domingo, 28 de maio de 2017

A respeito de “Relíquias de Casa Velha” de Machado de Assis


“Relíquias de Casa Velha”, pelo Sr. Machado de Assis

Escrito por 
Nunes Vidal e publicado em 1906. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017) 

Não há autor brasileiro contemporâneo que mais do que o Sr. Machado de Assis goze da estima e do apreço gerais dos nossos homens de letras. Junta-se hoje a esses sentimentos o da veneração que se lhe deve pelos honestos e trabalhados anos que já lhe pesam aos ombros.
Esse prestígio vem de longe. Desde o começo de sua carreira literária que o Sr. Machado de Assis sempre foi dos mais bem aceitos; seu nome, uma vez lançado, ainda não sofreu nem mesmo um eclipse.
De certo tempo por diante, ele ganhou a autoridade de um companheiro mais velho entre aqueles que já o encontraram trabalhando, vindo de outra geração, em que a morte e as vicissitudes foram abrindo claros de fazer calafrio a outro que não tivesse a sua constância, pertinácia e calma. “Companheiro mais velho” seria ele quem dissesse; os outros entenderam reconhecê-lo como mestre, como chefe.
Desde aí que o Sr. Machado se fixou nessa situação, ganha naturalmente, sem artifício ou violência alguma, e essa a razão pela qual ninguém, dentre o círculo predileto, que tem sido sempre a gente mais bem colocada nas letras e no jornalismo lembrou-se em qualquer tempo de dissentir dos outros neste particular.
É preciso conhecê-lo um pouco de perto, ver como ele é antes de tudo carinhoso e cheio de interesse para com os seus amigos, como tem desenvolvidos os sentimentos de afeto e de apreço, para achar as razões sentimentais dessas coisas, que nunca são conquistadas exclusivamente por superioridade intelectual. Ser superior nunca foi razão bastante para um homem se fazer amar.
De qualquer modo, o que é evidente é o fato da conformidade desse sentimento geral de estima e de apreço, em que vai tanto de admiração pelo mestre no mundo das letras. Não há quem lhe negue valor hoje em dia e a muitos esse valor parece grande e raro: uns o sentem, outros vão nessa fé.
Entre estes últimos, já não se encontram literatos somente: está com eles uma boa parte do nosso público.
Felizmente já passou a ser de bom tom, hoje em dia, ler ou dizer ter lido alguns dos nossos autores; abrem-se os seus volumes mesmo no bonde. Se é um livro que acaba de ser posto à venda, cujas primeiras páginas se vão cortando para satisfazer a anciã da curiosidade, ainda mais chic.
No número desses bem aceitos e em primeira plana, figura o Sr. Machado de Assis. Ninguém mais vai dizer que não gosta dele como escritor. Note-se, principalmente dele, tanto mais quanto se esteja em rodas reputadas as mais finas do ponto de vista intelectual.
Na minha opinião, foi um resultado feliz esse a que se chegou relativamente ao nosso infatigável e digno patrício. Ele merece de todo ponto a distinção alcançada.
Mas, por outro lado, o certo é que não é grande a parte do público que saiba perfeitamente porque assim o distingue. São poucos os que sentem a obra dele de um modo integral.
Culpa do público ou defeito do autor? Uma coisa e outra, no meu entender.
O Sr. Machado de Assis é um psicólogo antes do mais; é como estudo da alma humana que a sua obra não tem par entre nós, principalmente por ser a mais considerável. No conto e no romance, um ou outro notável talento desse gênero tem-se estreado; ficaram, porém, na estreia, ou pouco mais, até aqui.
Mas o psicólogo não pôde evitar impunemente certos tropeços. Pertença a que raça ou a que sociedade pertencer, nem sempre encontrará na palheta cores felizes para dar conta honestamente de certos aspectos dessa sociedade ou dessa raça; ao contrário, os seus quadros não hão de ter sombra.
Mais do que isso. Nos estudos que empreenda, ele não pôde evitar que lhe escape uma impressão ou outra muito flagrante de caracteres contemporâneos, principalmente daqueles que lhe foi dado conhecer por convivência reiterada.
Daí, a impossibilidade de atravessar a vida sem qualquer choque mais ou menos rude entre ele e o seu meio, de modo geral e mesmo particularmente com um ou outro indivíduo.
Por conseguinte, se ele projeta fazer uma obra claramente e patentemente fiel e que desperte vivo e constante interesse até ao entusiasmo, — como aconteceu ao Eça, para falar de um autor conhecido por todos, — precisa dispor de certa bravura.
Ora, é o que não acontece com o Sr. Machado de Assis, pelo menos de certo ponto de vista. Páginas há na sua obra que para serem encontradas pedem uma intrepidez bem pouco comum de alma; elas só se proporcionam aqueles que sobem a uma certa altura na dor; demandam o que se chama heroicidade intelectual.
Esta, porém, passa geralmente despercebida aos olhos do mundo. A outra, mais caracteristicamente moral, de mais efeito, e isso talvez porque importe em riscos mais imediatos, como eu digo, não está nas cordas do nosso ilustre escritor. Ele sempre fugiu a essas lutas de corpo a corpo.
Talvez devido a isso é que nos tenha dado uma obra. O meio era que agimos, como já o disse o Sr. José Veríssimo, fazendo justamente, em outros termos, estas observações, é ainda hoje muito limitado; o escritor se acha aqui, por enquanto, num grande desamparo, para arriscar caminho por tão ásperos trilhos.
Não é culpa do sábio realizar apenas o possível. Para isso, aí está a história dos lamentáveis naufrágios de uns quantos que pretenderam passar além do Adamastor que a época lhes antepunha. Se há culpa, pois, ela deve ser antes atribuída à atmosfera em que temos fatalmente de nos desenvolver.
A obra do Sr. Machado de Assis, de Brás Cubas para cá, é em boa parte uma série de curiosas alegorias. Este gênero permite trabalho mais desafogado, embora exigindo maior força de imaginação. Mas é de se anuviado e instável. Facilmente escapa ao alcance comum; há coisas que nem mesmo os mais argutos podem estar certos de haver bem interpretado.
Além disso, a par da discreta concepção que o Sr. Machado de Assis adotou, foi se desenvolvendo nele, de modo muito lógico, aliás, um gosto crescente pela discrição e aristocracia da fôrma. Os fáceis recursos emocionais de que se utiliza o comum dos autores de obras de ficção, vieram lhe merecendo de cada vez mais decidido desdém.
A princípio, foi francamente no humour inglês que ele procurou envolver os motivos sentimentais de suas criações. Mas desse contraste, representado por um sorriso que chora ou por um pranto que sorri, que é o próprio da maneira dos Swifts, dos Thackerays, resulta um certo efeito ainda um pouco estardalhante, que as naturezas delicadas acabam também, às vezes, por achar de mau gosto.
No seu último romance, Esaú e Jacó e agora em alguns contos das Relíquias de Casa Velha, livro que me fez escrever estas linhas, o Sr. Machado nem mais humour propriamente ostenta.
Naquele primeiro livro, ele compõe um drama inteiro sem chorar, sem quase sorrir. Põe toda a força no motivo de dor que nos dá; mas, feito isto, fala-nos, já não guardando apenas compostura, mas como se nos quisesse poupar até por completo, se possível, ao forte choque que sentiríamos inevitavelmente contadas as coisas sem nenhuma contemplação.
Dir-se-ia um processo antes nipônico, pelo que nos conta o Sr. Oliveira Lima dessa admirável gente japona que chega ao absurdo de nos comunicar com o sorriso nos lábios uma desgraça fatal ou se referir com que hilaridade à doença de um amigo para não melindrar a corrente ou disposição dos consentimentos alheios.”
Não fosse o tom geral em que construído o livro, tom de que se flete sempre uma leve ironia, ora fundo amarga, cruel, ora inofensiva, continuando a ser ironia apenas por uma questão de hábito, de feitio; não fosse isso e bem poucos viriam suficientemente prevenidos para não sofrerem uma decepção final e deixarem de acreditar que o autor não fizera mais do que estragar um bom assunto.
Das superioridades que se encontram na obra do Sr. Machado de Assis, o que se torna geralmente mais sensível é a boa língua, a que todos se apega para justificar a admiração em que dizem que o têm.
Ainda nesse particular, seria curioso estudá-lo; ao menos indicar a interessante alquimia da sua forma. Ela não é propriamente velha; propriamente nova também não é; não tem dúvida que é boa, mas nem sempre o que se pode chamar rigorosamente correto do ponto de vista lusitano, vindo como vem cheia de modismos brasileiros, registrando melindrosamente os nosso quês, refletindo, maleável, a nossa blandícia tropical.
Mas o que eu tenho principalmente a dizer é que a boa língua nunca sal vou, por si só, um escritor. Apontai exclusivamente esse atributo come característica de um homem de letras, é implicitamente negá-lo ou desconhecê-lo.
Seja como for, o Sr. Machado de Assis, com os elementos que os tempos lhe vieram proporcionando pôde fazer uma obra, de que este último volume, as Relíquias de Casa Velha, representa uma boa confirmação.
Há nele trabalhos de primeira ordem. A minha predileção é por estes três contos: Pai contra mãe, Maria Cora, A anedota do cabriolé, todos feitos à maneira de Esaú e Jacó.
Principalmente Maria Cora. É um largo e formoso trabalho, de uma arguta e uma boa psicologia, muito humano, e, no fundo, muito simpático, muito emocional.
Além destes e de outros contos, há no volume alguns ensaios críticos de que me agradou bastante aquele sobre as cenas da vida Amazônica, do Sr. José Veríssimo.
Fecha o livro com duas comédias, Não consultes médico, Lição de Botânica, que parecem terem sido feitas principalmente para salão e com o fim de agradar mais as moças, acabando uma e outra em casamento.

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