sábado, 24 de setembro de 2016

Esfinge sem segredo (Conto), de Oscar Wilde



 Esfinge sem segredo, de Oscar Wilde

Tradução publicada na "Revista da Semana", em sua edição de 22 de abril de 1945. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Achava-me, uma tarde, sentado no terraço do café da Paz, contemplando o luxo e as intimidades da vida parisiense.
Enquanto tomava um vermute entretinha-me a estudar, com curiosidade, aquele estranho desfile do orgulho e da miséria, quando ouvi que me chamavam por meu nome.
Voltei-me e deparei com lord Murchison.
Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivemos juntos no colégio, e isto fazia dez anos.
Assim é que me encantou aquele encontro.
Abraçamo-nos afetuosamente.
Em Oxford tínhamos sido muito amigos.
Eu o estimava muitíssimo.
Era tão bom, tão comunicativo, tão cavalheiresco! Dizíamos frequentemente, referindo-nos a ele, que seria o melhor rapaz do mundo sem a sua mania de dizer sempre a verdade; mas, realmente, creio que o admirávamos mais ainda pela sua franqueza.
Encontrei-o um pouco mudado.
Parecia inquieto, perturbado. Adivinhei que aquele estado não provinha do moderno ceticismo, porque Murchison era um dos conservadores mais intransigíveis, e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza que na Câmara dos Pares.
Deduzi que andava rabo de saia em tudo aquilo, e perguntei-lhe se tinha casado já.
— Ainda não compreendo bem as mulheres — respondeu.
— Meu caro Geraldo — disse-lhe eu — as mulheres foram feitas para ser amadas, e não para ser compreendidas.
— Eu não poderia amar sem ter absoluta confiança — replicou.
— Parece-me que você tem um mistério na vida, Geraldo. Conte-me, conte-me tudo.
— Vamos dar um passeio de carro — me respondeu. — Aqui há muita gente... Não, esse carro amarelo, não; qualquer um de outra cor. Olhe, esse, que é verde-escuro, nos convém.
E alguns minutos depois descíamos a trote pelo boulevard em direção à Madalena.
— Aonde vamos? — perguntei.
— Oh! Aonde você quiser; ao  restaurante do parque. Cearemos lá e você me contará coisas da sua vida.
— Primeiro quero ouvi-lo.
Conte-me seu mistério.
Tirou do bolso um porta-cartões de tafilete com fecho de prata e o estendeu a mim.
— Abre-o.
 Dentro havia um retrato de mulher.
Era alta e esbelta, de aspecto singular, com seus grandes olhos misteriosos e sua cabeleira esvoaçante. Tinha fisionomia magnetizada e estava envolta por luxuosas peles.
— Que diz você dessa cara?  — me perguntou. — Acaso inspira confiança?
Examinei-a atentamente.
Deu-me a impressão duma criatura que tem um segredo; porém o que não podia dizer era se aquele segredo era bom ou mau.
Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos; era realmente uma beleza psicológica, mais que plástica, e ademais o velado sorriso que flutuava sobre seus lábios era demasiado sutil para possuir verdadeiro encanto.
— Quê? — exclamou impaciente. — Que diz você?
— Que é a Gioconda de negro  — respondi. — Conte-me tudo o que a ela se refira.
— Agora não; depois da ceia.
E pusemos-nos a falar de outra coisa. Quando o garçom trouxe o café e os cigarros, lembrei a Geraldo sua promessa.
Levantou-se de sua cadeira e passeou durante alguns instantes pela sala.
Depois se acomodou numa poltrona e me contou a seguinte história:
— Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu por Road-Street.
Havia uma grande aglomeração de carros e o trânsito estava completamente impedido.
Encostado à calçada estava um " brougham" amarelo, que, não sei por que atraiu mil atenção.
Ao passar por ele vi assomar, para espiar, a cara que há pouco mostrei a você.
Fascinou-me instantaneamente.
Durante toda a noite não pensei em outra coisa, o mesmo acontecendo no dia seguinte.
Subi e desci várias vezes por aquela rua, ao longo daquela maldita fila, lançando um olhar furtivo dentro de todos os carros, esperando o " brougham" amarelo, mas não consegui descobrir minha "bela desconhecida", de modo que acabei por me convencer de que só a tinha visto em sonhos.
Uns oito dias depois ceei com madame de Rastail.
A ceia estava marcada para as oito, mas eram oito e meia e ainda estávamos no salão.
Súbito, o criado abriu a porta e anunciou: Lady Alroy.
Era a mulher a quem eu procurava.
Entrou andando muito devagar. Parecia um raio de luar com seu vestido gris, e tive imensa vontade de que me rogassem levá-la à mesa.
Quando nos sentamos, disse com a maior inocência do mundo:
— Parece-me, lady Alroy, tê-la visto ao passar por Road-Street há algum tempo.
Pôs-se muito pálida e disse-me em voz baixa:
— Não fale tão alto, suplico-lhe; poderiam ouvir-nos.
Senti-me infelicíssimo por ter tido tão mau começo, e me envolvi cegamente numa dissertação sobre o teatro francês.
Ela falava muito pouco, e sempre com a mesma voz baixa e musical. Dir-se-ia que tinha medo de ser ouvida por alguém.
Sentia-me apaixonadamente, estupidamente enamorado, e a indefinível atmosfera de mistério que a envolvia excitava minha curiosidade até mais não poder.
Quando se ia embora, o que fez quase em seguida à refeição, perguntei-lhe se podia visitá-la.
Vacilou um momento, olhou em redor de si para ver se havia alguém perto de nós, e depois me disse:
— Sim; amanhã, às cinco e quinze.
Pedi a madame de Rastail que me falasse dela, porém o único que pôde dizer-me foi que aquela senhora era viúva e que possuía uma linda casa em Park Lane.
E como naquele momento um palerma da classe dos cientistas iniciou uma dissertação acerca das viúvas, para manter a tese da supervivência das mais inte-ligentes, despedi-me e regressei, a minha casa.
No dia seguinte, à hora combinada em ponto, dirigi-me a Park Lane, porém o criado me disse que lady Alroy acabava de sair havia um instante.
Muito desiludido e intrigadíssimo, fui até o clube, e depois de muitas reflexões lhe escrevi uma carta, rogando me permitisse confiar em que outra vez seria mais afortunado.
A resposta demorou vários dias a chegar, mas por fim recebi um cartãozinho anunciando-me que estaria em sua casa no domingo, às quatro, cartão no qual havia esta extraordinária advertência:
"Não me escreva mais, par favor; explicar-lhe-ei o motivo quando nos virmos."
No domingo esteve encantadora, porém, ao despedir-me, disse-me que se alguma vez tornasse a escrever-lhe, o fizesse com estas indicações: "Mr. Wittaker, editor, Green Street, para entregar à senhora Knox".
— Razões particulares — ajuntou — me impedem de receber qualquer carta em minha própria casa.
Durante toda a temporada vi-a com frequência e sem que jamais deixasse de rodeá-la aquela, atmosfera de mistério.
Algumas vezes pensei que estaria em poder de algum homem, mas   parecia   tão   dificilmente atingível, que tive de abandonar essa hipótese.
Realmente, era-me quase impossível chegar a uma conclusão qualquer, pois aquela mulher se parecia a esses estranhos cristais expostos nos museus e que são transparentes umas vezes e embaciados outras.
Por fim, decidi-me a pedir sua mão; atacavam-me os nervos e cansavam-me as incessantes precauções que me impunha para tornar misteriosas minhas visitas e as poucas cartas que lhe dirigia.
Escrevi-lhe para a livraria, perguntando se podia receber-me na segunda-feira seguinte às seis horas.
Respondeu-me que sim, e aquilo me transportou de prazer até ao sétimo céu.
Estava loucamente apaixonado por ela, apesar do mistério, segundo acreditei então; porém, em realidade, eu agora o reconheço, por aquele próprio mistério.
Não, eu não amava nela a mulher.
O que me perturbava, o que me fazia perder a cabeça, era aquele mistério.
Por que o acaso me fez encontrar a pista?
— Então você tudo descobriu? — exclamei.
— Receio-o muito. Avalie por si mesmo. .
Chegada a segunda-feira, almocei com meu tio, e por volta das quatro horas estava em Marylebore Road.
Meu tio, como você sabe, mora em Regents Park.
Pretendia ir ao Piccadilly, e tomei o caminho mais curto, passando por uma infinidade de vielas de aspecto miserável.
Súbito vi frente a mim lady Alroy, embuçada com um véu espesso e andando muito depressa.
Quando chegou à última casa da rua subiu os degraus, tirou de seu bolso uma chave e entrou.
— Cá está o mistério — disse comigo mesmo, avançando rapidamente para ver o número e o aspecto da casa.
No último degrau havia um lenço que ela deixou cair; apanhei-o, guardando-o no bolso.
Então me pus a pensar o que deveria fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la; tomei um carro e fui para o clube.
Às seis apresentei-me em sua casa.
Encontrei-a estendida num sofá, em traje de chá, isto e, com vestido de fio de prata amarrado com uns broches dessas estranhas pedras lunares que usava sempre.
Esteve muito afável comigo.
— Tenho imenso prazer em vê-lo — disse-me. — Não saí em todo o dia.
Olhei-a estupefato, e tirando de meu bolso o lenço, entreguei-lho.
— Caiu-lhe esta tarde em Cummor Street, lady Alroy — disse-lhe com muita naturalidade.
Dirigiu-me um olhar de terror, mas não fez o menor gesto para tomar o lenço. 
__ Que ia fazer ali? — perguntei-lhe.
— Que direito tem o senhor de me interrogar?
— O direito de um homem que a ama — repliquei. — Vim para lhe pedir que seja minha esposa.
Escondeu o rosto entre as mãos, desfeita em pranto.
— Tem que me responder — insisti.
Levantou-se, e olhando-me frente a frente respondeu:
— Lord Murchison, nada tenho a dizer-lhe.
— Foi lá para se entrevistar com algum homem — exclamei.
— Esse é seu segredo.
Empalideceu atrozmente e contestou:
— Não fui ver pessoa alguma.
— Por que não me diz a verdade? — exclamei.
— Mas se já lha disse! — replicou.          
Eu estava louco, angustiado. Não sei o que lhe disse, mas deve ter sido algo de terrível.
Por fim, precipitei-me fora de sua casa. Escreveu-me no dia seguinte, mas devolvi-lhe a carta sem abrir. Parti para a Noruega com Alan Colville.
Regressei ao cabo dum mês, e a primeira coisa que vi no "Morning Post" foi a notícia da morte de lady Alroy.
Apanhou um resfriado ao sair da ópera, falecendo cinco dias após, de congestão pulmonar.
Fechei-me em casa e não quis ver ninguém.
Amei-a tanto, amava-a ainda tão perdidamente! Oh, Deus meu, como amei essa mulher!
— E você foi a essa rua, a essa casa? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu. — Um dia dirigi-me a Cummor Street. Não pude deixar de fazê-lo. Estava atormentado pela dúvida. Bati, e uma mulher de bom aspecto me abriu a porta.
Perguntei-lhe se tinha algum quarto para alugar.
— Ah, cavalheiro! — respondeu. — Creio que há um quarto para alugar, porém não vi mais a senhora que o tinha alugado há três meses, e embora os recibos continuem se acumulando é-me impossível alugá-lo.
— Refere-se a esta senhora? — perguntei-lhe, mostrando a fotografia.
— Sim, é ela; estou bem certa — exclamou.  — Quando voltará?
— Esta senhora morreu — respondi. 
— Oxalá não seja verdade! — disse a mulherzinha. — Era a melhor de minhas inquilinas. Pagava-me três guinéus por semana só para vir aqui de vez em quando.
— Recebia alguém aqui? — perguntei.
A mulher assegurou-me que não, que ia sempre sozinha e que não era vista com ninguém.
— Então, que diabo vinha fazer aqui? — exclamei.
— Pois, simplesmente para ficar na sala, cavalheiro. Lia livros, e alguns dias tomava chá — respondeu-me a mulher.
Eu não sabia que dizer. Dei-lhe um "soberano" e afastei-me.
— E agora, diga-me você, que significava tudo aquilo? Você não pensará que a mulher me disse a verdade.
— Pois eu creio que sim.
— Então, que ia lady Alroy fazer naquela casa?
— Meu caro Geraldo — respondi-lhe — lady Alroy era simplesmente uma mulher atacada da mania do mistério. Alugava esse quarto pelo prazer de ir a ele de véu posto e imaginar que era uma heroína. Sentia uma louca atração pelo mistério, embora fosse, simplesmente, uma esfinge sem segredo.
— Assim opina sinceramente?
— Estou convencido disso — respondi.
Lord Murchison tirou o porta-cartões de tafilete, abriu-o e ficou observando a fotografia.
— Pois eu continuo indagando a mim mesmo — disse finalmente.

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