sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Conte-me, conte-me uma história... (Conto), de Óscar Lopes









Óscar Lopes nasceu no Ceará, em 31 de dezembro de 1882. Faleceu no  Rio de Janeiro, no dia 1 de outubro de 1938.
Iniciou no Ceará os estudos das primeiras letras, concluindo-os apenas no Rio de janeiro, onde, tempos depois, matriculou-se na Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais, em que se bacharelou. Foi redator do jornal Gazeta de Notícias, e colaborador do País, do Kosmos e da Renascença, e mais tarde redator do Brasil, incumbido da sessão literária e artística do jornal.
Publicou: Medalhas e Legendas (livro de versos, 1901—1906), Livro Truncado (Contos), Albatroz (drama em 3 atos, de 1909), Os cabotinos (teatro de 1908), A Confissão (peça teatral encenada no Teatro S. Pedro, em 1912), entre outros.


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Conte-me, conte-me uma história...
O homem, que era muito moço, tinha ouvido falar em uma infinidade de histórias, que rolavam pelo mundo, mais lindas umas que as outras. Mas não as conhecia e por isso se entristecia. Era risonha e gentil a terra onde nascera o morava, nela não faltando montanhas, vales, bosques, prados e nem mesmo o manso rio serpenteando entre amoveis sinuosidades do terreno. Estava em sua própria pessoa, porém, o elemento mais romântico da paisagem. Tinha-lhe imposto a juventude ardores de curiosidade. Insatisfeito em sua ânsia de conhecimentos, perecia-lhe a vida, por isso, um profundo segredo a decifrar. E na silvestre candura de seus sentimentos, era toda feita de inocência a revelação que esperava. Mas, como fazer, se a seu lado não via quem o esclarecesse? Era sozinho na aldeia, já de há muito mortos os pais, e sem achar de roda, confiadamente, quem o ajudasse em tão delicado mister.
Repetiam-se os sóis sobre a sua lida campesina e os plenilúnios cedo cronologicamente se sucediam, silentes e embriagadores, sua alma virgem nevando de ternura, sem que ele conseguisse vir à flux de uma espessa e melancólica ignorância.
Como adivinhar? Como saber? Como compreender?
Adivinhar é acaso. Saber é função de retentiva. E a compreensão? Ah essa já exige alguma coisa mais da inteligência...
O homem moço, todavia não se impressionou demasiadamente com esses três grãos de mental especulação. O que lhe interessava, mesmo a valer, era apenas conhecer as bonitas páginas da vida. Estranhos espetáculos morais existiam dentro dele. Ligava-o à paisagem, em cujo ambiente sempre vivera, uma estreita afinidade entretecida de vivas recordações e esperanças radiantes. Secretas vozes pareciam murmurar misteriosas coisas a seus ouvidos castos.
E claros hinos também lhe cantavam na alma, num brilhante prelúdio de fulgurações insuspeitadas. Alvoradas, alvoradas... Quase indistintamente associava os elementos naturais da terra de seu berço aos pendores, ainda confusos, do seu temperamento em ensaios; os bosques, uma pergunta; o rio, um disfarce, uma verdade que foge e não se deixa alcançar; o vale, uma renúncia, e as colinas, subindo, subindo... uma aspiração.
Nada disso, contudo, surgia nítido ao seu espírito. Vivendo completamente só, quase de todo ignorava a existência. E apenas lhe interessava conhecer do mundo as ricas histórias que por ele correm, à superfície das gerações, como também parecem correr, em desafio aos ambiciosos, os filões de ouro no seio do globo.
Certo dia, já extenuado após tão longa e inútil espera, resolveu forçar, com audaz violência, as portas que abriam para a sua imaginação.
Pôs-se, então, a caminho, ao desabrochar de uma fresca manhã, levando no ânimo uma decisão inabalável: havia de encontrar alguém que lhe fizesse a narrativa de tudo quando já pertencia ao patrimônio de todos os mortais.
Tudo era suave no quadro em que se movia, no quadro em que sua verde adolescência assumia valores inconfundíveis. Supunha até — milagre da juventude — agasalhar em si próprio todos os cheiros rudemente inebriantes das matas, a insinuante manda do rio em preguiçosos coleios, a promessa das ascensões dos morros e a fina espiritualidade do firmamento.
Em sua marcha deliberada, primeiro encontrou um velho, a quem de chofre disse:
Nada sei, ancião. Quer contar-me as histórias do mundo, as bonitas histórias que por aí andam, no conhecimento de todos, e que só eu ignoro? Tenha piedade de mim...
O interpelado, apurando o semimorto olhar respondeu:
— Não posso contá-las, já não posso... Soube-as outrora, sim. E muitas... Cada qual mais de encantar... Mas estão hoje esquecidas, completa, irremediavelmente esquecidas. Vai, filho. Talvez encontres quem possa falar-te delas.
Seguiu. A estrada convidava a caminhar. Tombem, às vezes, a vida é assim... Lançou-se, na primeira curva, a um infante que brincava à margem do caminho:
— Diga-me, louro querubim de olhos tão azuis, um dos lindos contos que todos sabem e andam na boca de todos.
Com ternura o menino começou:
— Era uma vez uma princesa...
Curvando a cabeça, o caminheiro desapontado prosseguiu em sua rota, deixando o ingênuo conto perder-se nos lábios em flor do inocente. Passos adiante deu de face com o homem mais forte do lugar. Era o ferreiro, que levava os dias banhado em suor, retesando os músculos hercúleos entre as exigências do malho e da bigorna.
— Histórias, eu? Nem que eu as saiba... Mas, se quer de facto conhecei-as, vá um pouco além, no mesmo rumo da estrada, e há de encontrar quem lhas diga. É ao pé da fonte, onde vão as raparigas encher os cântaros.
Com um novo alento e em derradeiro esforço, marchou. O sol, então mais alto, punha uma gloriosa aureola de mocidade no seu rosto másculo. E pensava: "Desta vez, vou finalmente conhecer os mais formosos contos da terra..."
À beira da fonte, em descuidos de feiticeira atitude. Ela, a anunciada, tecia guirlandas de flores do campo. Defrontaram-se com a desconfiança de adversários. Em manifesta hostilidade, o primeiro olhar que trocaram trazia o fogo de uma provocação. Depois, confuso e humilde, ele falou, mal balbuciando as palavras:
— Tudo ignoro deste mundo. Ando a buscar alguém que ilumine as trevas em que vivo. Nada sei das doces coisas da existência, que tantos consideram inestimáveis... Tenho vontade de saber... E disseram-me que tu...
Erguendo-se, batida de chapa pelo esplendor do sol a pino. Ela fitou o viandante no rosto. No mesmo segundo, ambos estremeceram, encarando-se fartamente, numa gula estranha de conhecimento recíproco, assim como se tudo fosse acabar sobre a terra, fora daqueles destinos que se uniam.
— Ignoras, pois, as histórias lindas? Não sei quem és, não sabes quem sou, mas voes ter de cor a mais bonita de todas, aquela que ainda não contei a ninguém.
Enlaçando-o vigorosamente o colando-lhe a boca nos lábios, deixou passar o tempo. E foi assim, sem palavras, que o homem moço, no primeiro beijo, teve a revelação inebriante do viver, transmitida na história de apaixonar que seus sentidos esperavam...



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Adaprtação ortográfica, revisão gráfica e seleção: IBA MENDES
Revista "Apectos" - Ano I - Nº 3 - 30 de Novembro de 1937. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital

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