domingo, 25 de setembro de 2016

O Cristo do mar (Conto), de Anatole France



O Cristo do mar, de Anatole France

Tradução publicada na revista "Fon-Fon", em sua edição de 26 de dezembro de 1942. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Naquele ano afogaram-se no mar muitos moradores de Saint-Valery que saíram a pescar. As ondas fizeram dar à praia vários cadáveres e restos de embarcações perdidas. Durante nove dias não cessaram de desfilar féretros conduzidos à igreja, acompanhados por viúvas chorosas, cobertas de amplos mantos negros.
Os corpos de João Leonel e de seu filho Desidério foram também colocados na nave principal, sob a abóboda em que ambos haviam prendido, em oferenda à Virgem, um barco com todos os seus apetrechos.
— Jamais foram sepultados em recinto sagrado — disse o vigário de Saint-Valery — dois homens melhores que João Leonel e seu filho.
Um dia, dois jovens que viajavam num bote, viram uma grande figura estendida sobre as ondas. Era a imagem de Jesus cristo, do tamanho de um homem, talhada em madeira bem pintada. Devia ser uma obra antiga. O Senhor flutuava nas águas com os braços em cruz. Ao vê-lo o senhor cura disse:
— Esta imagem do Salvador vem para nós com os braços abertos para abençoar a paróquia tão duramente castigada e anunciar sua piedade pelos desgraçados que expõem sua vida no mar.
O vigário deixou a imagem de Cristo estendida sobre o altar-mor e encomendou uma bela cruz de carvalho. Nela cravaram a imagem e colocaram-na na frente principal da nave. Então puderam observar que seus olhos resplandeciam de misericórdia e pareciam umedecidos por lágrimas de compaixão.
Quando, na manhã seguinte, o vigário entrou para dizer missa, surpreendeu-se ao ver a cruz vazia e o Cristo estendido sobre o altar.
Logo que acabou de celebrar o Santo Sacrifício chamou o carpinteiro. Interrogou o sacristão e convenceu-se de que ninguém tocara na imagem.
Teve o pressentimento de um milagre. No domingo seguinte falou do púlpito aos seus fiéis e lhes rogou que contribuíssem com o que pudessem para construir outra cruz melhor e mais digna de acolher o Salvador. Os pobres pescadores de Saint-Valery deram todo o dinheiro que tinham e as viúvas entregaram seus presentes de bodas. Assim pôde o vigário encomendar em Abbeville uma cruz muito bem trabalhada e que tinha em letras de ouro a Inscrição: "INRI". Dois meses depois colocaram-na no lugar destinado. Mas, Jesus abandonou-a, como a outra, e, de novo, durante a noite, foi estender-se sobre o altar-mor.
Ao vê-lo, no dia seguinte, o senhor cura caiu de joelhos e esteve rezando muito tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a paróquia. O padre recebeu de todas as partes dinheiro e joias. Com todas essas riquezas, um afamado artífice da rua São Sulpício fez uma cruz de ouro e pedras preciosas, inaugurada na igreja de Saint-Valery com grande pompa e solenidade. Mas Aquele que não recusou a cruz da dor, escapuliu-se daquela cruz tão rica e foi postar-se novamente sobre a branca toalha do altar.
E, há mais de dois anos ali estava, ninguém se atrevendo a tocá-lo, quando um rapazinho disse ao padre que tinha encontrado na areia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.
Pedro, porém, era um pobre de espírito, que, não tendo inteligência bastante para ganhar a vida, vivia da caridade pública.
O vigário, que não deixava de pensar no mistério do Cristo, ouviu o pobre rapaz e fez-se conduzir ao lugar onde ele dizia estar o achado. Eram duas grandes tábuas com alguns cravos que deveriam ter flutuado pelo mar.
Ao verem aquilo, o sacristão e demais companheiros começaram a troçar do pobre tolo que confundia as gastas madeiras de um barco com a cruz do Senhor. Mas o vigário proibiu aquelas pilhérias. Meditara e rezara muito desde o aparecimento do Cristo do Mar e sua alma começava a entrever o mistério da infinita caridade. Ajoelhou-se na areia. E logo ordenou que conduzissem as tábuas à igreja.
Quando lá chegaram, o senhor vigário colocou o Cristo nas tábuas da barca e ele próprio pregou-as com pregos que o mar já havia enferrujado. O Cristo do Mar não a abandonou nunca. Quis permanecer encravado naquelas madeiras entre as quais morreram alguns homens invocando seu Nome e o Nome de sua Divina Mãe.
E ali, entreabrindo seus lábios santos, numa expressão de dor, parece dizer: Minha cruz foi feita com todos os sofrimentos dos homens, pois eu sou o Deus dos pobres e dos desgraçados!

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