sábado, 24 de setembro de 2016

O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde


O Rouxinol e a Rosa,  de Oscar Wilde 

Tradução: Sylvia Patrícia.


"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas" — exclamou o jovem Estudante — "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."
Do seu ninho de verde carvalho ou­viu-o o Rouxinol, e olhou-o através da folhagem e se espantou.
"Nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim", exclamou o Estudante, e seus belos olhos se encheram de lá­grimas. "Ah, como a felicidade de­pende de pequenas coisas! Li tudo quanto escreveram os sábios, e são meus todos os segredos da filosofia: no entanto, por causa de uma rosa ver­melha, desventurada é toda a minha vida."
"Eis enfim um verdadeiro apaixonado", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o cantei, embora não o conhecesse; noite após noite narrei às estre­las a sua história, e agora o vejo. Sua cabeleira é sombria qual a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos qual a rosa de seu desejo; mas a paixão tornou-lhe o rosto semelhante ao páli­do marfim e o desgosto marcou-lhe a fronte."
"O Príncipe dá um baile amanhã à noite", murmurou o jovem Estudante, e meu amor estará presente. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, ela dançará comigo até pela madrugada. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, eu a terei nos braços e ela reclinará a cabeça sobre o meu ombro, e minha mão aper­tará a sua mão. Mas não há rosas vermelhas no meu jardim, e assim fi­carei sentado sozinho e ela passará diante de mim. Ela não me dará nenhuma atenção e o meu coração se par­tirá."
"Eis realmente um verdadeiro apai­xonado", diz o Rouxinol. "O que eu canto, ele sofre; o que para mim é ale­gria, para ele é dor. Por certo, o Amor é maravilhoso. É mais precioso que as esmeraldas e mais caro do que as finas opalas. Nem pérolas, nem rubis podem comprá-lo, não é exposto nos mercados. Os negociantes não podem adquiri-lo e também não pode ser pe­sado na balança."
"Os músicos estarão sentados em sua galeria", diz o jovem Estudante, "e tocarão sobre seus instrumentos de cordas, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Ela dançará tão levemente que seus pés não tocarão o chão, e os cortesãos de alegres roupa­gens hão de rodeá-la. Mas comigo ela não dançará, porque eu não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe" — e ele atirou-se no gramado e ocultou o ros­to nas mãos e chorou.
— "Por que chora ele?", indagou o pequeno Lagarto verde, passando rá­pido ao seu lado, o rabinho para o ar.
— "Por que, com efeito?", disse uma Borboleta que revoava perto de um raio.
— "Sim, por quê?", murmurou a Margarida à sua vizinha, numa voz baixa e doce.
— "Ele chora por uma rosa ver­melha", disse o Rouxinol.
— "Por uma rosa vermelha?", ex­clamaram todos — "que coisa ridí­cula!"
E o pequeno Lagarto que era ligei­ramente cínico, riu alto.
Mas o Rouxinol compreendia o se­gredo da dor do Estudante, e perma­neceu silencioso no carvalho, e pensou no mistério do Amor.
De repente, estendeu suas asas es­curas a fim de voar, e rumou para os ares. Atravessou o bosque qual uma sombra, e qual uma sombra revoou so­bre o jardim.
No meio do gramado erguia-se uma bela roseira, e logo que ele a viu foi pousar sobre um galho.
— "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou, "e eu te cantarei a minha mais linda canção."
Mas a Árvore sacudiu a cabeça.
— "Minhas rosas são brancas", res­pondeu; "brancas como a espuma do mar e mais brancas do que a neve so­bre a montanha. Mas vai procurar minha irmã que cresce junto ao velho quadrante solitário, e talvez ela te dê o que desejas."
Voou o Rouxinol para a Roseira que crescia junto ao velho quadrante solitário.
— "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou, "e eu te cantarei a minha mais doce canção."
Mas a Árvore sacudiu a cabeça.
— "Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas qual a cabe­leira da sereia sentada sobre o trono de âmbar, e mais amarelas do que o asfódelo que floresce no prado antes que os ceifadores venham com suas foices. Mas vai procurar minha irmã que cresce sob a janela do Estudante e talvez ela te dê o que desejas."
E o Rouxinol voou para a Roseira que crescia sob a janela do Estudante.
— "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou, "e eu te cantarei a minha mais doce canção."
Mas a Árvore sacudiu a cabeça.
"Minhas rosas são vermelhas", respondeu, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas do que os grandes leques que se agitam sem ces­sar na caverna do Oceano. Mas o in­verno gelou-me as veias, e o granizo murchou meus botões e a tempestade quebrou-me os galhos, e não terei ro­sas todo este ano."
— "Uma única rosa vermelha é tudo quanto eu desejo", exclamou o Rouxinol, "uma única rosa vermelha! Não há um meio pelo qual a possa ob­ter?"
— "Há um meio", respondeu a Ár­vore, "mas é tão terrível que nem ouso dizê-lo."
— "Dize-o", tornou o Rouxinol, "não tenho medo."


— "Se desejas uma rosa vermelha", disse a Árvore, "deves criá-la com mú­sica ao luar e tingi-la do sangue de teu próprio coração. Deves cantar para mim com teu coração espetado num dos meus espinhos. Toda a noite deves cantar para mim, e o espinho deve penetrar-te o coração, e o sangue de tua vida deve correr em minhas veias e tornar o meu sangue."
— "A morte é um grande preço a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e a vida a todos é cara. É agradável permanecer no ver­de bosque e olhar o Sol em sua carruagem de ouro e à Lua em sua carrua­gem de pérola. Doce é o perfume da roseira silvestre e doces são as campânulas que se ocultam no vale, e a relva que ondula sobre a colina. No entanto o Amor é melhor do que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?"
Estendeu pois suas asas escuras e elevou o voo rumando os ares. Qual uma sombra passou sobre o jardim, e qual uma sombra revoou sobre o bos­que.
O jovem Estudante estava ainda estendido sobre a relva, onde ele o tinha deixado, e as lágrimas não haviam ainda secado em seus belos olhos.
— "Sê feliz", gritou o Rouxinol, "sê feliz; terás a rosa vermelha. Eu a criarei com música do luar, e a tin­girei do sangue de meu próprio coração. Tudo quanto em troca te peço, é que sejas um verdadeiro amoroso, por­que o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora seja esta sábia, e mais forte do que o Poder, embora este seja forte. Cor de flama são suas asas, e colorido qual a flama é o seu corpo. Açucarados qual o mel são os seus lábios, e seu hálito assemelha-se ao in­censo."
O Estudante olhou da relva onde estava deitado, e escutou, mas não pôde compreender o que lhe dizia o Rouxinol, porque ele sabia apenas as coi­sas que estão escritas nos livros.
Mas o Carvalho compreendeu, e se sentiu triste, porque muito amava o pequeno Rouxinol que havia construído o ninho entre seus galhos.
"Canta-me uma última canção", murmurou ele, "porque hei de me sen­tir bem sozinho quando partires."
O Rouxinol cantou, pois, para o Carvalho, e sua voz era como a água espalhando-se, cheia de bolhas, numa jarra de prata.
Quando terminou a sua  canção, o Estudante levantou-se e tirou do bolso, um caderninho e um lápis.
"Ele tem forma", disse consigo dei­xando o bosque, "isto não se pode ne­gar; mas terá sentimento? Receio que não. É aliás, como todos os artistas, todo estilo, sem nem uma sinceridade. Não se sacrificaria por outrem. Pensa apenas em sua música, e todo mundo sabe que as artes são egoístas. No entanto, é preciso admitir que ele possui belas notas na voz. Que pena que elas coisa alguma signifiquem, que não façam nenhum bem prático." E ele entrou em seu quarto, e deitou-se na rústica cama, e se pôs a pensar em seu amor, e depois de algum tempo adormeceu.
E quando a Lua brilhou nos céus, o Rouxinol voou para a Roseira, e apoiou seu peito contra o espinho. Toda a noite ele cantou com o peito espetado contra o es­pinho, e a fria Lua cristalina inclinou-se e escutou-o. Toda a noite ele cantou, e o espinho foi penetrando mais e mais em seu peito, e assim expandiu-se o sangue de sua vida.
Ele cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma adolescente. E no mais alto ga­lho da Roseira floriu, pétala por péta­la, uma maravilhosa rosa, à medida que uma canção seguia outra canção.
Era pálida a princípio, qual a bru­ma que se espalha sobre o rio, — pá­lida como os pés da manhã, e pratea­da como as asas da aurora. Assim co­mo a sombra de uma rosa num espelho de prata, assim como a sombra de uma rosa num tanque, era a rosa que flo­ria no mais alto galho da Árvore.
Mas a Árvore gritou ao Rouxinol que se apoiasse com mais força sobre o espinho, e mais sonora ainda tornou-se a canção. E de novo a Árvore gri­tou:
"Apoia-te mais fortemente ainda, pequeno Rouxinol, ou chegará o dia sem que a rosa esteja terminada."
Com mais força apoiou-se o Rouxi­nol; mais sonoro tornou-se o gorjeio, porque ele cantava o nascimento da paixão no coração de um homem e de uma virgem.
Um delicado rubor tingiu as folhas da rosa, qual o rubor no rosto do noivo quando beija os lábios da noiva. Mas o espinho não havia atingido ainda o coração do pássaro, de modo que o coração da rosa permaneceu branco, pois só o sangue vital de um rouxinol pode empurpurar o coração de uma rosa.
E a Árvore gritou ao Rouxinol que se apoiasse com mais força contra o espinho. "Mais força, pequeno Rou­xinol", gritou a Árvore, "ou chegará o dia antes que a rosa esteja termi­nada."
O Rouxinol apoiou-se com mais for­ça contra o espinho, e o espinho tocou-lhe o coração, e dilacerou-o um brutal estremecimento de dor. Amarga, amar­ga era a dor, e cada vez mais selvagem tornou-se a sua canção, porque ele can­tava o Amor que se completa pela Mor­te, o Amor que não morre na campa.
E a rosa maravilhosa tornou-se pur­purina, qual o róseo do céu oriental. Purpúrea era a cercadura das pétalas, e purpúreo qual um rubi era o coração.
Mas tornou-se débil a voz do Rou­xinol, e suas asinhas se puseram a ba­ter, e uma película cobriu-lhe os olhos. Cada vez mais fraco era o seu gorjeio, na garganta sentia ele qualquer coisa que o sufocava.
Exalou então uma derradeira melo­dia. Ouviu-o a Lua branca, e se esque­ceu da aurora, e se demorou no céu. Ouviu-o a rosa vermelha, e de êxtases toda ela estremeceu, e abriu suas péta­las ao ar frio da manhã. Levou-o o Eco até a sua caverna violeta, lá nas montanhas, e arrancou a seus sonhos os pastores adormecidos. Ondulou até aos caniços do rio, que levaram ao mar a mensagem.
"Vê! Vê!", gritou a Árvore, "a rosa está agora terminada"; mas o Rouxinol não deu resposta, porque ja­zia morto na alta relva, o espinho em seu coração.
E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.
"Oh! que sorte extraordinária", ex­clamou, "eis uma rosa vermelha! Ja­mais vi uma rosa igual em toda a minha vida. É tão bela que por certo tem um nome latino." E ele se debruçou e colheu-a.
Então pôs o chapéu e correu à casa do Professor, a rosa na mão.
A filha do Professor estava sentada junto à porta, enrolando seda azul em torno de uma bobina, seu cãozinho es­tava deitado a seus pés.
"Você disse que dançaria comigo só eu lho trouxesse uma rosa vermelha", exclamou o Estudante. "Aqui tem a mais vermelha rosa do mundo. Você a trará esta noite sobre o coração, e enquanto juntos dançarmos ela há de dizer-lhe o quanto a amo".
Mas a moça franziu a sobrancelha.
"Receio que ela não vá bem com o meu vestido", respondeu, "e aliás o sobrinho do Chanceler enviou-me joias verdadeiras, é sabido que as joias custam mais caro do que as flores".
"Como você é ingrata", disse colé­rico o Estudante. E atirou a rosa à rua, onde ela caiu na sarjeta e onde a roda de uma carrocinha passou por ci­ma dela.
"Ingrata?", retorquiu a moça. Você é que é muito grosseiro. E afinal de contas, quem é você? Nada mais que um estudante. Acho mesmo que nem tem fivelas de prata nos sapatos, como o sobrinho do Chanceler." E le­vantando-se da cadeira, entrou em casa.
"Que coisa tola é o Amor", disse o Estudante afastando-se. "O Amor não possui nem a metade da utilidade da Lógica, porque ele nada prova, fala todo o tempo de coisas que não acon­tecem, e faz crer em coisas que não são verdadeiras. Em verdade, o Amor não é prático, e como em nossa época tudo consiste em ser prático, voltarei para a Filosofia, e estudarei a Meta­física."
Voltou pois para o seu quarto, tomou um grosso volume empoeirado e se pôs a ler.

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