domingo, 2 de outubro de 2016

O anel da múmia (Conto), de Conan Doyle


O anel da múmia, de Conan Doyle

Publicado originalmente na revista "Eu Não Sei", edição de 31 de maio de 1919. A Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


O professor John Vansittart Smith, membro da Real Socidade Britânica, já era notável por seus estudos no domínio da zoologia, da botânica e da química quando se dedicou mais especialmente às ciências orientais, chamando logo a atenção dos especialistas em uma Memória sobre as inscrições hieroglíficas de El Rab.
E apaixonou-se a tal ponto por esses assuntos que desposou uma jovem egiptóloga, autora de vários volumes sobre a quarta dinastia, e começou a reunir dados para um livro em que pretendia resumir os descobrimentos de Leipsius e o gênio de Champolion.
Esse trabalho obrigou-o a ir várias vezes a Paris, visitar o museu do Louvre, onde passava horas inteiras curvado sobre a vitrine dos papiros. Ora o ilustre John Vansittart Smith não era um tipo de beleza e bem o sabia; mas apesar disso teve uma impressão desagradável ouvindo atrás de si uma voz exclamar em inglês:
— Que tipo esquisito!
O sábio mordeu os lábios e curvou-se ainda mais.
— É verdade — disse outra voz. — Tem uma cabeça disforme.
— E tem um não sei quê de egípcio — continuou a primeira voz. — Dir-se-ia que de tanto contemplar múmias está se mumificando.
Exasperado, o sábio voltou-se e com grande surpresa viu que os conversadores eram dois ingleses que, de costas para ele, observavam um dos guardas da sala, que a certa distância limpava uma barra de metal.
Instintivamente o sábio observou também o guarda e teve um sobressalto. Na verdade aquele homem tinha uma face que impressionava, de uma semelhança espantosa com as múmias imponentes dos antigos Faraós. Era uma reprodução exata das estátuas que enchiam a sala; até pela largura dos ombros e estreiteza dos quadris aquele homem tinha os caracteres de um egípcio.
O professor Smith aproximou-se com a intenção de lhe dirigir a palavra, mas observando mais de perto o estranho homem sentiu-se sem coragem para interpelá-lo. Tamanha semelhança chegava a ser sobrenatural. A pele da fronte e das faces do guarda era lisa como um pergaminho, parecia não ter poros.
— Onde está a coleção de Mênfis? — disse afinal o sábio, para não ficar em silêncio diante dele.
— Ali — respondeu o guarda, sem erguer a cabeça.
— O senhor é egípcio, não é verdade? — perguntou ainda o professor Smith.
O homem ergueu a cabeça e fitou seu interlocutor com estranhos olhos negros, envidraçados, mas que brilhavam com singular intensidade. E o mais impressionante é que havia nesses olhos uma expressão de cólera e aversão.
— Não, senhor: sou francês.
E continuou em seu trabalho. O sábio tentou voltar a suas pesquisas, mas seu espírito estava absorvido por aquela espantosa visão. E, fosse pela fadiga acumulada de dias anteriores, fosse por uma espécie de fascinação inconsciente, curvou pouco a pouco a cabeça sobre o peito e adormeceu tão profundamente que não ouviu a campainha que anunciava o fechamento do Museu, e ali permaneceu.
***
Os ruídos noturnos foram cessando pouco a pouco. O sino da igreja de Notre Dame bateu meia noite e o sábio continuava dormindo. Somente à uma hora da madrugada recobrou a consciência e sua primeira impressão foi a de que se achava em seu quarto. Mas em pouco a luz da lua entrando pela claraboia mostrou-lhe as fileiras de múmias e sarcófagos, que o rodeavam. Que horror! Os guardas não o tinham visto oculto naquele local recôndito por trás de uma espessa coluna, e agora tinha que passar a noite ali, sujeito a explicações desagradáveis no dia seguinte.
O sr. Smith não era medroso, mas isso lhe causou uma impressão desagradável. Em todo o caso, como não havia outro remédio, o que de melhor tinha a fazer era acomodar-se do melhor modo e continuar a dormir.
Infelizmente nem isso lhe era possível, pois pouco depois viu a luz amarelada, de uma lanterna que se aproximava. Ficou imóvel à esperar e uma nova observação veio aumentar seu espanto. Apesar do silêncio absoluto da sala, ele não ouvia os passos da pessoa que trazia a lanterna.
Mas pouco depois viu um rosto; um rosto que, alcançado pelo pequeno resplendor da lanterna, parecia suspenso no ar; um rosto de palidez cadavérica e pele com tons metálicos, o rosto do estranho guarda, que tanto lhe chamara atenção à tarde.
O primeiro movimento de Smith foi adiantar-se e relatar-lhe o ocorrido, mas um instinto secreto deteve-o imóvel no recinto que o ocultava.
O homem chegou junto de uma das grandes vitrines e, tirando do bolso uma chave, abriu-a. Tirou dela uma múmia, que deitou no piso com grandes cuidados, colocou ao lado a lanterna e, sentando-se no chão, com as pernas cruzadas à moda oriental, começou a desenrolar as longas tiras de linho que envolviam a múmia. Um forte odor de aromáticos exalou-se pela sala e, de súbito, o professor Smith teve um gesto de imensa surpresa.
Libertada das ataduras funerárias, uma basta cabeleira negra desprendia-se e caía entre as mãos do guarda. A segunda atadura retirada descobriu um rosto moreno mas enrubescido e tranquilo, com olhos lampejantes e boca de desenho perfeito e soberbo.
Somente uma mancha escura na fronte perturbava a beleza daquela mulher, morta há seis mil anos.
O guarda fitava-a com enlevo; depois, enlaçando a múmia nos braços, murmurou com voz trêmula de emoção:
 — Amada... minha amada!
Mas nesse momento seu olhar encontrou o rosto do professor Wade, que, não podendo conter a curiosidade, adiantara-se um pouco.
Ergueu-se com ímpeto furioso e aproximou-se.
— Desculpe-me — balbuciou o professor. — Eu adormeci à tarde estudando aqui e fiquei...
O guarda tirou do cinto um afiado punhal e perguntou:
— Então o senhor viu o que eu estava fazendo?
— Sim...
 — Se eu o tivesse notado há dez minutos tê-lo-ia matado como um cão; mas agora prefiro que veja tudo até o fim. Mas não se mova, não intervenha... Haja o que houver. Mas diga-me: quem é o senhor?
 — Eu... eu sou o professor John Vansittart Smith.
— Ah... Foi o senhor quem publicou recentemente um livro sobre El Rab?... Imbecil!... E pensou encontrar o segredo de nossa civilização nas inscrições dos monumentos?... Louco!... Esse segredo está em nossa filosofia hermética e em nossa ciência mística.
— Mas... mas... — balbuciou o professor atônito — o senhor disse "nossa civilização".
Mas já o guarda não lhe dava atenção. Volvendo os olhos para a múmia tivera um gemido profundo. O sábio voltou-se também e quedou-se gelado de espanto.
Exposto à ação do ar, o rosto da múmia desfigurara-se rapidamente. A pele secara, os olhos tinham-se afundado nas órbitas e os lábios encolhendo-se descobriram os dentes amarelados. Não fosse a mancha escura na fronte e o sr. Smith não acreditaria que era aquele o mesmo rosto que ele vira pouco antes, com uma tão soberana beleza.
O guarda gemeu ainda, com expressão de mágoa infinita, mas fez um esforço e disse com exaltação:
— Não faz mal. Agora pouco importa seu corpo inerte, pois que posso afinal ir reunir-me a seu espírito.
E, como o professor o fitasse, convencido de que estava diante de um louco, ele acrescentou:
— Chegou o momento que eu tanto esperei. Afinal... afinal!.. Mas antes preciso que eu o faça sair daqui. Venha... venha!
Apanhou a lanterna e seguiu à frente do sábio através das extensas salas do museu. Desceram uma escada e chegaram a uma porta que dava para a rua. Mas em vez de guiá-lo por ali o guarda empurrou-o para uma porta baixa, que se abria de um lado do corredor.
O ilustre egiptólogo hesitou, mas a curiosidade foi mais forte do que o medo e ele seguiu o estranho homem.
Ali era uma espécie de portaria com uma mesa, uma cadeira e uma cama de ferro. O guarda indicou a cadeira ao sábio, sentou-se à beira da cama e começou:
— Estava escrito que não voltaria ao descanso eterno sem fazer a um mortal a narração de meus sofrimentos, como um aviso aos temerários que tentam opor-se às leis da Natureza. Sou egípcio e nasci, sob o reinado de Tutmés, no ano 1600, antes daquele que chamam Cristo. Chamo-me Senra. Meu pai era chefe dos sacerdotes de Cairis, no templo magnífico de Aváris. Antes de completar 17 anos já eu possuía os conhecimentos das artes místicas de que fala a Bíblia dos homens de hoje. Depois continuei a estudar os segredos da Natureza e alcancei na ciência pináculos que nenhum outro homem logrou conhecer. Porém o que mais me atraía era o estudo do princípio vital, buscando um meio de imunizar as criaturas contra todas as enfermidades e talvez contra a morte. Acabei por descobrir uma substância, que, injetada no sangue, dava ao corpo energia para resistir ao tempo, às enfermidades e aos acidentes; uma substância que podia manter suas prodigiosas faculdades senão eternamente pelo menos durante milhares de anos. Note que não se tratava de coisa sobrenatural ou misteriosa; não. Tratava-se de uma simples operação de química. Com louca alegria inoculei em minhas veias esse líquido. Depois busquei um companheiro para minha existência eterna e escolhi um jovem sacerdote de Thot, chamado Parmés, que havia conquistado minha simpatia por seu elevado caráter e sua inteligência. Fiz-lhe também a preciosa injeção e desde aquele dia abandonei os estudos para viver percorrendo os campos e cidades, para contemplar com orgulho homens e monumentos destinados à morte enquanto eu continuar a viver indefinidamente.
Um dia, passeando assim em companhia de Parmês, encontrei a filha de um oficial do rei, uma moça chamada Athma, famosa por sua beleza, e o amor feriu meu coração como um raio. Jurei por Toth que aqueIa mulher seria minha e no mesmo instante vi Parmés afastar-se de mim com um olhar de ódio. Soube depois que ele já havia declarado seu amor a Athma, porém ela me preferiu e aceitou-me como seu noivo.
Foi nessa época que uma horrível epidemia de peste branca fez terríveis estragos entre a população. Então, aterrorizado, relatei a Athma o segredo que havia descoberto e quis fazer-lhe a inoculação do líquido de vida eterna; porém ela recusou, entendendo que era uma ofensa aos deuses perturbar as regras da morte. Insisti, contudo, ela pediu-me uma noite para refletir.
No dia seguinte, apenas terminei minhas orações no templo, corri a sua casa. Encontrei-a já gravemente enferma e tendo na fronte a mancha vermelha que era o sinal da peste. E apenas pousou os olhos em mim expirou.
Quanto sofri! Tudo quanto era possível tentei para morrer. Mas era em vão. O líquido precioso tornara-me imortal.
Um dia, quando eu chorava mergulhado em profundo desespero. Parmés, sorrindo com uma expressão de ódio infernal, disse-me:
— Nem um oceano de lágrimas será capaz de vencer o sortilégio que tu mesmo criaste. Hão de passar muitos séculos antes que te possas reunir a ela. E eu...
— Tu estás, como eu, condenado a viver.
— Enganas-te — exclamou ele, com uma expressão de alegria feroz. — Eu descobri um princípio tão forte que anula o poder do líquido que inoculaste em minhas veias. Dentro de uma hora estarei morto.
E retirou-se. No dia seguinte foi encontrado já frio diante do atar.
Mediante um inquérito perseverante e minucioso, consegui descobrir que Parmés ocultara o formidável veneno de sua invenção no anel do ídolo de Thot. Eu conhecia essa joia. Era um grosso anel de platina com uma pedra de cristal oco. Mas o anel desaparecera do dedo do ídolo.
Onde encontrá-lo? Em vão eu o procurei no templo e seus arredores. Depois houve a grande guerra com os Hicsos. Os capitães do nosso rei foram derrotados, nossa cidade caiu em poder do inimigo e eu, como muitos outros, fui levado como escravo. Anos e anos passei guardando rebanhos no vale do Eufrates. Depois vivi em todos os países, conheci todos os povos, falei todos os idiomas, durante séculos e séculos.
 Há cerca de um ano, eu estava em São Francisco da Califórnia quando li a notícia de que haviam pela primeira vez descoberto em um túmulo egípcio uma joia de platina. E era exatamente um anel com uma pedra de cristal.
Só podia ser o anel de Thot. Na mesma noite parti. A joia fora encontrada por um sábio francês: portanto devia vir para o Louvre. A peso de ouro falsifiquei papeis de identidade e consegui um lugar de guarda neste museu. Mas o anel só hoje foi exposto aqui e eu vou afinal reunir-me a minha amada.
O sábio ouvira-o sem um gesto, sem uma palavra, mudo de assombro.
Quando a narração terminou ele se manteve no mesmo lugar, perguntando a si mesmo se não estaria sonhando. Mas o estranho homenzinho empurrava-o com impaciência.
— Vá. Saia. Esta porta dá para a rua Rivoli.
No dia seguinte, chegando a Londres, o professor Smith leu no Times o seguinte telegrama:
UM ACIDENTE SINGULAR NO LOUVRE. Paris, 12 — Hoje pela manhã foi encontrado morto na sala egípcia do Louvre um dos guardas desse museu. O infeliz apertava ainda entre os braços uma múmia, com tal força que foi difícil separá-lo dela. De uma das vitrines da mesma sala desapareceu um anel de grande valor. Ao que parece, o guarda morreu de uma ruptura de aneurisma. Não se conhecem parentes do morto. Seus costumes eram um tanto excêntricos e não foi possível averiguar com segurança sua idade.

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