Brevíssimos comentários
acerca da obra "Veranico de Janeiro", de Bernardo Élis
No ano de 1987 ganhei de um amigo o livro “Veranico de
janeiro”, de Bernardo Élis, publicado pela prodigiosa Livraria José Olympio
Editora, edição de 1976. Guardei-o sem ler. Passaram-se vinte e três anos,
quando, finalmente, tirei-o da prateleira para degustá-lo saborosamente. O livro
é composto de seis contos: “A Enxada”, “Rosa”, “O padre e um sujeitinho metido
a rabequista”, “Dona sá Donana” e o "Os foxicos da fonte do taquari”.
Em nota da segunda edição,
Herman Lima destaca o valor da obra com as seguintes palavras:
"O livro tira o
fôlego, desde as primeiras páginas, tudo nele é força telúrica, imprecação de
denúncia, brutalidade da natureza conluiada com o homem, na martirização do
homem, na carência de alma, naquela fria maldade inelutável do meio—vida e
gente. Figuras como a do velho agiota Benedito, no seu cruel prestígio do
todo-poderoso mandonismo sertanejo, possesso da ganância, na cobrança de
dívidas a sangue; episódios como a loucura final do mísero Supriano, esfuroando
a terra com os tocos dos dedos, com os ossos do punho a nu, esbrugados em
raízes e pedregulhos, depois daquela tão lancinante via-sacra em busca de uma
enxada, "uma enxada!" que lhe facultasse o cumprimento da promessa de
plantio do arroz do monstro, dão um choque, um espanto novo, embora narrados na
mesma parcimônia de linguagem e na total ausência de sensacionalismo por parte
do autor. Mas, tudo tem um cunho de irremediável autenticidade, uma ferocidade
de exíramuros da civilização, um egoísmo infrangível e total. Há uma pinta
hoffmânnica sem dúvida ao gizar daquela sinistra simbiose da mulher paralítica
na cacunda do filho mentecapto, cavalgata apocalíptica que marca fundo na
gente. Há o mesmo tenebroso afã daquele carreteiro da Morte, de certa
maravilhosa novela de Selma Lagerlof, correndo as casas da sua aldeia, durante
todo o primeiro ano depois de deixar a vida, na expiação de grandes pecados,
quando Bernardo Élis nos mostra o tropeiro seu patrício, bom samaritano, de
porta em porta a pedinchar guarida para o triste "defunto" que não
quer morrer, e há, captando a solidariedade integral do leitor, a torva miséria
da meretriz, privada do pobre catre dos seus amores mercenários, quando nele se
instala o enfermo renitente, e, de par com a fome na casa sem o seu sustento, a
mágoa maior de lhe faltar também o vestido novo para a festa do Divino. Aqui a
arte do contador culmina, ao entrechoque de tantos desesperos com o contracanto
dos festejos religiosos que vem na asa do vento, em back-ground musical, e mete
de choça adentro a irresistibilidade daquele convite de gaitas, zabumbas e
coplas de folguedo afro-brasileiro, no seu avassalador sortilégio.
A mulinha
empacadora, doutro conto, o do vigário bonacheirão e do vigarista de maus
bofes, desde logo identificado pelo bom cura, entra de vez sem favor na família
já hoje ilustre doutros quadrúpedes do seu jaez, a mula do papa de Avinhão, de
mestre Daudet, à espera dos sete anos para pregar no pajem trapaceiro que a
levara às grimpas da torre do palácio o bom par de coices da vindita, aquela
ideia que "lui redonnait un peu de coeur au ventre; sans cela n'aurait pás
pu se tenir...", como também aquele Mansinho, de João Alphonsus, em cuja
cova o pároco não se pode furtar à reza de um responso; ou ainda o burrinho
pedrês de Guimarães Rosa, "miúdo e resignado, vindo de Passa-Tempo,
Conceição do Serro, ou não sei de onde no sertão." Mas, todas elas, suas
criaturas, sem dependência alheia, vivendo por si, na poderosa fixação dos
traços de cada uma, em transfiguração artística verdadeiramente excepcional,
desde a mais gigantesca, no seu drama, como é o Supriano, tão monstruoso na sua
tortura de Quasímodo rústico, até a mais humilde e anódina, ou seja, digamos,
aquela Siá Rosa, comendo vento e fedendo a cavalo, sempre na esperança de uma
chuva redentora da sua terra.
Nelas nada falseia,
o corte vertical é exato, o vocabulário que as reveste é o próprio, vem com a
marca autóctone de uma rapsódia bárbara da gleba, na sua prodigiosa carga
idiomática de lamento fundo ou de áspero libelo” (Rio de Janeiro, outubro de
1965).
O trecho, a seguir, extraído do conto “A enxada”,
sintetiza o drama vivenciado por um sertanista pobre em sua busca desesperada
por uma enxada, um simples instrumento de trabalho, porém capaz de redimi-lo
diante de seu ambicioso patrão. A linguagem tipicamente regionalista dá o tom
ao conto, enriquecendo-o magistralmente:
“Os dois homens desapareceram e Piano se martirizava
recompondo na cabeça a cena da cadeia, as pranchadas de refe, os maus-tratos
dos soldados. "Num matei, num roubei, num buli com muié dos outros, gente,
O que eu quero é uma enxada pra mode lavorar. E num quero de graça não. Agora
não posso pagar, mas a safra taí mesmo e eu pago com juro!"
Arrancou-o desse reinar uma topada desgraçada numa pedra
cristal. Então é que deu por fé que regressava para o rancho. Quede Seu
Joaquim? Quede a casa dele, com Dona Alice, o porco e os meninos? Tudo tinha
ficado para trás, lá longe. Transposto o córrego, estaria em terras de Seu
Elpídio; daí, pegando o atalho por dentro das terras baixas entupidas de
tiriricas, ia sair no seu rancho.
O pé sangrava e doía. Piano parou na grota, meteu o pé na
água fresca e caçou jeito de estancar o sangue com o barro pegajoso da margem,
com que barreou a ferida. Nesse ponto, sentiu fome. Uma bambeza grande pelo
corpo que suava. Veio-lhe também a lembrança de que ali ao lado estava o
terreno que Terto descoivarou e que ele deveria plantar. A lembrança
aumentou-lhe o mal-estar, trazendo a sensação de que o amarravam, o sujigavam,
tapavam-lhe a suspiração, o estavam sufocando.
Num salto, deixou a grota e saiu numa carreira de urubu
pelo caminho fundo, sem ao menos querer voltar a vista para o lado do terreno
da roça. Muito adiante foi que moderou o galope. Uma canseira forte o dominava;
sua respiração saía rascante e dificultosa por causa do papo, aquele papo incômodo
que pesava quase uma arroba. Diminuiu o chouto, chupou fôlego e, sentindo a
vista turva, se assentou. Passada a zonzura, percebeu que fazia um calor de
matar, embora não se visse o sol. Nuvens pesadíssimas, negras, baixas, toldavam
o céu. "Tomara que chova." Com esse veranico. quem é que pode
plantar? Embora desprevenido de enxada, se o diabo desse solão continuasse como
ia, não sobejaria qualquer esperança de colheita. "Tomara que chova."
Chuva muita, dessa chuvinha criadeira, porque no dia seguinte Seu Elpídio a
mandar soldado saber se a roca estava plantada. Chuva dia e noite. Não chuva
braba. que Santa Bárbara o de fendesse, que essa levaria a terra, encheria o
córrego e arrastaria todo o arroz que Piano ia plantar pela encosta arriba, o
arroz que crescia bonito, verdinho, verdinho, fazendo ondas ao vento.
Um grande alívio encheu o peito do homem, sensação de desafogo,
como se houvesse já plantado a roça inteirinha, como se o arrozal subisse
verdinho pela encosta, ondeando ao vento. "Será que já plantei o meu
arroz? Sim. Plantara. Pois não vira a roça que estava uma beleza?" Agora o
que sentia era um desejo da nado de ver o seu arrozal, a roça que já havia
plantado e que se estendia pela encosta arriba. Queria ter certeza de que a
plantara. Queria pegar no arroz, tê-lo em suas mãos. Mas o diabo era que o
terreno ficava lá para trás, na beira do córrego, e seu corpo não pedia voltar
até lá. Estava cansado, cansado, muito cansado mesmo” (p. 47, 48).
É isso!
---
---
Consulta bibliográfica:
"Veranico de Janeiro" (contos) - Bernardo Élis Fleury de Campos Curado Livraria José Olympio Editora. Rio de janeiro, 1976.
---
Por: Iba Mendes (fevereiro, 2012)
---
Por: Iba Mendes (fevereiro, 2012)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Sugestão, críticas e outras coisas...