quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O Corvo, de Edgar Allan Poe (Tradução de João Kopke - Prosa)

O Corvo, de Edgar Allan Poe
Tradução:  João Kopke (1917)


Uma vez, por volta da meia noite, hora triste, enquanto alquebrado pela fadiga e cheio de tédio, eu meditava sobre vário e vário volume, esquisito e curioso, de letras hoje esquecidas, quando, já a cochilar, quase passava pelo sono, chegaram-me de repente, ao ouvido, umas pancadinhas repetidas como de alguém, que de mansinho batesse, batesse à porta do meu quarto. "É alguém", disse eu comigo, "é alguém, que bate à porta do meu quarto... Há de ser isso, e nada mais".

Ah, lembra-me perfeitamente! — era em Dezembro, o mês das invernais, — e cada brasa, que, por sua vez, se ia apagando, estampava no chão o seu espectro. Estava eu morto por que amanhecesse; em vão procurara tirar, dos meus livros, alívio à saudade, — saudade de Lenora, que perdera, — da rara e radiante virgem, a quem os anjos chamam Lenora. — e nome aqui na terra não terá jamais.

E o sedoso, triste, incerto farfalhar de cada pano das cortinas roxas fazia-me tremer, — enchia-me de terrores fantásticos, que nunca dantes sentira; de modo que, então, por quedar o bater ao coração, fiquei repetir: "é alguém, que bate à porta do meu quarto — alguém que a desoras vem bater À porta do meu
quarto; é isso, e nada mais".

Minha alma sentiu-se, de tal após, mais forte; sem mais hesitar, então, "Senhor", disse eu, "ou senhora, peço-vos sinceramente perdão; mas a verdade é que eu ia a passar pelo sono e vós batestes tão devagarinho, tão de leve batestes, batestes à porta do meu quarto, que eu nem quase certeza tinha de o haver ouvido". E, em tal dizendo, escancarei a porta: lá fora — escuridão, e nada mais.

Fundo naquela escuridão cravando os olhos, estive por longo tempo ali, a pensar, apavorado, em dúvida, sonhando sonhos, que mortal nenhum antes de mim ousou sonhar; mas o silêncio persistia, e, de nada a escuridão, indício dava; e a única palavra, que ali se proferia, era apenas, em murmúrio, a palavra "Lenora!". Essa era eu que a murmurava, e o eco, murmurando, repetia a palavra "Lenora!"... Isto simplesmente, e nada mais.

Outra vez voltando para o quarto com a alma toda a arder dentro de mim, dali a pouco ouvi de novo bater de leve, um tanto mais alto que primeiro: "Com certeza," disse eu, "com certeza, o que ouço agora é a gelosia da janela; vou ver o que ali há e apurar que mistério é este. Que meu coração se quede por um momento,e apure que mistério é este. É o vento, e nada mais".

Abri, então, bruscamente a janela, e, eis que, com giro e adejo vário, entrou por ela a dentro um majestoso corvo dos bons tempos de outrora. Nem a menor cortesia fez ele; nem por um instante se deteve ou parou; mas, com ares de fidalgo ou fidalga, empoleirou-se por sobre a porta do meu quarto; empoleirou-se num, busto de Palas, justamente por cima da minha porta; empoleirou-se, deixou-se estar, e nada mais.

Aí, como esta ave negra cambiasse em riso a minha triste fantasia pelo grave e austero decoro, que na aparência mostrava: "Embora tosado cerce tragas o penacho, tu," disse eu, "não és, com certeza, um covarde, oh, velho corvo, lúgubre e horripilante, que andas tresmalhado das regiões da noite. Dize-me, pois, qual é o teu titulo de nobreza nas regiões plutônicas da noite?" Disse o corvo: "Nunca mais!"

Muito maravilhado fiquei ao ouvir esta ave desgraciosa falar tão claramente, conquanto sua resposta pouco sentido, pouco alcance tivesse, porque não podemos deixar de convir em que nenhuma criatura humana nesta vida jamais teve a felicidade de ver pousado sobre a porta do seu quarto, empoleirado sobre o busto esculturado, que encima a porta do seu quarto, ave ou animal por nome "Nunca mais!"

Estranhando a mudez, que tão pertinente resposta assim interrompia: "Sem dúvida", disse eu, as palavras, que profere, são todo o cabedal, que lhes ficou da convivência com algum dono infeliz, sobre quem desastres inclementes caíram uns apôs outros com rapidez crescente até dar-lhe às cantigas por constante estribilho, — até que as lamentações do seu desespero se rematassem sempre pelo triste estribilho "Nunca mais! Nunca mais!"

Mas o corvo, pousado solitário sobre o plácido busto, só disse essas únicas palavras, como se a sua alma nessas únicas palavras houvesse vertido. Nada mais então disse, — nem uma pena sacudiu ate eu,mal e mal, pouco mais que murmurei: "Outros amigos já se me tem ido; ao amanhecer este me deixará como as minhas esperanças se me foram". Torna a isso, a ave: "Nunca mais!"

Cambiando, porém, o corvo novamente em sorriso toda a tristeza à minha alma, fiz de pronto rodar um assento acolchoado para defronte e da ave e do busto e da porta; e, então, no veludo afundando; entrei a ajustar fantasia a fantasia para ver se atinava com o que esta ave de outros tempos, com o que esta feia, desengraçada, lúgubre, escaveirada e agourenta ave de outros tempos queria dizer com grasnar "Nunca mais!"

Estava eu assentado a querer com isto atinar, sem, contudo, coisa alguma dizer A ave, cujos olhos de fogo, então, me ardiam no âmago do selo; — isto, e outras coisas mais, estava assentado a querer decifrar, com cabeça comodamente reclinada na capa de veludo do coxim sobre que a luz da lâmpada caía como um olhar cúpido, cada de veludo roxo, sobre que a luz da lâmpada caía como um olhar cúpido, e que ela não mais há de premer — ah, nunca mais!

Pareceu-me, neste ponto, que o ar se tornava mais denso, porque o perfumava um turíbulo Invisível, agitado por serafins, cujos passos ecoavam tilintantes no chão alcatifado. "Desgraçado", exclamei, teu Deus te empresta, — por estes anjos te manda trégua — trégua e olvido às saudades de Lenora! Traga, ó, traga a taça deste olvido benéfico e esquece esta Lenora que perdeste!" Disse o corvo: "Nunca mais!"

"Profeta!" disse eu, "criatura fatal! — profeta ainda assim, quer ave, quer demônio! Ou venhas incumbido de tentar-me ou te haja a tempestade, lançado a estas plagas, desolado, mas indômito sempre, — ao ermo desta terra encantada, — a este ar, que o terror assombra, — fala-me a verdade, eu to imploro, — há, há bálsamo em Gilead? dize-me, dize-me, eu to imploro!" Disse o corvo. "Nunca mais!"

"Profeta", disse eu, "criatura fatal! — profeta ainda assim, quer ave, quer demônio! Por aquele céu, que se arqueia sobre nós, — por aquele Deus, que ambos adoramos, dize a esta alma de mágoa acabrunhada, se, lá no distante Éden, abraçará ela uma virgem santificada, a quem os anjos chamam Lenora! Abraçará uma linda e radiante virgem, a quem os anjos chamam Lenora!" Disse o corvo, "Nunca mais!"

"Que sejam essas palavras o sinal da nossa despedida, ave ou Inimigo!" gritei eu, pondo-me em pé. "Volta à tempestade e às regiões plutônicas da noite! Não deixes nem uma só negra pluma em testemunho dessa mentira que a tua alma disse! Não perturbes a minha solidão! Sai-te do busto, que encima a minha porta! Tira teu bico de dentro do meu coração e tira o teu vulto de cima da minha porta!" Disse o corvo, "Nunca mais!"

E o corvo, sem se mover, ainda pousado está, ainda pousado está sobre a pálido busto de Palas, bem por cima da porta do meu quarto; e seus olhos têm toda a aparência dos de um demônio, que está sonhando; e a luz da lâmpada, caindo sobre ele, projeta-lhe no chão a sombra; e, minha alma, dessa sombra, que está a flutuar no chão, não se erguerá nunca mais!
Adaptação ortográfica: Iba Mendes (2016)

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