sábado, 24 de setembro de 2016


Os erros dos grandes, de Anatole France

Tradução publicada na revista "America", em sua edição de setembro de 1928. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


As estradas parecem-se com rios. Isso porque os rios são estradas naturais por onde se viaja com botas de sete léguas; que outro nome conviria às barcas? As estradas são como rios que o homem fez para homem.

As estradas, as belas estradas tão uniformes como a superfície de um rio, sobre as quais a roda do carro, a sola do sapato encontram um apoio ao mesmo  tempo tão sólido e tão macio, são as obras-primas dos nossos pais que morreram sem nos deixar os seus nomes e que não conhecemos senão pelos seus benefícios. Benditas sejam as estradas, peIas quais os frutos da terra nos chegam abundantemente e que aproximam os amigos.

Foi para verem um amigo, o amigo João, que Rogério, Marcelo, Bernardo, Jacques e Etiene tomaram a estrada nacional que se estende ao sol, ao longo das campinas e dos campos, a sua linda faixa amarela, atravessa as vilas e as aldeias e leva, dizem, ao mar em que estão os navios.

Os cinco companheiros não vão até lá. Mas precisam fazer uma viagem de um quilômetro para chegarem à casa do amigo João.

Ei-los andando. Deixaram-nos ir sós, fiados nas suas promessas: eles se comprometeram a ir muito direitinhos, não se afastar do caminho, a evitar os cavalos, os carros e não abandonar Etiene, o menor do grupo.

Ei-los andando. Vão ordenadamente em uma fileira única. Não se pode partir melhor. No entanto, há uma falha nesse belo arranjo. Etiene é muito pequenino.

É verdade que ele está animado de uma grande coragem. Esforça-se e apressa o passo. E, além disso, agita os bracinhos. Mas é muito pequeno demais e não pode seguir os amigos. Fica para trás. É fatal; os filósofos sabem que as mesmas causas produzem sempre os mesmos efeitos. Mas nem Jacques, nem Bernardo, nem Marcelo, nem mesmo Rogério são filósofos. Eles caminham de acordo com as suas pernas, e o pobre Etiene, conforme as suas: não há equilíbrio possível. Etiene corre, bufa, grita, mas fica para trás.

Os grandes, os mais velhos, deviam esperá-lo, direis, harmonizar o passo pelo do pequeno. Ah! seria da parte deles um belo exemplo. Nisso eles são como os homens. Avante! dizem os fortes do mundo; e deixam os fracos para trás. Mas esperai pelo fim da história.

De repente os nossos grandes, os nossos fortes, os nossos quatro peraltas se detém; viram no chão um bicho que salta. O bicho salta porque é uma rã que vai em busca da campina que fica à margem da estrada. Essa campina é a sua pátria; é-lhe caro porque ela ali tem sua morada, junto de um riacho. Salta.

Uma rã é uma grande curiosidade da natureza.

Esta é verde. Tem aspecto de folha viva e este aspecto dá-lhe qualquer coisa de maravilhoso. Bernardo. Rogério, Jacques e Marcelo lançam-se em sua perseguição. Adeus Etiene e a bela estrada toda amarela! adeus promessa! Ei-los na campina. Sentem logo os pés enterrarem na terra fofa que alimenta o mato volumoso. Alguns passos mais se enlameiam até aos joelhos: o mato escondia um brejo!

Saem com muito custo. Os seus sapatos, meias e pernas estão pretos de sujeira. Foi a ninfa da campina verde que calçou botas de lama nos quatro desobedientes.

Etienne alcança-os exausto. Não sabe, ao vê-los assim calçados, se deve ficar alegre ou triste. Medita na sua alma inocente as catástrofes que ferem os grandes e os fortes. Quanto aos quatro enlameados, voltam lamentavelmente sobre os seus passos. Pois como haviam de ir ver o amigo João em tal estado? Quando entrarem em casa, as suas mães lerão nas suas pernas o erro que cometeram, ao passo que a inocência do pequeno Etiene reluzirá nas suas perninhas rosadas.

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