segunda-feira, 5 de agosto de 2013

“Fuga para a realidade”

Brevíssimos comentários sobre a obra: “Ver: Amor”, de David Grossman *

Bruno devia tornar-se um salmão por inteiro, para conhecer a vida” (pg. 141).

A água como elemento de renovação, inovação, mudança ou transformação, em Ver: Amor, não se restringe ao caso específico de Bruno: “No profundo porto de Dantzig, ele desceu à água pela primeira vez” (pg. 87). Já no início do livro (primeira parte: Momik), na mudança advinda com a chegada do velho Anshel, este é visto pelo neto exatamente como um peixe: “Olhou para dentro e viu o homem mais velho do mundo nadando lá dentro, como, digamos, um peixe no aquário”(pg. 2). O próprio Momik, para escrever a história de Bruno, teve de experimentar os mistérios e encantos das águas: “Ouça, em minha quarta manhã em Narvia desci pela primeira vez ao mar... A história que escrevi exigia de mim descer ao mar e aguardar ali” (pg.112). Aliás, a idéia da metamorfose como paradigma para se conhecer a vida em sua essência plena, no livro, parece confirmar-se pela constante menção do nome de Kafka, autor de Metamorfose: “Mas teve que ficar diante da própria fonte para saber com certeza: também Munch. Como Kafka...” (p.90). / “E Munch assinou. E Kafka assinou...”(pg. 91). / “Escreveram que ele é um dos grandes escritores do nosso século; que se equipara às vezes a Kafka...” (pg.98). Certamente a influência kafkiana se faz presente em Grossman.

A idéia da transformação aparece, pois, como elemento indispensável para se ultrapassar os limites da normalidade, do comum, do banal, do cotidiano marcado pelo caos e pela ausência de valores éticos: “E o pai de Bruno, sonhador com a cabeça de profeta, que se transformou num grande caranguejo de tantos sonhos para tatear os limites da existência humana... desviar-se para as regiões duvidosas e ambíguas, às quais Bruno denomina as regiões da grande heresia” (pg. 100).

Sim, fugir ou isolar-se do mundo real, para atingir um mundo, não propriamente irreal, mas um mundo sem os limites impostos pela áurea dominante; um mundo no qual a vida possa ser vivida e entendida de forma mais profunda, em sua total plenitude. A transformação de Bruno em peixe representa assim uma espécie de contestação à cadeia de força imposta pela realidade caótica em que se encontra o mundo: “E veio a última guerra, e Bruno começou a pensar que havia errado: porque as pessoa começaram a substituir a sua iniquidade, e verificou-se que por trás das barracas dos negociantes astutos estendem-se mais mercados profundos e escuros, onde o homem jamais pôs os pés. Ruas corrompidas cujas ruínas e restos de paredes dos dois lados parecem fileiras de dentes de crocodilo... Por isso Bruno fugiu” (pg. 91). Tal qual Mirabeau ou Thotreau foi preciso a Bruno que largasse o seu “lugar comum” para alcançar uma realidade em que o limite ficasse restrito apenas à cessação da imaginação: “Bruno pensa (talvez, no poeta Mirabeau que, em protesto contra o governo, tornou-se assaltante. Ou estaria, talvez, pensando no filósofo Thoreau, que abandonou sua cidade e seu trabalho e seu sistema de vida e as criaturas humanas e retirou-se para viver em solidão absoluta na floresta Walden?” (pg. 94). Para que se compreendesse o que estava aquém do óbvio real, fez-se mister a Bruno deixar para trás aqueles que, tais quais salmões no mar, viviam a mercê dos grandes e prepotentes tubarões do mundo igualmente real: “Como é ignóbil o destino daqueles que Bruno abandonou na praia!” (pg. 96).

Metaforicamente Bruno não morreu. Ele apenas fugiu: “E certa noite, algumas semanas depois, despertei de repente e soube que Bruno não foi assassinado. Não foi morto no ano de 42 no gueto de Drohobitz, mas fugiu de lá. E digo ‘fugiu’ não no sentido comum, limitado da palavra, mas suponhamos, como Bruno diria ‘fugiu’. Como diria “aposentado”, e com isto referia-se ao fato de que já havia cruzado as fronteiras permitidas e conhecidas, ao fato que e levara ao âmbito magnético de uma outra dimensão de experiência... / Advinho muito bem esta angústia, este sufoco dele, de escritor exilado, ‘exilado’ num sentido muito específico, muito amplo...” (pg. 100). / “E diante das ondas, eu soube que tinha razão. Que Bruno não foi assassinado. Que tinha escapado. E digo ‘escapado’ não no sentido habitual da palavra, mas como Bruno e eu a dizíamos, e nos referíamos com isto a alguém que se conduziu por esforço e decisão ao campo magnético de uma dife...” (pg. 111).

Contudo, não se trata da fuga no sentido romântico da palavra, na qual o escritor, para escapar da realidade comum, parte para paradas amenas, para lugares onde a vida possa ser vivida numa dimensão maravilhosamente espetacular. Em “Ver: Amor”, a fuga é apenas um meio de se atingir a realidade que não está visível no mundo real. Em outras palavras: A vida vista do mar é bem mais azul.

É isso!


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Por: Iba Mendes (2000)

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* “Ver: Amor”, de David Grossman. Tradução: Nancy Rosenchan. Editora Nova Fronteira. São Paulo, 1993.

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