sábado, 3 de setembro de 2016

"Susana" (Conto), de Alfredo de Assis




Alfredo de Assis Castro nasceu na cidade maranhense de Riachão, no dia 14 de janeiro de 1881. Faleceu no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1977.

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife, integrou a turma que colou grau em 11 de dezembro de 1911. Alcançou grande nomeada como profundo conhecedor da língua portuguesa e severo defensor da correção no falar e no escrever segundo os ditames da Norma Culta. Realmente notável era sua cultura filológica. Professor, crítico, poeta, contista  e jornalista. Catedrático de Português e Literatura da antiga Escola Normal do Maranhão. Diretor do Liceu Maranhense. Diretor da Biblioteca Pública do Estado, no período de 10 de agosto de 1926 a 28 de fevereiro de 1930. Em sua gestão a Biblioteca retornou do pavimento térreo do então Congresso Legislativo do Estado (na Rua do Egito) para o imóvel da Rua da Paz (Academia Maranhense de Letras)
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Susana
...Não importa: irei, e sem que veia motivo para que depois me desvaneça de haver praticado qualquer feito notável, assim como, por exemplo, a defesa do Guaxenduba. Não queiras transformar argueiros em cavaleiros. Falas de modo que parece me escreves do outro lado do Atlântico. Pois bem, admitamos que assim seja. Pergunto agora: que era que eu não faria para vencer a distância que nos separa? Já me disseste que eu permaneço irremediavelmente um romântico. E tu, meu amor? Qual de nós dois está a mostrar-se mais fantasista e menos de acordo com a realidade? É certo, em todo o caso, que eu sou, desde quando nos encontramos pela primeira vez, a limalha de ferro atraída pelo ímã que és tu. Não posso comigo mesmo a ponto de vencer a força inefável que me prende e dirige para onde quer que te encontres. O lugar que se ilumina com os teus olhares e os teus sorrisos é o único em que sinto as belezas do céu e da terra e ouço as notas da canção da felicidade. O inverno, bem veio, é rigoroso, mas uma ou outra ventania mais forte não merece que se lhe atribuam pavores de procela. Não ponhas em dúvida que o Filho das Ondas, apelido que lhe foi merecidamente consagrado, resvalará incólume até que chegue à legendaria Tapuitapera, que agora estimo e abençoo, porque te restituiu a saúde e te reintegrou no contentamento de viver. Sempre ouvi dizer, desde menino, que Alcântara é triste, não passa de pobre terra em que vive principalmente a obsessiva lembrança de grandezas para sempre desaparecidas, atestadas pelas ruínas de ruas inteiras, onde se encontram vestígios de muitas e custosas vivendas senhoriais. Pois eu, que ainda não a visitei, ando a imaginá-la como um verde recanto infinitamente aprazível, onde tudo concorre para que se encha o coração de esperança e de sonho. Agora então como deve estar encantadora, remoçada pelo inverno em começo, o nosso inverno tão propício a tardes serenas, de profunda suavidade, à maneira daquelas que tanta vez gozamos olhando, da casa do Baluarte, a baía com o Bacanga à esquerda, o Anil à direita, de um lado as terras do Bonfim e do Itaqui, do outro a ponta de São Francisco, a ponta da Areia, de praia tão alva, o ao fundo, longe, debruando pequena porção do continente, a faixa de terra, de arvoredo exuberante, onde se engasta essa Alcântara que me chama, de dia e de noite, mandando-me, o que é talvez um milagre, a tua voz e o teu perfume, nos rumores do vento e das águas quando sobre estas me debruço dos parapeitos do cais da Sagração. Encontrava-me trasanteontem, seriam 22 horas, bem no ponto ao fundo da meia-laranja vizinha da rampa de embarque; e tinha o olhar mergulhado nas trevas marinhas aqui e ali pontilhadas de luzes de barcos, alguns mais ou menos próximos e outros distantes, quando se abriu um relâmpago iluminando em cheio, ziguezagueante e incisivo, a costa alcantarense. Perguntei a mim mesmo se não fora aquilo uma graça, desejaria dizer uma gentileza do bom Deus, diante dos anseios do meu enamorado coração. Esse, o vaidoso pensamento que instantâneo me avassalou e comoveu, a tanto chega o amor nos exageros do seu egocentrismo. E a verdade é que por mais tempo ali me haveria deixado ficar à espera de novo relâmpago, se a chuva pouco depois me não tivesse compelido a subir apressado a ladeira que leva ao largo de Palácio. Acredito que esteias a rir. Estimo que estejas, e foi mesmo para isso que te referi o episódio. Tenho outras coisas para contar-te, novidades aqui da terra. Será isso até o fim da próxima semana. Gostarás de ouvi-las.
O moço Pedro de Sousa rematou por esse modo a longa epístola dirigida à fascinadora Susana, joven são-luisense da rua de Santo Antônio, por quem se apaixonara desde a noite da festa dos Remédios em que se conheceram. O largo, regurgitante, banhado em luz profusa, semeado de barracas e quiosques a suceder-se por entre os gramados e a elegante simplicidade das altas palmeiras evocadoras da Canção do Exílio, todo vibrante de músicas, de pregões de vária natureza, de vozes alegres de adultos e crianças, oferecia, no vaivém de grupos e grupos que se entrecruzavam em todas as direções, um dos atrativos que prolongavam pela noite a dentro a demora do povo naquele formoso logradouro onde, ao centro, se ostenta e predomina, esculturada em mármore, a primorosa estátua do Gonçalves Dias. Deixou Pedro de Sousa a cadeira que alugara em uma das filas fronteiras ao templo ainda inacabado e bem outro, no estilo e nas proporções, daquele em que se fazia ouvir, enlevando o auditório, a voz de Dona Rosa Loura, celebrada por João Lisboa, voz em tanta maneira "melodiosa", "extensa", "flexível", "espontânea" e "pura", que lhe deu o escritor o condão de despertar uma espécie de saudade em quantos chegaram a ler o folhetim consagrado aos festejos da "Milagrosa Senhora". Queimava-se um fogo de artifício perto da amurada sobranceira ao rio. Encaminhava-se o moço para esse lado, onde se mostrava aos olhos dos passeantes o quadro meio sonolento das águas do Anil, crescidas, escondendo as coroas e ondulando esmaltadas pelos raios da lua em quarto minguante. Foi quando o alcançou família conhecida, com quem estava no momento aquela que desde então, e cada vez mais, passou a ser-lhe a doce ventura e a dominadora dos pensamentos, a que lhe fora escolhida, segundo entendia, pelo misterioso instinto renovador da mocidade na terra. "Susana" — disseram-lhe, apresentando-a. Mirou-a e deslumbrou-se, com o coração batendo descompassado. De regular estatura, franzina, muito alva, negros os cabelos, grandes olhos vivos e também negros, boca e nariz bem conformados, toda ela sedução e maravilha na harmonia das linhas do rosto e do corpo, levou-o a recordar a Susana da Bíblia, aí considerada "perfeitamente bela", pulchra nimis. Era preciso crer no livro sagrado, e portanto havia de ser o mesmo o grau de formosura de uma e outra. Quisera poder afirmá-lo na ocasião a ela própria. Afirmou-o alguns dias depois, no derradeiro da novena, quando no largo se dirigiam para a igreja à hora da missa, o que fez que a moça, também conhecedora do capítulo relativo à homônima do Livro de Daniel, sorrisse lisonjeada e protestasse em nome do esposo da Babilônia e do espírito de justiça do profeta que a defendera e salvara.
Essa e outras passagens da história do seu amor rememorava Pedro de Sousa no bonde que tomara para levar a carta ao Correio. Manhã agradável, sol esplêndido, iluminando e jovializando as velhas ruas, onde apenas de raro em raro algum prédio se erguia menos em desacordo com as novidades do tempo Mas, apesar disso, do avassalador anacronismo e pobreza das construções, que suave encanto se evolava de tudo e voava sobre todas as coisas, fino, subtil, inexplicável, beijo de brisa, perfume de rosas, cantiga em surdina, quase inaudível, e entretanto fundamente penetrativa e acariciadora!
Chegou a resposta quatro dias depois. A noiva insistia no pedido de que ele evitasse o lance da jornada como pretendia realizá-la. Rigorosamente, aliás, ora desnecessário que a fizesse, porque o seu regresso a São Luiz estava marcado para o mês seguinte. "Não venhas e não te preocupes. Aguarda ao menos o vapor anunciado para o fim da próxima quinzena. E se queres distrações, aí tens o cinema, a trupe Zorda no teatro, o convívio dos amigos, os teus livros bem-amados. Dessa maneira o tempo ha de correr-te ligeiro o desembaraçado de apreensões. Bem conheço a força e sinceridade dos teus sentimentos. Mostrar-te-ias porém, o maior dos imprudentes aventurando-te em um barco à difícil travessia. Chegou-me às mãos a tua carta, lida neste momento pela terceira vez. Confio que a presente chegue também ao seu destino. Grande receio, no entanto, me invade, quando penso na vinda que projetas; e pergunto a mim mesma se esse receio não será uma forma de pressentimento. Não, não venhas. Reserva o Filho das Ondas para o tempo das ondas mansas. Queres que te diga? Com esse nome, nem é difícil que lhe venha o desejo de um profundo mergulho. Estás a rir-te? Pago-te a história do relâmpago e da chuva. Mas não rias; falo sério. Corre agora a notícia de que se ignora o que aconteceu a três pescadores que desde ontem saíram barra a fora."
Pedro de Sousa recebeu a carta, leu-a, releu-a, beijou-lhe a assinatura e sorriu. Iria. Porque não havia de ir? Ela, evidentemente, exagerava, e de modo que até o deixava admirado. O certo, em ultima analise, é que iria. Quando menos esperasse, tê-lo-ia diante dos olhos tomados de espanto! Mostrar-lhe-ia, com o argumento da realidade, a inexistência dos negros perigos. Mas porque se mostrava tão excessivamente apreensiva? Seria que lhe estavam os nervos novamente perturbados?
Seguiu na outra semana, às primeiras horas de um dia luminoso, bem diverso dos anteriores mais próximos. O céu era azul, o mar bonança. Estava a natureza como a ave que saiu da lagoa e contente enxuga a plumagem aos raios de um grande sol. E Pedro de Sousa levava o coração em plena e gloriosa aleluia, e tinha presa a vista ao encanto dos variados panoramas, a começar pelo da cidade no seu alcantilado assentamento e estendida em parte dos dois rios a cujo eterno abraço a destinaram os fundadores. Essa contemplação não chegou a perturbá-la nem o Boqueirão de fama sombria, nem a Cerca, a Correnteza Grande, as outras corredeiras inevitáveis no trajeto. E porque os ventos sopraram favoráveis bojando as velas, a viagem se fez depressa, de sorte que às onze horas aportaram à praia do Jacaré. Pedro de Souza, sem mais demora, subiu com o mestre do barco a ladeira também daquele nome em procura da casa onde a moça estava hospedada. Era urna espaçosa morada-inteira, acentuadamente colonial, no meio do escasso arvoredo, pouco distante da antiga igreja do Carmo. Entrevendo-a, adiantou-se alvoroçado. Ela estava à porta da entrada conversando alegremente. O interlocutor era um moço que ele desconhecia, e em cuja destra se prendia descansadamente a de Susana. Sobresteve, atordoado, como se o envolvesse de improviso o torvelinho de um vendaval. Foi nesse instante que os dois lhe deram pela presença. Desenlaçaram-se as mãos, e ela, num ataranto:
— Então, sempre veio?
Fitou-a, tomado de assombro. Era mesmo a noiva quem ali estava, naquele momento? Era mesmo Susana quem lhe falava?
Pesou um silêncio entre os três. Respondeu, finalmente:
— É certo, sempre vim. Ou antes, foi como se não viesse, porque não encontrei aquela a quem procurava.
Deu de costas, afastando-se com o companheiro. Chegados à praia, tomaram de novo o Filho das Ondas. A luz era a mesma sobre as águas, nas dobras e extensões litorâneas, em tudo o que a vista alcançava. Não assim na alma de Pedro de Sousa. Aí o que havia era somente a espessidão de enorme sombra.
Tempos depois, em passeio noturno sob as árvores da avenida Silva Maia, fez ele a um amigo a narrativa do seu mal-aventurado amor; e rematou a confidência com esta reflexão:
— Ensinam os entendidos que a significação da palavra Susana é lírio na língua de origem. À Susana do Antigo Testamento, bela de corpo e limpa de coração, correspondeu maravilhosamente o nome que lhe deram. Da outra, infelizmente, não posso dizer o mesmo. Tem a alvura dos lírios, fisicamente é o que vemos. O coração, entretanto...

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Adaprtação ortográfica, revisão gráfica e seleção: IBA MENDES
Revista "Apectos" - Ano I - Nº 2 - 30 de Outubro de 1937. Disponível digitalmente na Biblioteca Nacional Digital

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