domingo, 2 de outubro de 2016

Os dois presos (Conto), de Guy Maupassant



Os dois presos, de Guy Maupassant
Publicado originalmente na revista "Fon-Fon", em sua edição de 21 de março de 1925. A Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)

O alcaide ia já sentar-se à mesa para o almoço, quando lhe disseram que um guarda rural o esperava com dois presos.
Ao chegar à sua sala de despacho, viu um guarda que acompanhava, com ar severo, um homem e uma mulher, ambos já de idade avançada.
A autoridade municipal perguntou a seu subordinado:
— Que ocorreu, Hochedur?
O guarda prestou a sua declaração.
Tinha saído pela manhã a fim de inspecionar as cercanias do bosque Champioux até a fronteira de Argenteuil.
E nada particular havia notado no campo, quando um menino lhe gritou:
— Corra, vá depressa até a direita, que lá encontrará a afagar-se publicamente um casal de namorados, cuja idade, somada, naturalmente dará mais de cento e vinte anos.
O guarda tomou a direção indicada, e, ao penetrar no bosque, surpreendeu os detidos precisamente no momento em que se beijavam e se abraçavam com desmedida ternura.
O alcaide contemplou com surpresa os culpados, e começou o seu interrogatório pelo homem, cuja idade passava dos sessenta anos.
— Seu nome?
— Nícolas Beurian.
— Sua profissão?
— Comerciante; rua dos Mártires, Paris.
— E o que fazia o senhor no bosque?
— Senhor...
— Nega senhor o que disse o guarda?
— De modo algum.
— O que tem a alegar em sua defesa?
— Nada, senhor.
— Onde encontrou a sua cúmplice?
— Ela é minha mulher.
— Sua mulher?!
— Sim, senhor.
— Estão divorciados, então?
— Pelo contrário, vivemos juntos e nos queremos entranhadamente.
— Neste caso, terá, porventura, enlouquecido? Com certeza.
Nícolas Beurian desatou a chorar como um menino. E, dirigindo-se a sua mulher, exclamou:
— Estás vendo as consequências de tua maldita poesia?! Teremos, agora, que suportar o escândalo e nos veremos obrigados a fechar as portas do nosso estabelecimento comercial.
Madame Beurian levantou-se e, sem olhar o seu marido, disse, cem decisão:
— Já sei, senhor alcaide, que estamos em ridícula situação. Porém, se o senhor estiver disposto a ouvir-me com resignação, acabará se convencendo da nossa real inocência.
Quando eu era jovem ainda, conheci Nícolas Beurian, neste país, um domingo, durante uma partida de campo a que, em companhia de várias amiguinhas, fora assistir.
Ao cabo de um mês, nos casamos e nos dedicamos, desde então, a trabalhar, como condenados em nosso estabelecimento, na rua dos Mártires.
Empenhados exclusivamente a fazer prosperar o nosso negócio, tivemos que renunciar ao prazer de ir, pelos domingos, ao campo, a ponto de chegarmos a perder o costume de sair de Paris, sob qualquer pretexto. No comércio, a gente pensa mais no caixa do que nas flores e nos bosques.
Assim, fomos envelhecendo, pouco a pouco, sem notá-lo, como criaturas indiferentes que deixassem de pensar em seus antigos amores.
Depois, mudaram as coisas, e prosperaram de tal maneira os nossos negócios, que chegamos a realizar, em breve tempo, fortuna bem razoável.
Nossa situação nos permitia certos luxos, e revivi primitivas afeições ao campo, às árvores e às flores.
O odor das violetas me perseguia com insistência e me fazia bater o coração de um modo extraordinário.
Tudo isto me parecia estúpido para uma pessoa de minha idade. Porém, que quer o senhor, seu alcaide? Quando uma pessoa trabalhou durante toda a sua vida, chega a um momento em que sente a necessidade de modificar, em certos aspectos, a existência sufocante, e eis que lhe voltam os bons tempos da mocidade longínqua. Imagine, senhor alcaide, que durante vinte e cinco anos estivemos permanentemente em Paris, sem sair um só dia da grande capital.
A princípio, não me atrevia a falar das minhas aspirações ao meu marido, certa como estava eu de que ele havia de caçoar de mim e de rir-se dos meus poéticos planos.
Mas, afinal, me decidi e lhe propus uma excursão ao campo, ao lugar precisamente onde havíamos tido a sorte de outrora nos conhecer.
Com grande surpresa da minha parte, o esposo amado aceitou a proposta, e aqui nos tem o senhor, seu alcaide, nesta comarca, aonde chegamos pelas nove horas da manhã de hoje.
O coração da mulher não envelhece nunca, e por isso eu me senti assaltada pela recordação de meus primeiros amores.
Não via meu marido tal como ele é na atualidade, sim como o via em outros tempos. Juro-lhe, senhor alcaide, que estou falando a verdade.
Dei-lhe um beijo e o estreitei-o nos meus braços, o que lhe causou tanta surpresa, que a expressão do seu rosto era a de um individuo cuja vida alguém tentasse extinguir, assassinando-o.
"Terás, por acaso, enlouquecido?!" — dizia-me Beurian. "Que tens, mulher?"
Eu não fazia caso das suas palavras, e só escutava a ternura do meu coração.
Sentamo-nos, os dois, em uma pedra, e lá, quando estávamos unidos em estreito abraço, nos surpreendeu o guarda.
Eis aí tudo quanto ocorreu, senhor alcaide. Nada mais.
Juro-lhe que esta é toda a verdade.
O alcaide, que era um homem prático e conhecedor do mundo, levantou-se, sorriu benevolamente e disse:
— Pode ir com Deus, senhora. Mas, procure, daqui em diante, moderar os seus impulsos poéticos, sobretudo durante as suas excursões pelo campo.

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