quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de Fontoura Xavier)

O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução: Fontoura Xavier (1887)


Ao Conde Afonso Celso


Uma vez, ao bater da meia noite, quando eu meditava sobre o volume de uma doutrina ignorada, e quando mais sonolenta sentia a cabeça fatigada curvar-se sobre as suas páginas, ouvi o ruído como de alguém que batia, batia à porta de meu quarto. "É talvez uma visita, murmurei: é talvez um visitante, tardio que bate à porta do meu quarto, é isso e nada mais".

Ah! Lembro-me distintamente: era pelas neves de Dezembro, e cada brasa de fogão exalava o seu último raio de agonia. Eu anelava ardentemente que amanhecesse. Em vão tinha-me esforçado para arrancar dos livros um alívio para a minha saudade, a saudade da minha morta Leonor; saudade daquela que os anjos chamam Leonor e que na terra ninguém mais há de chamar, nunca mais!...

E a vaga e leve ondulação das cortinas penetrava todo o meu ser, enchendo-o de um terror fantástico que eu então desconhecia. Se bem que para acalmar o meu coração eu repetisse comigo mesmo: "É talvez uma visita que deseja entrar a porta do meu quarto; é talvez um visitante tardio que deseja entrar a porta do meu quarto, é isso e nada mais".

E assim, sentindo-se animado, não hesitei por mais tempo: "Senhor ou Senhora, disse quem quer que sejas, peço-vos que me perdoeis; mas o fato é que estava quase adormecido; e depois batestes tão docemente, tão docemente, viestes bater à porta do meu quarto, que eu apenas pude convencer-me que tinha ouvido..." E, abrindo-a subitamente, vi trevas e nada mais!

Perscrutando ansiosamente essas trevas, sentir-me tomado de assombros e de apreensões, imaginando sonhos que nenhum mortal jamais ousou sonhar; mas o silêncio era imóvel, e a sua imobilidade foi ainda acentuada por uma palavra, "Leonor"! Era eu que a murmurava, e o eco a seu turno repetiu essa palavra "LEONOR". Só isso e nada mais.

Voltando ao meu quarto, e sentindo dentro em mim como um incêndio na alma, ouvi de novo o ruído, um pouco mais forte que o primeiro. "Naturalmente, pensei, já alguma coisa atrás da minha janela; vejamos o que seja, desvendemos o mistério; deixemos o coração acalmar-se um instante e desvendemos este mistério: é o vento e nada mais".

Mas, abrindo-a subitamente, vejo entrar um soberbo corvo digno de eras primitivas. Sem fazer a menor reverência, sem que sequer lhe parecesse estranho o lugar onde entrava, ele não hesitou um instante, mas, com ar senhorial de um nobre, pousou tranquilamente sobre a porta do meu quarto... pousou sobre o busto de Palas que fica sobre a porta do meu quarto, pousou, recolheu as asas e nada mais.

Então, esta ave negra, não sei se pela severidade de seu aspecto ou se pelo grotesco do seu todo, induziu-me a triste imaginação a sorrir: "Se bem que sejas calvo, disse, e conservas a cabeça despida de penachos bélicos, tu não és decerto um vilão, ó lúgubre e velho corvo, viajante aportaro da profunda noite de Averno!... Dize-me qual é o teu nome senhorial na profunda noite ptutoniana?... E o corvo respondeu: "Nunca mais".

Assombrou-me que esse desgraçado plumitivo tivesse tão facilmente entendido a minha pergunta; com quanto a sua resposta não fosse inteiramente satisfatória, pois devemos convir que jamais foi dado a um ser humano ver uma ave ou um animal pousado sobre a porta do seu quarto, uma ave ou animal pousado sobre o busto esculpido à porta do seu quarto, e dizendo chamar-se "Nunca mais".

Mas o corvo, pousado tranquilamente sobre o busto plácido, não proferiu senão essas palavras, como se nessas palavras ele expandisse toda a sua alma; não pronunciou nada mais e nem de leve moveu uma pena até que em murmurasse comigo mesmo: "Em chegando a manhã ele também me deixará como me deixaram as minhas velhas esperanças; outros amigos foram-se assim como ele..." E o corvo respondeu: "Nunca mais".

Sobressaltado com a sua resposta tão a propósito supus que era essa sem dúvida toda a sua bagagem literária que ele aprendera, quem sabe! de algum infortunado, a quem a desgraça perseguira tão incessantemente e sem tréguas, que as suas canções não eram mais que este único estribilho... que o "de profundis" da sua esperança não mais que este melancólico estribilho: "Jamais, nunca mais".

Mas o corvo, induzindo o meu triste espírito a sorrir, fez-me chegar a poltrona para mais junto do busto, onde reclinado sobre o espaldar de veludo eu me esforçava por concatenar as minhas ideias, procurando o que queria dizer essa agourenta ave das antigas eras... procurando o que queria dizer essa agourenta, triste e sinistra ave das antigas eras, grasnando o seu — "Nunca mais".

E conservei-me assim por algum tempo pensando, mas já sem me dirigir mais à ave, cujos olhos ardentes parecia agora que me queimavam a alma; pois era embalde que eu me esforçava por compreendê-la, com a cabeça repousada sobre o veludo da poltrona que a luz da lâmpada acariciava... esse veludo violeta que a luz da lâmpada acariciava, e onde a cabeça dela não mais se há de reclinar, nunca mais!

E então afigurou-se-me que o ar se condensava, perfumado por um turíbulo invisível, agitado por anjos, cujos passos eu imaginava sentir sobre o tapete: "Desgraçado! murmurei; o teu Deus levou-ta para sempre, deixando a sua lembrança como tormento da tua saudade... detém-te, detém-te nessa senda e esquece de uma vez a tua morta Leonor... E o corvo respondeu: "Nunca mais".

"Profeta! exclamei; prenúncio de desgraça, ave ou demônio, mas sempre profeta! sejas embora um enviado do inferno, ou que só o acaso da tempestade tenha-te arrojado como um náufrago perdido mas ainda intrépido sobre este retiro onde o horror habita! diz-me, eu te suplico, poderei encontrar porventura um alívio à minha dor? dize-me, eu te suplico!" E o corvo respondeu: "Nunca mais".

"Profeta! Prenúncio de desgraça, ave ou demônio, mas sempre profeta! por este céu estendido sobre as nossas cabeças, por esse Deus que nós ambos adoramos, dize se a minha alma carregada de dores pode ainda abraçar num paraíso longínquo essa filha que os anjos chamam Leonor?..." E o corvo respondeu: "Nunca mais".

"Ave ou demônio! que essas palavras sejam o adeus eterno da nossa separação. Vai-te tempestade, torna de novo à mais profunda noite do Averno! não deixeis uma única pena negra como lembrança da mentira que acabas de proferir; vai-te da minha solidão inviolável, deixa esse busto de cima, da minha porta... Arranca o teu bico que me dilacera a alma, e vai-te, espectro lutolento, para bem longe da minha porta!... E o corvo respondeu: "Nunca mais".

E o corvo imóvel, está sempre pousado, sempre pousado sobre o busto plácido de Palas, esculpido sobre a porta do meu quarto; os seus olhos são como os olhos de um demônio que sonha; a luz da lâmpada entornando-se sobre ele, projeta a sua sombra negra sobre o pavimento; e fora dessa sombra negra que gira flutuante sobre o pavimento, a minha alma jamais se poderá elevar, nunca mais!

Adaptação ortográfica: Iba Mendes (2016)

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