sábado, 21 de novembro de 2015

Filosofia de Facebook

Filosofia de Facebook

Os homens mudam todas as vezes que se vestem; como se o hábito infundisse uma nova natureza: verdadeiramente não é o homem o que muda, muda-se o efeito que faz em nós a indicação do hábito. Debaixo de um apresto militar concebemos um guerreiro valoroso, debaixo de uma vestidura negra e talar, o que se nos figura é um jurisconsulto rígido e inflexível; debaixo de um semblante descarnado e macilento, o que descobrimos é um austero anacoreta. O homem não vem ao mundo mostrar o que é, mas o que parece; não vem feito, vem fazer-se; finalmente não vem ser homem, vem ser um homem graduado, ilustrado, inspirado; de sorte que os atributos com que a vaidade veste ao homem, são substituídos no lugar do mesmo homem; e este fica sendo como um acidente superficial e estranho: a máscara, que encobre, fica identificada e consubstancial à coisa encoberta; o véu, que esconde, fica unido intimamente à coisa escondida; e assim não olhamos para o homem, olhamos para aquilo que o cobre e que o cinge; a guarnição é a que faz o homem, e a este homem de fora é a quem se dirigem os respeitos e atenções; ao de dentro não; este despreza-se como uma coisa comum, vulgar e uniforme em todos.”

Matias Aires: “Reflexões sobre a vaidade dos homens”


Segundo pesquisas recentes divulgadas amplamente pela Mídia, pessoas que fazem uso frequente das chamadas redes socais, dentre as quais se incluem o Facebook, estão propensas a se tornarem depressivas em consequência do “desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia”, quando comparam o seu “perfil” com os de seus muitos amigos, os quais parecem  mostrar-se mais felizes e mais realizados no amor, na profissão, na espiritualidade etc.

Trata-se, na verdade, de uma espécie de “miragem psíquica”, produzida por uma falsa realidade construída  a partir do que se quer ver nos outros “perfis”, quando se lhes observa suas fotos, os lugares que visitam, os restaurantes que frequentam, as casas onde moram, os carros quem possuem, as coisas que curtem, os amores que vivem, enfim, todo o universo elaborado cosmeticamente pelo outro, o qual em geral nada mais é do que uma triste  e melancólica quimera.

O outro é “mais feliz” porque disfarça melhor a sua realidade, seja através do “photoshop”, por meio da manipulação das imagens, com a seleção dos melhores cenários e enquadramentos, seja mediante a máscara da teatralidade, com a qual se estampam sorrisos enlatados com as datas de validades imediatamente vencidas. Por trás de rostos felizes e cheios de vidas muitas vezes se escondem amarguras indescritíveis, sentimentos naturais da condição humana em todos os tempos e em todos os grupos sociais.  

Não é incomum o rosto meigo e angelical do Facebook  dissimular um ser humano real tomado por sentimentos naturais de egoísmos, grosserias e desejos de vinganças. A mesma pessoa que publica em sua “linha do tempo” mensagens de paz e irmandade, pode ser capaz de escarrar na própria boca que o beija e de cuspir no próprio prato em que comeu.

Tira-se cinco, dez, vinte fotografias. Destas seleciona-se a de superior composição, a que apresenta o melhor ângulo e a que produz o mais satisfatório disfarce.  A paisagem em que se deixa fotografar nem sempre é aquela que se quer de fato mostrar. Edita-se, filtra-se, recorta-se, corrige-se, e só então “se revela ao mundo”. Ninguém divulga na sua página pessoal uma fotografia tirada logo após a realização de um exame de colonoscopia, com a legenda: “Nem doeu!”

No Facebook o homem não brocha e a mulher nunca se mostra insensível ao orgasmo... São todos viris e sexualmente satisfeitos. Como diria Fernando Pessoa, ninguém ali enrola os pés publicamente nos tapetes das etiquetas. São todos príncipes e semideuses. Ninguém ali se torna cômico aos criados de hotel, nem sofre qualquer enxovalho. O Facebook é o lugar onde a beleza é fundamental...  Onde a felicidade é um eterno flash... Onde o amor é infinito e imortal... Onde todas as amizades são sinceras... Onde os sorrisos são sempre brilhantes... Um lugar onde se festeja a vida... Onde se come os deliciosos pratos... Onde se bebe as melhores bebidas... Um lugar onde o sucesso é algo habitual... Onde todo mundo tem dinheiro... Onde todo corpo é belo e sensual... E por aí vai...
  
O desejo por visibilidade ou celebridade alcançou, para muitas pessoas que partilham as redes sociais, o nível da patologia e da obsessão doentia. Uma foto “não curtida” pode significar uma noite mal dormida ou ainda a angustiante sensação de que há “algo de errado comigo”. Então apela-se para novas poses, para a exposição explícita de bíceps e de nádegas, numa tentativa desesperada por atenção. É como se dissessem: “Ei, estou aqui. Vejam-me!!!” Desta forma mantêm preenchidos seus clamores ocultos, ocultando dos olhares alheios suas frustrações e fracassos. Importa apenas ser visto feliz e bem-sucedido, ainda que à custa de uma dor sufocada e de um martírio psíquico que faz corroer a alma nas suas horas íntimas, quando inevitavelmente encontra-se nu, totalmente nu diante de si próprio e de mais ninguém.


É isso!

Um comentário:

  1. Iba Mendes:
    Seria maravilhoso se muitos leitores lessem e meditassem seus "Pitacos Filosóficos". A ideia de trazer até seus leitores o texto de Matias Aires é fantástica. Nesse texto há subjacente uma filosofia que os seres humanos muito esquecem. O homem, já o lembrava o budismo antigo, o hinduísmo e mística cristã, fixa-se exageradamente nos aspectos aparentes, deixa-se dominar por eles e despreza o que há de mais essencial na vida e no ser humano, que é um "mundo misterioso" ainda a explorar. O homem, como escreve Matias Aires, não vem ao mundo como um ser perfeito, já feito. Ele vem para se construir. O que você escreve é uma bela mensagem para tanta gente que não conhece ou não tem tempo de pesquisar as melhores fontes de sabedoria.

    ResponderExcluir