal, fustigando os cedros, estronca-os; o raio, fuzilando, lasca os penhascos da montanha, as torrentes, crescendo túmidas, inundam as margens como rios caudalosos. Que escudo cobre, pois, aquele homem que todos os perigos e horrores da vida conjurados não o abalam? A desesperação! Que lhe importam ao desgraçado as ameaças do céu, ou as ruínas da terra? Esconde no seio a pior das mortes. Morrera em vida. O castelo de seus avós será o sepulcro do último descendente de uma grande raça.

Soltou por último do peito um rugido imenso. A cor lívida da ira dava-lhe à face o aspecto de um cadáver. Encurva o arco, retesa a corda, e a vista mede o espaço. Ai do que aparar o tiro! A seta só espera um aceno para voar sibilando ao seu alvo...

Três vezes estalou o trovão, e três vezes um lençol de fogo jorrou dos céus abertos. Soa distintamente o galope de um cavalo. As ferraduras, raspando as fragas, fazem saltar as faíscas umas atrás das outras. Armas brancas, capelo sem viseira, no peito o açor do Douro. Será d. Moço Ansures? À claridade dos relâmpagos, à luz do facho sacudido pelo cavaleiro negro, viram todos o coroei do mancebo enovelado sobre a aresta do precipício, quase a escorregar pelas rochas aprumadas. Cavalo e cavaleiro arquejam suspensos de uru fio sobre o abismo. O que Inigo lhe disse, o que ele respondeu ninguém o ouviu. O vento bramia forte. Pouco depois descortinava-se d. Moço enristando a lança meio corpo debruçado para o precipício, e o renegado arremessando o facho às águas para se rodear de trevas. O braço do Maldito alçou de súbito a espada e o golpe descia já... quando uma seta passa assobiando. O mancebo viu então o seu inimigo rolar aos pés do ginete e logo após um corpo dobado nos ares, resvalar, batendo nas pontas das rochas até se atufar dilacerado e disforme nos cachões da nascente, que espirram a grande altura espuma e sangue...

Do castelo, no eirado fronteiro, uma voz cheia e vibrante levanta brados de triunfo, e por momentos avulta a estatura gigante do conde Ordonho, cozida nas chamas, imóvel e majestosa, com os cabelos soltos ao temporal. Depois abateu-se a torre com grande estrépito, as quadrelas aluíram-se, as traves acesas remoinharam e caíram, e entre os destroços, como em leito tranquilo, o velho guerreiro adormeceu do sono eterno. Honra ao que morre amortalhado em suas armas e envolto no seu pendão! Ao cabo de sessenta anos de pelejas o fronteiro sepultou consigo a orgulhosa raça de Riba de Ave, e do seu castelo só ficaram de pé aquela torre negra, que além vemos, e a ermida onde jazem os ossos de Pedro Ansures.

— E d. Moço? — perguntou Martim Pais.

— E Ausenda? — acudiu d. Nuno.

D. Moço, cumprindo já de noite o seu voto, teve um pressentimento, e, cravando esporas no cavalo, despediu a carreira veloz por cabeços, fragas, e alcantis. Já perto do castelo, deu-lhe no rosto o clarão do incêndio e viu-o arder. Apertando o corcel correu como louco, e só parou quando o facho do cavaleiro negro lhe cegou os olhos. O que sucedeu então já vos contei. Apenas Inigo expirou, desfez-se o encantamento. D. Moço buscou Ausenda. Encontrou-a, mas sem vida! Levaram-na os monges à capela, puseram-lhe na cabeça uma coroa de cecéns, e a terra comeu de quinze anos a formosura mais invejada das Espanhas.

D. Moço, desde esse dia, não viveu. A saudade matou-lhe a alegria, a esperança, e a juventude. Nunca mais vestiu armas. O que iria pedir às batalhas? A glória? Não tinha com quem a repartir. A morte? Para quê? Não a sentia já no peito? A liberdade da terra do seu berço? Ai! Nem essa ideia mesmo podia fundir já os gelos daquele coração!... Sombra do que fora, o que fazia o desgraçado neste desterro cruel, sem afetos, sem amigos e sem consolações? Como o carvalho, que o raio feriu na força do crescimento, debruça os ramos mirrados e se torce e definha até cair, a dor e a memória, verdugos implacáveis das existências desgraçadas, minavam-lhe a vida, secando-lha na raiz.

Sobre a madrugada o sono pousava-lhe a medo nas pálpebras molhadas de lágrimas. Então a febre do delírio representava-lhe junto do leito a doce imagem, que trazia no coração. Era ela! Via-a, como nos dias ditosos. A mesma grinalda de flores do campo sustinha os cabelos louros que fugiam em ondas; as mesmas roupas alvas desenhavam as formas virginais; nos olhos sempre a luz suave do amor, que o fizera tão feliz; nos lábios aquele sorriso em botão, que se abria casto como rosa. O mancebo queria estreitar a visão querida ao peito, e acordava, chorando, porque só abraçara o ar. Neste tormento agonizou por meses até que Deus, compadecido, lhe enviou a morte a um mosteiro humilde, onde se recolhera.

Quando o amortalharam, os monges acharam-lhe unido ao peito, sobre o coração, um laço de cabelos; e no quarto de alva o frade que ficara orando a velar a tumba contou depois que vira aparecer uma dama, formosa como os anjos, inclinar-se triste sobre o corpo. De dentro do ataúde saiu um braço, e ela, com a sua mão na mo do morto, passar-lhe uru anel no dedo e cingir-lhe a coroa de boninas que trazia na fronte descorada. Um guerreiro de armas negras, e de estatura descomunal, por três vezes lutou para romper o círculo luminoso, que a rodeava, e outras tantas, vencido por braço invisível, se prostrou com a face no pó do templo. Eram as núpcias dos mortos, o noivado de Ausenda e de Ansures? Era ainda a sombra de Inigo Lopes perseguindo na donzela o sangue inimigo e a vingança contra o conde Ordonho? Altos mistérios de Deus. Quem ousaria perscrutar os segredos da sua justiça, e os prodígios da sua demência infinita?!

O castelo de Almourol (Conto), de Rebelo da Silva


O castelo de Almourol (Conto do século XVII)

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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CAPÍTULO 1
Ai, Virgem Santíssima! Não ganha a gente para sustos! Não bastava esta praga dos castelhanos, que vem aí, dizem, um poder do mundo deles pelo Alentejo abaixo?! Ó Sr. Romão Pires, donde eles estão aqui à nossa quinta é muito longe?

— Não é nada perito, não, Sra. Brízida de Sousa! Mas lá diz o adágio: aos que muito correm quebram-se-lhes as pernas... Sossegue. O Sr. conde de Vila Flor anda com eles a contas e não é para graças.

— O Sr. conde é muito bom senhor, bem sei, e de grande fama sempre ouvi dizer... Mas se ele ficasse mal agora?

— Ficávamos nós pior, isso é verdade... Melhor o há-ide fazer Deus. Oh, se meu senhor amo fosse vivo!... Não estava eu aqui posto ao canto como um estafermo!...

— Ora não diga isso por quem é. O Sr. Romão já andou demais por essas guerras e tragou bem maus bocados. Descanse, descanse, que o merece... O que seria do mim sozinha nestes palácios confusos, sem pregar olho há umas poucas de noites com medo... E que medo! Fantasmas e almas do outro mundo! Ó Sr. Romão Pires, diga-me: o demônio — salva tal lugar — terá poder de subverter consigo no inferno corpo e alma uma criatura batizada e remida nas santas águas?.

— Conforme! Se não estiver em estado de graça!...

— Credo! São Brás e São João! Meus ricos santos da minha alma, valei-me! Subvertida em corpo e alma?! Deus de misericórdia!... Sabe que mais? Quero que me escreva já e já à Sra. d. Madalena, contando-lhe tudo isto. Ela não pode consentir que a sua criada velha uma noite destas desapareça nas garras do inimigo tentador do gênero humano. Jesus!... Diga-lhe que nos venha livrar deste inferno, senão... eu cá por mim fujo! Primeiro a salvação da minha alma...

— Também eu não gosto nada disto, Sra. Brízida. Mas ânimo forte e coração à larga. O demônio parece que entrou de semana conosco, e, pelo que vejo, não leva jeito de nos querer largar. Desde que viemos para esta quinta...

— Desde que viemos... diz muito bem! Olhe, Brízida de Sousa me não chamasse eu, se depois da primeira noite não metesse um bom par de léguas entre o demônio e quem se preza de cristã batizada na freguesia de Santa Catarina de Lisboa, nascida de pais católicos, tementes a Deus, e sem eiva, nem leiva de mau sangue!... Mas o amor, que tenho à minha menina, coitadinha, tudo me faz suportar com paciência... Espere! Não ouviu bulha? Assim a modo de ferros arrastados pelo sobrado?

— Nada. Foi cadeira, ou banco deitado no chão lá em cima. De dia não é que eles fazem das suas...

— É verdade. Guardam-se para a noite. Que noites, que eternidade de noites, Senhor Deus de misericórdia! Parece que nunca a gente lhes vê o fim. E que me diz então a estas despedidas de maio e entradas de junho?!...

— Não são de convidar, Sra. Brízida! Velho sou, mas não me lembro de ano mais carrancudo. Chuvas, relâmpagos, trovões e ventanias que levam tudo pelos ares! Safa!

— E nós, coitados, neste ermo, neste desterro! Ai minha Senhora Santa Bárbara! se a tua serva e devota não deixa aqui os ossos, grande milagre será. Escute!... Agora não foi engano!... Não ouviu risadas lá em cima no vão das escadas?

— Não é nada. São os rapazes do feitor jogando às escondidas.

— Pois, Sr. Romão Pires, afirmo-lhe por minha alma, que em Lisboa, quando minha senhora d. Madalena me chamou e me disse: “Brízida, a sua menina anda fraquinha e enfezada, e o irmão também, os físicos não acertam com o remédio, e frei João entende que estas tosses do peito, assim teimosas, não se despegam senão com a mudança de ares. Bem sabe, não posso sair da sociedade por estes dias mais chegados — e é assim, coitada, por causa da sua demanda —, acompanhe-me os meninos, e conte que fico tão sossegada como se eu mesma fosse...” Quando me disse isto, e eu lhe beijei as mãos pela mercê, se pudesse adivinhar o que nos esperava aqui, asseguro-lhe que me encolhia como a tartaruga na concha; e viesse quem quisesse... Isto não é palácio, nem quinta, é um verdadeiro inferno. Deus salve a minha alma!

— A Sra. Brízida não diz o que sente. Vindo a Sra. d. Maria e o Sr. d. Pedro ninguém a arrancava de ao pé deles.

Tem razão. Ninguém! A ela criei-a, mamou o meu leite, e sua mãe não lhe quer mais, não, deixe-me ter esta presunção... A ele vi-o nascer, e os primeiros braços, que o embalaram, foram estes que há de comer a terra. Tão pequeninos os conheci, e tão formosos e crescidos os vejo agora, que não me posso acostumar a crer, que um dia hei de ter o gosto de os abraçar homens!... Quando me ponho a olhar para eles, parece-me às vezes que não pode ser, e que tudo isto é sonho...

— Então!? Eles fazem-se homens, e nós fazemo-nos velhos. Não há remédio. O mundo vai assim.

— Bem sei. Mas, não os acha muito delgados, muito afinadinhos? Dizem que é da idade e do muito crescer, e que hão de encorpar depois. Deus queira! São os negregados estudos, que me ralam o corpo e a alegria dos meus meninos. A Sra. d. Maria manhãs e tardes inteiras à almofada, bordando de branco, de matiz, e a ouro. E com que perfeição!... Que dedinhos de fada aqueles! E o Sr. d. Pedro? É mesmo uma dor de alma vê-lo dia e noite amarrado à banca dos livros, e que livros! Latins, gregos, e não sei que outras trapalhadas de retóricas... Quem tem a culpa de tudo, o culpado de tudo o que pode acontecer, é o teimoso do Sr. frei João, que à fina força quer o sobrinho sábio. Depois que faleceu o pai (Deus o tenha em glória!), não se nos tira de casa, e tanto há de quebrar-me a cabeça ao meu menino, que um dia treslê. Pois olhe, Sr. Romão Pires, vá com o que lhe diz uma ruim cabeça: mais vale asno vivo, que doutor morto.

— O Sr. frei João — atalhou Romão Pires, aproveitando uma pausa da Sra. Brízida — é muito bom tio, e desde que morreu meu senhor e amo tem sido um segundo pai para os meninos. Quer os sobrinhos prendados e de grandes merecimentos. Não lho levemos a mal. Sangue ilustre bens da fortuna possuem eles...

— Por isso mesmo! Não precisava atanazarmos tanto! Não mos deixa respirar. Mestres disto, mestres daquilo, música para aqui, dança para acolá... latins, filosofias, ai, que barafunda! Nem eu sei como as pobres crianças não têm endoidecido. Cá por mim já o miolo há muito tempo me tinha dado volta, tão certo como chamar-me Brízida de Sousa.

— Ninguém aprende sem trabalho. O Sr. frei João não é nenhum néscio...

— Nem eu lho chamo. Deus me livre. Néscio?... No convento e na corte dizem que não há outro doutor como ele.

— Pois então deixe-o, que bem sabe o que faz. Estes sobrinhos são a luz dos seus olhos, e depois tão meigos, tão aplicados.

— De mais, de mais, para a idade, Sr. Romão Pires. Assustam-me. Não parecem deste mundo, nem deste século. O Sr. frei João é muito extremoso, e o que faz é por desejar seu bem deles, mas, graças a Deus, a casa é rica e não era preciso amofinar-me tanto os meus meninos.

O diálogo de que acabamos de ser fiéis e escrupulosos expositores era travado em uma antiga sala, vasta e pouco alumiada por estreitas janelas, cujas vidraças de postigo mal deixavam coar o dia. Das paredes em reboco pendiam farrapos soltos dos panos, que as tinham forrado. Em outras partes as colgaduras aderiam ainda aos filetes, e representavam em suas pinturas desvanecidas figuras descomunais, debaixo de árvores anãs, e no meio de arbustos e flores monstruosas. Os tetos cujas vigas lavradas inculcavam a paciência de um artífice do século 15, subiam a grande altura, enegrecidos pelo fumo da imensa chaminé de pedra, ornada de leões de mármore nas bases, e rematada com um brasão de relevo alto, orlado de ramos de silvas e amoras.

O Sr. Romão Pires, escudeiro de quase setenta anos de idade, enxuto de carnes, e amarelo como uma cidra, erguia-se direito e aprumado como uma das faias mais direitas da quinta. Nascera e fora criado desde a infância naquela casa, e não conhecera nunca outros amos senão d. Vasco, e d. Madalena. Acompanhara seu senhor, assim lhe chamou sempre, em todas as campanhas da guerra da restauração, pelejando esforçadamente ao lado dele, e assistindo aos cercos e batalhas mais notáveis desde 1642. A história dos perigos, em que se tinha achado, e a narração das proezas de seu amo, enfeitada de episódios e comentários, serviam de saboroso pasto aos serões da família, obrigada a engolir como artigos de fé todas as aventuras da nova “Távola Redonda”, que a imaginação do escudeiro entretecia na tela interminável de sua cansativa Ilíada.

A Sra. Brízida de Sousa, que tão avexada ouvimos queixar-se das aparições, era matrona de mais de cinquenta anos. Baixa, roliça e risonha, suas faces lisas, cheias e coradas ainda tinham a frescura de duas maçãs rainetas. As feições, pouco acentuadas, e quase infantis, sumiam-se entre as roscas das nédias bochechas, e os seus ares beatos brigavam na candura afetada com uma larga experiência da vida. Toda aquela pequena e buliçosa matrona respirava asseio, cuidado, devoção, e azáfama. Colaça de d. Madalena, e casada com um dos caseiros mais abastados do morgado, depois ama de leite da filha primogênita da casa, enviuvara sem filhos, nem saudades do estado, resumindo todos os afetos nos seus extremos pela fidalga, e na idolatria das duas crianças, que trazia sempre na boca e no coração.

Trajava por costume roupas escuras. As toucas alvíssimas, caídas talvez demais para a testa, e o corte dos vestidos à beguina, afirmavam o programa da sua virtude inacessível. Supersticiosa, e com a memória recheada de orações, de visões, e devotas crendices, o seu defeito capital era ocupar-se muito com as vidas alheias, enfiando um rosário de conselhos a propósito de tudo, e mexericando, por indiscreta, amos, criados, e hóspedes, mas sem intenção ruim. Todos se encobriam dela, quanto podiam, porém ninguém a aborrecia. Temiam-se da intemperança de suas confidências, mas confessavam a bondade do seu caráter, que era na verdade excelente.

Romão Pires, tirando a estafada repetição de suas campanhas, representava em tudo o oposto dela. Sério, como um santão, erubesourado, e quase sempre com a aguda barba escondida na gargantilha, se levantasse a vista e a curiosidade para os negócios dos outros, cuidaria faltar a Deus, a si, e ao mundo. Sua boca era sagrada, e segredo que lhe caísse no peito ficava sepultado nele profundamente.

Apesar destas qualidades contrárias e talvez mesmo pelas possuir, era o conselheiro nato da Sra. Brízida em todos os casos intrincados e o defensor convicto dos seus medos e indiscrições. — “Boa alma! Boa alma!” — respondia aos que a censuravam. — “Tem o defeito de falar demais, mas é uma santa pessoa.” Brízida pagava-lho. Para escutar a milésima edição das guerreiras epopeias do escudeiro, até fazia o sacrifício de suspender a loquacidade própria!...

O Sr. Romão Pires, amortalhado na eterna roupeta e numas calças cor de pulga, esguio, comprido e hirto, com um par de óculos de aselha montado no cavalete do interminável nariz, não desabotoava a seriedade do rosto, nem dava férias ao enfado crônico senão para sorrir à sua comadre Brízida. Aqueles olhos verdes desbotados não se animavam senão para festejar algum bom dito da matrona, cujas falas açucaradas contrastavam com a voz rouca e soturna do antigo campeão da independência portuguesa. A predileção honesta, mas decidida dos dois um pelo outro, não escapara aos criados, e todos acreditavam que, cedo ou tarde, o vínculo matrimonial ainda viria apertar mais estreitamente a união de duas almas já tão íntimas.

A quinta, em que residiam havia duas semanas, situada na margem direita do Tejo, estendia as matas e charnecas até a ribeira, que separa Paio Pele da Vila de Tancos, da qual a casa, construída sobre uma colina, distaria pouco mais de dois ou três tiros de espingarda. Era palácio antigo, talvez fundado por meados do século 14, acrescentado, e reparado pelos fins do 16. As ameias, já derrubadas em muitos lanços de muro, proclamavam a sua velha e legítima nobreza. Duas alas terminadas por torres fortificadas em tempos mais remotos, saindo fora do corpo principal do edifício, formavam os lados do espaçoso terreiro, rasgado diante da fachada, cujas doze janelas de arquitetura irregular olhavam para ele. No terreiro se tinham jogado canas e corrido touros nos aniversários festivos dos senhores.

A casa era antiga, como dissemos, e estava muito velha. Nas juntas e articulações das pedras carcomidas cresciam tufos de viçosas parietárias. Uma arcada sombria, sustida por grossas pilastras, resguardava as entradas das duas escadas, que subiam em volta de caracol até o primeiro andar. Outra porta, por baixo do centro da arcada, dava serventia por uma rampa para os subterrâneos alumiados ao rés-do-chão por agulheiros. No piso nobre corria uma fileira de salas fluas, frias e tristes, lajeadas de ladrilho. Sobre corredores por onde o ar e uma luz escassa a custo circulavam, abriam as alcovas suas portas envidraçadas. Seguiam-se muitos aposentos, mais ou menos escuros, cruzados de passagens de escadas furtadas, e de portas falsas, compondo desde o andar térreo até aos vãos debaixo dos telhados, uma rede inextricável, um verdadeiro labirinto. A casa de jantar, forrada de carvalho em molduras, prolongava-se à maneira de refeitório entre dois extensos corredores. Na extremidade de um deles baixava uma escada para o jardim, na outra empinavam-se os degraus da escada, que ia para os vãos, os quais por cima corriam em largura e comprimento da casa. As torres comunicavam-se com o corpo do edifício por duas portas esguias e abobodadas, aferrolhadas havia longos anos. Os eirados, meio abatidos, vertiam-lhes dentro em torrentes as chuvas caudais do inverno.

O jardim, ornado de canteiros e de poiais azulejados, com um tanque de pedra no meio, e um sátiro hediondo entornando a urna disforme, criava algumas roseiras e craveiros degenerados entre urtigas, papoulas, e malmequeres bravos. As hortas mais cuidadas pegavam com as terras de pão, cingidas de valados altos, defendidos com piteiras. O aspecto do palácio era carregado de melancolia. Rodeado de solidão justificava em sua tristeza as queixas, que ouvimos à Brízida. Por que escolhera, porém, d. Madalena aquele ermo para abrigo dos filhos e dos criados, quando tinha tantas propriedades mais alegres e reparadas ondas pudessem respirar, longe do bulício da corte, o ar do campo?

D. Madalena descendia da família ilustre dos Coutinhos Noronhas, de que fora tronco e progenitor o marechal Gonçalo Vaz Coutinho, senhor do couto de Leomil, meirinho-mor por el-rei d. Fernando na comarca da Beira. Formosa, discreta, e recatada, perdera seu marido, d. Vasco Mascarenhas mestre de campo dos exércitos de d. João IV e d. Afonso VI, havia três anos, e ainda não enxugara as lágrimas da viuvez. Em idade de merecer e de aceitar requebros, tinha-se recolhido na sua casa de Lisboa, onde não recebia senão as visitas de alguns amigos antigos da família, guiando-se em tudo pelos conselhos do frei João Coutinho, seu irmão, grande sábio, e doutor em cânones e teologia, o qual se encarregara de dirigir a educação literária dos sobrinhos.

D. Vasco Mascarenhas, tão distinto, pelo nascimento, como pelas qualidades do caráter e do espírito, unira às propriedades de sua casa, já mui rica, o senhorio da vila de Paio Pele e do castelo de Almourol, que sua mulher lhe trouxera em dote, mas quase sempre ocupado na corte com os negócios políticos e no serviço ativo das armas, só duas vezes visitara de fugida aquele solar desamparado, que principiava a cair em ruínas, entregando o granjeia das terras e a cobrança dos direitos do donatário, com excessiva confiança, diziam os murmuradores, à probidade equívoca do feitor Paulo Rodrigues, camponês ávido e ladino, que mais as desfrutava como usurário, do que as geria como administrador. Avisada de que o palácio e as fazendas se arruinavam naquelas mãos viscosas, d. Madalena resolvera ver por seus olhos o verdadeiro estado das coisas, na companhia de seu irmão, frei João Coutinho, ficando para depois decidirem ambos o que julgassem mais conveniente.

Outra razão serviu de estímulo para a partida dos filhos da casa, dissimulada com o pretexto da necessidade da mudança de ares. Antigas relações de parentesco ligavam a família dos Mascarenhas com o segundo ramo dos Noronhas, cujo opulento morgado possuía grandes bens na mesma comarca, onde existia o solar dos Coutinhos. O lugar do Arrepiado, que tão viçoso beija as águas do Tejo, defronte de Tancos, com dilatados campos e charnecas, pertencia ao velho d. Nuno, cujo filho único, d. Afonso de Noronha, saíra da corte para o exército do Alentejo. D. Afonso, ilustre pelo berço, e já ilustre pelo valor, vira crescer em beleza, primeiro com assombro, depois com paixão ardente, sua prima d. Maria de Mascarenhas, e não encobrira de seu pai o amor que ela lhe inspirava. D. Nuno confiou este segredo à ditosa mãe, e ela, não podendo desejar casamento mais vantajoso, nem mais da sua escolha, antes de dar o sim, quisera, contudo, sondar disfarçadamente as inclinações da donzela. Conheceu com alegria, que d. Afonso começara a apoderar-se daquele coração, que em sua inocência principiava a balbuciar apenas as primeiras e vagas aspirações de um sentimento, que não sabia definir ainda.

Corria o ano de 1663. D. João de Áustria, à frente das armas castelhanas, tentara o derradeiro esforço, invadindo Portugal com dezesseis mil soldados, e os nossos generais, juntando as forças, mal conseguiam opor-lhe cinco ou seis mil. A cidade de Évora, que devia ser um dos baluartes da resistência, acometida no dia 14 de maio, capitulara, depois de pouco honrada defesa. Este revés agravou os receios, e as partidas de cavalaria inimiga chegaram a insultar Alcácer. D. Sancho Manuel convocara imediatamente os oficiais a conselho, e só um voto, o dele, aprovara a conveniência de ferir a batalha, que as ordens do governo prescreviam como remédio extremo. A perícia de Schomberg, temendo como inevitável o desastre, viu nele o último precipício da independência; mas a feliz temeridade do conde de Vila Flor, fechando os olhos à prudência, aplaudia o encontro decisivo dos dois exércitos, como o único meio, embora desesperado, de salvar a província e o reino da sujeição estrangeira.

O povo de Lisboa, assustado, furioso, e alvorotado nas praças, assaltara as casas de Sebastião César, do marquês de Marialva, e de Luís Mendes de Elvas. A todas as horas se aguardavam notícias da marcha das tropas, e todos tremiam. Um lance repentino podia sepultar para sempre as esperanças de Portugal!

A filha de d. Madalena, d. Maria de Mascarenhas, mais velha dezoito meses do que d. Pedro, seu irmão, contava nesta época dezessete anos, e sem vaidade merecia ser admirada como uma formosura completa. Talvez que o único senão de tanta beleza fosse a sua mesma perfeição irrepreensível. No rosto, graciosamente emoldurado pelas luxuosas tranças, confundiam-se os lírios e as rosas na mais mimosa frescura. A boca, fina e espirituosa, corada como um botão nacarado, breve como um suspiro, quando o sorriso a animava, tinha uma expressão adorável. Nos olhos pretos, que as assedadas pestanas cobriam às vezes de uma sombra de enlevada melancolia, a luz serena raramente se inflamava, mas sua tranquilidade lânguida deixava adivinhar, que se a paixão dormia ainda, fácil lhe seria, despertando, iluminar de súbito e vivo fulgor aquelas pupilas descuidadas. A mão parecia formada pelo modelo duma estátua primorosa. O pé estreito e arqueado pousava-se tão leve e elegante, que a vista como que involuntariamente se alçava a buscar nos ombros as asas de Sílfide. A voz tinha condão sedutor. A estatura, um pouco acima de ordinária, e flexível couro hástea de uma flor, também se dobrava como ela, parecendo que o esbelto corpo de melindroso não podia com o doce peso da fronte, em que as mil graças da primeira e namorada primavera competiam umas com as outras sem se vencerem.

As posições e os gestos em sua desafetada singeleza respiravam a atração, que o cálculo debalde se esforça por imitar. Tudo desmentia o artifício. O requebro das maneiras, o império irresistível da vista e do sorriso, e a magia arrebatadora das falas e do semblante, nasciam espontâneos, prendendo os sentidos e a admiração. A formosura da alma ainda era maior, se é possível. O coração retratava-se na fronte límpida, e os infinitos tesouros de ternura e de abnegação, que por ora Concentrava nos extremos de filha e de irmã, quando se abrissem a afetos mais veementes, prometiam todas as venturas ao amor ditoso. A pureza mais casta, a da ignorância sublime da infância, vestia-lhe de candura todos os pensamentos. O pejo era nela tão sensível, que afrontado não só faria corar o rosto, mas o corpo. Compassiva e caridosa sabia conciliar a altivez do sexo com a brandura da índole e a firmeza da vontade. Os dotes de espírito esmaltavam as qualidades morais.

Talvez não houvesse na corte dama ou donzela tão instruída na lição das boas letras. Os melhores livros de prosa e as obras mais aceites e castigadas dos poetas portugueses, espanhóis e italianos, escolhidos por frei João, eram a sua companhia certa nas horas de repouso.

D. Maria prezava em d. Afonso de Noronha todas as distinções que o exaltavam. Valia menos, porém, a seus olhos a ilustração do berço, do que a elevação do caráter e a fidalguia das ações, que em idade tão verde quase o haviam tornado um paladino. Não seria mulher, contudo, se não a confirmassem neste juízo a presença insinuante do mancebo, a gentileza do seu porte e a nobre expressão da sua fisionomia. Os olhos da donzela, sempre pensativos, encontrando os olhos vivos e rasgados do primo, onde riam as ilusões da vida e da juventude, nunca fugiam deles, senão a furto, e as rosas mais acesas das faces confessavam o que tentaria encobrir em vão se acaso soubesse dissimular. Nunca os lábios dos dois tinham soltado uma palavra, que revelasse o que sentiam. Amavam-se. A alma dum trazia sempre gravada a alma do outro, mas só a eloquência da vista, indiscreta às vezes, traíra o segredo.

D. Afonso, não podendo por mais tempo calar a chama, que o abrasava, tinha declarado ao pai, momentos antes de meter o pé no estribo e de partir para a campanha, que este amor encerrava todo o futuro de suas esperanças, entregando-lhe a sorte dele. Sabemos que d. Nuno não perdera a ocasião, e que d. Madalena aplaudia o enlace proposto.

A chegada repentina dos filhos de d. Madalena, da aia e do escudeiro, com alguns criados velhos, colheu de sobressalto o feitor Paulo Rodrigues. Tomado de súbito o manhoso camponês soubera disfarçar o embaraço e as apreensões, mas custara-lhe a conformar-se com a presença dos amos na casa, que havia tantos anos estava acostumado a olhar mais como sua do que deles. Mandou varrer e assear à pressa duas salas e algumas alcovas do andar nobre, para os hospedar, recolheu a mulher e os filhos nos vãos do palácio, e ainda se lhe carregou mais a viseira quando soube que a senhora e frei João Coutinho poucos dias se demorariam atrás da família.

No primeiro dia reinou profundo sossego, mas na segunda noite, mal a última pancada do sino batera as doze horas, romperam as diabruras nos quartos da aia e de Romão Pires. Apagaram-se todas as luzes de repente por si mesmas. Estalaram nos corredores risadas infernais soaram ruídos de ferros e cadeias arrastadas. Só ao alvorecer é que tudo desapareceu.

O escudeiro, lembrado dos antigos feitos, apesar do tremor, que lhe sacudia os membros, quis fazer e fez cara feia ao demônio. Na terceira noite levantou-se da cama, engrolando padres-nossos e ave-marias, petiscou lume, acendeu uma vela, abriu a porta de manso e saiu ao corredor, quase em vestido de banho, mas com a comprida espada nua debaixo do braço. Depressa se arrependeu. Aos primeiros passos um sopro forte apagou-lhe a luz, bramidos roucos e próximos gelaram-lhe o sangue, e um clarão momentâneo e sulfúreo mostrou-lhe, envolto no sudário, um espectro descomunal e ameaçador.

Esta horrenda visão deu-lhe com os brios em terra; e, virando costas ao inimigo, logrou refugiar-se no seu catre com a cabeça debaixo das roupas, ato de valor, em que a Sra. Brízida de Sousa o acompanhava conscienciosamente havia muitas horas. Pela manhã os dois velhos pareciam desenterrados.

O aposento onde d. Maria de Mascarenhas dormia e uma criada, não foi mais respeitado, e a donzela, transida de susto, contou em vigília continuada as longas horas, que mediaram até ao amanhecer. D. Pedro ainda padeceu mais. Acordando sobressaltado ao impulso de mãos brutais e no meio de escuridão profunda, sentiu-se arrancar do leito e balouçar dentro das cobertas entre uivos e risadas.

Paulo Rodrigues, pelas oito horas, veio saber da saúde dos amos, e, ouvindo da sua boca a lastimosa história dos tormentos e perplexidades noturnas, contentou-se com encolher os ombros, e observou serenamente, que em vida de seu pai já tinham muito má fama as casas do andar nobre.

As noites seguintes não foram mais tranquilas. Os espectros e duendes tinham decerto reservado aquelas espaçosas salas, e os corredores, para teatro de suas diabruras. Dir-se-ia até que o tempo conspirado com eles os ajudava a aumentar o pavor dos hóspedes. Rebentaram as trovoadas de maio tão carrancudas e violentas, que os céus se abriam em relâmpagos, e a terra tremia com o ribombo dos trovões. As chuvas caíam tão impetuosas, que as estradas ficaram convertidas em leitos de torrentes e as terras baixas em lagoas. O Teto, cheio e empolado, alagava as margens, e suas águas batiam enfurecidas contra os penedos sobre que se ergue o castelo de Almourol, salvando por cima do cais em cachões de espuma. Ao oitavo dia, acalmaram-se as tempestades, mas redobraram de força os malefícios noturnos, com terror e espanto sumo dos recém-chegados.

Avexados, trêmulos e fora de si, reuniram-se todos e determinaram mudar a residência para os aposentos do castelo, que não tinham desabado ainda minados pelos séculos e pela indiferença; mas o feitor, que estabelecera neles uma filha casada, dissuadiu-os do propósito, ponderando que as salas e os quartos do velho edifício dos templários, além de frios e demais nus, que os do palácio, não eram menos perseguidos de visões. Por horas mortas, exclamou ele, as almas dos cavaleiros tornavam aos sítios, onde tantos anos os corpos tinham vivido. Nas guaritas de pedra, pelo adarve das muralhas, e nas salas de abóbada, espectros cobertos com o manto branco, ornado da cruz vermelha da famosa milícia religiosa, apareciam repentinamente, e no silêncio da noite sentia-se o tinir das grevas e sapatos de ferro sobre as lájeas e ouvia-se a voz das sentinelas. Até raiar a aurora não se calavam na sala de armas as vozes, as risadas, e as blasfêmias. Escutando esta descrição horrífica, Brízida de Sousa e Romão Pires olharam consternados um para o outro, e depois de se persignarem devotamente, não querendo precipitar-se de Cila em Caríbdis, preferiram suportar as travessuras menos estrondosas dos duendes da quinta. Escreveram entretanto a d. Madalena, pedindo que os tirasse daquele purgatório o mais cedo possível, ou que viesse sem demora em companhia do Sr. frei João desalojar os espíritos diabólicos, cuja audácia zombava da água benta e exorcismos do vigário de Tancos. Os dois honrados servos confiavam que a grande ciência do frade doutor e as virtudes do hábito de São Domingos sairiam vitoriosas com certeza da rebeldia de Satanás e da maldade dos seus assessores.


CAPÍTULO 2
Em 1663 campeavam ainda intatas as muralhas, as torres, e a cerca exterior da fortaleza reconstruída no ano de 1170 por d. Gualdim Pais, defronte de Tancos. Cinco séculos, passando por cima delas, não haviam desconjuntado as quadrelas gigantes, nem aluído o cimento indestrutível, que mesmo ainda agora parecem desafiar a ação do tempo e o braço infatigável dos demolidores. A ordem do Templo, transferida de Castro Marim para Tomar, a sede da sua vitoriosa milícia, estendera rapidamente pela Estremadura os membros robustos. Afonso I, liberalizando-lhe doações e privilégios, e enriquecendo com largos senhorios os monges soldados, confiara quase exclusivamente ao seu valor a guarda e defesa dos territórios conquistados nela. Ega e Soure, Pombal e a Redinha hasteavam as cores do Templo. A Cardiga, Ceras, e outras povoações, cobriam-se também com as dobras do famoso estandarte bipartido. As chaves das duas entradas da província estavam nas mãos dos cavaleiros. Defronte da moderna Constança, na confluência dos dois rios, o castelo do Zêzere cortava o passo aos agarenos da Beira Baixa, enquanto, suigindo do meio das águas, o castelo ao Almourol fechava o caminho aos vális do Alentejo e da Andaluzia.

As ruínas que vemos hoje debruçadas sobre o rio, contam aos que sabem interrogá-las mais de uma página da epopeia portuguesa. Assentada sobre um ilhéu quase oval de rochedos sobrepostos, amontoados talvez ali caprichosamente pelo ímpeto de violenta erupção vulcânica, as elevadas torres do velho castelo, que as voltas do Tejo ora encobrem, ora deixam descortinar de longe, erguem-se mutiladas e enegrecidas pelo hálito mirrador dos séculos. Grinaldas de heras penduram-se em festões das ameias desmoronadas, ou se arraigam em tufos virentes nos interstícios dos panos rotos das muralhas. O arrojo daqueles penedos, tão arremessados que o dedo de uma criança parece suficiente para os fazer escorregar com o muro que os coroa, para o leito do rio, espanta os olhos sobressaltados daquele equilíbrio ousado e quase milagroso. Areias acumuladas, e alguma terra de aluvião formam o solo, onde cravam as raízes os choupos, os salgueiros e os chorões, cujos troncos torcidos se penduram de cima das fragas até roçarem as águas com as ramas descabeladas. Fiteiras enormes criam em algumas partes os penhascos aprumados ou rebentam das fendas das rochas meio precipitadas. Uma vegetação ativa e luxuosa veste de verdura aquele caos de moles imensas sustidas há séculos no meio da ameaça constante de uma queda instantânea.

No ano em que passaram os sucessos que refere esta verídica história, o aspecto do sítio era sim bronco e alpestre, como a natureza o formou, mas a assolação não o havia visitado ainda, agravando-lhe a melancolia. Do lado do ocidente quatro torres circulares, levantadas como sentinelas de granito a igual distância umas das outras, alçavam as frontes torvas e já tostadas do tempo. Entre a segunda e terceira rasgava-se a porta atualmente intransitável do castelo, com a sua volta de ogiva e grossos batentes de castanho chapeado. No meio do guerreiro edifício avultava a torre de menagem, e logo adiante, em curto intervalo, outra quadrada também, com eirados cingidos de ameias. Uma janela ornada de lavores em ramos, aberta a dois terços da altura, esclarecia os aposentos do segundo piso, enquanto da parte oriental duas frestas do mesmo estilo davam claridade à sala de armas. Cinco torres guarneciam o lado do nascente. Aí a muralha subia a grande altura, acompanhando as sinuosidades do terreno. O cais ficava ao sul, e o fosso natural, que rodeava os muros, agora cego de entulho, corria profundo e despenhado. No interior da fortaleza, onde tudo hoje são ruínas e pedras soltas, enroscadas de ervas e de silvas, onde os cactos silvestres brotam gigantescos, era o pátio espaçoso por onde se entrava para os andares. Raras e esguias frestas alumiavam aqueles aposentos, pouco espaçosos, mas enfeitados de altas e ricas laçarias. Em 1663 a obra da destruição principiava a anunciar-se apenas. Apesar de fluas, as salas ainda conservavam sua beleza severa, e nos eirados e adarves, se não alvejava havia mais de trezentos anos o manto branco dos templários, se algumas heras, trepando, se balouçavam à mercê do vento, e se as torres e muralhas mostravam já a cor adusta, que é para os monumentos o que são as cãs nos velhos, uru testemunho irrecusável de que viram e viveram muito, não se tinham esmorecido, contudo, nem apagado ainda nenhum dos vestígios dos grandes dias de luta. Almourol no meio do Tejo, semelhante a um titã com metade do corpo fora das águas, ainda podia ameaçar, forte e intato, os que ousassem arriscar se ao alcance de seus tiros. Firme e inexpugnável cuidava no vigor de sua robusta velhice zombar dos séculos, como as crianças zombam dos anos, bem alheio de supor, que na transição da idade grave para a decrepidez sua decadência seria rápida, e que, espectro de granito, suas ruínas diriam às gerações indiferentes da nossa época, que eterno e grande só é Deus!

Em uma das salas baixas da velha torre de menagem, toda de abóbada, e ornada de mobília rústica, estavam sentados, um defronte do outro, os dois ricaços da terra, ligados pelos vínculos do parentesco, e mais ainda pelas raízes de interesses recíprocos. Feitor Antônio Rodrigues ajudava piedosamente seu genro e consocio Pedro Lavareda a ingurgitar copiosas libações de um vinho, que escaldaria outras goelas menos estanhadas. Sobre a grande mesa de pau-santo e pés torneados, que servia de altar aos dois zelosos sacerdotes do Baco daqueles contornos, avultava um alentado canjirão de barro bojudo, e cheio até a boca. Principiara a anoitecer, e uma candeia enorme de três bicos, semelhante a monstruoso aranhiço, alumiava a casa escassamente. Duas espingardas, carregadas e engatilhadas, jaziam ao canto, prontas para servir à primeira voz.

Antônio Rodrigues era corpulento, espadaúdo e reforçado. Faces largas e cheias, bastante roliças, pescoço curto e taurino, cabeça enterrada entre os ombros, peito amplo e bombeado, e pernas grossas e firmes denunciavam nele o vigor dum atleta unido a uma saúde inexpugnável. Inculcava apenas sessenta anos, mas os vizinhos do seu tempo punham-lhe mais dez sem receio de erro, e acertavam. Mas era uma velhice verde e jovial, que não se inclinava ao peso dos anos, que o trabalho não desfalecia, antes reanimava, e que prometia, assim viçosa e robusta, chegar a um século completo, rindo-se dos catarros, dos reumatismos, e ainda mais da apoplexia fulminante prognosticada pelo douto Esculápio, o licenciado de Tancos, seriamente amuado por nunca ter de receitar nem um xarope àquele cliente invulnerável às chuvas, aos frios, e a todas as temeridades, a que um mancebo se não atreveria impunemente!

Antônio Rodrigues trajava à camponesa, com asseio, mas sem bazófia. Gibão e calças de baeta escura, carapuça de lã, e o inseparável varapau ferrado na ponta constituíam o uniforme do ativo Triptolemo. Uma grenha de cabelos grisalhos, crespos e bastos, descia a afrontar-lhe a testa, pouco sulcada de rugas. O sorriso enroscava-se perene nos beiços grossos e corados. Conservava intatos ainda, e brancos de jaspe, como os de um tubarão, todos os dentes. A barba baixava em andares sobre o peito, e os olhos castanhos, pequenos, e maliciosos, afogados em gordura, dir-se-ia que espreitavam tudo, meio encobertos. A voz aflautada causava espanto saindo daquele corpo. Finalmente, o nariz grosso e cravejado de botões vinosos, rubros como rubins, assumia dimensões quase fenomenais. A expressão da fisionomia era dúbia. O observador no primeiro relancear apenas notaria a beatitude do comilão repleto e do bebedor insaciável. Atentando melhor, e, comparando o olhar, o gesto, e o riso mudaria porém logo de conceito, divisando debaixo daquela máscara de Sileno hercúleo as feições morais significativas da astúcia, do egoísmo brutal e desentranhado, e de uma cobiça incapaz pela avidez de transigir com a honra, com a consciência e com o dever.

Pedro Lavareda representava o antípoda de seu digno sogro e tio quanto aos dotes físicos. Um helenista contemplando-os, tomaria um pelo alfa, e o outro pelo ômega. O genro, magríssimo, quase esqueleto, assustava os que o viam com o receio de que um dia lhe saltassem os ossos das tíbias e dos fêmures soltos das ligaduras. Braços de pólipo, terminados por mãos de dedos eternos, ombros agudos sobre os quais o fato dançava como posto em cima de um cabide, rosto comprido, escaveirado, e macilento, acompanhado das melenas esguias de um cabelo ruivo e aguado, testa nua que chega quase à nuca, peito e ventre espalmados, olhos vesgos, tortos, encovados, mas vivos e sorrateiros, boca rasgada quase até às orelhas, e beiços finos e desbotados, compunham a lúgubre, carrancuda, e exótica pessoa da lavrador mais atilado, avarento e sem escrúpulos daquelas imediações. Parecia fraco e a desfazer-se; mas as pernas delgadas, como fusos, podiam andar léguas, os braços escamados encobriam uma força além do comum, e os olhos vesgos só viam torto para os negócios alheios.

Retrato vivo do aspecto mortificado de um franciscano penitente, o velhaco ria-se tanto para dentro come o feitor Antônio Rodrigues se ria para fora. Usurário de nascença, hipócrita por índole e verdadeira voragem de líquidos e sólidos, digeria como um avestruz e bebia como um areal. Quando conversava, sempre em falas mansas, sabia chamar a tempo uns frouxos de tosse e umas lágrimas de defluxo, que o ajudavam muito a engolir metade, e às vezes duas terças partes das palavras, e é inútil acrescentar, que as palavras engolidas eram sempre as que o podiam comprometer ou aproveitar aos outros. Quando o caso o requeria, Pedro Lavareda, o valetudinário sadio, convertia-se numa cascata de prantos. Tinha as glândulas lacrimais devassas e chorava como um crocodilo. Ai dos inocentes que se deixavam orvalhar e amolecer por ele!... Ficavam quase sempre sem camisa. No meio daquele rosto afiado erguia-se um promontório imenso. Era o nariz adunco e aguçado na ponta, que descia quase a beijar o lábio superior. Este nariz, delgado e membranoso, rematava a semelhança que tinha aquela cara com o focinho da fuinha. Esquecia notarmos que Antônio Rodrigues exercia com aplauso geral as funções de procurador de dois conventos de freiras, de quatro irmandades, e que seu genro acumulava com outros arrendamentos lucrativos a arrematação dos dizimo, e primícias da comarca.

Os de Paio Pele pagaram por fim? — perguntou o feitor ao genro pousando o caneco despejado em cima da mesa.

Com língua de palmo. Eles conhecem-me, Sr. tio! — respondeu Pedro Lavareda com uru sorriso avinagrado.

— Bem bom!... Sabes o que me dá cuidado agora, homem? É esta gente aqui metida. Tomara vê-los pelas costas.

— Pois acabe de os empurrar para a rua, que não deixam cá saudades! — redarguia o outro com meio sorriso ácido.

— Isso é fácil de dizer, mas... Ao cabo de tudo, Pedro, bem vês, os donos da casa são eles!...

— Que vão comendo as rendas e que nos deixem. Tão más são elas!...

— Hum! Podiam ser melhores... Esse é o meu receio. Trazemos isto muito de rastos, Pedro, e alguma língua ruim lho disse já ou lho há de dizer.

— Invejas! Falatórios!... — acudiu o genro entre dois frouxos de tosse.

— Pois sim!... Olha, não seria melhor oferecermos um nadinha mais pelas terras e ficarmos com elas de pedra e cal, do que arrebentar-nos a castanha na boca uma destas manhãs?!

— Nanja eu, tio! Sangue ninguém mo tira à boa feição, e o dinheiro é sangue.

— Mas homem!?...

Deixe lá, Sr. sogro, não se meta a abelhudo onde o não chamam, e deixe ir a água ao moinho. Já alguém falou em lhe levantar a renda da alcaidaria?...

Não.

— Pois não faça andar o carro adiante dos bois, e coração à larga. O que for soará.

Houve um minuto de pausa. Antônio Rodrigues coçava a nuca com o indicador e o dedo médio da mão direita por baixo da carapuça, e rufava sobre a tábua da mesa com todos os dedos da mão esquerda. As roscas da barba sumiam-se-lhe na gola alta do gibão, e os olhinhos, homiziados entre as pálpebras meio cerradas, luziam vivos e cintilantes como os do gato matreiro que espreita a presa. Pedro Lavareda, menos apreensivo na aparência, limpava os olhos chorosos com um quadrado de pano de linho, enquanto a unha tigrina de um dos dedos da outra mão raspava uma nódoa conhecida e teimosa do calção sobre o joelho. Ambos meditavam e se entendiam sem falar. O feitor de repente levantou meio corpo de cima do mocho de pinho em que se assentava, colheu o canjirão pelas asas, sopesou-o por um instante, e emborcando-o, encheu os dois canecos de louça. Levou depois o seu à boca encurvando lentamente o braço, e despejou-o em poucos sorvos, enquanto o sobrinho, coleando primeiro a língua pelos beiços, libou com mais vagar e com gestos de amador consumado o néctar, que espumava na grosseira taça.

— Rapaz, isto não vai bom!... — tornou Antônio Rodrigues com um suspiro. — Anda mouro na costa, que eu bem o sinto e cá sei os botões com que me abotoo. Esta gente de Lisboa aqui não gosto nada dela.

— Ora, tio, deixe-se de cismas!... De que tem medo? A aia é uma tonta, uma pega doida. O escudeiro não passa de um espantalho de pardais, e os meninos... leram tanto que tresleram. Mostre-lhes um campo de cevada nascida de oito dias, e verá se não lhe dizem que é trigo.

— Mas atrás da pega e do espantalho tenho muito medo que venha o milhafre!...

— Qual milhafre?!...

— O frade!... — murmurou o feitor em voz abafada e com sinais de verdadeiro susto.

— E então se vier?!... Lê no seu breviário! O Sr. frei João Coutinho sabe muito de leis e de casos, mas de lavouras não creio...

— Nisso te enganas. És capaz de dar sota e às ao mais pintado! Criou-se no campo e administrou muito tempo os bens do convento.

— Ah! Ah!...

— E tenho meus longes de que, mais dia menos dia, aí o temos pela proa com a Sra. d. Madalena.

— Mau será!... — rosnou entre dentes o sobrinho declarando com a unha do polegar crua guerra a uma verruga, que lhe ornava a ponta do nariz. — Mau será, tio!... Mas não havemos de perder o sono por isso. Dizia no mosteiro, onde me ensinaram, o padre-mestre frei Hilário, que para todo o gênero de pecado deixou Deus remédio na sua Igreja...

Houve uma nova pausa. Os dois olhavam uru para o outro calados mas pouco satisfeitos.

— Então que dizes, homem?!...

— Se o frade vier... é pô-lo ao fresco, em vinte e quatro horas.

— Estás mangando, sobrinho... Pô-lo ao fresco? O irmão da senhora, o tio dos meninos?!...

— Tal e qual. Nem mais, nem menos!... Sacudi-lo e depressa.

— Ora! Bogalhos, Sr. meu genro!... Sacudi-lo?!... Como?...

— Metendo-lhe medo.

— Ao Sr. frei João, que é rijo como ferro e valente como as armas?!... Vai dormir, Pedro, isso é sono.

— Sim senhor, meter-lhe medo, por que não?...

— Com as almas do outro mundo, aposto, como tens feito à lambareira da aia e ao néscio do escudeiro? — atalhou Antônio Rodrigues com uma risada de escárnio.

— Com as almas do outro mundo, sim senhor!... Cuida que o frade não foge?... Há de vê-lo em camisa no pátio, mais branco do que os lençóis da cama.

— Deixa-te de histórias, Pedro!... As visões com o frade não pegam. O que apanhas é algum tiro... e olha que é caçador que não erra.

— Pois deixe-o ser. Fico por mim. Entregue-me o negócio, e verá...

— Enfim, lá sabes as linhas com que te coses... Mas toma sentido contigo! O frade é ladino, sei que vem desconfiado de nós, e tenho muito amor à pele.

— Sossegue. Eu também não tenho ódio à minha. Diga-me: se frei João vier, onde o mete?

— Onde o meto?!... Por quê?

— Preciso saber.

— No quarto verde, talvez...

Nada! Dê-lhe o quarto dos armários.

— Mas...

Houve outra pausa. O feitor olhava suspenso, coçando sempre a nuca. O genro ria-se para dentro, raspando a nódoa do calção.

— Tu não me dirás o que intentas fazer, Pedro? Tenho medo de ti e do teu risinho.

— Pois não tenha. Há de tudo correr como um brinco, louvado Deus e sua mãe Maria Santíssima

Mau!... Se me resmungas nomes de santos, temos maroteira e grande!... Pedro!... Toma cuidado! Nem uma beliscadura, nem uma picada de agulha no Sr. frei João... Não é por ele, é por mim. Nada de graças pesadas! Não me quero ver na cadeia comido de pés e mãos. Levem antes a breca as terras.

— Ai, tio!... Não se faça teimoso, e não esteja caluniando as minhas intenções!...: Valha-me a Senhora Santa

— Mau! Tornas aos santos!... Que é isto?...

— São passos.

— E vozes... Chega à fresta e vê!

Pedro Lavareda obedeceu.

Um vento rijo e chuveirões puxados com força bateram-lhe na cara, apenas abriu o pesado caixilho, e arriscou a cabeça para espreitar o que se passava no rio. O devoto personagem recolheu à pressa o interminável e esganado pescoço, rosnou duas interjeições apimentadas, e, enrolando um lenço por cima da gola do gibão, tornou a afrontar, porém mais abrigado desta vez a fúria do aguaceiro. Decorridos instantes de atenta observação, meteu-se para dentro, cerrou o caixilho, e veio sentar-se defronte do tio com os sobrolhos e a boca franzidos. Trazia estampada no afunilado rosto uma verdadeira elegia.

— Então?!... — disse o feitor já sobressaltado com a mímica tétrica do sobrinho.

— Falai no mau, aparelhai o pau!... É o frade!...

— Hein!? — bradou Antônio Rodrigues, pondo-se de pé de um pulo e enterrando a carapuça até aos ombros. — O frade?!...

— Em corpo e alma! Escrito e pintado!... Tem razão, tio. Anda mouro na costa.

— Vem a Sra. d. Madalena?...

— Não. Vem ele só. Isto leva água no bico, Sr. meu sogro.

— Não te dizia eu, Pedro?... E agora?...

— O dito, dito. Contas com Jorge e Jorge na rua.

— Sabes que mais, homem? Vai-me cheirando tudo isto muito a chamusco. Não gosto nada da vinda do Sr. frei João assim com este segredo... Receio...

— Valaverunt galhetas, Sr. meu tio! como nós dizíamos no convento!... O caso está feio, e desta vez a raposa bem podia ficar sem rabo!... Melhor, porém, o há de fazer Deus e sua Mãe Maria Santíssima, minha madrinha!... Primeiro do que tudo enxuguemos outro caneco. Este bom vinho alegra a vida e faz criar alma nova. Bom! Agora, a pé! Vá receber o Sr. frei João, que há de vir cansado e aborrecido da jornada.

— E tu?...

— Eu... fico para pôr em ordem umas coisitas. Escute, meu tio! Dê ao Sr. frei João o quarto dos armário. É essencial.

— Por quê?...

— Pela boca morre o peixe!... Depois verá. Adeus! Não faça esperar sua reverendíssima e encomende-me nas suas orações à minha devota Senhora Santa Ana...

— Mau!... Aí tornas tu com a ladainha dos santos! Pedro!... Olha lá!... Cuidado com a pele do Sr. frei João!

— Vá descansado, tio, não há de haver novidade. Vem cear?

— Venho.

— Até logo.

E os dois consócios e parentes separaram-se.


CAPÍTULO 3
— Com que então solto anda o demônio por estes palácios confusos, e aflitos nos vemos com as suas diabruras, Brízida de Sousa!?... Muito me contam! Mau é isso!... E você que diz, Romão Pires? Parece ainda mais pasmado do que esta boa velha!... Vamos lá, Sr. Antônio Rodrigues, diga-me: onde é o quartel-general de Belzebu? Há de saber decerto. É de casa!

— Eu, Sr. frei João!... Sei só que não se podre parar aqui da meia-noite em diante!...

Ah! Sabe isso!?... Já não é pouco! Pois eu lhe digo: cuidei que sabia mais. Acho-o tão roliço e anafado, que vejo que engorda com os sustos.

— O Sr. frei João gosta de brincar, mas em passando uma noite aqui!.

— Ai, meu Jesus da minha alma! Anjo bento de Nossa Senhora Aparecida!... É da gente botar a fugir, ou de perder o juízo! — exclamou a Sra. Brízida, pondo as mãos.

— Então o Sr. Antônio Rodrigues crê que esta noite haverá ensaio geral de Satanás e da sua corte, para festejarem a minha chegada?... Muito bem! Cá estamos. Cor contrictum et humiliatum Deus non despiciet! Pelejaremos com as armas espirituais, que são as melhores, e com as temporais, que também servem em certas ocasiões! Mas como vamos de ceia?... No barco o mau tempo fez-nos jejuar, e sinto-me capaz de tragar um carneiro assado! E o vinho, aquele bom vinho de 1655, ainda haverá por cá uma gota dele? Há de haver. O Sr. Antônio Rodrigues, o melhor copo de Tancos e seus arredores, aposto que não está desprovido de munições de guerra?

Antônio sorriu e coçou a nuca.

A ceia está ao lume, e não se demora três credos. Quanto ao vinho... esteja vossa reverendíssima descansado.

— Sempre estive. Diga-me, Brízida, achei muito pálida a Sra. d. Maria. Ela tem passado pior?...

— Não, senhor! Pior não. Mas, com o susto destas noites sem sono, a minha rica menina tem perdido as cores. Ela é tão delicadinha, tão fraca!... Ó Sr. frei João, a menina não podia ler um nadinha menos, mais o Sr. d. Pedro, e respirar mais algum ar em Lisboa?

— Não pode, não senhor!... — acudiu o frade em voz de trovão. — Meus sobrinhos não se educam para espantalhos de sala!... E você é muito atrevida em se meter a dar conselhos onde não a chamam!...

— Ai doce Jesus do meu coração! Que disse eu para ouvir uma respostada assim?!... Sabe que mais, Sr. frei João? Não sou moura, nem perra, nem cativa. Pão em toda a parte se come, e se não fosse o amor dos meus meninos, por esta (e beijou os polegares em cruz) que não aturava uma hora mais nesta casa!

— Está bom, Brízida de Sousa, está bom! Não se inflame. Sabe que a estimo, que todos em casa lhe queremos muito... mas não me toque nessa corda. Sei que me acusam de apoquentar os pequenos com os estudos, e que eles não têm uma tosse, uma febrita, de que se não torne logo a culpa aos meus livros!...

Vale mais asno vivo, do que doutor morto! — resmungou a velha ainda irada e incorrigível.

— Mas eu é que não quero na minha família asnos, vivos, ou mortos, mulher! — bradou o frade fazendo-se cor de púrpura e sorvendo duas pitadas com o ruído de um furacão. — Safa! Você é capaz de fazer perder a paciência ao próprio Jó!... Bem! Não falemos mais nisto, e não faça caso dos meus repentes... Sabe que não sou tão mau como pareço e que trago no coração os meus dois rapazes...

— Sei! Sei! Por isso digo a todos: o Sr. frei João berra, esbraceja, é um destemperado, mas passa-lhe logo. Cão que ladra não morde. Livre-nos Deus de uns sonsinhos que não quebram um prato, mas que ferram o dente calados...

— Obrigado pelo elogio!... Ou antes pela boa intenção. Chame os pequenos. A ceia há de estar na mesa; e protesto que me atiro a ela cormo Santiago aos mouros!... Vamos.

A ceia correu farta e alegre, e Antônio Rodrigues foi homem de palavra, regalando o hóspede com algumas garrafas de vinho maduro, que frei João proclamou rival do melhor que se pudesse beber à mesa de el-rei. As proezas gastronômicas do erudito dominicano tinham assombrado o próprio feitor, cujo estômago insondável sepultava sem incômodo alimentos de todas as qualidades, e se carregava de quantidades que eram o espanto e maravilha dos que assistiam às suas repetidas campanhas pantagruélicas. Desta reputação merecida Antônio Rodrigues viu-se obrigado a arriar bandeiras. O padre-mestre não comia, devorava, não bebia, absorvia! Regando de copiosas libações cada iguaria rústica, absolvendo as indigestas com um exorcismo culinário, fazendo desaparecer do prato as menos pesadas com milagrosa rapidez, dir-se-ia que a fome ibérica e peninsular, a fome de dentes caninos e apetite insaciável, tomara a figura corpulenta daquele frade, para realizar em Tancos uma verdadeira razia. Tudo tem de acabar, porém, e frei João, exalando um suspiro, e cruzando as mãos sobre o volumoso ventre, deu a empresa por concluída, murmurando com os olhos meio fechados, e a voz ainda sufocada do esforço: Deus nobis hoec otia fecít!

O reverendo, na meia sonolência em que se deixou ficar, recostado no espaldar de couro da vasta poltrona, com as faces afogueadas, e o barretinho de seda preta derrubado sobre a orelha esquerda, não oferecia decerto a imagem dos piedosos e extenuados monges, que em épocas de mais fé edificavam os fiéis com o exemplo de sua vida frugal e contrita. Parecia mais um hipopótamo encalhado, do que um devoto filho de São Domingos. Os instintos animais prevaleciam, e a fadiga de uma digestão laboriosa fazia arfar aquela máquina de mastigação contínua. D. Pedro e d. Maria contemplavam o tio com a admiração sincera de criaturas delicadas, que semelhantes excessos não só confundem, mas aterrem. Brízida persignava-se e enfiava os bogalhos do seu rosário em oração atribulada, esperando ver desabar de um momento para outro o padre colossal fulminado por um ataque apoplético. Romão Pires ainda não pudera articular palavra, embuchado com a vista da voracidade incrível do irmão dó seu amo. Antônio Rodrigues, cujos olhinhos matreiros semelhavam no brilho duas centelhas, desfazia a nuca raspando-a desesperadamente com a unha, e dizia consigo que o frade, medindo as forças pela alimentação, devia prostrar um touro com um murro, e abrir um tigre em dois, como o faria qualquer mastim faminto ao gato descuidado, que lhe caísse debaixo das presas.

— Deus nobis hoec otia fecit! — tornou a repetir frei João depois de uma pausa de alguns minutos, recuperando a costumada viveza e agilidade. — Podemos dizer com verdade que ceamos como uns padres!... Minha sobrinha! Não gostei de a ver tão triste. Que nuvem pesa sobre esse coração? São receios, ou saudades?!... Sossegue que o há de ver são e escorreito...

— Quem, meu tio? — atalhou a donzela distraída.

— Pois quem há de ser senão aquele cavaleiro andante que se despediu de nós e que há de voltar um dias destes coberto de louros... Entendeu-me agora?

— Oh, meu tio!... acudiu ela fazendo-se vermelha como uma rosa.

— Está bom! Está bom! Não digo mais nada... Romão Pires, sabe que os castelhanos tomaram Évora, e que a estas horas hão de estar às mãos com o nosso exército?... O que diz vossa sapiência?... Quem vence?!...

— Essa é boa, Sr. padre-mestre. Quem deve vencer? O Sr. conde de Vila Flor.

— Deus o ouça! Bom é ter fé!... Mas! — e a larga fronte do frade enrugou-se apreensiva, enquanto os sobrolhos descaíram a ponto de lhe cobrirem quase as pálpebras superioras — Deus super omnia! — murmurou.

Seguiram-se alguns instantes de silêncio. De repente a porta abriu-se com estrondo, e a longa, a defecada pessoa de Pedro Lavareda entrou impetuosamente pelo aposento, com os olhos espantados, as faces contraídas, e os cabelos ruivos espetados, representando a imagem viva do terror e da consternação.

— Os castelhanos!... Os castelhanos!... Eles aí

A esta voz de pavor, e de imenso pavor, todos se acharam de pé, não menos assombrados do que parecia estar o núncio da nova aterradora.

— Os castelhanos!?... — gritou frei João, saltando da cadeira e empunhando maquinalmente um bastão enorme, espécie de dava, que o acaso lhe mostrou encostado a um canto.

— Os cas... te... lha... nos! — gemeu Brízida, faltando-lhe os joelhos e erguendo as mãos.

— Os castelhanos?! — exclamou Antônio Rodrigues, arrancando da cinta a longa navalha de ponta e mola e floreando-a como uma espada, enquanto Romão Pires sacudia da bainha a durindana decrépita e preguiçosa.

D. Maria, branca de cera e silenciosa, encostou-se à mesa para não cair. D. Pedro, pelo contrário, com o rosto mais animado, os olhos reluzentes, e a fronte levantada, apertou o punho da pequena espada de corte, e deu alguns passos como se quisesse sair ao encontro do perigo.

— Os castelhanos! — tornou a bradar frei João — Às armas! Sr. Antônio Rodrigues, chame os criados!... Façamos de Tancos e de Almourol uma segunda Aljubarrota!...

Dizendo isto limpava a testa inundada de suor, e fulo de raiva e de impaciência batia o pé como o corcel insofrido escarva o chão desejoso de soltar a carreira.

— Mas não seria bom, meu tio, sabermos primeiro o que há, quem deu a notícia, e onde estão os inimigos? — observou d. Pedro em voz mansa e com extrema serenidade.

— Do manus! Bem acu tetegiste, puer! — gritou o frade sentando-se comovido e ainda trêmulo. — Façamos conselho! Sr. Antônio Rodrigues, em primeiro lugar: quem é e como se chama este correio de más novas?.

— É meu genro e meu sobrinho. Chama-se Pedro Lavareda.

— Ah! Ah! Pedro Lavareda!? Nome incendiário e perigoso em pessoa mais seca do que um cavaco!... Mas vamos ao que importa. Chegue à fala o Sr. Pedro... Lavareda! Quem lhe deu a má notícia que nos trouxe?...

— Um almocreve do Crato, que saiu de lá a bom fugir!...

— E que disse o almocreve?...

— Que os nossos foram derrotados, que ficaram todos ou quase todos no campo, e que as guardas avançadas de d. João de Áustria estavam a entrar no Crato!...

— Ah! Parece-me carnificina demais!... E onde se deu a batalha?

— Não mo soube dizer.

— Hum! E o seu almocreve onde está?...

— Partiu, caminho de Lisboa.

— Oh! E não sabe mais nada?

— Mais nada, Sr. padre-mestre.

— Pois Sr. Pedro... Lavareda, o seu nome queima!... Quer um conselho de amigo?...

— Se vossa reverendíssima tiver a caridade de mo dar!...

— Tenho sim, senhor. Mande passear o Seu almocreve, durma sobre o caso, como nós vamos dormir, creia que amanhã acorda convencido de que engoliu uma peta mais comprida do que a sua pessoa, o que já não é pouco.

Os olhos felinos de Pedro, se fossem punhais, teriam varado o frade, mas como o não eram, contentaram-se com a expressão humilde e hipócrita de uma anuência servil, ao passo que os lábios franzidos arremedavam sofrivelmente um sorriso boçal.

— Macte puer! — gritou frei João batendo no ombro de d. Pedro. — Tiveste mais juízo tu só, do que nós todos!... Isto é mentira e mentira mal armada. Os espanhóis no Grato!... Uma batalha sem lugar sabido!... Um almocreve invisível!... Meninos, sosseguem! Tia Brízida, alma até Almeida! Romão Pires, enfie-me na bainha esse eterno chifarote, espanto e censura viva das espadas de hoje!...

— Então vossa reverendíssima já não quer que ponha de aviso os criados? — disse Antônio Rodrigues, que tivera tempo de trocar algumas palavras com o genro, colóquio que, apesar de curto, não escapara a frei João.

— Não, senhor. Deixe-os descansados! Bem bastam logo as almas do outro mundo!... Sabe que mais? Sinto-me moído, e uma boa cama depois de uma boa ceia é o melhor remédio para estas moléstias. Onde é o meu quarto?

O feitor esgueirou um volver de olhos interrogador ao sobrinho, que lhe respondeu com um aceno quase imperceptível de cabeça, e, pegando em um maciço castiçal de prata denegrido, precedeu a espécie de procissão de toda a família até ao aposento, onde o doutor dominicano havia de passar a noite. A porta abria-se no topo do comprido corredor do centro; a câmara de d. Pedro ficava-lhe à esquerda, e o pequeno camarim de Romão Pires à direita. Meiam-se de permeio dois quartos fechados, e seguia-se a sala onde d. Maria dormia, tendo ao pé o leito de Brízida de Sousa. O aposento, onde Antônio Rodrigues conduzia frei João, nada inculcava de notável. Era uma casa vasta, de três janelas, duas de peito e uma sacada, cujas paredes abertas em partes conservavam ainda a par de largos pedaços das colgaduras de couro, que em melhores dias as tinham ornado, altos e grandes armários de pau-santo. Os tetos altos e enegrecidos e o pavimento carunchoso, gemendo e estalando com o peso dos passos, atestavam a velhice e o desamparo. Um leito antigo, enorme, com sobrecéu e cortinas outrora vedes, um velado de pau-santo arruinado, e um contador, ainda mais antigo, completavam com três, ou quatro cadeiras coxas dos pés, ou mutiladas dos braços, a mobília nada cômoda, nem opulenta. Coisa singular! Neste quarto, em que a destruição minava, e esfarelava tudo, as únicas coisas intatas e bem conservadas eram alguns painéis grandes, retratos de corpo inteiro de guerreiros, damas, e monges, pintados a óleo, e metidos em soberbas molduras de carvalho, lavradas de talha alta.

O padre-mestre rodeou com os olhos toda a casa, e perguntou, sorrindo-se, ao feitor, se ela passava por ser também vexada pelas almas do outro mundo. Antônio Rodrigues abaixou a sua imensa e redonda cabeça, e Brízida benzeu-se devotamente.

— Bem!... Nesse caso é preciso estar armado e vigilante para a batalha! Se escaparmos aos castelhanos do Grato, não quero que acabemos nas garras dos trasgos e diabretes de Tancos. Senhor Antônio Rodrigues, faz favor! Mande trazer para aqui o meu alforje, que ficou na sala de entrada. Senhor Pedro Lavareda (esquisito nome!) é bom caçador por certo, e há de ter uma espingarda de mais. Eu também gosto de dar o meu tiro de manhã cedo às perdizes e às calhandras por essa charneca. Conto levantar-me com o sol, e dar um passeio pelas fazendas, para tornar a ver estas terras em que não ponho os olhos há um bom par de anos. Para não ir com as mãos abanando, levarei a sua espingarda... Não a hei de tratar mal, descanse!

— Essa é boa, Sr. frei João! A espingarda, eu, e tudo o que mandar estão às ordens de vossa reverendíssima...

— Muito obrigado!... Olhe, não se esqueça de me trazer um frasquinho de pólvora.

O tio e o sobrinho saíram e o frade, chamando de parte a d. Pedro e a Romão Pires, e pondo as mãos no ombro de cada um deles, disse-lhes em voz baixa;

— Latet anguis! Anda aqui novelo! Este Sr. Lavareda, com aquela face compungida de Longuinhos, parece-me fino como um alambre... Os dois, ele e Antônio Rodrigues, o tio e o sobrinho, estão conjurados contra nós... Por quê e para quê? O tempo o dirá. Olho vivo, pois, Romão Pires! Se lhe aparecer visão, ou espectro, receba-mo às cutiladas. Eu cá espero a pé firme os que vierem visitar-me, e a água benta, que lhes deitar, há de chamuscá-los deveras... Muito bem Aí vêm os dois velhacos.

De feito o sogro e o genro chegavam, um com o alforje, e o outro com a espingarda e o frasco... Frei João falou um pedaço com eles, sempre com a boca cheia de riso, pediu uma candeia grande para se alumiar até pela manhã, e despediu-se de todos sem dar mostras da menor desconfiança.

— O padre prega-se na menina do olho, sobrinho! Toma conta! — disse Antônio Rodrigues com o rosto carregado.

— Veremos, Sr. meu tio.

— Guarda-te de ele te pôr as mãos. É capaz de estourar um boi.

— Melhor o fará Deus!

— Boas noites.

— Santa Ana e minha madrinha Nossa Senhora o levem na sua santa guarda.

— Sentido! Nem uma beliscadura!

Enquanto os dois honrados camponeses conversavam em voz baixa no fim do corredor, frei João Coutinho passava revista minuciosa no quarto e parecia ficar inteirado de que as paredes e os armários não encobriam portas falsas, nem os sobrados alçapões. Abrindo o alforje depois, tirou de dentro um par de pistolas. Verificou a carga de ambas, renovou as escorvas, e passando à espingarda, carregou-a com todo o cuidado, meteu-lhe uma bala e pousou-a engatilhada à cabeceira da cama. Feito isto foi à porta pé ante pé, descerrou-a de manso, e em passo sutil encaminhou-se ao camarim de Romão Pires, onde se demorou. À volta — davam onze horas achou tudo como o deixara, rezou pelo seu breviário, e despindo só o hábito, abafou-se, conchegou as colchas, recostou a cabeça, e, decorridos instantes, os roncos assobiados de um sono profundo anunciavam que tinha esquecido os castelhanos do Crato, as almas penadas, e os virtuosos manigrepos rurais, cuja lealdade não julgara de bons quilates.

Teria repousado duas horas, quando despertou sobressaltado. O leito, pesado e maciço, arfava balouçado como um barco sobre vagas inquietas. O frade entreabriu os olhos. A vela do castiçal estava em um terço, e a luz da candeia brilhava esperta. O quarto continuava deserto e silencioso. Entretanto o leito não parara de dançar, e, fato mais singular ainda! a roupa da cama fugia devagar, sem aparecer mão, ou braço que lhe tocasse. Frei João deixou-se ficar, tomando somente uma posição que lhe consentisse saltar no chão de um pulo para travara luta com os duendes e espectros. Tinha as duas pistolas sobre o velador à cabeceira, e a espingarda ao pé. Entretanto, apesar de animoso e resoluto, o suor principiava a borbulhar-lhe na testa e um calafrio suspeito a correr-lhe a espinha dorsal.

— Isto não vai bem!... Queria antes ruído, grilhões arrastados... a cena do costume. Esta calada e estes empuxões invisíveis... sinceramente seria de fazer tremer as carnes, se eu não soubesse!... Credo!... Lá se foi a roupa até aos pés da cama...: Não gosto da graça! Que é aquilo? As pinturas andam!?... Oh!...

Aqui pôs termo ao solilóquio, e sentando-se na cama com os poucos cabelos, que lhe restavam, erriçados em volta da calva, com as feições contraídas e a boca pasmada, cravou as pupilas cinzentas e dilatadas no painel, que lhe ficava fronteiro e que representava um cavaleiro da Idade Média coberto de toda a armadura, mas com o rosto sem viseira e os olhos ameaçadores. Aquela figura severa, como que destacada da moldura, parecia mover-se por si lenta e lugubremente.

 Frei João quis duvidar do testemunho das sentidos, convencer-se de que era vítima de uma ilusão. Esfregou as pálpebras, beliscou os braços para despertar a sensibilidade, mas o retrato continuava a adiantar-se, e um sorriso tétrico como que lhe franzia os beiços. Ao mesmo tempo os ouvidos afiados do dominicano colheram, não sem grande pavor, o som amortecido de ferros que rangiam, e um gemido longo e soturno, semelhante ao gemido doloroso de aflitivo estertor.

— Vade retro, Satanas! — murmurou saindo da cama cheio de terror. — Ne nos inducas in tentatione.

Apenas soltara a meia voz estas palavras, um sopro, semelhante a furacão medonho, engolfou-se pelo quarto, e apagou de golpe as duas luzes.

Frei João recuou até as cortinas do leito, e sentiu vergarem-lhe os joelhos, e fugir-lhe o ânimo. Estendendo a mão nas trevas maquinalmente encontrou uma das pistolas pousadas sobre o velador, e os dedos apertaram também maquinalmente a coronha.

De repente um clarão sulcou a escuridade, enchendo o aposento de luz sulfúrea, e no meio de chamas lívidas surgiu e cresceu uma forma gigantesca envolta nas dobras de sudário branco e flutuante. Esta figura descomunal, cuja cabeça era uma caveira, lançava chispas pelas cavidades dos olhos, e acenava, com os longos ossos de esqueleto. O frade tremeu, e acudiram-lhe aos lábios descorados as preces e os exorcismos recomendados pela Igreja contra os malefícios infernais. Mas as armas espirituais não produziram efeito, e, apesar da perturbação momentânea, tornou a tomar corpo no seu espírito a ideia de que podia ser aquele espetáculo uma visualidade, ensaiada para zombar da sua boa fé. Revestindo-se pois, de valor e decisão, apontou rapidamente ao vulto, que tinha diante, a pistola, que não largara da mão, e disparou-a. Observando que o tiro não causara abalo ao fantasma, pegou depois na outra pistola, e com pontaria mais segura desfechou o gatilho. Uma risada estridente respondeu ao estrondo da explosão, e o espectro, mostrando as duas balas, arremessou-as ao chão onde o padre-mestre as ouviu rolar. Logo em seguida o clarão sumiu-se de súbito, espessas trevas envolveram o quarto. Frei João, quase desmaiado, caiu em uma das cadeiras próximas do leito, tolhido por um tremor geral em todos os membros, e paralisado na fala e nos movimentos pelo mais profundo terror.

Ao mesmo tempo as hostilidades diabólicas não eram menos ativas e violentas nas câmaras dos outros hóspedes. Romão Pires, apenas se deitara e escondera a cabeça debaixo da roupa, com premeditação pouco em harmonia com os brios de suas faladas campanhas, sentiu apagar-se-lhe a luz, e puxarem-lhe pelos pés o magro e aprumado corpo até o estatelarem de pancada e sem dó nas tábuas do sobrado. O grito de medo e de dor, que soltara estremunhado, teve em resposta um coro de risadas em falsete. Brízida de Sousa acordou espavorida ao frio gelado de um verdadeiro regador de água que lhe entornavam sobre a cabeça, e saltando por a casa em roupas menores, e com a boca escancarada, para bradar, era colhida no ar por mãos pouco caridosas e nada leves, que de empurrão em empurrão a levaram aos tombos até o corredor, onde veio encontrar em anágua o honrado escudeiro, tiritando de susto e com uma das mãos em cada face esbofeteada pelos duendes, com vigor que bem acusava uma força sobrenatural. D. Maria, encolhida e semimorta de pavor, não padecera senão o terror de ouvir estalar ao pé do leito gargalhadas dissonantes, e arrastar ferros.

No quarto de d. Pedro, os trasgos haviam sido menos felizes, porque tinham chegado mais atrasados. Dotado de ânimo varonil e refletido, sereno em presença do perigo, e pouco disposto a acreditar na intervenção dos poderes infernais, o mancebo resolvera velar a noite sem se despir, e com a espiada nua ao lado, tinha-se entregado à leitura de um livro novo, que em breve lhe absorveu a atenção. Feriu-lhe de repente o ouvido a matinada das investidas no corredor e nos aposentos próximos. Apagando a luz, e empunhando a espada, aguardou silencioso.

A sua porta abriu-se de feito, pouco depois, e pareceu-lhe aperceber dois vultos na escuridão. Deixou-os adiantar, seguiu-os, e quando um se debruçava sobre o leito vazio, e o outro, assoprando num búzio tirava dele sons roucos e medonhos, caiu às pranchadas sobre o músico do Averno, ao qual o instrumento escapou dos dedos, e que, amedrontado, principiava a revolver-se pela casa, gritando como um simples mortal derreado por uma sova. O outro fantasma volveu logo em auxílio do agredido, mas uma cutilada de d. Pedro, aparada no braço ao que pareceu, deitou-o pela porta fora como um vendaval, enquanto o companheiro tomava o mesmo caminho, mas de rastos e gemendo.

D. Pedro, decorridos instantes, feriu lume, acendeu a vela do castiçal e da candeia, e examinou atentamente o campo de batalha. Jaziam no chão um búzio dos usados pelos ranchos da apanha da azeitona, um lençol com lágrimas de tinta encarnada, e uma caveira de papelão pintada de amarelo.

O mancebo sorriu-se. Aqueles despojos eram o corpo de delito e ao mesmo tempo documento vivo da conspiração tramada. Algumas gotas de sangue, caídas no pavimento desde metade da casa até a porta, provaram-lhe que um dos atores do drama noturno retirara ferido e assinalado. D. Pedro pegou o castiçal, e seguindo o rasto de sangue pelo corredor, notou que parava no topo, onde só existia uma parede grossa, sem nenhuma saída aparente. Informado do que desejava verificar, voltou atrás, e encaminhou-se ao camarim de Romão Pires. À porta viu duas figuras brancas ajoelhadas. Deteve-se um pouco até se afirmar. A velha aia e o dorido escudeiro, ambos de joelhos, e ambos transido de medo e de frio, esgotavam um defronte do outro todo o vocabulário de rezas e de interjeições atribuladas, sem se atreverem a volver aos aposentos. D. Pedro, não podendo suster o riso, falou-lhes, animou-os, e, mandando-os acabar de vestir, passou a visitar a câmara de frei João.

O frade ainda jazia na mesma posição. Conservava-se quase exânime na ampla cadeira. Vendo entrar o sobrinho com o castiçal em uma das mãos e a espada nua debaixo do braço, estremeceu, e esbugalhou os olhos, mas não se moveu.

D. Pedro aproximou-se da mesa, acendeu a outra vela, e sem proferir palavra examinou cuidadosamente o aposento.

Nenhum indício! O inimigo triunfante não deixara despojos. Terminando o exame pôs o castiçal em cima do velador, colocou a espada ao pé do castiçal, e, volvendo para junto da cadeira, onde o tio, como paralisado, observava tudo silencioso, disse-lhe:

— Mas o que foi isto?!...

Frei João respondeu com um suspiro, e correu a mão pela testa ainda inundada de suor.

— Estas pistolas disparadas, estas balas no chão!... Não me dirá o que sucedeu?!...

Outro suspiro mais alto.

— Por onde entraram eles?...

O dominicano, que a vista do sobrinho ia reanimando a pouco e pouco, meneou a cabeça com tristeza, fez um esforço para levantar meio corpo da cadeira, e apontou com o dedo para o quadro, cuja figura vira minutos antes soltar-se da moldura, e encaminhar-se para ele.

Ah!... Foi por esta porta?! — observou o sobrinho, pegando no castiçal e correndo a luz por todo o quadro de cima a baixo. De repente exclamou: — Olhe!

— O quê? — disse o frade, pondo-se de pé, mas tão abatido e trêmulo, como se acaso se levantasse convalescente de longa enfermidade.

— Venha, meu tio, e veja!

De feito um dos enfeites de talha mais elevado movia-se como um botão debaixo dos dedos do mancebo, e a pesada moldura, cedendo à pressão, abriu-se lentamente.

— Ah!... — exclamou frei João.

— Aqui tem a porta... e o segredo de tudo.

— Velhacos! — bramiu o dominicano irritável, recuperando repentinamente as cores, a elasticidade dos membros, e a viveza dos olhos.

Mas abaixando a vista, deu com as duas balas das pistolas ainda no chão, e uma nuvem turvou-lhe outra vez o rosto. Mostrando-as ao sobrinho narrou-lhe o que sucedera e ouviu da boca do mancebo a história da sua luta com os duendes.

Frei João ficou mudo e suspenso por momentos, semelhante a um imenso ponto de interrogação.

— Saiu daqui depois de carregar as armas? — perguntou d. Pedro.

— Cinco minutos quando muito. Cheguei ao camarim de Romão Pires.

— Foi o que bastou. Não mexeu na espingarda? Está certo?

— Como de te estar vendo.

— E meteu-lhe uma bala de calibre?

— Seguramente.

— Muito bem, quer ver?

E d. Pedro, pegando na vareta, descarregou a arma, tirando as buchas e a pólvora. Da bala não achou notícia.

— Ah! Tratantes!... — rugiu o frade, fechando os punhos, e rangendo os dentes, pletórico de cólera.

— Podiam atirar-lhe com três balas aos pés em vez de duas! Tinham tido o cuidado...

— De mas empalmar?! Sobrinho! Juro que hão de pagar-mo caro!... Só atanazados!

— Dá licença que lhe dê um conselho?

— Dize, rapaz. Estás um homem, e tens mostrado valer mais do que nós todos.

— Se quer apanhar o rato na ratoeira, não faça bulha.

— Bem! Bem! Do manus! Qui nescit dissimulare nescit regnare — acudiu frei João, esfregando as mãos — Ah! Patifes! O que eles se terão rido à minha custa!...

— Deixe! Riram-se hoje? Amanhã chorarão! Boas noites, meu tio. Sossegue, que bem o precisa.