sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Padrinho (Conto), de Rafael Cansinos Assens

Rafael Cansinos Assens nasceu em Sevilha, Espanha, no dia 24 de novembro de 1882. Faleceu em Madrid, em 6 de julho de 1964.
"Morreu sem conhecer o mar, e apenas deixou Madrid para visitar Toledo durante os 81 anos que durou sua vida.... criador de obras fundamentais como tradutor, ensaísta, contista e poeta... Tabicado durante o franquismo, Cansinos Assens gozou, porém, do reconhecimento afetivo e intelectual de seus colegas, com os quais manteve intensa correspondência, sendo esta conservada num enorme arquivo que leva o seu nome. Um legado de incalculável valor literário, que inclui o diálogo epistolar inédito com o argentino Jorge Luis Borges, a quem conheceu no ano de 1920..." (Jornal "El País", 11 de junho de 2009).
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O conto, a seguir, é uma tradução para o português, publicado na revista "America", em sua edição de outubro de 1923. A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)
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O Padrinho, de Rafael Cansinos Assens
Aquela tarde de domingo, Juanito, a pobre criança, o filho natural, que se criava entre caras mal-humoradas como se recebesse a vida de esmola, contemplava, debruçado ao parapeito da janela, o belo sol de junho, cuja flama, reverberando sobre a parede fronteira, ornava-a de uma colgadura deslumbrante, mais brilhante do que as que no dia do Corpus Christi adornam os balcões. Preso sempre em casa, o pequeno olhava avidamente a rua em que brincavam os seus amiguinhos e chamava-os com gritos alegres, semelhantes aos pios dos pássaros engaiolados quando vêm outros pássaros livres. Estava contentíssimo porque naquela tarde a sua mãe lhe prometera levá-lo a passeio, vestira-o com a sua roupinha mais nova e lhe penteara os cabelos, repartindo-os lindamente ao centro. O padrinho prometera vir buscá-los às cinco horas, quando a luz do sol é menos intensa e Juanito estava ansioso por dar a notícia aos amiguinhos que nos outros domingos via sair com os seus pais, vestidos elegantemente e carregados de brinquedos enquanto que ele ficava em casa, à janela, entre as plantas dos vasos, como um pobre canário triste...
— Pepito! Luizinho! chamava, debruçado para a rua.
Os outros respondiam, erguendo as cabeças e entrecerrando os olhos, porque estava tão alto aquela janela de um terceiro andar...
— Que é?
— Vai sair?
— Vou!
—  Eu também! Vou com a mamãe e o padrinho! Nós vamos ao parque. E você?
Eu também, respondia Juanito. E acrescentava: Lá nos encontraremos!
— Leva os teus brinquedos! Nós vamos levar a pá e o arco.
— Bem. Lá nos encontraremos!
Brincar no parque! Inefável ilusão para Juanito, sempre preso em casa, a quem, quando muito, consentiam que fosse brincar junto ao rio, onde não havia areia para fazer castelos e onde as pedras impediam o rolar dos arcos! Brincar no parque! Naquela tarde, finalmente, brincaria no parque, na areia extensa, à beira dos lagos, na areia tão macia e doce à pele... Correria até perder-se pelas alamedas ensombradas em que silvam melros e onde surgem cascatas imprevistas...
E Juanito saltava de prazer e de impaciência, agarrado aos ferros da sacada, olhando uma vez ou outra para o interior da casa, onde a mamãe, bela e jovem, acabava de se preparar diante do espelho magicamente iluminado pelo seu rosto. Como a mamãe custava a se vestir! E, principalmente, como custava a chegar o padrinho!
Inclinado sobre a rua, Juanito via partirem os seus amigos, à mão das suas mamães, que, na porta da rua, ainda lhes faziam uma última carícia para alisar-lhes os cabelos ou ajustar-lhes os gorros de marinheiro, com largas fitas em que se lia um nome. E eles partiam, dobravam a esquina, dirigindo-lhe ainda um olhar de adeus, sem se atreverem a gritar-lhe, porque os intimidava a presença dos seus pais sérios, circunspectos... Iam-se. E ele continuava na sacada, sem que a sua mamãe, já pronta, lhe dissesse: Vamos, Juanito! e sem que o seu padrinho viesse... Que havia sucedido? Ficaria ainda em casa, naquele domingo? E Juanito, sem ânimo de interrogá-la, olhava timidamente a mamãe, que ia e vinha nervosa diante do espelho.
De repente ouviu gritos indignados e aflitos no interior da casa. A mamãe, dirigindo-se à criada, exclamava:
— Também hoje, não pode vir, não é? Está claro: tem que levar os outros...
E, magoada e colérica, deixou-se cair sobre uma cadeira, e começou a arrancar todos os seus enfeites, com gestos furiosos, desmanchando aquela figura de mulher feliz que com tanta paciência compusera ao espelho para honrar o domingo... E o espelho parecia absorver todas aquelas graças, devorando-as no seu seio profundo. E ficava apenas uma mulher triste, mal vestida e desgrenhada...
Juanito, timidamente, deixou a janela e aproximou-se dela, rápido. Pressentia vagamente um mistério de dor e de vergonha. Quis beijá-la, a fim de a consolar, mas faltou-lhe a coragem. Eram tão duros, naquele momento os olhos maternos, tão doces em outras ocasiões! Perguntou-lhe, medrosamente:
— Mamãe, não saímos mais? O sol está desaparecendo...
Era verdade. A luz do sol afastava-se, dissolvia-se sobre as estátuas de mármore que fora, no ângulo da rua, sustinham a fachada de um edifício público.
A mãe, furiosa, respondeu-lhe:
— Não, não podemos sair. O padrinho não vem mais!
O padrinho! Juanito ficou pensativo. Adivinhava vagamente.
— Mas porque não saímos sós?
— Deixa-me em paz, menino! Não vês que a tarde está feia?
O pequeno olhou-a assombrado. Tarde feia?! Pois não brilhava ainda o sol?
Mas não se animou a replicar. A tarde do domingo aparecia-lhe já desfeita como os adornos que a mamãe atirara ao chão, como sombras prematuras. Os últimos companheiros partiam.
— Não vem, Juanito? gritaram-lhe.
Ele respondeu-lhes:
— Não! A tarde ficou feia.
E tristemente viu-os afastarem-se. Iam cem os pais e as mães para o imenso parque tentador. Juanito pensou: "É isso. Eles têm pai, eu só tenho um padrinho!" E pela primeira vez atormentou-o o enigma daquele homem que só ia à casa de visita, a que o haviam ensinado a chamar padrinho e que no entanto às vezes o beijava com tanta ternura...

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