sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Os amantes" (Conto), de: Antônio Austregésilo



Antônio Austregésilo Rodrigues de Lima (Recife, 21 de abril de 1876 — Rio de Janeiro, 23 de dezembro de 1960).

Psiquiatra eminente, dedicou-se com todo o vigor de espírito ao estudo da loucura, o Dr. Austregésilo não hesitou um momento em aplicar aos seus enfermos do hospital o método cientifico — mais perfeito. Só essa aplicação terapêutica lhe vale os maiores créditos à gratidão de todos, porque o hospício é um pequeno mundo, é uma amostra e urna condensação do mundo e da cidade onde vivemos com menor exaltação e mais senso crítico. Sem ofendermos a sua modéstia, podemos asseverar que o seu valor, vindo de esforço próprio, lhe reserva um posto à parte entre os homens de ciência no nosso país, onde a transigência é o recurso de toda a hora e o lugar comum o espírito de toda a gente” (Homenagem de “O Malho” – Rio de Janeiro, 1905)

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Os amantes
Haviam acumulado no peito longa saudade e encontraram-se naquela tarde chuvosa e quente; a fadiga e temor desenhavam-se na fisionomia dos amantes, que com tanta dificuldade se viam.
Nunca o primeiro momento de encontro era alegre: havia entre os dois um estado emotivo especial, em que frases de desconfianças e palavras de dor se misturavam ao primeiro beijo que em regra nascia frio, dos lábios trêmulos de rostos pálidos.
— Não me amas! dizia ela sorvendo os lábios do amante em sensualidade gatesca; sinto que não me amas!...
— Injusta... e novo beijo, demorado e agora quente abafava o hálito da mulher enigmática.
Pouco a pouco surgiam as carícias, as lisonjas, o entusiasmo das paixões, a princípio em murmurar blandicioso, em que eram recordadas as noites harmoniosas dos primeiros beijos o as noites de dor, dos acidentes imprevistos dessa tortura e impetuosa paixão. As ciciar pouco a pouco com o calor violento da carne se iam transformando em apertos fortes, contorções dolorosas que produziam gritos que se abafavam, gemidos partidos, de mistura com a volúpia e os maus tratos físicos e mútuos dos amantes.
— Não deveria existir este amor entre nós... dizem que tens outra mulher a quem amas mais do que a mim, a quem dedicas os teus versos e a quem confias as tuas mágoas...
— Má! Não procures trazer o fel aos meus lábios; conheces esta longa e torturante história; só a ti amo, meu amor; só por ti vivo e sofro! A outra é o espectro da minha vida; sombra do meu martírio o lembrete da incoerência dos meus nervos...
— Como mentes! Leio na humidade voluptuosa dos teus olhos e dos teus lábios, que eu te não sacio; que tua carne é ambiciosa e que tua alma emana da tua carne. Há no cheiro do teu corpo a carícia de outra mulher, de uma ladra, de uma assassina que envenena os dias amorosos e tristes da minha vida!
 — Louca! Não sabes que vivo na luz dos teus olhos, na delícia do teu amor, na ventura dos sonhos que me inspiras, na sensualidade atraente da tua essência?! O teu faro deve sondar a minha alma e o meu coração, e com ele poderás reconhecer que só tu vibras ardentemente no meu ser, na minha existência.
— Falas verdade? Pois, amo-te meu senhor e amante, e sei que neste momento me pertences; vem; mata-me, mas dize que só a mim amas, que o teu peito jamais vibrou por outra mulher, dize, dize... Mas é horroroso! Há qualquer coisa de invisível que nos separa e que me aniquila e vence! Não posso ver-te ou sentir o vapor dos teus lábios. Não posso! Não posso! Vai! Repito-te... és indigno da minha paixão... vai, senão eu grito!... Ele, amoroso e fiel, aproxima-se da amada com blandícias e maciezas, com a harmonia sussurrante dos beijos tímidos, com um marulhar de afagos hipnotizadores.
— Como és bela! Resumes o bem e resumes o amor. Vibras e a tua vibração é música Medita, e a tua beleza é a essência da perfeição. Amo-te, amo-te muito minha santa, e só tu podes nutrir-me a alma que tem anota da perfeição e do amor...
A tua existência para mim é o mel e o pão: e só posso saciar a minha fome devorando o teu olhar, sorvendo a tua alma o roendo a tua volúpia...
— Foge! Foge! Homem mentiroso e cruel... Foge, peço-te, dono do meu coração... Sinto em ti atrações e repulsas inexplicáveis...
Vai!...
Ele, amoroso e humilde, aproxima-se da amante, cheio de afagos e sussurros.
— Como estás sublime: és a própria arte vivendo, vibrando, meu amor!
Qualquer coisa de grandioso evola do teu ser; é um halo ou um fluído, mas há um não sei que de divino que se escapa de ti para embriagar-me...
— Foge! foge, já te disse, exclamou ela com o olhar chispante, a voz trêmula, a fisionomia transformada, cujos traços resumiam grande martírio.
Não te quero mais, és indigno do meu amor e sinto o impulso de morrer ou de estrangular-te...
Ele sempre amoroso e meio embriagado de paixões, se aproxima para amaciá-la com beijos e carícias, e ela no esgare da fera, crava as unhas aduncas e finas no braço do amante, com a volúpia impulsiva do mal físico, sentindo o prazer inefável ao saber que as suas garras fidalgas se haviam enterrado na carne do amante.
Atônito e amoroso, assiste à cena inexplicável e superior, sem nada dizer, sem dar um gemido...
O sangue gotejou das feridas ritmicamente com as lágrimas da amante.
Ambos trêmulos, ambos ofegantes, mudos, estatelados, suspensos na dor...
Olharam-se, fitaram-se nos olhas úmidos, e a atração e a repulsa, e o desejo e a repugnância ora os impelia, ora os afastava, na hora sombria do lusco-fusco, na hora da lágrima e do sangue.
Afinal se separam.
— Para sempre?...
— Para sempre!...
Subitamente ela tira do seio o retrato da outra mulher, rompe-o, projeta-o, no rosto do amante, e em crise singultosa, roja-se aos pés dele, e aperta-o convulsivamente, misturando palavras de perdão, de amor, de mágoas e de arrependimento.

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Atualização ortográfica, revisão gráfica e seleção: IBA MENDES
Revista "Apectos" - Ano I - Nº 3 - 30 de Novembro de 1937. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital

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