quarta-feira, 7 de setembro de 2016

"A obra prima do humorismo machadiano", por Modesto de Abreu

 Pesquisa, adaptação ortográfica e produção gráfica: Iba Mendes


A obra prima do humorismo machadiano: "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

Estudo crítico a filológico, por: Modesto de Abreu

UMA DAS OBRAS MAIS BELAS DA LITERATURA BRASILEIRA

Adotando "à forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre", metendo-lhe "algumas rabugens de pessimismo inevitáveis em quem se decidira a escrever "com a pena da galhofa e a tinta da melancolia" e contentando-se, mais modesto que Stendhal, em ter "dez" ou "talvez cinco" leitores, realizou Brás Cubas, ao escrever, pela mão de Machado de Assis, as suas próprias "Memórias Póstumas", uma das obras mais belas da literatura brasileira, que tem tido, até os nossos dias, não cinco, não dez, nem vinte, nem cinquenta, nem os "cem" do realista da Chartreuse de Parme e de Le Rouge et le Noir, mas cem, mil, dez mil vezes mais leitores, não obstante repassada de "um sentimento amargo e áspero" que, em todo caso, "está longe de vir dos seus modelos".

As Memórias Póstumas de Brás Cubas podem efetivamente parecer-se com os romances e narrativas do humorista inglês de Tristram Shandy e da Viagem Sentimental, ou com o do seu êmulo francês da Viagem à volta do meu quarto; será porém mera aparência de técnica, de feitio, de exterioridade; o que está por dentro é puro Machado, sem eiva estrangeira.

O humorismo que tão bem lhe define o caráter de toda a obra desde cedo, em outros gêneros, no teatro antes da crônica, nesta antes do conto e no conto antes do romance, só se cristaliza neste último gênero a partir do Brás Cubas, isto é, depois de atingir Machado a meta dos quarenta anos. Quem quiser procurar o gérmen do humorismo de Machado no romance percorrendo-lhe a série dos quatro romances anteriores, sentir-se-á literalmente desnorteado, mesmo cm se lhe deparando os laivos de humor que já se percebem em Iaiá Garcia, principalmente no muito de autobiográfico que há no tipo do velho Garcia. O segredo desse humorismo, que vem dois anos apenas deixa um valo quase intransponível entre as duas fases do romancista, tem de ser colhido nos contos e nas crônicas do decênio que vai de 70 a 80, como nos diálogos magistrais das primeiras peças, entre o Caminho da Porta e os Deuses de Casaca, pertencentes ao decênio anterior.

Logo de início, a originalidade do Brás Cubas manifesta-se na dedicatória; o suposto autor, que escreve as suas memórias depois de morto, por um "processo extraordinário" que se exime de relatar, oferece o livro "ao verme que primeiro roeu as frias carnes" do seu cadáver. Depois do prólogo e da advertência, que explicam a obra, entra na narração de sua vida, começando pelo fim, isto é, narrando primeiro o seu óbito, depois a causa do óbito, a moléstia, o invento a que se aplicara em vida e que fora o causador da moléstia, o delírio que o acometera durante a visita da antiga amante, amante que lhe fora o "grão pecado da juventude"; da juventude desce à meninice e daí, sem esforço, ao nascimento, para descrever então os seus primeiros anos, o batizado, a educação doméstica, o ambiente intelectual da família, as primeiras indiscrições de menino terrível, a escola, onde teve por colega o Quincas Borba e onde ambos tiveram por mestre o colérico Ludgero Barata. De um salto conduz-nos o póstumo autobiografado ao período dos seus dezessete anos, quando já o "pungia um buçozinho" que ele "forcejava por trazer a bigode", período que coincide com a aventura de Marcela, a qual o amara "durante quinze meses e onze contos de reis", findos os quais o pai manda-o a bacharelar-se em Coimbra. De volta, arranja-lhe o pai um casamento: inculca-lhe Virgília, a filha do conselheiro Dutra; mas é outra quem lhe recebe o primeiro beijo, é Eugênia, a "Vênus Manca", que obedecendo a incoercível atavismo lhe entregou os lábios sem relutância, embora percebendo, com a clarividência dos sofredores natos, a impossibilidade de se fazer requestada. Brás, de fato, não casa com Eugênia, mas também não alcança a mão de Virgília e, com ela, a cadeira de deputado que o conselheiro destinava ao que a sorte lhe desse por genro. Abiscoita-as a ambas o Lobo Neves, que não era entretanto "mais esbelto, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático". Desse fracasso nos seus planos à morte do velho Cubas foi um passo. Se, entretanto, o pulo errado do matrimônio vedara a Brás Cubas o acesso à Câmara e ao marquesado que o seu feliz rival acariciava, não impedira que prosseguissem, antes estimulara, os amores pregressos, e Virgília consumaria na realidade o "velho diálogo de Adão e Eva" que se iniciara no pensamento vadio do descendente dos Cubas; amantes agora, era no seio de Virgília que ia Brás Cubas "repousar" de todas as sensações más"; Virgília era para ele "o travesseiro" do seu espírito, um travesseiro "mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraias e bruxelas". Como os amores que vinham mantendo começassem a dar na vista e a ser comentados, Brás propôs e Virgília acabou aceitando a ideia, que faz lembrar situação equivalente do Primo Basílio, de arranjar um ninho discreto onde ninguém os incomodasse. Prepararam-no em uma casinha da Gamboa, que ficava sob a guarda de Dona Plácida, cuja consciência Brás Cubas se encarregou de comprar por cinco contos, justamente os que achara tempos antes e depositara no Banco do Brasil; esse pecúlio, a título de "um pão para a velhice", acabou de dispor a boa velhota, anulando-lhe o resto do "nojo" que guardava desde o princípio com a aceitação de "ofício" a que não estava acostumada. Foi-lhe afinal um benefício aquele emprego, pois, conforme confessou, vivera até então uma vida de privações e canseiras mal remuneradas, e agora pelo menos já estava a salvo da miséria futura, graças ao contubérnio da iaiá, a cuja família anteriormente servira. Para alguma coisa — é conclusão do Cubas — sempre serve o vício: "é muitas vezes o estrume da virtude". Iam as coisas paradisiacamente bem, quando estourou a nomeação do Lobo Neves para presidente de uma província. Era a separação, e Cubas não podia conformar-se. Felizmente o próprio Lobo, necessitando de um secretário, convidou-o. Advertências amigas porém, do cunhado, da irmã o dissuadiram de aceitar. Ainda aí a sorte ajudou-o: o marido da amante recusou a nomeação por motivo de superstição: a data do decreto trazia um número para ele fatídico. Tudo iria bem agora; mas a gravidez de Virgília veio começar de complicar a situação: não complicou porque aquilo que estava destinado a ser o filho espúrio não vingou: "foi-se o embrião, naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga". Todavia, não passaram inteiramente os sustos. Lobo Neves recebe uma carta anônima e, como consequência, sobrevém o resfriamento das relações com o casal, nuvem passageira que se esvai para continuar logo tudo como dantes, embora conservando-se Lobo Neves daí por diante um tanto desconfiado e reservado. Afinal, nova nomeação, sem o perigo supersticioso da outra, afasta de Cubas a amante e o marido. Nova oportunidade casamentícia oferece-se-lhe por essa época: a penetrante Nhã Loló, filha do Damasceno, o apaixonado das brigas de galo; mas é novo aceno fugaz que se frustra com a morte imprevista da moça, vitimada pela febre amarela. Chega assim o nosso herói da separação da amante ao Humanitismo de Quincas Borba, daí à invenção inconclusa do "emplasto" para a cura da hipocondria, do emplasto à doença e da doença à morte, com que se reatam as extremidades da sua história e do livro. Do balanço a que procede nessa liquidação de contas com a vida, depois de arrolar todas as negativas em que se resumira a sua existência (falhas do emplasto, do ministério e do casamento), depois de verificar que, em compensação, não o assaltaram outros males (privações, abjeções nem loucura), conclui que não apenas saiu "quite com a vida", mas ainda lhe ficou "um pequeno saldo", que é "a derradeira negativa deste capítulo de negativas": não teve filhos, não transmitiu "a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

Os tipos principais aí estão com os seus caracteres, nesse breve resumo; os demais são acessórios: Sabina, irmã de Brás; Cotrim, marido de Sabina; seus padrinhos, o "excelentíssimo senhor coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Souza Rodrigues de Matos e a excelentíssima senhora dona Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Matos"; sua sobrinha, Venância, "o lírio do vale"; o filho único de Virgília, Nhonhô, que "na idade de cinco anos fora cúmplice inconsciente" dos amores de ambos; os tios, João que era oficial de infantaria e gostava de contar anedotas licenciosas, e Ildefonso, o cônego, que sonhava para o menino Brás o destino de um bispado; o Vilaça, íntimo do Bocage e da duquesa de Cadaval, o mesmo Vilaça que o peralta do Brás surpreendeu ("ah! brejeiro! ah! brejeiro!") beijando na chácara a dona Eusébia, a mesma Eusébia irmã do sargento-mor Domingues e futura mãe da "Venus coxa", Eugênia; o Xavier, amante de Marcela até o advento triunfal do jovem Cubas; o doido a bordo; o capitão do navio, "marujo poeta", o almocreve; o moleque Prudêncio, que depois de alforriado se fez a seu turno senhor de escravos; o Luiz Dutra, primo de Virgília; a baronesa mexeriqueira; o doido Romualdo, rei dos Tártaros"; o Garcez, "velho cirurgião, pequenino, trivial e grulha"; o Jacó... de quê mesmo? Jacó Tavares, o da teoria das "embaçadelas recíprocas"; o velho avarento Viegas, rival de Harpagon e Grandet, que morreu discutindo o preço de uma casa, sem chegar a acordo; o alienista, mandado pelo Quincas Borba, para ver se o Brás Cubas estava doido.

Na topografia do Braz Cubas, afora a cena do navio, a passagem por Lisboa, a estada em Coimbra e o episódio do almocreve, tudo contado rapidamente em três breves capítulos, a ação decorre toda no Rio. Os principais cenários são: a chácara de Catumbi, onde nasceu, viveu parte de sua vida e morreu o herói; a igreja de São Domingos, onde se batizou; a rua do Piolho, hoje da Carioca, onde ficava a escola do prof. Ludgero Barata; o Rocio Grande, a rua dos Cajueiros, o Valongo, a Gamboa; a Tijuca, onde foi morar após a morte da mãe e de onde desceu quando lhe apareceram os amores da Vênus Manca; a praia de Botafogo, onde fez o achado dos cinco contos que passariam depois a Dona Plácida e desta a um espertalhão que arranjara com ela um casamento interesseiro para lhos empalmar e fugir, deixando-a à mercê de um hospital, onde acabaria os tristes dias; a rua dos Barbonos; São Cristóvão, onde o Viegas pretendia construir uma casa de feitio moderno; o degrau da escada de São Francisco, onde fora "morar" o Borba após a sua decadência; o Passeio Público, a capela do Livramento, o Engenho Velho...

Quanto às leituras do romancista, revelada através da obra, podemos rastrear algumas: Garrett, Xavier de Maistre, Stendhal e Sterne, citados no prólogo e na advertência ao leitor; Shakespeare, com o "Hamlet" (o undiscovered country) e o "Otelo"; Swift, com o "Guliver"; Dante ("Purgatório"); as Mil e Uma Noites, a Bíblia ("Atos dos Apóstolos"); Molière ("Tartufo"); Virgílio (Arma cirumque cano); Corneille ("Chimène, qui l'eut dit..."); Tomás de Aquino (Suma Theologica); Pascal (l'ange et la bete"); Voltaire (O dr. Pangloss)...

Há ainda reminiscências do teatro da época, quando se representaram no Rio a Maria Joana, a comédia Kettly ou a volta à Suíça, a Safo, a Ana Bolena, o Ernani, e quando, no São Pedro, a Estela (Estela Sezefreda, mulher de João Caetano) "arrancava lágrimas" com os seus tremendos dramalhões.

Quanto ao estilo, e particularmente ao vocabulário, encontramos no Brás Cubas algumas peculiaridades interessantes: — "grão pecado", grande pecado; — "trajada ao bizarro", que ele mesmo esclarece: "como diria o padre Bernardes"; — "avoaçar", esvoaçar, particularmente no sentido de debater-se a galinha "atada pelos pés"; — "deixei ele", cópia da sintaxe popular, no diálogo com o ex-escravo; — "heis de cair", haveis de cair; — "medianeira", intermediária, alcoviteira, mulher que facilita relações amorosas alheias; — "modo que", expressão plebeia, empregada por Lobo Neves ("A modo que não gostaste, Virgília"?) — parece que, dir-se-ia que...; — "grulha", falador, palrador, indiscreto; — "ateimei, com a prostético; — "embaçadelas", logros, burlas, mentirolas, despistamentos; — "vinha de guardar a carta'', acabava de guardar; — "godemes", apelido pejorativo dos ingleses (da blasfêmia ou interjeição plebeia goddam, — Deus me dane!, aproximadamente equivalente ao francês nom de Dieu!); — "vida celibata", vida de celibatário, empregada a palavra celibata como adjetivo; — "alfim" — enfim, afinal, no fim de tas ("Não há cachorrinho tão adestrado que alfim lhe não ouçamos o latir"); "rejuvenescência", rejuvenescimento; — "emplasto", emplastro, com supressão do r (latim: emplastram, do grego: emplastron).


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Fonte:
Revista Aspectos - Julho/Outubro de 1939. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital

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