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5/29/2017

Machado de Assis: “As Duas Juízas” (Conto)



Machado de Assis: “As Duas Juízas" (Conto)

Eram também bonitas e vistosas; circunstâncias que não determinara a eleição, mas agradou às eleitoras, tão certo é que a beleza não é só um ornato profano, e, posto que a religião exija principalmente a perfeição moral, os pintores não se esquecem de pôr o arrependimento da Madalena dentro de belas formas”.
Tudo correia de modo costumeiro naquela igreja. Que igreja?
Bem, este é o ponto falho do conto, porém, que importa? “Uma vez que eu diga os outros e todas as circunstâncias do acontecimento, do caso, o resto pouco importa”.
Nessa igreja desconhecida, ou supostamente desconhecida, os sentimentos religiosos eram fervorosos. As irmandades ali estabelecidas, ainda que compartilhando de diferentes devoções, buscavam nessa aparente rivalidade motivos para tornar ainda mais fervorosas essas mesmas devoções.
As coisas permaneceram assim durante muitos anos. A amizade entre as duas devoções materializavam-se mediante a troca de obséquios, empréstimos de utensílios religiosos, e, como demonstração de alicerçada comunhão, as irmandades revezavam-se nas festas que se realizavam na comunidade.
Vencido o prazo dessas duas associações, realizou-se como de costume, uma nova eleição, cujo objetivo era o mesmo de antes, ou seja, “dar mais alguma vida ao culto”. Foram eleitas duas distintas senhoras que, como “irmãs” na fé, nutriam entre si uma bela e sincera amizade.
A primeira, D. Matilde, viúva bonita, abastada e “fresca”. A segunda, D. Romualda, também bonita, e, por ser esposa de um comendador, há de se supor que era não menos abastada. Embora tais “virtudes” não determinaram o resultado da eleição, ao menos “agradou às eleitoras, tão certo é que a beleza não é só um ornato profano, e, posto que a religião exija principalmente a perfeição moral, os pintores não se esquecem de pôr o arrependimento da Madalena dentro das belas formas”.
Inicialmente nada mudou. Nenhuma medida drástica foi tomada, nada que pudesse caracterizar as novas devoções. “Roma não se fez num dia”, consolavam-se. Entretanto, algo novo aconteceu em entre as devoções, consequência, ao que parece, de um súbito estímulo religioso ou da vontade ardorosa de renovar o culto. A iniciativa foi da viúva que, tomada de certo ímpeto “espiritual”, decidiu levantar a associação: “Vamos trabalhar. A deste ano deve ser esplêndida... A orquestra deve ser de primeira qualidade; podemos ter uma cantora italiana”. Quinze dias depois, D. Romualda, numa sessão solene, exprimia iguais sentimentos.
A partir dali as devoções ganharam vida. As duas juízas empenharam-se por levar a cabo seus planos. Parece que tanto Nossa Senhora da Conceição quanto Nossa Senhora das Dores estavam “gloriosamente” satisfeitas com tamanho fervor.
Supunha-se que as duas juízas haveriam de continuar as mesmas cortesias. Se a finalidade era puramente espiritual, haveria, como era de se esperar de duas respeitadas e sinceras religiosas, o interesse em manter a troca de serviços e mesmo a amizade. Haveria? “- Não; antes vendamos a última joia”, bradou D. Matilde. “- Vender a última joia? Talvez ela já tenha as suas empenhadas!”, respondia a esposa do Comendador Nóbrega. A briga, ao que parece, fruto do estímulo religioso, aumentava: “Creio, creio... Creio que trabalhe mais do que eu, mas há de ser com a língua”, respondia a viúva.
Após muitas acusações e muitas discussões entre as duas devoções, realizou-se para contentamentos dos paroquianos, a festa das Dores. Foi uma festa realmente bonita: muita gente, boa música, excelente sermão. Não fez por menos D. Romualda: a orquestra foi a melhor da cidade, dirigiu o sermão um monge beneditino.
A batalha durou uns dois anos. Com a morte da D. Romualda, cessou o estímulo da D. Matilde. E já a primeira festa esteve muito aquém das anteriores.
Cessou o estímulo? Mas, que estímulo?
Bem. Com o decorrer dos dias, descobriu-se que toda aquela intriga foi apenas o resultado de uma insignificante questão acerca de um simples vestido.
Um acontecimento banal, digno apenas de uma ligeira conversa de botequim, transformou-se num caso realmente interessante, digno apenas de um escritor como Machado de Assis.
O conto Duas Juízas é uma pequena mostra da ironia machadiana. Com seu humor mordaz, ele faz aparecer tudo que acontece debaixo dos “lençóis” da elite brasileira: vaidade, intrigas e exageros. E mais: a própria igreja, não a instituição em si, mas aqueles que dela fazem parte, também ficam na mira da corrosiva ironia do “Bruxo do Cosme Velho”.
Sintetizando, o conto apresenta as seguintes características machadianas:
1 - Inspiração nas pessoas comuns, com suas ações quotidianas; a busca do mínimo e do escondido, onde ninguém mete o nariz: “Um dia a Devoção das Dores elegeu para juíza uma senhora D. Matilde, pessoa abastada, viúva e fresca, ao mesmo tempo que a Conceição punha à frente a esposa do Comendador Nóbrega, D. Romualda”.
2 - A penetração na consciência da personagem, revelando de maneira aguda e impiedosa, a vaidade, a hipocrisia, a futilidade: “Um paroquiano curioso tratou de indagar, se além das causas de estímulo religioso, alguma outra houve; e veio a saber que as duas damas, amigas íntimas, tinham tido uma pequena questão por causa de um corte de vestido”.
3 - O humor crítico, a ironia: “Eram também bonitas e vistosas; circunstâncias que não é só um ornato profano, e, posto que a religião exija principalmente a perfeição moral, os pintores não se esquecem de pôr o arrependimento da Madalena dentro de belas formas”.
4 - Como é comum em seus contos, o mais importante não é ação que ocorre entre os personagens, mas os processos mentais, a psique humana que os envolve: “Qual Igreja? Este é justamente o ponto falho do meu conto; não posso lembrar-me em qual das nossas igrejas era. Mas, pensando bem, que necessidade há de saber-lhe o nome? Uma vez que eu diga os outros e todas as circunstâncias do acontecimento, do caso, o resto pouco importa”.
5 - Extraordinária capacidade em caracterizar as personagens: “Um dia, a Devoção das Dores elegeu para juíza uma senhora D. Matilde, pessoa abastada, viúva e fresca...”.

É isso!

Iba Mendes
São Paulo, 2001.

Machado de Assis: “Dom Casmurro”



Machado de Assis: “Dom Casmurro

Como recusar simpatia a um cavalheiro distinto e sentimental, admiravelmente bem-falante, um pouco desajeitado em questões práticas, sobretudo de dinheiro, sempre perdido em recordações da infância, da casa onde cresceu, do quintal, do poço, dos brinquedos e pregões antigos, venerador lacrimoso da mãe, além de obcecado pela primeira namorada?
Com essa indagação, Roberto Schwarz (“Duas Meninas”) tece uma longa crítica ao que ele denomina de “leitura conformista” de "Dom Casmurro", de Machado de Assis, citando como exemplo Alfredo Pujol, que escancaradamente condena Capitu por adultério, enquanto exalta os supostos atributos do "distinto cavalheiro" Bento Santiago, o Dom Casmurro.
A obra machadiana, por sua característica inovadora na prosa brasileira, sufoca ou camufla o caráter pouco estimável e, de certa forma, até monstruoso de Bentinho. Como duvidar de sua isenção e de seus juízos? Como não crer no cavalheiro cético e requintado - a superioridade em pessoa? “O nosso cidadão acima de qualquer suspeita - o bacharel com bela cultura, o filho amantíssimo, o marido cioso, o proprietário abastado, avesso aos negócios, o arrimo da parentela, o moço com educação católica, o passadista refinado, o cavalheiro bele époque...”
Embora a personagem narradora busque apresentar uma garantia moral aparentemente irrefutável, há que se desacreditar em absoluto desta irrepreensibilidade, visto que por trás dessa "inocência" se oculta um ciúme avassalador e doentio, o qual, segundo o mesmo Schwarz, “distorce o que vê, deduz mal, e não há razão para aceitar a sua versão dos fatos”.
Todavia, seriam as acusações de Bento Santiago apenas motivadas pelo seu ciúme? A semelhança física entre Ezequiel e Escobar, a presença deste em casa de Bentinho quando ele não está presente, as lágrimas e a explosão emocional de Capitu no enterro de Escobar não poderiam ser tomadas como vestígios de um genuíno ato de adultério?
Sobre isso escreve Schwarz: “...não há como ter certeza da culpa de Capitu, nem da inocência, o que aliás não configura um caso particular, pois a virtude certa não existe. Em compensação, está fora de dúvida que Bento escreve e arranja a sua história com a finalidade de condenar a mulher. Não está nela, mas no marido, o enigma cuja decifração importa”.
A tese de um “Dom Casmurro” pouco estimável, defendida por Schwarz, parece assim ser a mais plausível sob a ótica da crítica, embora não se possa categoricamente asseverar que tenha sido esta a intenção do seu autor. O advogado Bento Santiago, que conhecia os meandros da “arte de acusar” não hesitou em culpar a esposa, e, aliás, o fez habilidosamente, como um exímio defensor das leis e da moral. O ciúme de Bentinho, portanto, vislumbra-se como sendo a principal causa que culminou na acusação de adultério de sua mulher.
Ivan Cavalcanti Proença, que também defende a tese de um narrador pouco estimável, num comentário concernente a este suposto adultério de Capitu, faz as seguintes ponderações: “Capitu nos é pintada leviana, fútil, a que desde pequena só pensa em vestidos e penteados, a que tinha ambições de grandeza e luxo. Foi comparada, certa vez, pela crítica, à aranha que devora o macho depois de fecundada. E nós perguntaríamos até onde são válidas as discussões em torno de Capitu. Se vale a polêmica foi-não-foi, fez-não-fez. Melhor seria que meditássemos sobre o nosso D. Casmurro e até que ponto foi ele sim, isento e imparcial ao retratar a companheira desde a adolescência: ‘Se te lembras bem de Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca'. O nosso D. Casmurro está contando depois. Isto é, com seu próprio conceito firmado e a separação consumada. Portanto, foi assim mesmo a Capitu menina? Tudo se deu assim? Ou o ciúme, doentio (Otelo e Desdêmona) deturpava a visão dos fatos? A ponto de as lágrimas - clímax - junto ao corpo de Escobar surgirem como melhor argumento para Bentinho, prova inequívoca: ‘Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas... Momentos houve em que os olhos de Capitu fitavam o defunto, quais os da viúva’. Ciúme fruto também de uma paixão intensa, quase doentia”.
Já para Afrânio Coutinho: “se a narração houvesse sido em terceira pessoa, com um narrador onisciente, como no caso do romance Madame Bovary, de Flaubert, o narrador estaria em condições de esclarecer o desenrolar dos fatos, porque sendo ele o narrador situado na perspectiva do criador, tudo conhecia, de modo a não deixar pairando qualquer dúvida sobre as ocorrências... Diante desse quadro, sobra-nos o direito de duvidar de seu testemunho, tanto mais quanto não se baseia em evidências incontestáveis, mas em simples indícios, aumentados pela imaginação e deturpados pela desconfiança... Estaria Bentinho preparado pela própria culpa a atribuir aos outros um erro e felonia semelhantes?"
Logo, é possível concluir que o narrador Bento Santiago, o Dom Casmurro, organizou de tal modo os fatos que fez caber a Capitu adúltera da praia da Glória na Capitu de Matacavalos. Desta hipótese, deu ele por consumado o adultério, como se pode lê em: “...a minha primeira amiga e o meu maior amigo, tão extremosos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me... A terra lhes seja leve”.
À luz da crítica de Schwarz, conclui-se, portanto, que Bentinho é um perfeito enganador. O ciúme exacerbado aliado aos sentimentos patriarcalistas em que se imbuía foram a causa dos seus delírios e de suas crises de ciúmes, a ponto de premeditar a morte da mulher, do filho e de si próprio. Acerca disso, escreveu Roberto Schwarz: “A instância mais dramática está no ciúme, que havia sido um entre os vários destemperos imaginativos do menino, e agora, associado à autoridade do proprietário e marido, se torna uma força de devastação”.
Enfim, se não é possível provar Capitu inocente, é também impossível, a partir das crises de ciúme de Bento Santiago, condená-la realmente de adultério. Talvez seja o caso de apenas considerar a hipótese de uso intencional da ambiguidade por parte de Machado de Assis, afinal, vindo deste extraordinário autor, tudo é possível ou impossível...

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2003.

5/28/2017

Machado de Assis: "A última visita"


Machado de Assis: "A última visita"

Escrito em 1908, no ano da morte de Machado de Assis. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017)

Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do poeta, em Laranjeiras, não acreditaria que estivesse tão próximo o triste desenlace da sua enfermidade. Na sala de jantar, para onde dava o quarto do querido mestre, um grupo de senhoras ontem meninas que ele carregava nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de famílias comentavam-lhe os lances encantadores da vida e reliam-lhe antigos versos, ainda inéditos, avaramente guardados nos álbuns caprichosos. As vozes eram discretas, as mágoas apenas rebrilhavam nos olhos marejados de lágrimas, e a palidez completa no recinto onde a saudade glorificava uma existência, além da morte.
No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados, também aparentemente tranquilos.
E compreendia-se desde logo a antilogia de corações tão ao parecer tranquilos na iminência de uma catástrofe. Era o contágio da própria serenidade incompatível e emocionante em que ia a pouco e pouco extinguindo-se o extraordinário escritor. Realmente, na fase aguda de sua moléstia, Machado de Assis, se por acaso traía com um gemido e uma contração mais viva o sofrimento, apressava-se em pedir desculpas aos que o assistiam, na ânsia e no apuro gentilíssimo de quem corrige um descuido ou involuntário deslize. Timbravam em sua primeira e última dissimulação: a dissimulação da própria agonia, para não nos magoar com o reflexo de sua dor. A sua infinita delicadeza de pensar, de sentir, e de agir, que no trato vulgar dos homens se exteriorizava em timidez embaraçadora e recatado retraimento, transfigurava-se em fortaleza tranquila e soberana.
E gentilissimamente bom durante a vida, ele se tornava gentilmente heroico na morte...
Desapontamento. Mas aquela placidez augusta despertava na sala principal, onde se reuniam Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio, comentários divergentes. Resumia-os um amargo desapontamento. De um modo geral, não se compreendia que uma vida que tanto viveu as outras vidas, assimilando-as através de análises sutilíssimas, para no-las transfigurar e ampliar, aformoseadas em sínteses radiosas –, que uma vida de tal porte desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos. Um escritor da estatura de Machado de Assis só devera extinguir-se dentro de uma grande e nobilitadora comoção nacional.
Era pelo menos desanimador tanto descaso – a cidade inteira, sem a vibração de um abalo, derivando imperturbavelmente na normalidade de uma existência complexa – quando faltavam poucos minutos para que se cerrassem 40 anos de literatura gloriosa...
Neste momento, precisamente ao anunciar-se esse juízo desalentado, ouviram-se umas tímidas pancadas na porta principal da entrada.
Abriram-na. Apareceu um desconhecido: um adolescente, de 16 ou 18 anos, no máximo. Perguntaram-lhe o nome. Declarou ser desnecessário dizê-lo: ninguém ali o conhecia; não conhecia por sua vez ninguém; não conhecia o próprio dono da casa, a não ser pela leitura de seus Livros, que o encantavam. Por isso, ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo, tivera o pensamento de visitá-lo. Relutara contra essa ideia, não tendo quem o apresentasse: mas não lograva vencê-la. Que o desculpassem, portanto. Se lhe não era dado ver o enfermo, dessem-lhe ao menos notícias certas de seu estado.
E o anônimo juvenil – vindo da noite – foi conduzido ao quarto do doente. Chegou. Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre, beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois por algum tempo ao peito. Levantou-se e, sem dizer palavra, saiu.
A porta, José Veríssimo perguntou-lhe o nome. Disse-lho.
Mas deve ficar anônimo. Qualquer que seja o destino desta criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo – no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis, aquele menino foi o maior homem de sua terra.
Ele saiu – e houve na sala, há pouco invadida de desalentos, uma transfiguração.
No fastígio de certos estados morais concretizam-se às vezes as maiores idealizações.
Pelos nossos olhos passara a impressão visual da Posteridade...

A respeito de "Esaú e Jacó" de Machado de Assis


"Esaú e Jacó" — Machado de Assis

Escrito por Walfrido e publicado em 1904. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017)

Em primeiro lugar, desculpa... meus senhores. A desculpa, a pecinha amável e gasta no uso, ou no realejo dos oficiais deste ofício.
Mas, aqui, a meu serviço, é sincera, explica-se, e mais eu a desejo, com fervor e com fé, à maneira de quem, devendo alta homenagem, apenas faz uma deferência. Já sabem vocês que de não escrever vastamente do mestre prosador Machado, a desculpa, sobre outras, é o — espaço — angustiado nesta coluna curta, esguia, em sérios apertos, uma coluna simples que se não quer estender para além das suas curtas intenções de noticiar só: que apareceu um livro, uma brochura, original ou roubada, que tem autor, ou autores, cada qual o melhor, cada qual o pior. Digo que Esaú e Jacó é de Machado de Assis. Digo uma doidejante novidade e, sobretudo, um dos mais maravilhosos trechos do lugar comum, em matéria de... crítica.
Porém, às vezes, como agora, esse clichê é uma salvação, uma providência que resume, num ideal de critério, o que eu, com anciã, com pressa, com todo o meu amor à obra de Machado, viria a pensar, neste lúcido momento do Esaú e Jacó. O trabalhador do Quincas Borba resplandece no romance dos gêmeos, como no Brás Cubas. Sobre isso, não é veneravelmente velho notar que o puro Artista não envelheceu. A primavera alenta naquele espírito, todo um ciclo de ativo esplendor. Cada livro seu, mesmo uma página, um período, é uma ressurreição de mocidade.
E me bastaria como melhor frase, querendo dar a melhor ideia. O essencial encantador num trabalho dele, o que mais irresistivelmente desafia a todas as seduções do grande belo, não é o entrecho, não é a intriga. Aliás, ela excele a de todos os romancistas da nossa língua.
Nenhum, aqui e além, lançaria a factura material de um livro de Machado, contando tão bem a história através de um processo tão difícil, tão trabalhoso e, ao mesmo tempo, tão apreensivo de ação. Por vezes, no andar da narrativa, parte-se a linha, quebra-se a urdidura. As coisas, que hão de aparecer, alternam-se, trocam-se, transpõem-se, e os capítulos se revezam, não ligam a mo ma ideia de sorte que, como no Esaú, a um capítulo que o vulgar impessoal daria o nº 1, ele dá o nº 8, ou o nº 13, ou traça a visita do palácio, embora seja uma divagação, uma inutilidade para o enredo, mas uma necessidade primaz para a sua maneira de construir.
E logo emaranha num claro, num aberto embaraçado de episódios, que se distanciam, que se alongam, que se esvaem, esvaindo a curiosidade devorante do leitor, que se subdividem em muitos outros, vários e estranhos, com o poder do mesmo interesse, da mesma arte, que o seu gênio, sempre ali, transmite e revigora. Um romance de Machado não tem vertigens tempestuosas, não é dramático, é uma semelhança de mosaico, é um romance de episódios que, parece, se chocam, se repelem, se alheiam. (A esmola da felicidade, A epígrafe, A missa do coupé, Há contradições explicáveis, etc.) Mas, afinal, o fato é que se entendem, se comunicam e se apuram e se enlaçam, e, ao cabo, nós verificamos, maravilhosamente, uma perfeição de unidade e de trama. Depois, esses episódios que assim rebentam e se colam, assim dão, deliciosamente, a expressão magnífica da sua graça amorável. “Perpétua compartia as alegrias da irmã, as pedras também, o muro do lado do mar, as camisas penduradas às janelas, as cascas de banana no chão. Os mesmos sapatos de um irmão das almas, que ia a dobrar a esquina da rua da Misericórdia para a de São José, pareciam rir de alegria, quando realmente gemiam de cansaço. Natividade estava tão fora de si que, ao ouvir-lhe pedir: “Para a missa das almas!” tirou da bolsa uma nota de dois mil réis, nova em folha, e deitou-a à bacia. A irmã chamou-lhe a atenção para o engano, mas não era engano, era para as almas do purgatório". (Cap. II).
“Era a missa do coupé. As outras missas vieram vindo, todas a pé, algumas de sapato roto, não raras descalças, capinhas velhas, morins estragados, missas de chita, ao domingo, missas de tamancos.” (Cap. II).
Não exalam emoção, nesse esbraseado sentido meridional, que solicita o estrépito, o ardor, o mesmo fogo dos deslumbramentos. Nem arrebatam, nem estremecem, nem atiçam convulsões de nervos. Fazem ressurgências de alegria, borbulham delicadezas, fascinam calmamente pelo esquisito das suas situações, pelo recorte plástico da sua suavidade, pelo jeito leve da sua ironia. No episódio, Machado espraia as sutilezas, o seu dom superior, super fino, de recato, de timidez, de pudor; a discrição, a medida o contém; e surge, vacilante e alegre, o divertido da sua dúvida, o mais pitoresco dos seus aspectos literários.
Eu me sinto à vontade, sorrio simplesmente; ninguém se irritará de ante delia, a bulir conosco; antes, oscilará, desconfiará, também, sentindo-a, penetrando-a, com a mesma volúpia, numas brandas claridade de gozo, “Era um mistério, talvez um caso único... Único! Um caso! A singularidade do caso fê-lo agarrar-se mais à ideia ou a ideia a ele; não posso explicar melhor este fenômeno íntimo, passado lá onde não entra olho de homem, nem bastam reflexões ou conjecturas.” (Cap. XI).
Dessa timidez, dessa dúvida — e daí os excessos de sensibilidade, os seus trocadilhos, os jogos de palavras, as incertezas, os contrastes, as aparências de respeito ao público, os disfarces, as renúncias de opinião, os “possíveis” — desse pudor, que organiza o mais original, o mais homogêneo, ou, antes, o único temperamento literário do Brasil, irradia, lindamente, o seu humorismo, que, nele tendo o melhor artista, nem é amargo, nem desesperado, nem furioso; mas, tão finamente cético, é tolerante, contemplativo, benfazejo.
É pois, exato, lógico, inteiriço, o processo do criador do Dom Casmurro, um processo que efetua a perfeição do humorismo, o que é bastante para julgar a um humorista, tanto quanto, como ninguém, ele o é soberbamente. Há gente, qualquer bocado de gente ilustre que não tolera o método do Sr. Machado de Assis. Um homem que escreve bem já me disse, com impunidade, que essa coisa do Sr. Machado meter os pés pelas mãos, essa licença dos episódios, dos capítulos em branco, das reticências, é um desprezo ao público. Esse homem que escreve bem só farejava nos romances do Sr. Machado, o drama, a vil banalidade do entrecho. E não entendia, por isso, que notando no Sr. Machado, desprezo ao público, sinalava, precisamente, um dos fortes característicos do seu tipo de humorista. E porque tem juízo e jeito, o esperto homem só devia considerar o escritor como ele é, de fato, — dentro do seu temperamento.
Mas, eu ia metendo pela discussão, ou, talvez, tentativa de estudo do romancista. Estaria fora de lugar e do dever atual... que é fechar a notícia com a delícia de falar no estilo do Sr. Machado. O Esaú, deitado à luz sem barulho, com calma e com paz, rebrilha o amado estilo, a sobriedade, sem igual, a doçura, os furta-cores da graça, a íris cintilante.
Esse feitio da sua literatura é ainda sem par, não tem gêmeo, (vê-se bem que dou notícia do Esaú e Jacó) não tem outro na língua que ele lapida e amansa. A sua fôrma completa a ideia pegando-lhe os matizes; e, portanto, o estiolo de Machado há de ser sutil. Não tendo violências de brilho, nem lances a deslumbrarem, é na ironia que lhe está a maneira. Não é descritivo; menos, opulento; menos, fragoroso. Os exteriores de um quadro, de uma paisagem não o preocupam; naturalmente despontam. De tantos, um exemplo precioso: “Não é que sentissem alguma coisa oposta, à vista da praia e do céu, que estavam deliciosos. Lua cheia, água quieta, vozes confusas e esparsas, algum tílburi a passo ou a trote, segundo ia vazio ou com gente. Tal ou qual brisa.” (Cap. XXXVI).
Mas, onde eu vejo em Machado a maior virtude de arte, é em dizer o pensamento. Não é categórico, e parece desejar que a sua frase nunca enfeixe uma sentença. A ironia nele, como no Eça ou no Fialho, traz o pensamento, e atalha o exagero. A sua arte deixa que o leitor também trabalhe na leitura, e fá-lo o pensar. O Esaú transborda de frases. Daria um lindo livro de pensamentos leves, encantadores, sem presunção, sem pó, sem solenidade. (Boa lembrança a Mello Moraes, boa inspiração a Laudelino Freire). Mais que nunca, a respeito desse mestre, a gente sente profundamente a perfeição da ideia visionando o toque extremo, o acabado, a perfeição do estilo. Pela sutileza dos seus recursos, das suas cambiantes, pelo imprevisto do seu movimento, pela finura e pela plástica, pela tinta e pela propriedade, o estilo, no Esaú, arranca deste idioma o que ele, em verdade, ainda pôde recolher de ático, de fino, de suave e de espiritual. De resto, considerem a seriedade, a inteireza e a coesão da sua obra; obra que, por ser pensada e sentida, faz de Machado a única, a indiscutível glória líquida das letras brasileiras. Quando ele nos der o seu último livro, será, enfim, o primeiro, por tudo isso.
Os últimos serão os primeiros.

5/24/2017

"O Primo Basílio" - Eça de Queirós - (por Machado de Assis)


Eça de Queirós: “O Primo Basílio”
Crítica escrita por Machado de Assis em 1878, sobre a obra "O Primo Basílio de Eça de Queirós". Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)
Sob a epígrafe Literatura realista, encontra-se no Cruzeiro, desta Capital, número 105, de 16 de abril de 1878, um longo artigo de crítica ao Primo Basílio, de Eça de Queirós. Firma-o ELEAZAR, antigo pseudônimo de um dos mais notáveis prosadores da nossa língua e que é, hoje, o humorista original e justamente querido de tantos livros excelentes.

É tão raro atacar, mesmo de passagem, a obra do inesquecível autor português, que bem vale a pena reproduzir, nesta seção dos Annaes, essa curiosíssima página esquecida.
Logo às primeiras linhas, o leitor encontrará, sobre o Crime do Padre Amaro, o trecho a que Eça de Queiroz respondeu em nota à segunda edição desse romance.
***
Um dos bons e vivazes talentos da atual geração portuguesa, o Sr. Eça de Queirós, acaba de publicar o seu segundo romance, o Primo Basílio. O primeiro, O Crime do Padre Amaro, não foi decerto a sua estreia literária. De ambos os lados do Atlântico, apreciávamos há muito o estilo vigoroso e brilhante do colaborador do Sr. Ramalho Ortigão, naquelas agudas Farpas, em que aliás os dois notáveis escritores formaram um só. Foi a estreia no romance, e tão ruidosa estreia, que a crítica e o público, de mãos dadas, puseram desde logo o nome do autor na primeira galeria dos contemporâneos. Estava obrigado a prosseguir na carreira encetada; digamos melhor, a colher a palma do triunfo. Que é, e completo e incontestável.
 Mas esse triunfo é somente devido ao trabalho real do autor? O Crime do Padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do Sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente se filiava. O Sr. Eça de Queirós é um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do Assommoir. Se fora simples copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem defesa, nas mãos do entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo; mas é homem de talento, transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária; e eu, que lhe não nego a minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que penso, já da obra em si, já das doutrinas e práticas, cujo iniciador é, na pátria de Alexandre Herculano e no idioma de Gonçalves Dias.
Que o Sr. Eça de Queirós é discípulo do autor do Assommoir, ninguém há que o não conheça. O próprio O Crime do Padre Amaro é imitação do romance de Zola, La Faute de l'Abbé Mouret. Situação análoga, iguais tendências; diferença do meio; diferença do desenlace; idêntico estilo; algumas reminiscências, como no capítulo da missa, e outras; enfim, o mesmo título. Quem os leu a ambos, não contestou decerto a originalidade do Sr. Eça de Queirós, porque ele tinha, e tem, e a manifesta de modo afirmativo; creio até que essa mesma originalidade deu motivo ao maior defeito na concepção de O Crime do Padre Amaro. O Sr. Eça de Queirós alterou naturalmente as circunstâncias que rodeavam o Padre Mouret, administrador espiritual de uma paróquia rústica, flanqueado de um padre austero e ríspido; o Padre Amaro vive numa cidade de província, no meio de mulheres, ao lado de outros que do sacerdócio só têm a batina e as propinas; vê-os concupiscentes e maritalmente estabelecidos, sem perderem um só átomo de influência e consideração.
 Sendo assim, não se compreende o terror do Padre Amaro, no dia em que do seu erro lhe nasce um filho, e muito menos se compreende que o mate. Das duas forças que lutam na alma do Padre Amaro, uma é real e efetiva — o sentimento da paternidade; a outra é quimérica e impossível — o terror da opinião, que ele tem visto tolerante e cúmplice no desvio dos seus confrades; e não obstante, é esta a força que triunfa. Haverá aí alguma verdade moral?
Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação de O Crime do Padre Amaro. Era realismo implacável, consequente, lógico, levado à puerilidade e à obscuridade. Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuço, sem atenuações, sem melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, uma tradição acabada. Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia um livro em que o escuso e o — digamos o próprio termo, pois tratamos de repelir a doutrina, não o talento, e menos o homem, — em que o escuso e o torpe eram tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exação de inventário. A gente de gosto leu com prazer alguns quadros, excelentemente acabados, em que o Sr. Eça de Queirós esquecia por minutos as preocupações da escola; e, ainda nos quadros que lhe destoavam, achou mais de um rasgo feliz, mais de uma expressão verdadeira; a maioria, porém, atirou-se ao inventário. Pois que havia de fazer a maioria, senão admirar a fidelidade de um autor, que não esquece nada, e não oculta nada? Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha. Quanto à ação em si, e os episódios que a esmaltam, foram um dos atrativos de O Crime do Padre Amaro, e o maior deles; tinham o mérito do pomo defeso. E tudo isso, saindo das mãos de um homem de talento, produziu o sucesso da obra.
Certo da vitória, o Sr. Eça de Queirós reincidiu no gênero, e trouxe-nos O Primo Basílio, cujo êxito é evidentemente maior que o do primeiro romance, sem que, aliás, a ação seja mais intensa, mais interessante ou vivaz nem mais perfeito o estilo. A que atribuir a maior aceitação deste livro? Ao próprio fato da reincidência, e, outrossim, ao requinte de certos lances, que não destoaram do paladar público. Talvez o autor se enganou em um ponto. Uma das passagens que maior impressão fizeram, no O Crime do Padre Amaro, foi a palavra de calculado cinismo, dita pelo herói. O herói de O Primo Basílio remata o livro com um dito análogo; e, se no primeiro romance é ele característico e novo, no segundo é já rebuscado, tem um ar de cliché; enfastia. Excluído esse lugar, a reprodução dos lances e do estilo é feita com o artifício necessário, para lhes dar novo aspecto e igual impressão.
Vejamos o que é O Primo Basílio e comecemos por uma palavra que há nele. Um dos personagens, Sebastião, conta a outro o caso de Basílio, que, tendo namorado Luísa em solteira, estivera para casar com ela; mas falindo o pai, veio para o Brasil, donde escreveu desfazendo o casamento. —Mas é a Eugênia Grandet! exclama o outro. O Sr. Eça de Queirós incumbiu-se de nos dar o fio da sua concepção. Disse talvez consigo: —Balzac separa os dois primos, depois de um beijo (aliás, o mais casto dos beijos). Carlos vai para a América; a outra fica, e fica solteira. Se a casássemos com outro, qual seria o resultado do encontro dos dois na Europa? — Se tal foi a reflexão do autor, devo dizer, desde já que de nenhum modo plagiou os personagens de Balzac. A Eugênia deste, a provinciana singela e boa, cujo corpo, aliás robusto, encerra uma alma apaixonada e sublime, nada tem com a Luísa do Sr. Eça de Queirós.
Na Eugênia, há uma personalidade acentuada, uma figura moral, que por isso mesmo nos interessa e prende; a Luísa — força é dizê-lo — a Luísa é um caráter negativo, e no meio da ação ideada pelo autor, é antes um títere do que uma pessoa moral.
Repito, é um títere; não quero dizer que não tenha nervos e músculos; não tem mesmo outra coisa; não lhe peçam paixões nem remorsos; menos ainda consciência.
Casada com Jorge, faz este uma viagem ao Alentejo, ficando ela sozinha em Lisboa; aparece-lhe o primo Basílio, que a amou em solteira. Ela já o não ama; quando leu a notícia da chegada dele, doze dias antes, ficou muito "admirada"; depois foi cuidar dos coletes do marido. Agora, que o vê, começa por ficar nervosa; ele lhe fala das viagens, do patriarca de Jerusalém, do papa, das luvas de oito botões, de um rosário e dos namoros de outro tempo; diz-lhe que estimara ter vindo justamente na ocasião de estar o marido ausente.
Era uma injúria: Luísa fez-se escarlate; mas à despedida dá-lhe a mão a beijar, dá-lhe até entender que o espera no dia seguinte. Ele sai; Luísa sente-se "afogueada, cansada”, vai despir-se diante de um espelho, "olhando-se muito, gostando de se ver branca".  A tarde e a noite gasta-as a pensar ora no primo, ora no marido. Tal é o introito, de uma queda, que nenhuma razão moral explica, nenhuma paixão, sublime ou subalterna, nenhum amor, nenhum despeito, nenhuma perversão sequer. Luísa resvala no lodo, sem vontade, sem repulsa, sem consciência; Basílio não faz mais do que empuxá-la, como matéria inerte, que é. Uma vez rolada ao erro, como nenhuma flama espiritual a alenta, não acha ali a saciedade das grandes paixões criminosas: rebolca-se simplesmente.
Assim, essa ligação de algumas semanas, que é o fato inicial e essencial da ação, não passa de um incidente erótico, sem relevo, repugnante, vulgar. Que tem o leitor do livro com essas duas criaturas sem ocupação nem sentimentos? Positivamente nada.
E aqui chegamos ao defeito capital da concepção do Sr. Eça de Queirós. A situação tende a acabar, porque o marido está prestes a voltar do Alentejo, e Basílio começa a enfastiar-se, e, já por isso já porque o instiga um companheiro seu, não tardará a trasladar-se a Paris. Interveio, neste ponto, uma criada. Juliana, o caráter mais completo e verdadeiro do livro; Juliana está enfadada de servir; espreita um meio de enriquecer depressa; logra apoderar-se de quatro cartas; é o triunfo, é a opulência. Um dia em que a ama lhe ralha com aspereza, Juliana denuncia as armas que possui. Luísa resolve fugir com o primo; prepara um saco de viagem, mete dentro alguns objetos, entre eles um retrato do marido. Ignoro inteiramente a razão fisiológica ou psicológica desta precaução de ternura conjugal: deve haver alguma; em todo caso, não é aparente. Não se efetua a fuga, porque o primo rejeita essa complicação; limita-se a oferecer o dinheiro para reaver as cartas, — dinheiro que a prima recusa — despede-se e retira-se de Lisboa. Daí em diante o cordel que move a alma inerte de Luísa passa das mãos de Basílio para as da criada. Juliana, com a ameaça nas mãos, obtém de Luísa tudo, que lhe dê roupa, que lhe troque a alcova, que lha forre de palhinha, que a dispense de trabalhar. Faz mais: obriga-a a varrer, a engomar, a desempenhar outros misteres imundos. Um dia Luísa não se contém; confia tudo a um amigo de casa, que ameaça a criada com a polícia e a prisão, e obtém assim as fatais letras. Juliana sucumbe a um aneurisma; Luísa, que já padecia com a longa ameaça e perpétua humilhação, expira alguns dias depois.
Um leitor perspicaz terá já visto a incongruência da concepção do Sr. Eça de Queirós, e a inanidade do caráter da heroína. Suponhamos que tais cartas não eram descobertas, ou que Juliana não tinha a malícia de as procurar, ou enfim que não havia semelhante fâmula em casa, nem outra da mesma índole. Estava acabado o romance, porque o primo enfastiado seguiria para França, e Jorge regressaria do Alentejo; os dois esposos voltavam à vida anterior. Para obviar a esse inconveniente, o autor inventou a criada e o episódio das cartas, as ameaças, as humilhações, as angústias e logo a doença, e a morte da heroína. Como é que um espírito tão esclarecido, como o do autor, não viu que semelhante concepção era a coisa menos congruente e interessante do mundo? Que temos nós com essa luta intestina entre a ama e a criada, e em que nos pode interessar a doença de uma e a morte de ambas? Cá fora, uma senhora que sucumbisse às hostilidades de pessoas de seu serviço, em consequência de cartas extraviadas, despertaria certamente grande interesse, e imensa curiosidade; e, ou a condenássemos, ou lhe perdoássemos, era sempre um caso digno de lástima. No livro é outra coisa. Para que Luísa me atraia e me prenda, é preciso que as tribulações que a afligem venham dela mesma; seja uma rebelde ou uma arrependida; tenha remorsos ou imprecações; mas, por Deus! dê-me a sua pessoa moral. Gastar o aço da paciência a fazer tapar a boca de uma cobiça subalterna, a substituí-la nos misteres ínfimos, a defendê-la dos ralhos do marido, é cortar todo o vínculo moral entre ela e nós. Já nenhum há, quando Luísa adoece e morre. Por quê? porque sabemos que a catástrofe é o resultado de uma circunstância fortuita, e nada mais; e consequentemente por esta razão capital: Luísa não tem remorsos, tem medo.
Se o autor, visto que o Realismo também inculca vocação social e apostólica, intentou dar no seu romance algum ensinamento ou demonstrar com ele alguma tese, força é confessar que o não conseguiu, a menos de supor que a tese ou ensinamento seja isto: — A boa escolha dos fâmulos é uma condição de paz no adultério. A um escritor esclarecido e de boa fé, como o Sr. Eça de Queirós, não seria lícito contestar que, por mais singular que pareça a conclusão, não há outra no seu livro. Mas o autor poderia retorquir: — Não, não quis formular nenhuma lição social ou moral; quis somente escrever uma hipótese; adoto o realismo, porque é a verdadeira forma da arte e a única própria do nosso tempo e adiantamento mental; mas não me proponho a lecionar ou curar; exerço a patologia, não a terapêutica. A isso responderia eu com vantagem: — Se escreveis uma hipótese dai-me a hipótese lógica, humana, verdadeira. Sabemos todos que é aflitivo o espetáculo de uma grande dor física; e, não obstante, é máxima corrente em arte, que semelhante espetáculo, no teatro, não comove a ninguém; ali vale somente a dor moral. Ora bem; aplicai esta máxima ao vosso realismo, e sobretudo proporcionai o efeito à causa, e não exijais a minha comoção a troco de um equívoco.
E passemos agora ao mais grave, ao gravíssimo.
Parece que o Sr. Eça de Queirós quis dar-nos na heroína um produto da educação frívola e da vida ociosa; não obstante, há aí traços que fazem supor, à primeira vista, uma vocação sensual. A razão disso é a fatalidade das obras do Sr. Eça de Queirós — ou, noutros termos, do seu realismo sem condescendência: é a sensação física. Os exemplos acumulam-se de página a página; apontá-los, seria reuni-los e agravar o que há neles desvendado e cru. Os que de boa fé supõem defender o livro, dizendo que podia ser expurgado de algumas cenas, para só ficar o pensamento moral ou social que o engendrou, esquecem ou não reparam que isso é justamente a medula da composição. Há episódios mais crus do que outros. Que importa eliminá-los? Não poderíamos eliminar o tom do livro. Ora, o tom é o espetáculo dos ardores, exigências e perversões físicas. Quando o fato lhe não parece bastante caracterizado com o termo próprio, o autor acrescenta-lhe outro impróprio. De uma carvoeira, à porta da loja, diz ele que apresentava a "gravidez bestial". Bestial por quê? Naturalmente, porque o adjetivo avolume o substantivo e o autor não vê ali o sinal da maternidade humana; vê um fenômeno animal, nada mais.
Com tais preocupações de escola, não admira que a pena do autor chegue ao extremo de correr o reposteiro conjugal; que nos talhe as suas mulheres pelos aspectos e trejeitos da concupiscência; que escreva reminiscências e alusões de um erotismo, que Proudhon chamaria onissexual e onímodo; que no meio das tribulações que assaltam a heroína, não lhe infunda no coração, em relação ao esposo, as esperanças de um sentimento superior, mas somente os cálculos da sensualidade e os "ímpetos de concubina"; que nos dê as cenas repugnantes do Paraíso; que não esqueça sequer os desenhos torpes de um corredor de teatro. Não admira; é fatal; tão fatal como a outra preocupação correlativa. Ruim moléstia é o catarro; mas por que hão de padecer dela os personagens do Sr. Eça de Queirós? Em O Crime do Padre Amaro há bastantes afetados de tal achaque; em O Primo Basílio fala-se apenas de um caso: um indivíduo que morreu de catarro na bexiga. Em compensação há infinitos "jactos escuros de saliva". Quanto à preocupação constante do acessório, bastará citar as confidências de Sebastião a Juliana, feitas casualmente à porta e dentro de uma confeitaria, para termos ocasião de ver reproduzidos o mostrador e as suas pirâmides de doces, os bancos, as mesas, um sujeito que lê um jornal e cospe a miúdo, o choque das bolas de bilhar, uma rixa interior, e outro sujeito que sai a vociferar contra o parceiro; bastará citar o longo jantar do Conselheiro Acácio (transcrição do personagem de Henri Monier); finalmente, o capítulo do Teatro de São Carlos, quase no fim do livro. Quando todo o interesse se concentra em casa de Luísa, onde Sebastião trata de reaver as cartas subtraídas pela criada, descreve-nos o autor uma noite inteira de espetáculos, a plateia, os camarotes, a cena, uma altercação de espectadores.
Que os três quadros estão acabados com muita arte, sobretudo o primeiro, é coisa que a crítica imparcial deve reconhecer; mas por que avolumar tais acessórios até o ponto de abafar o principal? 

Talvez estes reparos sejam menos atendíveis, desde que o nosso ponto de vista é diferente. O Sr. Eça de Queirós não quer ser realista mitigado, mas intenso e completo; e daí vem que o tom carregado das tintas, que nos assusta, para ele é simplesmente o tom próprio. Dado, porém, que a doutrina do Sr. Eça de Queirós fosse verdadeira, ainda assim cumpria não acumular tanto as cores, nem acentuar tanto as linhas; e quem o diz é o próprio chefe da escola, de quem li, há pouco, e não sem pasmo, que o perigo do momento realista é haver quem suponha que o traço grosso é o traço exato. Digo isto no interesse do talento do Sr. Eça de Queirós, não no da doutrina que lhe é adversa; porque a esta o que mais importa é que o Sr. Eça de Queirós escreva outros livros como O Primo Basílio. Se tal suceder, o Realismo na nossa língua será estrangulado no berço; e a arte pura, apropriando-se do que ele contiver aproveitável (porque o há, quando se não despenha no excessivo, no tedioso, no obsceno, e até no ridículo), a arte pura, digo eu, voltará a beber aquelas águas sadias, de O Monge de Cister, de O Arco de Sant'Ana e de O Guarani.
A atual literatura portuguesa é assaz rica de força e talento para podermos afiançar que este resultado será certo, e que a herança de Garrett se transmitirá intacta às mãos da geração vindoura.
Há quinze dias, escrevi nestas colunas uma apreciação crítica do segundo romance do Sr. Eça de Queirós, O Primo Basílio, e daí para cá apareceram dois artigos em resposta ao meu, e porventura algum mais em defesa do romance. Parece que a certa porção de leitores desagradou a severidade da crítica. Não admira; nem a severidade está muito nos hábitos da terra, nem a doutrina realista é tão nova que não conte já, entre nós, mais de um férvido religionário. Criticar o livro, era muito; refutar a doutrina, era demais. Urgia, portanto, destruir as objeções e aquietar os ânimos assustados; foi o que se pretendeu fazer e foi o que se não fez.
Pela minha parte, podia dispensar-me de voltar ao assunto. Volto (e pela última vez) porque assim o merece a cortesia dos meus contendores; e, outrossim, porque não fui entendido em uma das minhas objeções.
E antes de ir adiante, convém retificar um ponto. Um dos meus contendores acusa-me de nada achar bom em O Primo Basílio. Não advertiu que, além de proclamar o talento do autor (seria pueril negar-lho) e de lhe reconhecer o dom da observação, notei o esmero de algumas páginas e a perfeição de um dos seus caracteres. Não me parece que isto seja negar tudo a um livro, e a um segundo livro. Disse comigo: — Este homem tem faculdades de artista, dispõe de um estilo de boa têmpera, tem observação; mas o seu livro traz defeitos que me parecem graves, uns de concepção, outros da escola em que o autor é aluno, e onde aspira a tornar-se mestre; digamos-lhe isto mesmo, com a clareza e franqueza a que têm jus os espíritos de certa esfera. — E foi o que fiz, preferindo às generalidades do diletantismo literário a análise sincera e a reflexão paciente e longa. Censurei e louvei, crendo haver assim provado duas coisas: a lealdade da minha crítica e a sinceridade da minha admiração.
Venhamos agora à concepção do Sr. Eça de Queirós, e tomemos a liberdade de mostrar aos seus defensores como se deve ler e entender uma objeção. Tendo eu dito que, se não houvesse o extravio das cartas, ou se Juliana fosse mulher de outra índole, acabava o romance em meio, porque Basílio, enfastiado, segue para a França, Jorge volta do Alentejo, e os dois esposos tornariam à vida antiga, replicam-me os meus contendores de um modo, na verdade, singular. Um achou a objeção fútil e até cômica; outro evocou os manes de Judas Macabeu, de Antíoco, e do elefante de Antíoco. Sobre o elefante foi construída uma série de hipóteses destinadas a provar a futilidade do meu argumento. Por que Herculano fez Eurico um presbítero? Se Hermengarda tem casado com o gardingo logo no começo, haveria romance? Se o Sr. Eça de Queirós não houvesse escrito O Primo Basílio, estaríamos agora a analisá-lo? Tais são as hipóteses, as perguntas, as deduções do meu argumento; e foi-me precisa toda a confiança que tenho na boa fé dos defensores do livro, para não supor que estavam mofar de mim e do público.
Que não entendessem, vá; não era um desastre irreparável. Mas uma vez que não entendiam, podiam lançar mão de um destes dois meios: reler-me ou calar. Preferiram atribuir-me um argumento de simplório; involuntariamente, creio; mas, em suma, não me atribuíram outra coisa. Releiam-me; lá verão que, depois de analisar o caráter de Luísa, de mostrar que ela cai sem repulsa nem vontade, que nenhum amor nem ódio a abala, que o adultério é ali uma simples aventura passageira, chego à conclusão de que, com tais caracteres como Luísa e Basílio, uma vez separados os dois, e regressando o marido, não há meio de continuar o romance, porque os heróis e a ação não dão mais nada de si, e o erro de Luísa seria um simples parênteses no período conjugal. Voltariam todos ao primeiro capítulo: Luísa tornava a pegar no Diário de Notícias, naquela sala de jantar tão bem descrita pelo autor; Jorge ia escrever os seus relatórios, os frequentadores da casa continuariam a ir ali encher os serões. Que acontecimento, logicamente deduzido da situação moral dos personagens, podia vir continuar uma ação extinta? Evidentemente nenhum. Remorsos? Não há probabilidades deles; porque, ao anunciar-se a volta do marido, Luísa, não obstante o extravio das cartas, esquece todas as inquietações, "sob uma sensação de desejo que a inunda". Tirai o extravio das cartas, a casa de Jorge passa a ser uma nesga do paraíso; sem essa circunstância, inteiramente casual, acabaria o romance. Ora, a substituição do principal pelo acessório, a ação transplantada dos caracteres e dos sentimentos para o incidente, para o fortuito, eis o que me pareceu incongruente e contrário às leis da arte.
Tal foi a minha objeção. Se algum dos meus contendores chegar a demonstrar que a objeção não é séria, terá cometido uma ação extraordinária. Até lá, ser-me-á lícito conservar uma pontazinha de ceticismo.
Que o Sr. Eça de Queirós podia lançar mão do extravio das cartas, não serei eu que o conteste; era seu direito. No modo de exercer é que a crítica lhe toma contas. O lenço de Desdêmona tem larga parte na sua morte; mas a alma ciosa e ardente de Otelo, a perfídia de Iago e a inocência de Desdêmona, eis os elementos principais da ação. O drama existe, porque está nos caracteres, nas paixões, na situação moral dos personagens: o acessório não domina o absoluto; é como a rima de Boileau: il ne doit qu'obéir. Extraviem-se as cartas, faça uso delas Juliana; é um episódio como qualquer outro. Mas o que, a meu ver, constitui o defeito da concepção do Sr. Eça de Queirós, é que a ação, já despida de todo o interesse anedótico, adquire um interesse de curiosidade. Luísa resgatará cartas? Eis o problema que o leitor tem diante de si. A vida, os cuidados, os pensamentos da heroína não têm outro objeto, senão esse. Há uma ocasião em que, não sabendo onde ir buscar o dinheiro necessário ao resgate, Luísa compra umas cautelas de loteria; sai branco. Suponhamos (ainda uma suposição) que o número saísse premiado; as cartas eram entregues; e, visto que Luísa não tem mais do que medo, se lhe restabelecia a paz do espírito, e com ela a paz doméstica. Indicar a possibilidade desta conclusão é patentear o valor da minha crítica.
Nem seria para admirar o desenlace pela loteria, porque a loteria tem influência decisiva em certo momento da aventura. Um dia, arrufada com o amante, Luísa fica incerta se irá vê-lo ou não; atira ao ar uma moeda de cinco tostões; era cunho: devia ir e foi. Esses traços de caráter é que me levaram a dizer, quando a comparei com a Eugênia, de Balzac, que nenhuma semelhança havia entre as duas, porque esta tinha uma forte acentuação moral, e aquela não passava de um títere. Parece que a designação destoou no espírito dos meus contendores, e houve esforço comum para demonstrar que a designação era uma calúnia ou uma superfluidade. Disseram-me que, se Luísa era um títere, não podia ter músculos e nervos, como não podia ter medo, porque os títeres não têm medo.
Supondo que este trocadilho de idéias veio somente para desenfadar o estilo, me abstenho de o considerar mais tempo; mas não irei adiante sem convidar os defensores a todo transe a que releiam, com pausa, o livro do Sr. Eça de Queirós: é o melhor método quando se procura penetrar a verdade de uma concepção. Não direi, com Buffon, que o gênio é a paciência; mas creio poder afirmar que a paciência é a metade da sagacidade: ao menos, na crítica.
Nem basta ler; é preciso comparar, deduzir, aferir a verdade do autor. Assim é que, estando Jorge de regresso e extinta a aventura do primo, Luísa cerca o marido de todos os cuidados — "cuidados de mãe e ímpetos de concubina". Que nos diz o autor nessa página? Que Luísa se envergonhava um pouco da maneira "por que amava o marido; sentia vagamente que naquela violência amorosa havia pouca dignidade conjugal. Parecia-lhe que tinha apenas um capricho".
Que horror! Um capricho por um marido! Que lhe importaria, de resto? "Aquilo fazia-a feliz". Não há absolutamente nenhum meio de atribuir a Luísa esse escrúpulo de dignidade conjugal; está ali porque o autor no-lo diz; mas não basta; toda a composição do caráter de Luísa é antinômica com semelhante sentimento. A mesma coisa diria dos remorsos que o autor lhe atribui, se ele não tivesse o cuidado de os definir (p. 440). Os remorsos de Luísa, permita-me dizê-lo, não é a vergonha da consciência, é a vergonha dos sentidos; ou, como diz o autor: "um gosto infeliz em cada beijo". Medo, sim; o que ela tem é medo; disse-o eu e di-lo ela própria: "Que feliz seria, se não fosse a infame!”
Sobre a linguagem, alusões, episódios, e outras partes do livro, notadas por mim, como menos próprias do decoro literário, um dos contendores confessa que os acha excessivos, e podiam ser eliminados, ao passo que outro os aceita e justifica, citando em defesa o exemplo de Salomão na poesia do Cântico do Cânticos:
On ne s’attendait guère
À voir la Bible en cette-affaire;

E menos ainda se podia esperar o que nos diz do livro bíblico. Ou recebeis o livro, como deve fazer um católico, isto é, em seu sentido místico e superior, e em tal caso não podeis chamar-lhe erótico; ou só o recebeis no sentido literário, e então nem é poesia, nem é de Salomão; é drama e de autor anônimo. Ainda, porém, que o aceiteis como um simples produto literário, o exemplo não serve de nada.
Nem era preciso ir à Palestina. Tínheis a Lisístrata; e se a Lisístrata parecesse obscena demais, podíeis argumentar com algumas frases de Shakespeare e certas locuções de Gil Vicente e Camões. Mas o argumento, se tivesse diferente origem, não teria diferente valor. Em relação a Shakespeare, que importam algumas frases obscenas, em uma ou outra página, se a explicação de muitas delas está no tempo, e se a respeito de todas nada há sistemático? Eliminai-as ou modificai-as, nada tirareis ao criador das mais castas figuras do teatro, ao pai de Imogene, de Miranda, de Viola, de Ofélia, eternas figuras, sobre as quais hão de repousar eternamente os olhos dos homens. Demais, seria mal cabido invocar o padrão do Romantismo para defender os excessos do Realismo.
Gil Vicente usa locuções que ninguém hoje escreveria, e menos ainda faria repetir no teatro; e não obstante as comédias desse grande engenho eram representadas na corte de D. Manuel e D. João III. Camões, em suas comédias, também deixou palavras hoje condenadas. Qualquer dos velhos cronistas portugueses emprega, por exemplo, o verbo próprio, quando trata do ato, que hoje designamos com a expressão dar à luz, o verbo era então polido; tempo virá em que dar à luz seja substituída por outra expressão; e nenhum jornal, nenhum teatro a imprimirá ou declamará como fazemos hoje.
A razão disto, se não fosse óbvia, podíamos apadrinhá-la com Macaulay: é que há termos delicados num século e grosseiros no século seguinte. Acrescentarei que noutros casos a razão pode ser simplesmente tolerância do gosto.
Que há, pois, comum entre exemplos dessa ordem e a escola de que tratamos? Em que pode um drama de Israel, uma comédia de Atenas, uma locução de Shakespeare ou de Gil Vicente justificar a obscenidade sistemática do Realismo? Diferente coisa é a indecência relativa de uma locução, e a constância de um sistema que, usando aliás de relativa decência nas palavras, acumula e mescla toda a sorte de ideias e sensações lascivas; que, no desenho e colorido de uma mulher, por exemplo, vai direito às indicações sensuais.
Não peço, decerto, os estafados retratos do Romantismo decadente; pelo contrário, alguma coisa há no Realismo que pode ser colhido, em proveito da imaginação e da arte. Mas sair de um excesso para cair em outro, não é regenerar nada; é trocar o agente da corrupção.
Um dos meus contendores persuade-se que o livro podia ser expurgado de alguns traços mais grossos; persuasão, que no primeiro artigo disse eu que era ilusória, e por quê. Há quem vá adiante e creia que, não obstante as partes condenadas, o livro tem um grande efeito moral. Essa persuasão não é menos ilusória que a primeira; a impressão moral de um livro não se faz por silogismo, e se assim fosse, já ficou dito também no outro artigo qual a conclusão deste. Se eu tivesse de julgar o livro pelo lado da influência moral, diria que, qualquer que seja o ensinamento, se algum tem, qualquer que seja a extensão da catástrofe, uma e outra coisa são inteiramente destruídas pela viva pintura dos fatos viciosos: essa pintura, esse aroma de alcova, essa descrição minuciosa, quase técnica, das relações adúlteras, eis o mal. A castidade inadvertida que ler o livro chegará à última página, sem fechá-lo, e tornará atrás para reler outras.
Mas não trato disso agora; não posso sequer tratar mais nada; foge-me o espaço. Resta-me concluir, e concluir aconselhando aos jovens talentos de ambas as terras da nossa língua, que não se deixem seduzir por uma doutrina caduca, embora no verdor dos anos. Este messianismo literário não tem a torça da universalidade nem da vitalidade; traz consigo a decrepitude. Influi, decerto, em bom sentido e até certo ponto, não para substituir as doutrinas aceitas, mas corrigir o excesso de sua aplicação. Nada mais. Voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o Realismo, assim não sacrificaremos a verdade estética.
Um dos meus contendores louva o livro do Sr. Eça de Queirós, por dizer a verdade, e atribui a algum hipócrita a máxima de que nem todas as verdades se dizem. Vejo que confunde a arte com a moral; vejo mais que se combate a si próprio. Se todas as verdades se dizem, por que excluir algumas?
Ora, o realismo dos senhores Zola e Eça de Queirós, apesar de tudo, ainda não esgotou todos os aspectos da realidade. Há atos íntimos e ínfimos, vícios ocultos, secreções sociais que não podem ser preteridas nessa exposição de todas as coisas. Se são naturais para que escondê-los? Ocorre-me que Voltaire, cuja eterna mofa é a consolação de bom senso (quando não transcende o humano limite), a Voltaire se atribui uma resposta, da qual apenas citarei metade: Très naturel aussi, mais je porte des culottes.
Quanto ao Sr. Eça de Queirós e aos seus amigos deste lado do Atlântico, repetirei que o autor de O Primo Basílio tem em mim um admirador de seus talentos, adversário de suas doutrinas, desejoso de o ver aplicar, por modo diferente, as fortes qualidades que possui; que, se admiro também muitos dotes do seu estilo, faço restrições à linguagem; que o seu dom de observação, aliás pujante, é complacente em demasia; sobretudo, é exterior, é superficial. O fervor dos amigos pode estranhar este modo de sentir e a franqueza de o dizer. Mas então o que seria a crítica?

9/07/2016

"A obra prima do humorismo machadiano", por Modesto de Abreu

 Pesquisa, adaptação ortográfica e produção gráfica: Iba Mendes


A obra prima do humorismo machadiano: "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

Estudo crítico e filológico, por: Modesto de Abreu

UMA DAS OBRAS MAIS BELAS DA LITERATURA BRASILEIRA

Adotando "à forma livre de um Sterne ou de um Xavier de Maistre", metendo-lhe "algumas rabugens de pessimismo inevitáveis em quem se decidira a escrever "com a pena da galhofa e a tinta da melancolia" e contentando-se, mais modesto que Stendhal, em ter "dez" ou "talvez cinco" leitores, realizou Brás Cubas, ao escrever, pela mão de Machado de Assis, as suas próprias "Memórias Póstumas", uma das obras mais belas da literatura brasileira, que tem tido, até os nossos dias, não cinco, não dez, nem vinte, nem cinquenta, nem os "cem" do realista da Chartreuse de Parme e de Le Rouge et le Noir, mas cem, mil, dez mil vezes mais leitores, não obstante repassada de "um sentimento amargo e áspero" que, em todo caso, "está longe de vir dos seus modelos".

As Memórias Póstumas de Brás Cubas podem efetivamente parecer-se com os romances e narrativas do humorista inglês de Tristram Shandy e da Viagem Sentimental, ou com o do seu êmulo francês da Viagem à volta do meu quarto; será porém mera aparência de técnica, de feitio, de exterioridade; o que está por dentro é puro Machado, sem eiva estrangeira.

O humorismo que tão bem lhe define o caráter de toda a obra desde cedo, em outros gêneros, no teatro antes da crônica, nesta antes do conto e no conto antes do romance, só se cristaliza neste último gênero a partir do Brás Cubas, isto é, depois de atingir Machado a meta dos quarenta anos. Quem quiser procurar o gérmen do humorismo de Machado no romance percorrendo-lhe a série dos quatro romances anteriores, sentir-se-á literalmente desnorteado, mesmo cm se lhe deparando os laivos de humor que já se percebem em Iaiá Garcia, principalmente no muito de autobiográfico que há no tipo do velho Garcia. O segredo desse humorismo, que vem dois anos apenas deixa um valo quase intransponível entre as duas fases do romancista, tem de ser colhido nos contos e nas crônicas do decênio que vai de 70 a 80, como nos diálogos magistrais das primeiras peças, entre o Caminho da Porta e os Deuses de Casaca, pertencentes ao decênio anterior.

Logo de início, a originalidade do Brás Cubas manifesta-se na dedicatória; o suposto autor, que escreve as suas memórias depois de morto, por um "processo extraordinário" que se exime de relatar, oferece o livro "ao verme que primeiro roeu as frias carnes" do seu cadáver. Depois do prólogo e da advertência, que explicam a obra, entra na narração de sua vida, começando pelo fim, isto é, narrando primeiro o seu óbito, depois a causa do óbito, a moléstia, o invento a que se aplicara em vida e que fora o causador da moléstia, o delírio que o acometera durante a visita da antiga amante, amante que lhe fora o "grão pecado da juventude"; da juventude desce à meninice e daí, sem esforço, ao nascimento, para descrever então os seus primeiros anos, o batizado, a educação doméstica, o ambiente intelectual da família, as primeiras indiscrições de menino terrível, a escola, onde teve por colega o Quincas Borba e onde ambos tiveram por mestre o colérico Ludgero Barata. De um salto conduz-nos o póstumo autobiografado ao período dos seus dezessete anos, quando já o "pungia um buçozinho" que ele "forcejava por trazer a bigode", período que coincide com a aventura de Marcela, a qual o amara "durante quinze meses e onze contos de reis", findos os quais o pai manda-o a bacharelar-se em Coimbra. De volta, arranja-lhe o pai um casamento: inculca-lhe Virgília, a filha do conselheiro Dutra; mas é outra quem lhe recebe o primeiro beijo, é Eugênia, a "Vênus Manca", que obedecendo a incoercível atavismo lhe entregou os lábios sem relutância, embora percebendo, com a clarividência dos sofredores natos, a impossibilidade de se fazer requestada. Brás, de fato, não casa com Eugênia, mas também não alcança a mão de Virgília e, com ela, a cadeira de deputado que o conselheiro destinava ao que a sorte lhe desse por genro. Abiscoita-as a ambas o Lobo Neves, que não era entretanto "mais esbelto, nem mais elegante, nem mais lido, nem mais simpático". Desse fracasso nos seus planos à morte do velho Cubas foi um passo. Se, entretanto, o pulo errado do matrimônio vedara a Brás Cubas o acesso à Câmara e ao marquesado que o seu feliz rival acariciava, não impedira que prosseguissem, antes estimulara, os amores pregressos, e Virgília consumaria na realidade o "velho diálogo de Adão e Eva" que se iniciara no pensamento vadio do descendente dos Cubas; amantes agora, era no seio de Virgília que ia Brás Cubas "repousar" de todas as sensações más"; Virgília era para ele "o travesseiro" do seu espírito, um travesseiro "mole, tépido, aromático, enfronhado em cambraias e bruxelas". Como os amores que vinham mantendo começassem a dar na vista e a ser comentados, Brás propôs e Virgília acabou aceitando a ideia, que faz lembrar situação equivalente do Primo Basílio, de arranjar um ninho discreto onde ninguém os incomodasse. Prepararam-no em uma casinha da Gamboa, que ficava sob a guarda de Dona Plácida, cuja consciência Brás Cubas se encarregou de comprar por cinco contos, justamente os que achara tempos antes e depositara no Banco do Brasil; esse pecúlio, a título de "um pão para a velhice", acabou de dispor a boa velhota, anulando-lhe o resto do "nojo" que guardava desde o princípio com a aceitação de "ofício" a que não estava acostumada. Foi-lhe afinal um benefício aquele emprego, pois, conforme confessou, vivera até então uma vida de privações e canseiras mal remuneradas, e agora pelo menos já estava a salvo da miséria futura, graças ao contubérnio da iaiá, a cuja família anteriormente servira. Para alguma coisa — é conclusão do Cubas — sempre serve o vício: "é muitas vezes o estrume da virtude". Iam as coisas paradisiacamente bem, quando estourou a nomeação do Lobo Neves para presidente de uma província. Era a separação, e Cubas não podia conformar-se. Felizmente o próprio Lobo, necessitando de um secretário, convidou-o. Advertências amigas porém, do cunhado, da irmã o dissuadiram de aceitar. Ainda aí a sorte ajudou-o: o marido da amante recusou a nomeação por motivo de superstição: a data do decreto trazia um número para ele fatídico. Tudo iria bem agora; mas a gravidez de Virgília veio começar de complicar a situação: não complicou porque aquilo que estava destinado a ser o filho espúrio não vingou: "foi-se o embrião, naquele ponto em que se não distingue Laplace de uma tartaruga". Todavia, não passaram inteiramente os sustos. Lobo Neves recebe uma carta anônima e, como consequência, sobrevém o resfriamento das relações com o casal, nuvem passageira que se esvai para continuar logo tudo como dantes, embora conservando-se Lobo Neves daí por diante um tanto desconfiado e reservado. Afinal, nova nomeação, sem o perigo supersticioso da outra, afasta de Cubas a amante e o marido. Nova oportunidade casamentícia oferece-se-lhe por essa época: a penetrante Nhã Loló, filha do Damasceno, o apaixonado das brigas de galo; mas é novo aceno fugaz que se frustra com a morte imprevista da moça, vitimada pela febre amarela. Chega assim o nosso herói da separação da amante ao Humanitismo de Quincas Borba, daí à invenção inconclusa do "emplasto" para a cura da hipocondria, do emplasto à doença e da doença à morte, com que se reatam as extremidades da sua história e do livro. Do balanço a que procede nessa liquidação de contas com a vida, depois de arrolar todas as negativas em que se resumira a sua existência (falhas do emplasto, do ministério e do casamento), depois de verificar que, em compensação, não o assaltaram outros males (privações, abjeções nem loucura), conclui que não apenas saiu "quite com a vida", mas ainda lhe ficou "um pequeno saldo", que é "a derradeira negativa deste capítulo de negativas": não teve filhos, não transmitiu "a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

Os tipos principais aí estão com os seus caracteres, nesse breve resumo; os demais são acessórios: Sabina, irmã de Brás; Cotrim, marido de Sabina; seus padrinhos, o "excelentíssimo senhor coronel Paulo Vaz Lobo César de Andrade e Souza Rodrigues de Matos e a excelentíssima senhora dona Maria Luiza de Macedo Rezende e Souza Rodrigues de Matos"; sua sobrinha, Venância, "o lírio do vale"; o filho único de Virgília, Nhonhô, que "na idade de cinco anos fora cúmplice inconsciente" dos amores de ambos; os tios, João que era oficial de infantaria e gostava de contar anedotas licenciosas, e Ildefonso, o cônego, que sonhava para o menino Brás o destino de um bispado; o Vilaça, íntimo do Bocage e da duquesa de Cadaval, o mesmo Vilaça que o peralta do Brás surpreendeu ("ah! brejeiro! ah! brejeiro!") beijando na chácara a dona Eusébia, a mesma Eusébia irmã do sargento-mor Domingues e futura mãe da "Venus coxa", Eugênia; o Xavier, amante de Marcela até o advento triunfal do jovem Cubas; o doido a bordo; o capitão do navio, "marujo poeta", o almocreve; o moleque Prudêncio, que depois de alforriado se fez a seu turno senhor de escravos; o Luiz Dutra, primo de Virgília; a baronesa mexeriqueira; o doido Romualdo, rei dos Tártaros"; o Garcez, "velho cirurgião, pequenino, trivial e grulha"; o Jacó... de quê mesmo? Jacó Tavares, o da teoria das "embaçadelas recíprocas"; o velho avarento Viegas, rival de Harpagon e Grandet, que morreu discutindo o preço de uma casa, sem chegar a acordo; o alienista, mandado pelo Quincas Borba, para ver se o Brás Cubas estava doido.

Na topografia do Braz Cubas, afora a cena do navio, a passagem por Lisboa, a estada em Coimbra e o episódio do almocreve, tudo contado rapidamente em três breves capítulos, a ação decorre toda no Rio. Os principais cenários são: a chácara de Catumbi, onde nasceu, viveu parte de sua vida e morreu o herói; a igreja de São Domingos, onde se batizou; a rua do Piolho, hoje da Carioca, onde ficava a escola do prof. Ludgero Barata; o Rocio Grande, a rua dos Cajueiros, o Valongo, a Gamboa; a Tijuca, onde foi morar após a morte da mãe e de onde desceu quando lhe apareceram os amores da Vênus Manca; a praia de Botafogo, onde fez o achado dos cinco contos que passariam depois a Dona Plácida e desta a um espertalhão que arranjara com ela um casamento interesseiro para lhos empalmar e fugir, deixando-a à mercê de um hospital, onde acabaria os tristes dias; a rua dos Barbonos; São Cristóvão, onde o Viegas pretendia construir uma casa de feitio moderno; o degrau da escada de São Francisco, onde fora "morar" o Borba após a sua decadência; o Passeio Público, a capela do Livramento, o Engenho Velho...

Quanto às leituras do romancista, revelada através da obra, podemos rastrear algumas: Garrett, Xavier de Maistre, Stendhal e Sterne, citados no prólogo e na advertência ao leitor; Shakespeare, com o "Hamlet" (o undiscovered country) e o "Otelo"; Swift, com o "Guliver"; Dante ("Purgatório"); as Mil e Uma Noites, a Bíblia ("Atos dos Apóstolos"); Molière ("Tartufo"); Virgílio (Arma cirumque cano); Corneille ("Chimène, qui l'eut dit..."); Tomás de Aquino (Suma Theologica); Pascal (l'ange et la bete"); Voltaire (O dr. Pangloss)...

Há ainda reminiscências do teatro da época, quando se representaram no Rio a Maria Joana, a comédia Kettly ou a volta à Suíça, a Safo, a Ana Bolena, o Ernani, e quando, no São Pedro, a Estela (Estela Sezefreda, mulher de João Caetano) "arrancava lágrimas" com os seus tremendos dramalhões.

Quanto ao estilo, e particularmente ao vocabulário, encontramos no Brás Cubas algumas peculiaridades interessantes: — "grão pecado", grande pecado; — "trajada ao bizarro", que ele mesmo esclarece: "como diria o padre Bernardes"; — "avoaçar", esvoaçar, particularmente no sentido de debater-se a galinha "atada pelos pés"; — "deixei ele", cópia da sintaxe popular, no diálogo com o ex-escravo; — "heis de cair", haveis de cair; — "medianeira", intermediária, alcoviteira, mulher que facilita relações amorosas alheias; — "modo que", expressão plebeia, empregada por Lobo Neves ("A modo que não gostaste, Virgília"?) — parece que, dir-se-ia que...; — "grulha", falador, palrador, indiscreto; — "ateimei, com a prostético; — "embaçadelas", logros, burlas, mentirolas, despistamentos; — "vinha de guardar a carta'', acabava de guardar; — "godemes", apelido pejorativo dos ingleses (da blasfêmia ou interjeição plebeia goddam, — Deus me dane!, aproximadamente equivalente ao francês nom de Dieu!); — "vida celibata", vida de celibatário, empregada a palavra celibata como adjetivo; — "alfim" — enfim, afinal, no fim de tas ("Não há cachorrinho tão adestrado que alfim lhe não ouçamos o latir"); "rejuvenescência", rejuvenescimento; — "emplasto", emplastro, com supressão do r (latim: emplastram, do grego: emplastron).


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Fonte:
Revista Aspectos - Julho/Outubro de 1939. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital