segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Amicus e Celestino (Conto), de Anatole France



Amicus e Celestino, de Anatole France
Tradução publicada no "Diário de Notícias", em sua edição de 27 de dezembro de 1942. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Prosternado à soleira de sua gruta, o eremita Celestino passou em orações a vigília da Páscoa — essa noite angélica durante a qual os demônios inquietos são precipitados no abismo. Enquanto as sombras cobriam a terra, à hora em que o Anjo exterminador pairava sobre o Egito, Celestino estremeceu, cheio de agonia e inquietação. Ouvia, ao longe, na floresta, os miados dos gatos selvagens e a voz aflautada dos sapos. Mergulhado nas trevas impuras, ele duvidava que o mistério glorioso se pudesse cumprir. Mas, quando viu romper o dia, a alegria, juntamente com a aurora, entrou em seu coração; sentiu que Cristo ressuscitara e exclamou:
— Jesus saiu do túmulo! O amor venceu a morte! Aleluia! A Criação está salva e redimida! A sombra e o mal estão dissipados. A graça e a luz se espalham sobre o mundo! Aleluia!
Uma cotovia, que despertava nos trigais, respondeu-lhe cantando:
— Ele ressuscitou! Sonhei com ovos e ninhos, ovos brancos... Aleluia! Ele ressuscitou!
E o eremita Celestino saiu de sua gruta para ir à capela vizinha, celebrar o santo dia de Páscoa.
Como atravessasse a floresta, viu, no meio de uma clareira, um velho carvalho, cujos brotos exuberantes já deixavam escapar folhinhas de um verde tenro. Guirlandas de Lera e de líquens estavam dependuradas dos galhos, que desciam até o chão. Inscrições votivas, pregadas ao tronco nodoso, falavam da mocidade e do amor; e, aqui e ali, cupidos de argila, cujas asas abertas e cujas túnicas esvoaçantes balançavam-se nos ramos. A vista disto, o eremita Celestino franziu os supercílios brancos.
— É a árvore das fadas — pensou. E as moças do lugar a carregaram de oferendas, segundo o antigo costume. Minha vida se passa a lutar contra elas, e ninguém imagina o trabalho que essas figurinhas me dão. Resistem-me abertamente... Cada ano, durante a colheita, excomungo-as, segundo os ritos, e lhes canto o Evangelho de São João.
Não seria possível fazer mais: a água benta e o Evangelho de São João as põem em fuga. E ninguém mais ouve falar dessas senhoras durante todo o inverno. Mas voltam na primavera — e é isso todos os anos...
São sutis. Basta um pequeno arbusto para abrigar um enxame delas... E espalham encantamentos sobre as moças e os moços.
Depois que fiquei velho minha vista diminuiu — e quase não as percebo mais. Zombam do mim, riem às minhas barbas. Mas, quando tinha vinte anos, eu as via nas clareiras, dançando em rondas, com os chapéus de flores, sob um raio de luar. Senhor Deus! Vós que fazeis o céu e o orvalho, sede louvado por vossas obras! Mas por que fizestes árvores pagas e fontes mágicas? Por que pusestes sob a aveleira, a mandrágora que encanta? Estas coisas naturais induzem a mocidade ao pecado e causam fadigas sem conta aos anacoretas que, como eu, desejam santificar as criaturas. Se ainda o Evangelho de São João fosse suficiente pare expulsar os demônios! Mas ele não basta — e eu nada mais posso fazer... 
E, como o bom eremita se afastasse, suspirando, a árvore, que era fada, disse-lhe, num delicado sussurro:
— Celestino, Celestino! Meus brotos são ovos, verdadeiros ovos de Páscoa. Aleluia, aleluia!...
Celestino penetrou no bosque sem voltar a cabeça. Caminhava a custo, por um estreito atalho, em meio de espinhos que lhe dilaceravam a roupa, quando, subitamente, pulando de um galho, um rapaz lhe barrou a passagem. Estava semivestido com uma pele de animal — e era antes um fauno que um homem. O olhar era vivo; o nariz, chato; a face, risonha. Os cabelos cacheados escondiam dois chifres. Os lábios deixavam a mostra dentes agudos e brancos. Pelos louros desciam-lhe, em duas pontas, do queixo. Era ágil e esbelto, e seus pés bífidos se dissimulavam na relva.
Celestino, que possuía todos os conhecimentos que dá a meditação, viu, logo, que tinha alguma coisa a fazer — e levantou o braço para o sinal da cruz. Mas o fauno, segurando-lhe a mão, impediu-o de completar esse gesto poderoso.
— Bom eremita, disse-lhe, não me esconjure. Este dia é para mim, como para ti, um dia de festa. Não seria caridoso causar-me tristeza no dia da Páscoa. Se quiseres, caminharemos juntos e verás que não sou mau.
Celestino era, por felicidade, multo versado nas ciências sagradas. Lembrou-se, a propósito, de que São Jerônimo tivera por companheiros de viagem, no deserto, sátiros e centauros, que haviam confessado a verdade.
 Disse, então, ao fauno:
— Fauno, sê um hino a Deus. Dize: Ele ressuscitou!
— Ele ressuscitou! — respondeu o fauno. E por isso me vês tão alegre.
O atalho se alargara e ambos caminhavam lado a lado. O eremita ia pensativo e sonhava:
— Ele não é um demônio, pois confessou a verdade. Fiz bem em não entristecê-lo. O exemplo do grande São Jerônimo não foi perdido para mim.
E, voltando-se para o companheiro caprípede, perguntou-lhe:
— Qual é teu nome?
— Chamo-me Amicus, respondeu o fauno. Moro neste bosque, onde nasci. Procurei-te, meu pai, porque tens um ar bondoso sob tua longa barba branca. Parece-me que os eremitas são faunos vencidos pelos anos. Quando eu for velho, serei como tu.
— Ele ressuscitou — disse o eremita.
— Ele ressuscitou — disse Amicus.
E, palestrando, galgaram a colina onde se erguia uma capela consagrada ao verdadeiro Deus. Era pequenina e de estrutura grosseira; Celestino a construíra com suas próprias mãos, com as ruínas de um templo de Vênus. No Interior, a sagrada mesa jazia Informe e nua.
— Prosternemo-nos — disse o eremita, e cantemos aleluia, porque Ele ressuscitou. E tu, criatura obscura, continua ajoelhado enquanto eu ofereço o sacrifício.
Mas o fauno, aproximando-se do eremita, acariciou lhe a barba e disse:
— Bom velho, és mais sábio que eu e enxergas o invisível. Mas eu conheço melhor que tu os bosques e as fontes. Oferecerei ao Deus, folhagens e flores. Conheço as encostas, onde se entreabrem corimbos lilases, os prados, onde as trepadeiras florescem em cachos amarelos. Descubro, pelo seu delicado aroma, o agárico selvagem. Já uma nuvem de flores coroa os espinheiros. Espera-me, velho...
Em três pulos de cabra, Amicus foi até o bosque e, quando voltou, desaparecia sob uma colheita perfumada. Prendeu as guirlandas de flores ao altar rústico e, cobrindo-o de violetas, disse gravemente:
 — Estas flores, ao Deus que as fez nascer!
E enquanto Celestino celebrava o sacrifício da missa, o caprípede, inclinado até o chão sua fronte carnuda, adorava o sol e dizia:
— A terra é um grande ovo que tu fecundas, sol, sol sagrado!
Desde esse dia, Celestino e Amicus viveram juntos. O eremita nunca conseguiu, apesar de todos os esforços, fazer compreender ao semi-homem os mistérios inefáveis; mas, como, pelos cuidados de Amicus, a capela do verdadeiro Deus estava sempre ornada de guirlandas e mais florida que a árvore das fadas, o santo padre dizia: "O fauno é um hino a Deus".
Eis porque lhe deu o santo batismo.
Sobre a colina em que Celestino construíra a estreita capela que Amicus enfeitava de flores das montanhas, dos bosques e das águas, eleva-se, hoje, uma igreja cuja nave remonta ao século XI e cujo pórtico foi reedificado no reinado de Henrique II, em estilo Renascença. É um lugar de peregrinação e os fiéis aí recuperam a memória bem-aventurada dom santos Amicus e Celestino.

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