sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Príncipe Feliz (Conto), de Oscar Wilde



O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde

Tradução publicada no jornal "A Noite", em sua edição de 11 de novembro de 1941. A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes.

No lugar mais alto da cidade, no topo de uma coluna imensa, erigira-se a estátua do Príncipe Feliz. Recobrira-se o corpo do mais fino ouro, os olhos eram duas safiras e, na espada, brilhava um volumoso rubi vermelho.
Era muito admirada. "É bela como um cata-vento", exclamava maravilhado o prefeito, querendo frisar a sua reputação de artista, "apesar de não ser útil...” acrescentou, temendo que o acreditassem desprovido de senso prático, o que ele possuía em dose elevada.
— Por que não há de você ser parecido com o Príncipe Feliz? — dizia a mãe enternecida ao filhinho que chorava, pedindo a lua. — Ele nunca tem sonhos impossíveis.
— Gostaria de saber se alguém no mundo é feliz... — murmurou desapontado um homem, ao contemplar a estátua maravilhosa.
— Parece um anjo — dizem as crianças ao sair da catedral, nos seus mantos vermelhos e impecáveis aventais brancos.
— Como sabem? — indagou o professor de matemática —vocês nunca viram um anjo...
— Já vimos, sim, em sonhos, responderam as crianças. — O professor assumiu um ar severo. Não gostava de ver a fantasia entretendo a mente dos discípulos.
Uma noite um passarinho voou pela cidade.
Havia seis semanas seus companheiros tinham voado para o Egito, mas ele ficara, pois se via enamorado de uma belíssima haste de "Reed" (planta delicada, parente do bambu, que cresce nos países nórdicos, à beira dos rios). Encontrara-a, na primavera, ao perseguir uma mariposa amarela e tão fascinado ficara pela sua esbelta silhueta, que parara para falar-lhe.
— Posso namorá-la — dissera, pois não gostava de perder tempo. A maviosa "Reed" fizera-lhe então uma linda reverência. Então ele voou à sua roda, a tocar a água com as asas, provocando ondulações prateadas. Assim a cortejou durante todo o verão.
— É um amor grotesco — comentaram os demais pássaros. — Ela não tem posses e o rio está cheio delas. — E, com a chegada do outono, todos se foram.
Depois que todos partiram, o nosso passarinho sentiu-se muito só e fatigava-se da namorada. — Ela não sabe conversar e é muito frívola. Está sempre namorando o vento. — Realmente, toda a vez que o vento passava, a bela "Reed" fazia-lhe as mais graciosas reverências.
— ...Reconheço que é boa dona de casa, continuou o passarinho, mas gosto de viajar e minha mulher deveria acompanhar-me...
— Quer vir comigo? — propôs finalmente à haste, mas esta recusou. Estava demasiado presa à sua casa. — Você divertiu-se à minha custa, gritou indignado. Vou partir para as Pirâmides. Adeus!
Voou durante toda a noite e afinal chegou à cidade. — Onde poderei descansar! monologou. Espero que alguém esteja preparado para receber-me.
Viu então a estátua no alto da coluna.
— Ficarei por aqui... É um belo lugar.... Posso respirar fundo. — E acomodou-se aos pés do Príncipe Feliz.
— Tenho um quarto todo de ouro, murmurou, preparando-se para dormir. Quando ia meter a cabacinha debaixo da asa, uma gota de água caiu-lhe em cima. — Que coisa esquisita! não há nuvens no céu, as estrelas fulgem e contudo está chovendo... O clima no norte da Europa é diferente e horrível. A formosa "Reed" gostava da chuva, parece-me que só por egoísmo.
Então, outra gota caiu.
— Que utilidade tem uma estátua, se nem me pode preservar da chuva? Preciso procurar uma chaminé. — E resolveu ir-se embora.
 Quando ia levantar voo, uma terceira gota caiu. Então, olhou para o alto e viu grandes lágrimas rolando na face dourada do Príncipe Feliz. Parecia tão belo, iluminado pelo luar que o coração do passarinho se enterneceu.
— Quem é você? — perguntou.
— Sou o Príncipe Feliz.
— Por que, então, está chorando? Quase me inundou...
— Quando eu vivia e tinha um coração humano, respondeu a estátua, nunca soube o que fossem lágrimas, porque morava no palácio Sans-Souci, onde a tristeza não tem licença de entrar. Durante o dia jogava com os companheiros e à noite conduzia as danças. Contornando o palácio havia um grande muro, mas nunca procurei saber o que havia, o que poderia existir por detrás dele. Tudo o que me rodeava era belo e agradável. Meus cortesãos chamavam-me o Príncipe Feliz e eu o era, de fato, se é que o prazer faz a felicidade. Assim vivi, assim morri. Agora, que estou morto, colocaram-me tão alto que não posso enxergar a miséria do meu povo. Meu coração é de chumbo, entretanto não faço mais que chorar.
Então ele não é feito de ouro puro! — pensou o passarinho, mas nada comentou, por ser bem educado.
— Longe daqui, continuou a estátua em voz cantante, numa pequena rua, há uma casinha miserável. Nela trabalha uma pobre costureira. Muito pálida e exangue, está a bordar flores no vestido de cetim, que a mais bela das damas de honra da rainha deve usar no baile da corte. Seu filhinho está à morte e ela nada tem para curá-lo. Passarinho, quer ser gentil e levar-lhe o rubi de minha espada? Estou preso a este pedestal e não posso mover-me.
— Esperam-me no Egito, respondeu o passarinho; meus companheiros já estão nessa terra de maravilhas, preciso partir quanto antes.
— Passarinho, disse o Príncipe, só uma noite e nada mais. Quer ser o meu mensageiro? O menino está doente e a mãe, coitadinha, tão cansada!...
— Não aprecio crianças, respondeu o passarinho; costumam atirar-me pedras. Verdade é que não me alcançam, pois sei voar muito alto. Mas, mesmo assim, é falta de respeito.
O Príncipe Feliz, entretanto, parecia tão triste, que o pássaro se comoveu.
— Faz muito frio, disse, mas resolvi ficar e ser o seu mensageiro.
— Muito obrigado, passarinho.
— Então a avezinha, arrancando o rubi da espada, voou através da cidade. Observou muita coisa no caminho e, finalmente, chegou à morada da costureira. A mulher trabalhava e o menino doente gemia no leito. Deixou o rubi em cima da mesa, refrescou a criança com o abanar das asas e partiu.
Voou ao encontro do Príncipe Feliz e contou-lhe o que fizera. — É curioso, acrescentou, como sinto calor agora.
— É porque praticou uma boa ação, explicou-lhe o Príncipe.
Quando amanheceu, o passarinho foi tomar banho no rio. Visitou os monumentos públicos durante o dia e, à noite, resolveu partir. Quando a lua surgiu, voou para a estátua do Príncipe Feliz.
— Tem algum recado para o Egito? perguntou. — Vou partir.
— Passarinho, disse o Príncipe, podia ficar aqui mais uma noite?
— Esperam-me no Egito! Lá estão as maravilhas; verei coisas extraordinárias.
— Passarinho, insistiu o Príncipe, muito longe daqui, vejo um jovem trabalhando num sótão. A mesa está coberta de papéis. Num copo, um ramalhete de violetas murchas. Ele tenta terminar uma peça para o diretor do teatro. Mas a sua mão gelada recusa-se a escrever. Não há fogo na lareira e ele quase morre de fome.
— Esperarei mais uma noite, disse o generoso passarinho. Devo levar-lhe outro rubi?
— Infelizmente já não possuo rubis, gemeu o Príncipe. Meus olhos são todo o meu tesouro. São de preciosas safiras da Índia, trazidas há milhares de anos. Tire-me uma delas e leve-a ao rapaz. Quando vendê-la, ele poderá aquecer-se e terminar a peça.
— Meu caro Príncipe, não posso fazer isso, disse o passarinho, começando a chorar.
— Passarinho, disse-lhe o Príncipe, faça o que lhe digo.
Então o passarinho tirou a safira e voou para a casa do estudante. Entrou facilmente, por um buraco no telhado. O jovem não lhe ouviu o rumor de asas. Tinha as mãos nos ouvidos. Ao erguer a cabeça, deu com a belíssima pedra entre as violetas murchas.
— Começo a ser apreciado, murmurou; isto, com certeza foi-me enviado por alguma admiradora. Agora terminarei a minha peça.  — Parecia imensamente feliz.
Então o passarinho decidiu-se partir definitivamente.
— Passarinho, retrucou o Príncipe, quer estar comigo só mais uma noite? 
— O inverno aproxima-se e a neve não tardará. No Egito faz calor e um lindo sol está à minha espera. Querido Príncipe, sou forçado a deixá-lo, mas nunca o esquecerei. Na Primavera trar-lhe-ei joias maravilhosas para substituir as que perdeu. O rubi será mais rubro que uma rosa vermelha e a safira mais azul que o oceano.
— Vejo daqui, disse o Príncipe, uma pequena vendedora de fósforos. Deixou-os cair na rua e estragou-os todos. O pai, muito zangado, com certeza ralhará se ela não levar algum dinheiro para casa. A coitadinha chora, em desespero. Tire-me a outra safira dos olhos e leve-a para à pobre menina.
— Ficarei contigo mais uma noite, mas não tirarei à outra safira. Não quero vê-lo cego.
— Avezinha, suplicou o Príncipe, faça como lhe digo.
O passarinho obedeceu; tirou a última safira dos olhos do Príncipe e colocou-a nas mãos da vendedora de fósforos.
— Que lindo vidro! — exclamou a menina encantada, encaminhando-se para casa.
O passarinho regressou para junto do Príncipe e disse-lhe: — Agora que está cego não quero deixá-lo mais.
— Não, passarinho, replicou o Príncipe cego — você precisa é partir para o Egito.
— Permanecerei a seu lado para sempre. — E dormiu a seus pés.
No dia seguinte posou-lhe ao ombro e narrou-lhe lindas histórias de países estranhos. Falou das aves do Nilo, da Esfinge que mora no deserto e sabe todas as coisas, dos pigmeus que navegam em grandes folhas e guerreiam com as borboletas.
— Meu querido passarinho, você contou-me coisas interessantes, mas há na vida algo de muito mais sério: o sofrimento humano. Não há mistério maior do que a dor. Avezinha, por favor, voe pela cidade e volte para dizer-me o que viu.
Então o passarinho voou pela cidade e contemplou os ricos, felizes em suas lindas vivendas, enquanto os mendigos imploravam esmolas pelas ruas. Viu crianças maltrapilhas e esfomeadas. Entre elas, dois meninos tiritantes, sob o arco de uma ponte, procurando se agasalhar; mas um guarda mandou-os embora e eles partiram sob a chuva impiedosa.
O passarinho, entristecido, voltou e descreveu tudo ao Príncipe.
— Sou todo coberto de ouro, disse-lhe este. Quero que você reparta pedaço por pedaço dele ao meu povo. Os homens julgam que o ouro pode torná-los felizes.
Pedaço por pedaço, o ouro do Príncipe Feliz foi entregue ao povo. E as crianças passaram a brincar, alegres e descuidadas.
Enquanto isso, o Príncipe ia-se tornado escuro e cada vez mais feio.
E veio a neve. E as ruas brilharam como se fossem de prata. E finas agulhas de cristal adornaram as casas. 
A pobre avezinha estava quase gelada, mas não podia abandonar o Príncipe; amava-o demais. Roubava migalhas aos padeiros e procurava aquecer-se, batendo as asas.
Finalmente, sentindo que morria, pousou mais uma vez no ombro do amigo: — Adeus, meu caro Príncipe, posso beijar-lhe a mão?
— Alegra-me saber que vai partir para o Egito, disse o Príncipe; mas beije-me os lábios, você bem sabe que o quero muito.
— Não vou para o Egito e sim para a morte. A morte é irmã do sono, não é verdade?
Assim falando, beijou o Príncipe nos lábios e caiu morto a seus pés.
Nesse momento ouviu-se um estranho ruído dentro da estátua. Como se alguma coisa tivesse quebrado. E assim foi. O coração de chumbo partiu-se exatamente em dois pedaços.
Na manhã seguinte, o prefeito que passeava com os homens importantes da cidade, ao passar pela estátua, exclamou: — Meu Deus, como o Príncipe está feio!  
É mesmo! concordaram os companheiros. E subiram, a ver a estátua de perto.
— O rubi da espada desapareceu, os dois olhos de safira se foram e da coberta de ouro nada mais resta, comentou o delegado. — Parece um mendigo...
— Parece um mendigo... — observaram os outros em eco.
Vejo um Passarinho morto a seus pés, continuou o prefeito. — Precisamos baixar um decreto proibindo que os pássaros morram em lugares assim. — E todos tomaram nota da sugestão.
E resolveu-se derrubar a estátua do Príncipe Feliz.
— Se perdeu a beleza, já não tem serventia, sentenciou o professor de arte, da Universidade.
Mandaram derreter a estátua e convocaram uma assembleia para resolver o destino do metal.
— Faremos outra estátua, sugeriu o prefeito. E por que não reproduzir a minha própria imagem?
Mas os outros protestaram, indignados. Todos se achavam dignos da mesma honra. E até hoje estão brigando...
— Coisa esquisita! comentaram os operários na fundição. Este coração de chumbo partido ao meio, não derrete como o resto do metal. Só há um remédio, jogá-lo fora. — E atiraram-no num monte de lixo, onde também jazia o cadáver do passarinho.
***
— Tragam-me da terra duas coisas preciosas, disse o Todo-Poderoso aos seus anjos, no céu.
E estes conduziram-lhe o coração de chumbo do Príncipe Feliz e o passarinho morto.
— Escolheram bem, disse o Onipotente, pois o passarinho cantará eternamente nos jardins do Paraíso e o Príncipe Feliz será aqui verdadeiramente feliz e abençoará para sempre o meu nome, pelo que fez na terra.

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