sexta-feira, 2 de setembro de 2016

"Páginas da vida" (Conto), de: Rodrigo Otávio

Rodrigo Otávio de Langgaard Meneses nasceu na cidade de Campinas, em 11 de outubro de 1866. Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 28 de fevereiro de 1944.

Foi um ilustre jurista e homem de letras; Consultor Geral da República; primeiro secretário da Embaixada Brasileira na conferência de Haia, em 1907; Delegado Plenipotenciário às Conferências Internacionais de Haia para Unificação do Direito Cambial (1909-1912) e de Bruxelas, para a unificação do Direito Marítimo (1909-1911); professor agrée na Faculdade de Direito de Paris, onde fez, em 1913, um curso sobre Direito Internacional Privado; membro da alta Comissão Internacional para Unificação das Leis, criada  Conferência Financeira de Washington, de 1915, e Delegado na Conferência Americana de Washington de  1916, por convite da Carnegie Indowment for International Place.

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Páginas da vida
I - A MÃE DO TENENTE GOGOL
Por uns tempos servi no posto de confiança junto do Presidente. E, por certo, muita gente me procurava para toda a sorte de assuntos. De uma feita me foi anunciada a visita de uma senhora: — Mãe do tenente Gogol. Esse tenente Gogol era um oficial que, havia tempo se fizera notar por uma circunstância qualquer, penso que fora morto em Canudos, e seu nome aparecera nos Jornais. Por seu exotismo, repetindo o apelido do velho escritor russo das Almas Mortas, eu o tinha na lembrança. Mandei entrar a Mãe do Tenente Gogol. E, cheia de mesuras, entrou-me na sala uma senhora faceira, num farfalhante vestido de tafetá cinza, com vidrilhos e fitas. Sentada no sofá perto de mim, pude observar-lhe, enquanto falava, agitando um antiquado leque de plumas, a curiosa figura.
Bem entrada em anos, já, por certo, na casa dos sessenta, queria parecer moça, pelas pinturas e artifícios que a ninguém enganava, pelo atarracado das adiposidades, que lhe deformavam o corpo, e pelos meneios e faceirices que a tomavam ridícula. Coberta de laias de plaquê, colares de contas de vidro, era positivamente uma figura para ser vista de longe.
Falou longamente. Pleiteava uma vantagem qualquer, como beneficiária do filho que havia morrido em combate, e o caso se arrastava sem solução nas repartições da guerra... Não é que ela precisasse muito, mas desde que tinha direito...
— Naturalmente, respondi-lhe, mas aconselhei: mesmo que V. Exa. viva na abastança, não é prudente, se deseja ver o caso liquidado sem demora, propalar nas repartições públicas que não precisa do benefício que pleiteia.
E foi de ver-se o ar de satisfação com que ela se inchou e, num sorriso de bem estar, meneou a cabeça num gesto de conformação, quando eu lhe falei em abastança.
A Senhora partiu e a visita, pela notória extravagância da visitante, foi muito comentada, na roda dos meus companheiros.
Uns dias mais tarde, um deles, oficial, e que conhecera o Tenente Gogol, me veio dizer, surpreso: — Sabe, morreu a Mai do Tenente Gogol.
— Morreu, a pobre! E pensei, instintivamente, advogado que havia sido e que, em breve, seria de novo — que rico inventário...
Mas, como as aparências enganam. Alguns dias mais tarde, percorrendo a secção Judiciária de um Jornal, encontrei o edital de praça do seu espólio, arrecadado num quarto de casa de pensão: uma cama de feno, duas cadeiras de assento do madeira, um lavatório quebrado, um lote de roupas usadas...

II - DOR
 Certa manhã, na minha quase infância, seguia no bonde do Caminho Velho, como então se chamava a Rua Senador Vergueiro, para o Colégio Pedro II, e ao passar pela Glória, onde a rua, hoje desafogada pela conquista do mar, se estreitava comprimida entre o cais e o casario, junto ao sítio em que se ergue a fortaleza altiva de duas palmeiras imperiais que desafiam os anos e tem, até agora, na sua beleza, desafiado também a faina dos transformardes da cidade, foi a atenção de todos voltada para um caso estranho: — uma mulher pobre, descalça, e levemente vestida, alucinada, corria encima do alto cais, de um lado para outro, agitando, nas mãos erguidas, umas calcinhas de menino e gritando: — Mar, me dá meu filho! Mar, me dá meu filho! A dor de perder um filho, um pedaço de nós mesmos!
Ainda hoje o episódio me vem à mente quando por ali passo. E dele me lembrei também, quando li algures, ou ouvi em qualquer parte o caso de uma mulher que, enlouquecida porque as ondas lhe haviam tragado o filho amado, vinha todas as tardes, com qualquer tempo, na tranquilidade inalterável de sua inconsciência, acocorar-se à beira do mar e, brincando com as águas inquietas, acariciar o filho que elas guardavam avaras...
Quem sabe se essa mulher não era a mesma que eu vira no cais... 


Adaprtação ortográfica, revisão gráfica e seleção: IBA MENDES
Revista "Apectos" - Ano I - Nº 2 - 30 de Outubro de 1937. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital

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