segunda-feira, 8 de julho de 2013

O diálogo do touro e o cavalo

O diálogo do touro e o cavalo

Há quem diga que os bichos não falam. Dizem isso que nunca leu a “Conversa de bois”, de Guimarães Rosa; e quem nunca se debruçou sobre a “Crônica dos Burros”, de Machado de Assis!  Do contrário, concluíram que os peludos não apenas falam, como, também, fazem às vezes de Sócrates e Platão. O diálogo, a seguir, que testemunhei às escondidas na fazenda do velho Louro de Chico, me tira qualquer  rótulo de “pescador”. Trata-se de um colóquio travado, na boca da noite, entre um touro e um cavalo. Eis o que pude ouvir: 

TOURO (puxando conversa em tom de provocação):
És um reles escravo do teu dono. Tens de carregá-lo sob pena de seres açoitado. És pior do que um burro!

CAVALO (cabisbaixo e sonolento): 
Este é meu instinto. Nasci para isso, para servir com  lealdade àquele que me dá o sustento  e que zela da melhor maneira pela minha sobrevivência.

TOURO
Não. Não é isso! És mesmo um mísero escravo, que vive das migalhas de teu senhor, que te  mantém  à base de cabresto e esporas. (Ri)

CAVALO
E tu, ó miserável touro, que fazes  para merecer aquilo que comes?

TOURO
Absolutamente nada. Ando sem peias ou controle, solto e comendo o que quero, no momento em que bem desejo. Não troco minha liberdade pelo mais fino manjar. 

CAVALO (introspectivo):
Falas que és senhor de ti e de tuas ações quando vives entre cercas e arames farpados? É isso a que chamas de liberdade? Qual liberdade, ó touro néscio?

TOURO (um tanto agressivo):
Sim, ó estúpido quadrúpede relinchante, minha liberdade está condicionada a esta cerca, todavia, mesmo sob esta condição não me deixo prender sobre os cabrestos e os caprichos daquele a que chamas senhor!

CAVALO (aproximando-se do touro): 
Pobre Touro! Ignoras-te de algo que, sinceramente, causa-me comoção e pavor. Queria preservar-te de uma terrível notícia, mas tua soberba e arrogância me fazem perder a prudência, num instante em que ela não me podia furtar. 

TOURO (irônico):
Qual? Agora andas a fazer mexericos, como as éguas vadias? 

CAVALO (sério)
Não, touro inocente.  Ontem, na cavalgada matinal do meu senhor, ouvi-o dizer algo tenebroso a teu respeito. (Lamentando): Ó, céus, não ma faças falar!

TOURO (impaciente)
Ah, então o cavalo marinho quer me contar um segredo? (Rindo): Hum, é melhor contar sem o bridão! (Ri)

CAVALO (que se afasta um pouco para trás):
Deves saber que o meu senhor não se alimenta de carne dos da minha espécie; deves saber que dentre todos os bichos a preferência dos humanos é pela carne de touros... Pois é... Amanhã servirás de banquete para a família do fazendeiro. Sim, hoje, logo ao alvorecer, ouvi-o dizer ao filho, que amanhã serás conduzido ao matadouro, onde  serás imolado, e, suponho,  sem dó ou piedade. Pobre touro!!!

TOURO (rindo)
Estás a mofar de mim, ó falador relinchão?

CAVALO (que também ri)
Parafraseando os humanos: quem relincha por último relincha melhor. (sai rindo): Adeus para nunca mais... 

TOURO 
Ah, vai-te para tuas éguas, ó mísero serviçal! (dorme)

Amanhece o dia. Vê-se o fazendeiro e dois outros homens cavalgando em direção ao curral, onde dormem a boiada. Num lapso de tempo,  laçam o touro, que, subjugado, tomba na lama. 

O FAZENDEIRO (tocando o touro)
Hum, no ponto para o banquete!  (Dirigindo-se aos homens): Rápido, apanhem o alazão e acabemos logo com isso...

O TOURO (para o CAVALO):
Oh, pobre de mim! Sou pior do que um escravo. Sou carne para quem fome tem!

O CAVALO (ao pé do ouvido do Touro):

Antes escravo vivo do que liberto morto! (sai trotando e, ao longe, observa o touro tombar ao brilho do cutelo).

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Por: Iba Mendes (2004)

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