terça-feira, 30 de agosto de 2016

O crente Ariano e o ateu Caetano





O crente Ariano e o ateu Caetano
“É a responsabilidade moral do homem que implica a impossibilidade de Deus”, escreveu Caetano Veloso num artigo publicado no jornal Folha de São Paulo de 22 de novembro de 1999. Com o título "Dostoiévski, Ariano e a pernambucália", o cantor e compositor baiano tentava refutar um texto do escritor pernambucano Ariano Suassuna, intitulado "Dostoiévski e o mal", publicado pelo referido periódico, no dia 28 de setembro do mesmo ano. Tomando por base uma frase da personagem Ivan Karamazov, de Dostoiévski (“Se Deus não existe, tudo é permitido”), o autor de o "Auto da Compadecida" chegou a seguinte conclusão: “Vejo que nem tudo é permitido, então Deus existe”. Para Ariano, o lema tropicalista “É proibido proibir”, usado pelo compositor baiano numa canção de 1968, fundamentava-se numa ética libertária do prazer. Segundo o raciocínio do saudoso escritor, se alguém, imbuído de tal motivação, saísse por aí matando travestis e homossexuais, poderia, pela lógica do “É proibido proibir”, justificar seu ato como um simples exercício de prazer.
Pois bem. No seu artigo, Caetano Veloso, sob o “amparo” de Sartre, ateu convicto, demonstrou o seu também ateísmo com a seguinte assertiva: “Então Deus existe porque Ariano vê que nem tudo é permitido? Que diabo de lógica é essa? É a mesma que deixar à vontade para tomar como universal a certeza de que toda moral deduz-se da ideia de um Deus único e absoluto. Isso simplesmente é uma agressão à história e à razão. Antes do surgimento do Deus de Moisés e de Abraão, o homem já desenvolvera normas morais. E, quanto ao ato de matar homossexuais simplesmente por serem homossexuais, no Ocidente não se poderia sequer imaginar tal coisa antes que Roma adotasse o Deus único dos cristãos”. Num outro trecho de seu artigo, o mesmo compositor escreveu: “Em primeiro lugar, eu posso dizer que sou ateu”.
Pessoalmente considero as discussões sobre a existência ou não existência de Deus como inútil e desnecessária. Sim, pois, se Deus não pode ser provado em tubos de ensaio, a sua inexistência também não pode ser testada in vitro. Seja qual for a tese, nunca se há de chegar a uma conclusão razoável.  Ora, qual a necessidade do crente provar Deus se a fé, como diz a Bíblia, "é a certeza das coisas que se não veem"? Qual a lógica mais razoável, afinal: provar Deus pelo método científico ou deixar que ele mesmo se faça provar? Por que essa imperiosa necessidade de se prová-lo, supondo que ninguém lhe tenha perguntado se deseja ser “provado”? Por que não estabelecer a fé como único parâmetro para se chegar a ele? Quanto ao ateu, por que todo esse vão esforço em querer provar a não existência do que não existe? Onde fica a lógica, afinal? Por que não deixar, enfim, que o fluir do tempo o conduza ao mar do esquecimento?
Para finalizar, deixo aqui para reflexão um texto do agnóstico Stephen Jay Gould, extraído do seu livro “Pilares do Tempo: ciência e religião na plenitude da vida”:
Não vejo como a ciência e a religião podem ser unificadas, ou mesmo sintetizadas, sob qualquer esquema comum de explicação ou análise; mas tampouco entendo por que as duas experiências devem ser conflitantes. A ciência tenta documentar o caráter factual do mundo natural, desenvolvendo teorias que coordenem e expliquem esses fatos. A religião, por sua vez, opera na esfera igualmente importante, mas completamente diferente, dos desígnios, significados e valores humanos - assuntos que a esfera factual da ciência pode até esclarecer, mas nunca solucionar. De modo semelhante, enquanto os cientistas devem agir segundo princípios éticos, alguns específicos à sua profissão, a validade desses princípios nunca pode ser deduzida das descobertas factuais da ciência”.

É isso!

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Por: Iba Mendes (2004)

Um comentário:

  1. Isso é muito infantil.
    Eu sou agnóstico ateu há alguns anos, sempre busquei ler e pensar sobre esse tal deus católico que tanto me cerca no dia-a-dia. Cheguei a incríveis conclusões, e hoje me considero agnóstico ateu por orgulho- não porque é belo, mas sim porque não aceite a existência de Deus por ser orgulhoso demais. A prova do que é Deus existe, só não existe uma forma de nos fazer crer Nele.
    Iba Mendes, acompanho seus posts há um tempo, se quiser uma conversa sobre isso me avisa!

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