sábado, 24 de agosto de 2013

O Funk na Terra do Nunca

O Funk na Terra do Nunca

Em seu "Manifesto da Terra do Nunca", o cantor e compositor Lobão escreve que, dos gêneros musicais cultivados no Brasil, o funk, especificamente o carioca, é “o mais genuíno estilo que o morro produz hoje em dia”. Embora do lado daqueles que entendem o funk como um gênero musical “grotesco, sexista, violento, obsceno, com letras horríveis e articulação gramatical que beira a dialetos neolíticos”, o também escritor destaca o fato do que o funk, em contraposição “à MPB de segunda, ao pagode de terceira, ao forró de quarta e ao sertanejo de última”, ainda não foi reciclado, reinventado, regurgitado, nem muito menos aprovado pelo intelectual de esquerda.

O debate em torno do funk não é de hoje, e Lobão não é o único a abordar o assunto pelo viés do confronto com os outros estilos musicais.

Desde seus primórdios nos anos 70, o funk, com suas características tupiniquins dos morros e das favelas, tem sido veementemente atacado, rotulado, estigmatizado e condenado, especialmente pela chamada “elite musical brasileira”, a quem Lobão denomina de “intelectualidade de esquerda”. Segundo o rockeiro carioca: “o funk, com toda a sua decantada precariedade estético-literária, dá de mil a zero em qualquer grife universitária musical por justamente não ter esse filtro idiota e pretensioso do carola estatizado”. Acrescentando que as demais grifes musicais “são miseravelmente piores e muito mais indecentes que o funk, com todas aquelas reboladas arreganhadamente erotizadas, pois são postiças, feitas por pessoas postiças, direcionadas por uma doutrina culturalista postiça, logo, incapazes de possuir a mínima condição de se estabelecer como uma cultura fruto de uma real experiência de vida.”

Obviamente que é possível discordar em muitos pontos da crítica de Lobão aos tais “intelectuais de esquerda”, todavia, não há como divergir dele no que concerne à hipocrisia daqueles que atacam o funk pelo seu aspecto promíscuo, mas que, aos seus modos “chiques e perfumados”, perambulam pela mesma beirada da baixaria.

O funk, assim como qualquer outro gênero musical, os quais, por exemplo, apresentam a mulher como uma “cadela no cio”, e que exibem suas bundas em saracoteios humilhantes, seguem pelo mesmo esgoto da mais decadente cultura. A questão não é, portanto, o gênero ou estilo em si, mas a maneira  como fazem uso deles. O  cara que me tira o sono com o “Lec, Lec, Lec”, costuma ser o mesmo que trucida meu cérebro com o “Vidro Fumê”! 

Se tomarmos puramente como referência a “excelência” de suas letras ou as “qualidades semânticas” que se inserem nelas, concluiremos  sem muita dificuldade que o funk, assim como o tal sertanejo universitário, tem ambos a mesma profundidade de um pires.

Lembrando que o samba, que hoje faz parte da nossa “boa grife intelectual”, em outros tempos fora duramente estigmatizado como sendo “música de marginal”, além de receber muitos outros rótulos, todos de natureza pejorativa.

Em geral, quando se tece crítica ou se condena um determinado estilo musical, faz-se isso tendo como base aquilo que pretensiosamente se toma como “o melhor” ou “o mais refinado”, a partir do mundo de quem aponta os "defeitos". Em outras palavras, criticamos aquilo que não gostamos. Sim, porque música é essencialmente “gosto”, que é como bunda: cada um tem a sua. E viva Luiz Gonzaga, o nosso rei do baião!!!

É isso!


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Por: Iba Mendes (agosto, 2013)

2 comentários:

  1. Muito bom tiw, pena q aqueles q realmente devessem ler coisas sobre esse tema, pouco se importam se o funk é decadente ou não.....

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