terça-feira, 27 de setembro de 2016

O fogo da Sexta-Feira Santa (Conto), de Anatole France


O fogo da Sexta-Feira Santa, de Anatole France
Tradução publicada originalmente na revista "Eu Seio Tudo", em sua edição de fevereiro de 1921. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

“Venha passar a Páscoa conosco; é o melhor momento para ver nossa velha província”.
A carta era assinada por um amigo muito caro, o bom Hernoy, que tinha uma bela propriedade na pequena comunidade de Saint-Gervais, onde eu nascera e onde raramente voltava. Eis porque, no dia 10 de abril, sexta-feira da Paixão, chegava em um trem moroso à estação de Callac, no coração da Bretanha.
Hernoy ali estava à minha espera com um tílburi.
— Vamos para casa — disse-me ele cordialmente, com um largo sorriso na face barbuda.
Pouco depois, o tílburi subia uma encosta áspera dominando uma floresta majestosa. Eu via a meus pés e a perder de vista um oceano de árvores, em que a luz do crepúsculo punha toda a variedade de tons de um oceano verdadeiro.
Em certo ponto, ouvindo um sino distante bater a Ave-Marias, meu amigo deteve o veículo e ambos tiramos devotamente o chapéu. Mas, quase no mesmo instante, Hernoy teve uma exclamação enérgica e, com a ponta do chicote, indicou-me uma leve fumaça, que se erguia da orla mais distante do bosque.
— Fogo na floresta — murmurou ele ao notar minha expressão de espanto.
A mim parecia impossível que uma ligeira nuvem de fumaça pudesse denunciar perigo tamanho.
— Vai ver — disse Hernoy, tocando nervosamente o cavalo.
Mal nos adiantemos um pouco notei que meu amigo tinha razão. Via-se já um clarão avermelhado espalhando-se rapidamente pela orla da vegetação. Em alguns pontos surgiam até línguas de fogo vivo, contorcendo-se no ar.
De lodos os lados chegavam outros indícios de que o desastre era grande: clamores confusos, apelos estridentes e os sinos de Saint-Gervais batendo a rebate.
Hernoy chicoteava agora furiosamente o animal e o tílburi sacudia-nos com força, deslizando a toda a toda pressa.
— Mas é verdade! — exclamou Hernoy; de repente. — Hoje é sexta-feira santa... Então não há dúvida; o fogo foi posto de propósito para prejudicar o guarda de Kerveltrec. Decididamente esta história não acaba mais.
— Que história? perguntei.
— Você vai ver — respondeu ele, atento para não se desviar do caminho cada vez mais estreito.
***
Quando chegámos a Saint-Gervais, a aldeia estava quase deserta. Somente algumas mulheres tinham ficado pelas portas comentando o acontecimento.
Meu amigo atirou as rédeas a um criado, recomendando-lhe que não desatrelasse e entrou em casa, onde sua mulher disse logo:
Skan, o chefe lenhador, está aí a lua espera. Diz que precisa de faltar contigo sem demora.
— Ainda bem. Vamos ter detalhes seguros sobre o incêndio; ele decerto vem de Pedras Longas e como não há quem aprecie mais nossos bosques...
O lenhador esperava-nos de pé, com ar tranquilo.
Era um belo rapaz de 25 anos, hercúleo sem brutalidade, com olhos claros e longos bigodes loiros, que evocavam as figuras legendárias dos chefes gauleses. Seu vestuário, que parecia de caçador, justificava a alusão de Hernoy à sua paixão pela floresta.
— Ele não se chama Skan — disse apresentando-me. — Foi um apelido que lhe pusemos aqui. Mas vamos jantar — continuou ele. — Conversaremos à mesa para não perder tempo. Se não me engano é este o terceiro incêndio que ateiam ao bosque do Barroz...
— O terceiro confirmou Skan.
— É sempre na mesma data.
— Será coincidência? — arrisquei timidamente.
— Seria muito coincidência — explicou Skan. — Demais todos nós sabemos que há nisso um ódio velho, um ódio implacável ao velho guarda de Kerveltrec.
— Exatamente-- disse Hernoy. — Aqui o sr. Jozon, que chamamos Skan, pode atestar que Jenny Rouzes é a mais linda rapariga da aldeia, cada vez mais linda; não precisa de corar, Skan, bem sabemos todos que você vai pedi-la em casamento; até o velho Rouzes já me faltou à esse respeito. E a propósito... Ele j à notou também que esses incêndios só se tornaram assim infalíveis depois que Jenny manifestou francamente sua preferência por você, desanimando sem piedade os outros pretendentes. Não podendo disputar a filha, os desprezados vingam-se no pai, pretendendo fazê-lo perder o lugar de guarda florestal.
O chefe lenhador sorria, mas nada disse.
— Mas — objetei eu — isso não explica que o fogo seja ateado sempre na sexta-feira da Paixão.
— Oh! — exclamou Skan, manifestando pela primeira vez uma certa impaciência. — Estou já cansado de ver Bertrand Rouzes envolver cobardemente o nome de sua filha em um caso com o qual ela nada tem. Prefiro que se saiba de uma vez por todas a verdade inteira. Ora, vamos, sr. Hernoy... reflita um pouco. Se tudo acontecesse por minha causa, porque Jenny parece me dar preferência, não seria muito mais fácil aos despeitados darem cabo de mim em qualquer recanto da floresta do que andar ateando incêndios que os arriscam a irem parar na cadeia?
Erguera-se com uni fulgor de indignação no olhar.
— Isso é uma pilhéria! Uma pilheria indigna, e para acabar com ela é que eu, logo que vi os primeiros fulgores do incêndio, vim buscá-lo. Quero eu mesmo levá-lo até lá acima para que veja. Desculpe-me o incômodo, mas isso era preciso.
— Bem — disse Hernoy, muito sério. — Pode falar diante deste amigo como se eu estivesse só.
— Pois então — disse Skan resolutamente — a verdade é esta: Bertrand Rouzes é um hipócrita e eu disponho-me a prová-lo.
— Chegarás a afirmar que é ele quem põe o fogo.
— Pelo menos ele conhece quem o ateia, sabe bem por que motivo o fogo só aparece na sexta-feira da Paixão.
— Serás lambem capaz de provar isso?
— Não vim aqui para outra coisa. E a melhor prova será a confissão do próprio guarda. Se a quer obter venha comigo e quanto mais depressa melhor. Afirmo que não se arrependerá de me ter dado crédito. Venha... Olhe que o vento pode mudar e extinguir o fogo.
— Ora essa! — exclamou Hernoy. — Dir-se-ia que você receia que o incêndio termine...
Um vivo rubor espalhou-se pelo rosto do chefe lenhador, como um reflexo do incêndio que tanto o interessava.. Mas não replicou e saiu adiante de nós para mostrar-nos o caminho.
***
Caminhávamos cerca de meia hora por atalhos ásperos, que encurtavam a distância.
— Por mim — dizia- me Hernoy em voz baixa — estou convencido de que Skan está enganado. Aqui é bastante ser guarda-bosque para ser odiado. Isso é perfeitamente humano; toda a gente tem interesse em explorar a floresta, e o dever do guarda é, portanto, contrariar toda a gente. De resto, o velho Rouzes é, de fato, pouco simpático, perseguidor, odiento...
— Mas diz você que esses ódios só explodiram depois que esse senhor Skan veio para aqui e conquistou as boas graças da filha do guarda...
— Sim, tudo isso está pouco claro.
Mas, íamos chegando ao alto de um cômoro que dominava a floresta em fogo. Skan alcançara o cume antes de nós, e, com um gesto largo, disse:
— Vejam.
— Não tentarei descrever o espetáculo. Era uma cena dantesca, um ritual de chamas, dançando entre os galhos despidos, que pareciam corpos vivos torcendo-se no ar.
Mas Skan desprendera do cinto uma lanterna e, acendendo-a, conduziu-nos por uma vereda muito estreita, que se insinuava entre blocos de granito até uma pequena clareira rodeada de cedros magníficos.
— Vejam — repetiu o chefe lenhador.
Em um dos troncos lisos e robustos estava profundamente gravada a seguinte inscrição: Sexta-feira da Paixão,1884.
— Há doze anos! Que significa isso? — perguntou Hernoy.
— Eis a pergunta que eu desejaria que, o senhor fizesse ao guarda de Kerveltrec — disse Skan muito calmo.
— Ele naturalmente dirá que não o sabe.
— Estou eu aqui para refrescar-lhe a memória — disse com voz surda o jovem lenhador, encaminhando-se de novo para a vereda.
***
Quando chegámos à casa do guarda, os, cães receberam-nos latindo com fúria, mas logo apareceu à porta uma esbelta figura feminina, com quem Skan, que nos precedia uns passos, pôs-se a falar em voz baixa.
— Mas afinal que tem você com tudo isso? — perguntei ao ouvido de meu amigo.
— Tenho que providenciar. Fizeram-me a surpresa de eleger-me administrador e agora sou eu a primeira autoridade do lugar.
A filha do guarda vinha a nosso encontro.
— Meu pai está no incêndio, mas vem já — disse ela.
— Apanhou sobre a janela uma buzina e fez ouvir três sons roucos e prolongados. Skan disse-lhe:
— Jenny... por causa de tudo isto, eu não fui jantar em casa e minha mãe deve estar inquieta. Podia fazer-me favor de ir até lá e explicar-lhe que eu estou aqui com o sr. Hernoy?
A moça lançou-lhe um olhar de submissa ternura e partiu acompanhada de um grande cão.
— Foi de proposito que o afastei daqui. Os inocentes não devem ouvir certas coisas — explicou o lenhador, voltando para junto de nós.
E ficáramos em silêncio uns quinze minutos esperando o guarda, que chegou afinal, enlameado e sujo de carvão.
— Onde está a Jenny? — perguntou ele depois de nos saudar com ar preocupado.
— Nós fizemos-la sair para conversar mais à vontade. — disse Hernoy.
— Selvagens! — exclamou o guarda com um olhar de profunda indignação. — Se visse o estado em que ficou a floresta!... O terceiro incêndio em tão pouco tempo! Provavelmente pouco me adiantará ter trinta e cinco anos de serviço zeloso e irrepreensível... Provavelmente vão me demitir. E tudo por quê? Porque tenho uma filha bonita.
— Espere, Bertrand, vamos com calma — atalhou o administrador. — Das outras vezes, as pistas indicadas por você não deram resultado. Precisamos de procurar outras. Eu não acredito que sejam os namorados desprezados por sua filha os autores dos atentados. Durante os trinta e cinco anos de guarda na floresta você tem sido severo, exigente... Não o digo por mal; era o seu dever; mas isso deve ter-lhe válido ódios.
 — Sempre cumpri o meu dever conscienciosamente murmurou — Bertrand. — Mas exatamente nestes últimos anos tenho sido mais conciliador. Nestes últimos doze anos não processei pessoa alguma... pessoa alguma...
Eu estava resolvido a me manter ali como uma testemunha uma impassível mas ouvindo estas palavras não pude conter uma observação:
— Doze anos?... O senhor disse doze anos? 
Era justamente o intervalo decorrido entre a data de 1896, em que estávamos e 1884, a data inscrita na árvore... Sem dúvida a mesma reflexão acudira ao espírito de Hernoy, porque ele prosseguiu termos:
— Há doze anos; portanto de 1884. A propósito: o que se passou de extraordinário na noite de sexta-feira da Paixão, esse ano, na clareira dos cedros?
A pergunta produziu no guarda o efeito de um seco no rosto. Ele recuou, depois segurou-se à mesa com os lábios trêmulos.
— Hein... hein? — murmurou afinal. — Que quer o senhor dizer?
— Eu sei — continuou Hernoy, muito calmo. — Eu sei que a data ali inscrita em um tronco de árvore contém o segredo de todos esses incêndios. E você deve conhecer esse segredo.
— Eu?... Eu?... Sinto muito desmenti-lo, mas afirmo-lhe que não o compreendo.
—Não diga isso — observou Skan, que se mantivera até então oculto no recanto mais escuro da sala.
— Ora essa! — exclamou o guarda, voltando-se e mal disfarçando a agitação. — Que tem você com este caso?... Você que só apareceu por aqui há uns quatro anos...
— Mas, apesar disso, sei tanto como se tivesse ouvido o décimo cedro da clareira, aquele que chamam o cedro das formigas.
O guarda estremeceu; seus olhos tornaram-se alucinados e, estendendo as mãos num gesto de pavor, balbuciou:
— Não... não conte... Pelo a mor de Deus!...
— Pelo amor de Deus te supliquei eu e tu não tiveste piedade — replicou Skan com uma tal expressão de ódio que senti um calafrio.
O guarda deixara-se cair sobre uma cadeira e o lenhador continuou:
— Eu tinha então 13 anos; era um desgraçado órfão; vivia de esmolas; comia o que me davam... Quando não encontrava quem me desse alguma cousa, passava fome...
— Mas espere — balbuciou o guarda. — É justo recordar que nessa época também tinha razões de sobra para perder a cabeça. Minha mulher estava no último período da moléstia, às portas da morte; eu fora obrigado a mandar minha filha para a Casa de Caridade de Callac; no bosque também tudo ia de mal a pior. Um bando de malfeitores vivia a saqueá-lo dia e noite... Um dia meus cães amanheceram mortos... Tinham-os envenenado. Enfim... Eu tinha duas vacas porque minha mulher já só se alimentava com leite. No dia 7 de Abril roubaram-me uma vaca. Sexta-feira da Paixão desapareceu também a outra. Saí a sua procura... Encontrei-a no fundo da floresta com um garoto, que a estava mugindo no chapéu... Se fosse hoje eu me teria contentado em dar-lhe alguns cascudos... Mas naquele dia, irritado como eslava...
—Que idade linha o garoto? 
Foi Skan quem respondeu em voz surda:
— Treze anos... treze anos de abandono, de fome, de sofrimento; era um pobre órfão, um faminto...
— Dei-lhe um pontapé — continuou o guarda com o olhar fixo. — Ele rolou pelo chão...
— Com o leite... com o leite que recolhera... Não esqueça esse detalhe — atalhou Skan. — O infeliz rolou sobre o leite. Depois agarrou-se ao senhor suplicando piedade.
— Mas eu estava alucinado, ergui o chicote sobre ele. Depois...
Depois — continuou Skan — amarrou-o seminu a uma árvore e deixou-o ali, abandonado...
— Não é possível! — exclamei horrorizado.
Mas o silêncio de Bertrand Rouzes dissipava minhas dúvidas.
— Isso não é tudo. O cedro a que eu fora preso era o chamado Cedro das Formigas.
— Horror... horror! — murmurou o guarda. Mas eu juro que não me lembrava desse detalhe. Quando voltei no dia seguinte para libertam o infeliz já não o encontrei.
— Os vagabundos, os ratoneiros tinham-me encontrado quando eu já desfalecera de pavor sentindo as formigas invadirem-me todo o corpo. Felizmente elas preferiram começar pelo leite que me cobria, antes de atacar-me a pele. Levaram-me e andaram comigo até que a pobre mulher de um lenhador teve pena de mim e educou-me como se eu fosse seu filho. E eu vivi, vivi para me vingar...
***

 Mês e meio depois recebi de Hernoy uma carta, que terminava assim:

“Estou certo de que você me aprovará. Preferi não meter a justiça no caso dos incêndios e resolvi tudo por um processo muito mais simples. Casei ontem Jozon Srondic, vulgo Skan, com Jenny Rouzes. O amor ingênuo e forte dessa boa rapariga foi mais poderoso do que o ódio; e estou certo de que não haverá mais fogo na floresta.”

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