segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Os pães de centeio (Centro), de Anatole France



Os pães de centeio, de Anatole France

Tradução publicada na "Revista Carioca", em sua edição de 4 de setembro de 1947. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Naquele tempo Nicolau Nerli era banqueiro na nobre cidade de Florença. Ao soar a terceira hora já estava sentado em sua mesa de trabalho e ao soar a hora nona ainda continuava sentado. Durante todo o dia desenhava números em suas tábuas. Emprestava dinheiro ao Imperador e ao Papa, e, se não chegou a emprestar ao Diabo, foi por temor de que lhe corressem mal os negócios este que se chama o Maligno e que tem demasiada esperteza. Nicolau Nerli era atrevido e desconfiado. Adquiriu enormes riquezas despojando muitas pessoas, pelo que sempre teve boa reputação na cidade de Florença. Habitava um palácio onde a luz que Deus criou só entrava por estreitas janelas, e nisto deve-se reconhecer uma justa previsão, porque a morada dos ricos deve ser como uma cidadela, e os que possuem considerável fortuna agem prudentemente defendendo, pela força, o que adquiriram com malícia.
Assim, pois, o palácio de Nicolau Nerli estava provido de trancas e cadeados. No interior, as paredes eram pintadas por hábeis artesãos que ali representavam as Virtudes sob aparência de mulheres, os patriarcas, os profetas e os reis de Israel. Tapeçarias estendidas nos cômodos ofereciam, aos olhos, as histórias de Alexandre e de Tristão, tal como se relatam nas lendas.
Para ostentar sua riqueza na cidade, fundava Nicolau Nerli instituições piedosas. Construiu, fora do recinto murado, um hospital em cujo friso, de relevos pintados, eram representados os atos mais honrosos de sua vida. Em agradecimento à quantidade de prata que facilitou para que se terminasse Santa Maria a Nova, no coro daquela igreja achava-se pendurado o seu retrato. Viam-no ajoelhado aos pés da Santa Virgem, com as mãos juntas, e era facilmente reconhecível por seu gorro de lã vermelha, por sua capa forrada de pele, por seu rosto gorduroso e amarelado por seus olhinhos espertos. Sua bondosa mulher, Mona Bismantova, de aspecto triste e honrado, cuja aparência fazia supor que jamais havia agradado a alguém, achava-se do outro lado da Virgem, em humilde atitude de meditação. Aquele homem era um dos principais cidadãos da República; como nunca havia demandado contra as leis e tão pouco se havia preocupado com os pobres nem com aqueles a quem os poderosos dominantes condenam à multa e ao desterro, nada pôde diminuir, perante os magistrados, o alto conceito que, aos olhos destes, suas imensas riquezas o fizeram merecedor.
Ao entardecer de um dia de inverno, entrando em seu palácio a uma hora mais avançada do que acontecia, na soleira da porta se viu rodeado por um grupo de mendigos seminus que lhe estendiam as mãos.
Repeliu-os com palavras rudes; a fome, porém, os obrigava a se mostrarem ariscos e atrevidos como lobos. Fizeram um círculo em torno de Nicolau Nerli e lhe pediram pão com voz queixosa e enrouquecida. Inclinava-se já para apanhar pedras do solo e atirá-las, quando viu chegar um de seus criados que trazia sobre a cabeça um cesto de pães de centeio destinados aos moços das cavalariças, da cozinha e dos jardins.
Indicou ao padeiro que se aproximasse, e, tirando do cesto os pães a mãos-cheias, os atirou aos miseráveis; depois entrou em seu palácio, deitou e dormiu. Enquanto dormia, teve um ataque epilético e morreu tão repentinamente que ainda se considerava em seu leito quando num lugar, "falto de toda luz", lhe apareceu São Miguel, iluminado pela claridade que irradiava seu próprio corpo!
Com a balança na mão, o arcanjo enchia os pratos. Ao reconhecer, no mais pesado, as joias das viúvas que guardava como garantia, os inumeráveis escudos que havia retido indevidamente, e algumas peças de ouro muito formosas que só ele possuía e que havia adquirido pela usura ou pela fraude, Nicolau Nerli supôs que era sua vida passada o que o arcanjo pesava naquele instante, pelo que se mostrou atento e temeroso.
— Messer São Miguel — disse — se colocais num lado todos os lucros que eu tive em minha vida, colocai no outro, se vos apraz, todas as formosas fundações pelas quais manifestei, magnificamente, minha devoção. Não esqueçais a cúpula de Santa Maria a Nova, para a qual contribui com uma boa terça parte, nega o hospital extramuros que mandei construir só com o meu dinheiro.
— Não tenhas temor, Nicolau Nerli — respondeu São Miguel — nunca esqueço nada.
E, com suas mãos gloriosas, colocou, no prato que pesava menos, a cúpula de Santa Maria e o hospital com seu friso de relevos pintados; o prato, porém, não baixava.
O banqueiro começou a inquietar-se profundamente.
— Messer São Miguel — insistiu — procurai mais. Não colocastes neste prato da balança, nem a formosa pia de água benta de São João, nem o púlpito de Santo André, onde o batismo de Nosso Senhor Jesus Cristo se acha representado em tamanho natural. É uma obra que me custou muito caro.
O arcanjo pós o púlpito e a pia de água benta sobre o hospital, no prato que, apesar de tudo, não baixava.
Nicolau Nerli começou a sentir sua testa inundada por um gélido suor.
— Messer arcanjo — perguntou — estais certo de que vossas balanças pesam bem?
São Miguel respondeu, sorridente, que ainda que não fossem construídas conforme o modelo das balanças que usam os lombardos de Paris ou os cambistas de Veneza, nem por isso deixavam de ser precisas.
— É possível — suspirou Nicolau Nerli angustiado — que minha cúpula, meu púlpito, meu hospital, com todas suas camas, não pesem mais do que um fiapo de palha, do que uma pena de pássaro?
— Assim, o vês, Nicolau — disse o arcanjo — o peso de tuas iniquidades é muito maior que o de tuas piedosas obras.
— Neste caso, irei para o Inferno! — disse o florentino.
Seus dentes batiam de pavor.
— Paciência, Nicolau Nerli! — retorquiu o pesador celeste. — Paciência! Não acabamos ainda; falta uma coisa.
E o bem-aventurado Miguel apanhou os pães de centeio que o rico havia atirado na véspera aos pobres, colocou-os no prato das boas obras que prontamente desceu enquanto o outro subia.
Os dois pratos ficaram na mesma altura: o fiel da balança não oscilava nem para a direita nem para a esquerda indicando a igualdade perfeita dos dois pesos.
O banqueiro não dava crédito aos seus olhos.
O glorioso arcanjo lhe disse:
— Tu o vês, Nicolau Nerli; não serves nem para o Céu nem para o Inferno. Tu o vês. Volta à Florença; continua repartindo pela tua cidade pães, como os que deu tua mão esta noite, sem que ninguém o veja e te salvarás, porque não é bastante que o céu se abra para o ladrão que se arrepende e para a prostituta que chora. A misericórdia de Deus é infinita! É capaz de salvar um rico! Sê tu o rico digno de salvar-se. Continua repartindo pães que pesam muito em minhas balanças. Vai-te.
Nicolau Nerli despertou, em seu leito, resolvido a seguir os conselhos do arcanjo e a repartir o pão entre os pobres para entrar no reino dos céus.
Durante os três anos que viveu ainda na terra, depois de sua primeira morte, mostrou-se piedoso com os desditados e deu muitas esmolas.

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