sábado, 24 de setembro de 2016

A dama do leque (Conto), de Anatole France



A dama do leque, de Anatole France

Tradução publicada na revista "Fon-Fon", no ano de 1942. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Tchonang-Tsen, nascido em Sung, era letrado que levava sua sabedoria ao desprendimento mesmo de todas as coisas terrenas.
Uma manha, quando errava, à aventura, pela encosta florida da montanha, viu-se, com surpresa no meio de um cemitério, onde, segundo os costumes do país, os mortos repousavam sob montículos de terra revolvida. O sábio meditou sobre o destino dos homens.
— Ah! — exclamou. — Eis aqui a encruzilhada onde terminam todos os caminhos da vida. Quando, uma vez, se tomou lugar na morada dos mortos, já não se pode volver à luz.
Enquanto assim divagava seu pensamento através das tumbas, ele, de repente, se achou ao lado de uma jovem senhora vestida de luto, quer dizer — trajando um amplo vestido branco de fazenda ordinária e sem costura. Sentada próximo a um túmulo, ela agitava um leque branco sobre a terra fresca de um montículo funerário.
Curioso por conhecer os motivos de um ato tão original, Tchomang-Tsen saudou-a amavelmente e perguntou-lhe:
— Permite-me, senhora, perguntar-lhe que pessoa repousa tumba e por que se dá ao exaustivo trabalho de abanar a terra que a cobre?
A dama continuou a agitar o leque. Ruborizou-se, baixou a cabeça e murmurou algumas palavras que o sábio não pôde ouvir. E repetiu a pergunta por várias, mas em vão.
***
Tchonang-Tsen afastou-se com sentimento. Achava-se inclinado a sondar móveis das ações humanas e particularmente as das mulheres. Estas lhe inspiravam uma curiosidade brincalhona, mas muito viva e sagaz... Prosseguiu lentamente no seu passeio, voltando a cabeça para ver ainda o leque que agitava o ar como a asa de uma e mariposa, quando, de súbito, uma velha a que não tinha visto, até então, lhe fez sinal para  a seguisse.
— Escutei-o fazer uma pergunta à minha ama e à qual ela não respondeu. Mas eu satisfarei a sua curiosidade.
Tchonang-Tsen tirou uma moeda da carteira e a velha falou assim:
— Esta senhora, é a senhora Lu, viúva de um letrado chamado Tao, que morreu ha quinze dias, depois de longa enfermidade, e aquela tumba é de seu marido. Ambos amavam-se carinhosamente. O senhor Tão não podia conformar-se em deixá-la só no mundo na flor da idade e em pleno esplendor de beleza. Essa ideia era-lhe intolerável. A senhora Lu chorava, à cabeceira da cama. Tomava os deuses como testemunha para assegurar-lhe que não lhe sobreviveria.
Mas o sr. Tão lhe disse:
— Senhora, não faça esse juramento.
— Ao menos — replicou ela — se estou condenada pelos gênios a continuar a viver, saiba que não consentirei jamais em ser a mulher de qualquer outro homem e que não terei mais que um esposo como não tenho mais que uma alma.
Mas o senhor Tão lhe disse:
— Senhora, não faça esse juramento.
— Oh, senhor Tão, senhor Tão! Deixe-me ao menos jurar que durante cinco anos completos não tornarei a casar-me.
— Senhora, não faça esse juramento — disse o moribundo. — Jure somente que guardara fidelidade à minha memória apenas enquanto a terra não tiver secado sobre o meu túmulo.
A senhora Lu jurou solenemente e o bom do senhor Tão cerrou os olhos para não mais os abrir. O desespero da senhora Lu foi superior a quanto se possa imaginar. Lágrimas ardentes devoravam seus olhos. Com suas unhas pontiagudas lacerava suas faces de porcelana. Mas, tudo logo estancou. Três dias depois a tristeza da senhora Lu tornava se mais humana. Soube que um jovem discípulo do senhor Tão desejava apresentar-lhe seus sentimentos de pesar. Julgou, com razão, que não poderia escusar-se de recebê-lo. E recebeu-o suspirando. Esse moço era muito elegante e tinha bela figura. Falou-lhe um pouco do senhor Tao e muito dela. Disse-lhe que era encantadora e que muito a amava. Prometeu voltar. Esperando-o, a senhora Lu, sentada à beira da tumba de seu marido, onde o senhor a viu, passa todo o dia a fazer secar a terra do sepulcro com o vento de seu leque.
 ***
Quando a velha terminou seu relato, o sábio Tchonang-Tsen pensou:
— A mocidade é curta. Alem do mais a senhora Lu e uma pessoa honesta que não quer trair seu juramento. É um exemplo para multas mulheres...

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