segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Filosofia de Intestino


Filosofia de Intestino

O cupim negro broca o âmago fino
Do teto. E traça trombas de elefantes
Com as circunvoluções extravagantes
Do seu complicadíssimo intestino.
Augusto dos Anjos

Se fôssemos eleger uma estrutura da anatomia humana que fosse capaz de exercer a função de um filósofo, esta seria o intestino.

Pensando filosoficamente e também por metáforas, este órgão, que se estende desde o estômago até ao ânus,  expõe o que há de mais vil ou desprezível no ser humano, seu aspecto pútrido e infeto, o qual, por este mesmo viés, pode ser estendido, também, para o âmbito de sua moral e consciência.

- Tu és mortal e hás de cheirar mal! diria o nosso despretensioso pensador.

Os excrementos que descem pelo canal intestinal, passam pelas tripas e se aglomeram em nossas entranhas, são as vozes da humildade que nos alertam sobre nossa condição humana de simples mortais.

- Tu és pó e ao pó retornarás! diria ao seu tempo esses modestos e fétidos resíduos, tomando de empréstimo o dístico divino.

O nauseabundo cheiro dos excretos, por sua vez, lança para fora a vã pretensão humana de superioridade e grandeza,  fazendo exalar em nossas narinas as emanações odoríferas da nossa própria finitude e decrepitude.

- Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade! como diria o pregador bíblico do Eclesiastes.

Na sua essência a “filosofia de intestino” é pessimista e melancólica porque transporta o homem para junto daquilo que ele tanto repele e do qual repulsivamente se afasta. Porém, nessa fuga de si mesmo, ele encontra seu desígnio cinzento sob a lápide do frio mármore.  

Eis aí o capítulo final das negativas. Tal qual Brás Cubas, fina-se nas metáforas dos emplastos e desejos: “Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento... Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.”

A consciência intestinal do homem independe de sua consciência cerebral. Será ela sua eterna fatalidade, sua marca digestiva e indelével de humanidade..

“... Sobre o teu ventre andarás, e pó comerás todos os dias da tua vida.”


É isso!


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Por: Iba Mendes (Setembro, 2015)

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