segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A aventura de Walter Scnaffs (Conto), de Guy Maupassant


A aventura de Walter Scnaffs, de Guy Maupassant

Publicado originalmente na revista “Fon-Fon”, em sua edição de 1945. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

Desde sua entrada na França, com o exército de invasão, Walter Schnaffs julgava-se o mais desgraçado dos homens. Era gordo, marchava com dificuldade, arquejava muito, e sofria horrivelmente dos pés. Além disso, era, por natureza, pacífico e benevolente, de maneira nenhuma sanguinário, pai de quatro crianças a quem adorava e casado com uma moça loira de quem sentia imensa saudade. Gostava de levantar-se tarde e deitar cedo; comer lentamente coisas gostosas e beber cerveja nas tavernas. Achava que tudo quanto há de bom na terra desaparece com a vida e conservava no coração um ódio espantoso e instintivo, pelos canhões, fuzis, revólveres, sabres e sobretudo pelas baionetas, sentindo-se incapaz de manobrar com presteza essa arma rápida para defender seu gordo ventre.
E, quando se deitava no chão, à noite, enrolado no capote, ao lado dos camaradas que roncavam, pensava longamente nos seus, deixados lá longe, e nos perigos espalhados pelo caminho! “Se ele morresse, o que seria dos pequenos? Quem os nutriria e os educaria? Agora mesmo, tinham pouco dinheiro, apesar das dívidas que contraíra, antes de partir, para deixá-los com algum recurso”. E Walter Schnaffs, muitas vezes, chorava.
No começo das batalhas sentia nas pernas tamanha fraqueza que se deixaria cair se não se lembrasse que todo o exército lhe passaria sobre o corpo. O sibilar das balas eriçava-lhe os cabelos.
Há já bastante meses vivia ele nesse terror e nessa agonia.
Seu batalhão avançava em direção da Normandia. O pobre soldado foi, certo dia, enviado juntamente com um pequeno destacamento, em serviço de reconhecimento. Deviam apenas explorar uma parte da região e retornar em seguida. Tudo parecia calmo; nada indicava uma resistência planejada.
Ora, os prussianos desciam com tranquilidade uma pequena encosta cheia de barrancos, quando uma fuzilaria fê-los parar, derrubando uma vintena deles. Logo depois, um grupo de franco-atiradores, saindo bruscamente de um bosquezinho, atirou-se para frente, armado de baionetas e fuzis.
Walter Schnaffs ficou, a princípio imóvel, de tal modo surpreso e desorientado que não pensou mesmo em fugir. Depois, foi acometido de um desejo louco de desaparecer, mas pensou que corria como uma tartaruga em comparação com os magros franceses que chegavam, pulando como o um rebanho de cabras. Então, avistando a seis passos em frente um largo buraco cheio de folhas secas, saltou, de pés juntos, para dentro, sem se preocupar coma sua profundidade.
Passou, como uma flecha, através de um espesso emaranhado de ervas do mato e espinhos pontiagudos que lhe dilaceraram a face e as mãos, e caiu pesadamente sentado sobre um leito de pedras.
Levantando os olhos, viu o céu pelo orifício que fizera com a queda. Aquela passagem reveladora podia denunciá-lo, e arrastou-se com precaução, de quatro, pelo fundo do buraco, debaixo de folhagens enlaçadas, afastando-se, o mais depressa possível, do lugar do combate.
Depois, parou e sentou-se de novo, escondido como uma lebre no meio das altas ervas secas.
Ouviu ainda durante algum tempo explosões, grito e lamentos. Finalmente, os clamores da luta diminuíram, cessaram. Tudo tornou-se mudo e calmo. Subitamente, qualquer coisa roçou nele. Teve um sobressalto. Era um passarinho que, tendo pousado num galho, agitava as folhas secas. Perto de uma hora, o coração de Walter Schnaffs bateu apressadamente.
A noite chegou enchendo de sombra o lugar: E o soldado pôs-se a pensar. Que iria fazer? Que aconteceria? Deveria juntar-se ao seu exército?... Mas como? Onde? Assim, seria preciso recomeçar a horrível vida de angústias, de pavores, de fadiga e de sofrimentos que levava desde o começo da guerra!!! Não! Não tinha mais coragem para isso. Não teria mais a energia que era necessária para suportar as marchas e afrontar os perigos de todos os minutos.
Mas que fazer? Não podia ficar ali escondido até o fim das hostilidades. Certamente que não. Se não fosse preciso comer, essa perspectiva não o aterraria, mas era preciso comer, comer todos os dias.
Encontrava-se, porém, sozinho, armado, de uniforme, no território inimigo, longe daqueles que o poderiam defender. Arrepios corriam-lhe pelo corpo.
De repente, pensou: “Se ao menos eu caísse prisioneiro!” E seu coração fremiu de desejo, de um desejo violento, imoderado, de ser prisioneiro dos franceses. Prisioneiro! Estaria salvo, alimentado, alojado, ao abrigo das balas e dos sabres, sem apreensão possível, numa prisão bem guardada! Prisioneiro! Que sonho!
E sua resolução foi imediatamente tomada:
— Vou constituir-me prisioneiro.
Levantou-se resolvido a executar esse projeto sem perda de tempo. Mas ficou imóvel, assaltado subitamente por desagradáveis reflexões e por novos terrores.
Onde iria apresentar-se como prisioneiro? Como? De que lado? E imagens terríveis, imagens de morte, precipitaram-se em sua alma.
Iria correr horríveis perigos, aventurando-se apenas com seu capacete pontudo, pelo campo. Se encontrasse camponeses? Estes, vendo um prussiano perdido, um prussiano sem defesa, matá-lo-iam como a um cão sem dono! Massacrá-lo-iam com seus forcados, suas enxadas e suas foices! Transformá-lo-iam numa massa, com a zombaria dos vencidos exasperados.
Se encontrasse os franco-atiradores? Estes, enraivecidos, sem lei nem disciplina, o fuzilariam para se divertirem.
E acreditava-se já apoiado contra o muro em face de doze fuzis, cujos orifícios pequenos, redondos e negros pareciam mirá-lo.
Se encontrasse o próprio exército francês? Os homens da vanguarda o tomariam por algum audacioso e perverso soldado em serviço de reconhecimento e o matariam. E ouvia já os disparos irregulares dos soldados deitados no mato, enquanto ele, de pé no meio do campo, desmaiava, furado como uma espumadeira, pelas balas que sentia lhe entrarem na carne.
Sentou-se desesperado. Sua situação parecia-lhe sem saída.
A noite já chegara, a noite silenciosa e negra. Schnaffs não mais se mexia, estremecendo a todos os ruídos desconhecidos que soam nas trevas. Um coelho que passou, assustou horrivelmente o pobre homem. Os gritos das corujas lhe dilaceravam a alma, enchendo-a de medos súbitos, dolorosos como chagas.
Apertava os olhos para poder ver na sombra e imaginava a todo momento ouvir marchar junto dele.
Depois de intermináveis horas e de horríveis agonias, percebeu, através da sua cobertura de folhagem, o céu que se tornava claro. Então, um imenso alívio penetrou-o; seus membros se distenderam, repousados subitamente; seu coração acalmou-se; seus olhos se fecharam e ele dormiu.
Quando acordou, o sol pareceu-lhe estar no meio do céu; deveria ser meio dia. Barulho algum perturbava a paz morna dos campos; e Walter Schnaffs sentiu que tinha uma fome aguda. Lembrou-se, com a boca úmida, da boa salsicha dos soldados. O estômago doía-lhe.
Levantou-se, deu alguns passos, achou as pernas fracas e sentou-se novamente para refletir. Durante duas ou três horas ainda, estabeleceu os prós e os contras, mudando a todo instante de resolução, abatido, infeliz, metralhado pelas razões as mais contrárias.
Uma ideia pareceu-lhe enfim lógica e prática: espreitar a passagem de um camponês sozinho, em armas e sem utensílios perigosos de trabalho; aparecer-lhe pela frente e entregar se em suas mãos, fazendo compreender que desejava render-se. Tirou, então, o capacete, cuja ponta podia traí-lo e pôs a cabeça fora do buraco, com precauções infinitas.
Nenhum ser solitário aparecia no horizonte. Ao longe, à direita, uma aldeiazinha enviava para o céu a fumaça de suas casas, a fumaça das cozinhas! À esquerda percebia-se, ao fim de uma alameda de árvores, um grande castelo flanqueado de torrezinhas.
Esperou até a noite, sofrendo horrivelmente, nada mais vendo que voos de corvos, nada mais ouvindo que as queixas surdas de suas entranhas.
E a noite caiu sobre ele. Deitou-se no fundo do esconderijo e dormiu com um sono febril, cheio de pesadelos, sono de homem esfaimado.
A madrugada despontou de novo sobre sua cabeça. Pôs-se em observação. Mas o campo continuava vazio como na véspera; e um novo medo penetrava no espírito de Walter Schnaffs, o medo de morrer de fome! Via-se estendido no fundo daquele buraco, de costas, os dois olhos fechados. Depois, pequeninos animais de toda a espécie aproximavam-se de seu cadáver e se punham a comê-lo, atacando-o por todos os lados de uma só vez, escorregando por baixo de suas roupas para morder-lhe a pele fria. E um grande corvo picava-lhe os olhos com seu bico afiado.
Então, tornou-se louco, imaginando que ia desmaiar de fraqueza e não poder mais andar. E já resolvera dirigir-se à aldeia, para tudo tentar, quando viu três homens que se encaminhavam para os campos, com seus forcados ao ombro. Isso fez com que mergulhasse novamente no esconderijo. Mas logo que a noite escureceu a planície, saiu lentamente do buraco, e pôs-se a caminhar, curvado, receoso, o coração batendo, para o castelo longínquo, preferindo-o à aldeia que lhe parecia tão horrível quanto uma cova cheia de tigres.
As janelas debaixo brilhavam. Uma delas estava mesmo aberta; e um cheiro forte de carne cosida dali se escapava, um cheiro que penetrou bruscamente no nariz e até o fundo do ventre de Walter Schnaffs, que o crispou, que o tornou arquejante, atraindo-o irresistivelmente, dando-lhe ao coração uma audácia desesperada.
E de repente, sem refletir, apareceu de capacete à janela.
Oito criados jantavam ao redor de uma grande mesa. De súbito, uma das criadas ficou como que boquiaberta, deixando cair o copo, os olhos fixos. Todos os olhares seguiram o seu.
Perceberam o inimigo!
— Senhor! Os prussianos atacam o castelo!...
Ouviu-se, a princípio, um grito, um único grito, feito de oito gritos lançados em oito tons diferentes, um grito de horrível espanto; depois uma fuga tumultuosa, uma terrível confusão, na direção da porta do fundo. As cadeiras, caíam, os homens jogavam as mulheres no chão e pulavam por cima. Em dois segundos, a sala ficou vazia, abandonada, com a mesa coberta de pratos de comida defronte de Walter Schnaffs, que continuava estupefato, do pé, na janela.
Depois de alguns instantes de hesitação, pulou o peitoril e encaminhou-se para os pratos. A fome exasperada fazia-o tremer como se tivesse febre; mas o terror retinha-o, paralisava-o ainda. Escutou. Toda a casa parecia agitar-se; portas fechavam-se, passos rápidos corriam no assoalho de cima. O prussiano inquieto prestava ouvido  àqueles rumores confusos; depois, ouviu barulhos surdos, como se corpos  tivessem caído na terra mole, ao pé dos muros, corpos humanos saltando do primeiro andar.
Finalmente, todo o movimento, toda a agitação cessaram e o grande castelo tornou-se silencioso como um túmulo.
Walter Schnaffs sentou-se diante de um prato ainda intacto e começou a comer. Comia em grandes bocados, com o se receasse ser interrompido de repente e não poder devorar o bastante. Jogava, com as duas mãos, os pedaços de carne na boca aberta como um alçapão; punhados de comida desciam-lhe para o estômago, entupindo-lhe a garganta, ao passar. Às vezes, parava, prestes a arrebentar como um tubo excessivamente cheio. Apanhava, então, a garrafa de aguardente e com ela lavava o esôfago.
Esvaziou todas as travessas, todos os pratos, todas as garrafas; depois, farto de líquido e de comida, embrutecido, vermelho, sacudido por soluços, o espírito perturbado e a boca pastosa, desabotoou o uniforme para respirar, incapaz de dar um passo. Seus olhos se fechavam; as ideias embaralhavam-se. Deitou a cabeça pesada sobre os braços cruzados em cima da mesa e perdeu docemente a noção das coisas e dos acontecimentos.
O último crescente iluminava vagamente o horizonte, por cima das árvores do parque. Era a hora fria que precede o dia.
Sombras deslizavam pelos bosques, numerosas e silenciosas; e, muitas vezes, um raio de lua fazia brilhar, no escuro, uma ponta de aço.
O castelo tranquilo erguia sua grande silhueta negra. Duas janelas apenas brilhavam ainda rente ao chão.
Subitamente uma voz forte gritou: 
— Para a frente! Ao ataque, meus rapazes!
Então, num instante, as portas e as vidraças foram arrombadas por uma horda de homens, que, tudo quebrando e tudo arrebentando, invadiu a casa. Num momento, cinquenta soldados pularam dentro da cozinha onde repousava pacificamente Walter Schnaffs, e, encostando-lhe ao peito cinquenta fuzis carregados, o derrubaram, o prenderam e o amarraram dos pés à cabeça.
Ele arquejava de espanto, muito embrutecido para compreender, espantado e louco de medo.
Em seguida, um gordo militar, adornado de ouro, plantou-lhe o pé sobre o ventre, vociferando:
— És meu prisioneiro; entrega-te!
O prussiano só ouviu a palavra — “prisioneiro” e gemeu: “ya, ya, ya”.
Foi depois levantado, atado a uma cadeira e examinado com viva curiosidade pelos vencedores, que sopravam como baleias. Vários sentaram-se, não podendo mais de emoção e de fadiga.
Ele sorria, sorria agora, certo de ser, enfim, prisioneiro!
Um outro oficial entrou e disse:
— Meu coronel, os inimigos fugiram: muitos deles parecem ter sido feridos. Ficamos donos do lugar.
O gordo militar, que enxugava a fronte, vociferou: “Vitória”!
E escreveu sobre uma pequena agenda de comércio, tirada do bolso:
“Depois de uma luta encarniçada, os prussianos bateram em retirada levando seus mortos e feridos, que são avaliados em cinquenta homens, fora de combate.  Vários ficaram em nossas mãos.”
O jovem oficial replicou:
— Que medidas devo tomar, meu coronel?
Este respondeu:
— Vamos recuar para evitar um retorno do inimigo com artilharia e forças pesadas. E deu ordem para partir.
A coluna formou de novo na sombra, sob os muros do castelo e pôs-se em movimento, envolvendo de todos os lados Walter Schnaffs, amarrado, seguro por seis guerreiros de revólver em punho.
Soldados foram enviados na frente para iluminar o caminho. Avançava-se com prudência, fazendo alto, de tempos em tempos.
Pela madrugada, chegava-se à subprefeitura de La Roche-Oysel, cuja guarda nacional cumprira essa incumbência de armas.
A população, ansiosa e vivamente impressionada, aguardava. Quando avistou o capacete do prisioneiro, soltou formidáveis gritarias. As mulheres levantavam os braços; velhas choravam; um avô atirou sua muleta em cima do prussiano e feriu o nariz de um de seus guardas.
O coronel gritava:
— Cuidado com a segurança do prisioneiro!
Chegaram finalmente ao edifício da Câmara. A prisão foi aberta, e Walter Schnaffs atirado, dentro dela, livre dos laços. Duzentos homens em armas montaram guarda ao redor do prédio.
Então, apesar dos sintomas da indigestão que o atormentavam desde algum tempo, o prussiano, louco de alegria, pôs-se a dançar desesperadamente, levantando os braços e as pernas, a dançar soltando gritos frenéticos, até cair, desmaiado, junto da parede.
Estava prisioneiro! Salvo!
Foi assim que o castelo de Champignet foi retomado ao inimigo, depois de seis horas somente de ocupação.
O coronel Ratier, negociante de fazendas, que levou este caso ao conhecimento dos guardas nacionais de La Roche-Oysel, foi condecorado.

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