quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Carta de Graça Aranha a Machado de Assis


Graça Aranha quando escrevia "Canaã, na cidade de Londres, em fevereiro de 1905


Carta de Graça Aranha a Machado de Assis
O documento a seguir, intitulado "Um inédito de Graça Aranha" foi publicado no ano de 1937, portanto 29 anos depois da morte de Machado de Assis, que se deu em 29 de setembro de 1908. Graça Aranha, por sua vez, faleceu em 1931.
Trata-se de uma emocionante carta escrita pelo autor de Canaã, no dia 30 de outubro de 1899. O destinatário foi Machado de Assis, o maior e mais genial escritor da Literatura Brasileira, autor de: Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, entre outros. A missiva, embora escrita em Paris, na França, narra de forma bastante humorada episódios do remetente numa viagem realizada na Suíça, onde esteve juntamente com Joaquim Nabuco e Rodolfo Dantas. O documento aborda ainda vários outros assuntos, porém, o grande destaque é sem dúvida para os aspectos envolvendo a profunda amizade entre ambos os escritores: "Se em alguma cousa, alguma evocação de figura amada, em tocar em certas reminiscências lhe causei qualquer inquietação ou sobressalto perdoe-me porque, meu amigo, entre os homens ninguém o ama mais".
Leiamos então...

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Um inédito de Graça Aranha
Paris, 30 de Outubro de 1899.
Meu querido Machado de Assis.
Depois que lhe escrevi, quantas cousas interessantes têm sucedido neste mundo! Mas não é certamente para comentá-las que volto a corresponder-me com Você. Deixemos de lado a questão Dreyfus, a Haute-Cour, o Transvaal; não falemos também do Roca, nem do extraordinário discurso do Júlio Ottoni, com a sua fina e jeitosa comparação de Deus a um fabricante de velas de Luz Stearica. Deixemos tudo isto, trágico ou ridículo, e tratemos de nós mesmos. Eu direi de mim, e Você, forçando os hábitos, dirá de si. Valeu? Pois bem; comecemos.
Durante o verão deixei Paris com muitas saudades de duas cousas, do Louvre e da linha sombreada dos cães e fui viajar a Suíça. Estive no lago do Lemano. Caro amigo, ainda não conheço a Ática; creio, porém, que depois dela não há nada mais agradável que o lago de Genebra com as suas cidadezinhas marginais, com a sua linha de morros que não espantam, com a sua água tranquila e finalmente com a sugestão literária que nos faz ver as sombras amadas de Rousseau, Voltaire e Staël, em busca desses retiros sagrados que são Ferney, Coppert e Clarens.
Uma vez ali naquele país de seduções não faltei às romarias clássicas. O Nabuco, o Rodolfo Dantas e eu quisemos visitar as deliciosas moradas dos gênios, e como no espírito temos a doce e contínua impressão dos amigos que são V. e o Veríssimo, nós por toda a parte firmamos os seus nomes, de forma que Vocês também viajaram por estes lugares, e viveram, por uma ilusão, uns instantes nos mesmos recantos onde respiraram aquelas grandes vidas.
De todas estas visitas, a mais delicada pelo perfume que nos deixou n’alma foi a de Coppet. Velho solar, onde morou a beleza, o gênio, o amor como Machado de Assis saberia extrair de te os segredos que estão nas tuas paredes, nas tuas árvores, no teu ar! como ele saberia traduzir o que se não vê, os pensamentos finos e altos, os murmúrios do gozo, e toda esta epopeia dos grandes espíritos guardada no teu misterioso silêncio! Passeamos debaixo das árvores marcando os sítios que acreditávamos favoritos do par amoroso Benjamin Constant e Staël. Vimos tudo aquilo com olhos de saudade, e voltando ao castelo, que na mobília, no arranjo, em tudo é conservado imutável como velho templo, esperávamos a cada passo ver chegar a dona da casa. Mas como ela não viesse, e muito tardasse, fomos bisbilhoteiros penetrando pelos salões, pelos gabinetes de leitura. Não havia viva alma. Onde estava a gente do palácio? Nada; um silêncio absoluto respondia à nossa curiosidade crescente. Veio-nos uma certa desconfiança e o nosso desejo de devassar não conheceu limites; continuamos as nossas buscas, fomos até os cantos mais discretos, mais íntimos, em uma palavra fomos até o quarto de cama de Corina. Aí estávamos meio desconfiados da nossa ousadia; mas muito aguçados como quem entra em delicioso lugar proibido começamos suspeitosos a mirar tudo. A princípio o que mais nos prendeu a atenção foram os retratos nas paredes. Só de Benjamin Constant havia dois ou três. Creio que um Chateaubriand e, se não me engano, um Palmella. Para um justo equilíbrio de sentimentos, porém, havia um retrato de Mr. Necker. Delicado e esquisito coração de pai! Estava ali pregado em efígie talvez para admirar a filha admirável em situações em que aos seus olhos de verdade não lhe era permitido contemplá-la. Talvez!... No vasto divã em que deviam caber duas pessoas reclinadas, sentamo-nos languidamente; os olhos, como estou lhe descrevendo, já não nos bastavam; exigíamos então as sensações perfeitas do toque e mergulhamos as mãos por entre as colchas da cama. Na mente indiscreta e sobre-excitada as imagens voluptuosas dançavam perturbantes... Arrastamo-nos dali para um outro aposento. Era um quartinho, como um oratório. Nada mais nada menos que o quarto de Madame Récamier. Um leito muito artístico guardou ali o sono da beleza pura, e quem sabe se da inocência virginal, da imaculada turris eburnea? A nossa emoção foi augusta. O Nabuco, ereto com a sua nobre figura de deus antigo, perdia-se na contemplação; o suave Rodolpho murmurava em brandos suspiros. E (oh vergonha eterna!) eu fraco, sensibilizado até a umas lágrimas indefinidas, ajoelhei-me diante deste leito sagrado, e ajoelhei-me em nome do José Verissimo; daí em diante, já que cheguei a esta postura humilhante, a emoção doentia, que me espreita nas minhas vacinações como uma fácil preza, conquistou-me em absoluto; e então todo cheio de alma apaixonada de Machado de Assis, por ele e em nome dele, beijei longa e deliciosamente os santos vestígios do corpo adorável da mulher divina que ali descansou.
Machado, se V. está lendo esta carta na Secretaria, fez mal, porque temo que de agora em diante a visão de Julieta Récamier comece a turbar os seus sentidos e resulte disso que nem V. entenderá o Severino, nem o Severino o entenderá. V. está com a cabeça toda misturada, aposto. E se é capaz de separar as cousas, experimente redigir um despacho. Mas é melhor não redigir, porque tremo pela sua reputação de burocrata impecável e que em um segundo se iria destruir. Quer um conselho? Vá para a casa e desforre-se da Secretaria lendo o Journal intime do suspiroso Benjamin e se V. sofre porque os anos lhe separam da amada e sonhada criatura console-se com o que sucedeu aos que caçavam a esquiva mulher: "J'ai un rendez-vus avec Juliette ce soir et prépare une compotsition écrite pour l'émouvoir. Cela a réussi, elle a eu une véritable émotion et de l'abandon plus que jamais. Et cependant je n'en ai pas profité. Il a là une barrière que j'entrevois et qui me paralyse" (J. Intime, pág. 145. Repare —une barreire). E agora?
Respire um pouco para continuarmos. Muito bem.
Antes de Coppet estivemos no coração dos Alpes, no Bex, um lugarejo encravado nessas famosas montanhas, sedutoras e assassinas e cuja passagem tem mudado tantas vezes as cousas do mundo. Mas afirmo-lhe para robustecer a sua dura filosofia que a natureza em tudo é parcial, até nesse assunto, pois transpus o Rhodano no mesmo ponto em que César o passou e as causas humanas com surpresa minha não se alteraram, como quando acontecia com o Romano. Tenho ou não razão para me queixar deste tratamento desigual? Classifique-me de hoje em diante como o mais rancoroso pessimista.
No hotel em Bex tínhamos um magnífico parque, e aí, novos peripatéticos; travávamos pelas alamedas o diálogo perpétuo das cousas eternas. Aquele jardim cheio de sombras e por onde passavam cantando fios d'água, como se fossem a sua alma, tornou-se para nós um encanto. Se de repente o bosque quisesse repetir o que de nós recolheu, oh! meu caro Machado, como o seu nome sairia em magnífico e soberbo coro daquelas pirâmides verdes que são os pinheiros Quando passávamos do parque ao salão do hotel entravámos em uma Cosmópolis. A cada língua estranha que nos chegava, a cada rosto de mulher que fitávamos, uma observação nos acudia logo: "se o Machado de Assis aqui estivesse, o que diria?" Esta mistura de raças, estas almas várias e errantes ali cruzadas em conjunções do acaso, que obras primas não dariam à sua doce e aguda pena? Só um a bela grega que te aduzia em seu perfil, na linha graciosa do corpo, algumas parcelas da massa divina de Phrynéa ou Lais lhe daria uma página imortal. Essa mulher tinha uns olhos singulares e raros, exprimiam a um tempo um quê de perturbador, de tempestuoso, de voraz; e a um tempo eram mansos, cheios de volúpia terna, moribundos. Para defini-la pelos olhos alguém me disse: oblíqua e dissimulada. Creio porém que seria melhor dizer olhos de ondas, das pérfidas ondas, em uma palavra olhos de ressaca. Esta comparação não me veio espontânea, mas sim a propósito de uma narração que um polaco extravagante me fez da vida da jovem grega, e que aqui lhe resumo. Era casada, e com um sublime disfarce teve por amante o maior amigo do marido. Do marido não lhe resultou nada, mas do amante lhe saiu um filho, naturalmente porque tudo é fecundo, como diz Renan, menos o bom senso. E o bom senso que, nesse caso, era o marido, não entendeu da história dos amores senão quando o filho do outro começou a repetir os sestros paternos. Mas antes da explosão doméstica, o mar, o belo e untuoso mar do Pyreo, resolveu providencialmente o caso matando em uma rósea madrugada o amante. A grega foi perfeita em dissimular a sua bem entranhada dor e inquebrantável assistiu ao lado da mulher legítima a toda a cerimônia fúnebre. Mas, disse nestas palavras o narrador polaco - momento houve em que os olhos da grega fitaram o defunto, quais os da viúva, sem o pranto nem a palavra desta mas grandes e abertos como a vaga do mar lá fora, como se quisesse tragar também o nadador da manhã. Olhos de ressaca, conclui eu, enquanto contemplava a dona deles, que descuidada passava a sorrir radiosa no meio da folhagem verde.
São casos de hotel, e os deixemos ir rápidos e ao acaso como nos vieram. Um sujeito que também conheci em Bex diria com certeza: assunto interessantíssimo, ou aborrecidíssimo, usando um ou outro desses superlativos, como melhor lhe quadrasse. Ah! o culto do superlativo, meu caro. Como ele serve ao Brasil, à nossa decadência intelectual e moral, ao grupo dos aduladores e aos vazios de ideias! Creio que é necessário grafá-lo num tipo literário que fique eterno. A propósito da literatura tenho de lhe dizer que um dos meus livros de leitura na Suíça foi o das suas Páginas Recolhidas. Muitos daqueles trabalhos eu conhecia e por isso não lhe falo do magnífico ensaio Henriqueta Renan; do delicado Velho Senado, dos deliciosos trechos de suas Crônicas (os Salteadores da Thessália, principalmente). Três contos eram novos para mim e achei-os admiráveis. O caso da vara, com o seu final tão profundamente humano; o Eterno que é magistral e esta cousa rara, delicada que é a Missa do Galo, com aquela perfeição de dizer, de insinuar de que só Você entre nós tem o segredo e a distinção. Já agradeci ao Veríssimo o exemplar que me enviou. E o seu D. Casmurro sai este ano? Quando aparecer a obra por cuja leitura ardo de curiosidade espero que V. ainda uma vez e por amor de mim, contrariando seus velhos hábitos, mande-me um volume.
Quando medito em seus trabalhos, aqui separado do Brasil com o relativo das cousas muito apagado, para só possuir as exigências do absoluto, é que minha admiração por V. se define e acentua melhor.
Adeus. Esta carta não acabará mais se eu lhe fosse a dizer tudo o que me vem à cabeça. Desculpe-me se fui longo, e muito repetido, enfim se dei pernas longuíssimas a ideias pequeníssimas. Não rias dos superlativos. É contágio do homem de Bex. Se em alguma cousa, alguma evocação de figura amada, em tocar em certas reminiscências lhe causei qualquer inquietação ou sobressalto perdoe-me porque, meu amigo, entre os homens ninguém o ama mais. Entre os homens, porque entre as mulheres...
Todo seu e para sempre,
 Graça Aranha.

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Fonte:
Revista "Apectos" - Ano I - Nº 3 - 30 de Novembro de 1937. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital

Pesquisa, atualização ortográfica e revisão gráfica: IBA MENDES

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