segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Os defensores de Deus

Os defensores de Deus

Li recentemente que o pastor e deputado federal Marco Feliciano, ofendido com a divulgação de um vídeo da natureza humorística, conclamou seus admiradores a denunciarem a película de humor, sob a alegação de que esta denegria a fé cristã. Além disso, o religioso decidiu mover também uma ação judicial contra os seus idealizadores, baseada, segundo ele, no artigo 208 do Código Penal Brasileiro, o qual constitui como crime  “vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”.

Sem entrar no mérito jurídico, chama a atenção o excesso de zelo comumente demonstrado por religiosos em episódios como este, quando na “defesa de suas crenças”. Trata-se de um fenômeno tão antigo quanto à própria origem da religião. Especificamente no que diz respeito à cristandade, a luta contra “os inimigos da fé” surgiu e floresceu juntamente com sua oficialidade, quando passou de perseguida a perseguidora, sob o amparo das novas Leis de Roma.

As Cruzadas são exemplares neste aspecto. Quando Pedro o Eremita retornou de uma romaria que fizera a Jerusalém proclamou com grandes exageros os sofrimentos que supostamente teriam sido vítimas os cristãos no Oriente, afirmando que era necessário resgatar o túmulo do Senhor e os lugares que ele havia santificado, os quais estavam sob poder dos “infiéis”. O resultado consta nos anais da História, com um número incalculável de vítimas dos “defensores de Deus”.

O Tribunal da Inquisição é outro caso que aponta de certa forma para a mesma direção. Sob o pretexto de preservar a fé cristã das heresias diabólicas e mundanas, os tais “defensores de Deus” torturaram e sentenciaram à morte uma variedade imensa de pessoas, ignorando a essência dos ensinamentos de Cristo: o amor.

Muitos outros eventos poderiam ser citados. Lembro de um caso ocorrido em 1988, quando muitos cinemas foram queimados em conseqüência da exibição do filme “A Última Tentação de Cristo”, dirigido por Martin Scorsese. Por hábito próprio, os “defensores de Deus” utilizaram  como argumento a defesa da fé.

Ainda no âmbito cinematográfico, faço menção do filme "Anjos e Demônios", lançado em 2009 e dirigido por Ron Howard com base na obra homônima de Dan Brown. A Igreja, ofendida em seus princípios, reagiu como de praxe: condenou o filme, pedindo aos fiéis que o boicotassem.

Todavia, faz-se mister ressaltar que este tipo de reação não é exclusividade da religião cristã. Em outros ares teológicos, tais comportamentos seguem o mesmo padrão. Um exemplo típico refere-se ao livro "Os Versos Satânicos", de Salman Rushdie, lançando em 1989, o qual provocou a ira de muçulmanos do mundo todo, levando o escritor a viver na clandestinidade sob constante ameaça de morte.

Outros exemplos poderiam ser citados, porém, esses já são suficientes para fazer suscitar algumas pertinentes indagações, levando em conta o aspecto puramente teológico da fé cristã, em especial.

Segundo os Evangelhos, quando Jesus estava prestes a ser preso, um dos seus discípulos, sacando da espada golpeou e decepou a orelha do servo do sumo sacerdote. Cristo repreendeu o agressor com as seguintes palavras: “Acaso pensas que não posso rogar ao meu pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?”

Ora, afinal, em que se baseia a fé desses exaltados “defensores de Deus”? Em que tipo de divindade eles de fato acreditam, se necessitam a todo custo defendê-la dos atos humanos?  Será realmente que estão defendendo a Deus ou a seus brios inebriados de hesitações e incertezas? Por que todo esse imperativo de buscar fazer justiça em nome de Deus, se este, por seus próprios atributos, seria capaz de aniquilar o mundo inteiro com apenas um sopro?

Na ausência de uma resposta razoável, tem-se a impressão de que o deus em que creem seja um ser indefeso, que necessita desesperadamente de seus atos de proteção, o que, de certo modo, remete a uma contradição, se não teológica, ao menos de lógica.

É isso!


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Por: Iba Mendes (agosto, 2013)

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