domingo, 28 de maio de 2017

Um livro anotado pelo Sr. D. Pedro II


Um livro anotado pelo Sr. D. Pedro II

Publicado em 1905, de autoria de Alencar. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2017)



A propósito da morte do sr. Garcia Merou, publicamos abaixo uma carta que a esse escritor e diplomata argentino escreveu, há anos, o Sr. Barão de Alencar, dando conta de umas anotações do Imperador a um livro do pranteado publicista platino.
Meu caro colega.
Tenho em meu poder um exemplar do seu livro Perfiles y Miniaturas, anotado pelo Sr. D. Pedro II, de tão saudosa e venerável memória.
É o mesmo exemplar que me fez o favor de oferecer em Buenos Ayres a 19 de junho de 1889, quando acabava de publicar o volume em que recolheu os artigos avulsos a que deu aquele título e que se me proporcionou, mais tarde, a ocasião de remeter a sua majestade, entre outras obras de escritores argentinos.
Devo a distinção desse depósito literário a Sua Alteza imperial a Sra. D. Isabel, condessa d'Eu, que me o confiou pouco tempo depois do falecimento de seu augusto pai; e se para mim, essa circunstância significa o, testemunho espontâneo e generoso com que me favoreceu, quem melhor podia dá-lo, da estima que me tinha o Imperador, — para o autor dos Perfiles y Miniaturas, reúne à honra que mereceu de sua majestade uma prova manifesta de apreço da ilustre princesa.
O ilustre Sr. D. Pedro II, meu caro colega, leu seu livro em Vichy, na segunda quinzena de agosto de 1891, — quatro meses escassos antes de seu infausto passamento, ocorrido, como sabe, era Paris, na madrugada do dia 5 de dezembro do mesmo ano. Já estava bem doente e talvez fosse um dos últimos livros que lera.
O volume conclui com esta citação melancólica de Schiller: “He naufragado en ei tempestuoso mar dei mundo; he visto Ias esperanzas de mi vida sumerjirse eu ei abismo; no me queda ya sino el recuerdo desgarrador de su perdida y este recuerdo me enloqueceria, si no tratara de ahogarlo, dando otra direccion a mi actividad.”
O Imperador marcou o grito d'alma do poeta, e escreveu por baixo, terminando a leitura do livro, as seguintes palavras, que transcrevo textualmente:
— Há muito não leio escrito que tanto me atraísse. — É sobretudo notável estilista. — Vichy, 26 de agosto de 1891.
São estas palavras que me levam a dirigir-lhe a presente carta pela imprensa, e escolho para esse fim, por dever de cortesia, um dos principais diários do seu país. Elias lhe pertencem e eu me julgo tão obrigado a dá-los à publicidade como se tivesse recebido a incumbência de fazê-lo, quer pela satisfação que lhe isso há de causar, quer pelo bem que lhe pôde advir da divulgação do juízo invejável que obteve do espírito superior e culto daquele que foi denominado em vida — o Protetor das letras.
Com efeito, a admiração que o Sr. D. Pedro II tributava ao talento só era nele igual ao apreço que lhe inspiravam os homens de bem. Aos grandes poetas, especialmente, rendia o preito de sua alta e competente autoridade era matéria literária. Ele não perdia ensejo de manifestar o domínio que a poesia exercia sobre a sua alma contemplativa e que se revelavam nesse olhar de vidente que iluminava o seu semblante nas longas horas do exílio. É conhecida a sua entrevista cora Victor Hugo, e ainda nos seus derradeiros dias escrevia no álbum de um distinta senhora da sociedade parisiense, estas linhas que o comprovam: “l’arbre de Ia vie porte deux fruits savoureux: — La jouissance de La poésie et le commerce avec les bons.
O Imperador começou a leitura dos Perfiles y Miniaturas com a imparcialidade do crítico. Era a primeira vez que se lhe deparara, meu distinto amigo, um escrito seu e queria julgar o escritor. Parece, porém, pelas notas esparsas de certo ponto em diante, que uma vez formada a sua opinião a esse respeito, o seu livro converteu-se em uma espécie de interlocutor íntimo, que lhe recordava a cada passo o nome de um autor e de um artista ou o título de uma obra, que lhe eram familiares, avivando-lhe reminiscências até da juventude.
Assim, a propósito de sua citação de Crébillon, cujos excelentes dramas são tão pouco conhecidos, lembrou-se de ter traduzido em verso, na sua mocidade, o Idomenée desse autor.
Ao ler a sua referência ao Asno de Ouro, de Apuleo, lembrou-se também de ter começado a sua tradução, e acrescentou: Vale a pena conhecer o original.
Mais adiante, concordando com a sua opinião sobre Eurípides, que fixou a língua da tragédia grega, escreveu ao lado:
Traduzi-o quase todo o mais perto da letra possível, para bem senti-lo. Há pouco, achou-se um trecho desconhecido dele, e creio que Weil escreveu um artigo sobre esse achado.
Não há capítulo em que não se veja à margem uma observação de seu punho ou traço sublinhando palavras, frases e mesmo períodos inteiros, — o que mostra que sua majestade leu os 23 artigos do seu livro, página por página.
Não me atrevo a afirmar-lhe, e isso para não faltar à lógica dos reparos expressos era algumas notas, que todos os termos e trechos sublinhados tivessem a aceitação do Sr. D. Pedro II; mas, em geral, o traço contínuo e insistente deixa supor uma plena aprovação.
Na impossibilidade de dar-lhe uma ideia perfeita da significação das sublinhas, limitar-me-ei a reproduzir as anotações principais da parte crítica, que encerra benévolos conselhos.
Ao primeiro artigo, que tem por título: Sinfonia de Verano, o Imperador observou: É bonito, mas afetado. A afetação levou-o mesmo ao emprego de expressões arriscadas.
Artigo 4º: Fantasia Noturna. Nota do Sr. D. Pedro II: Não está má esta pintura, às vezes algum tanto extravagante, do cólera. Que diferença da bela simplicidade de Tucídides na peste de Atenas!
Artigo 7º: Música Ambulante. Sua majestade escreveu no fim: Que riqueza de expressão!
Artigo 9º: Uma Limosna. Esse artigo valeu-lhe o maior elogio que se pôde fazer à pena de um escritor, ou, antes, um verdadeiro triunfo, nestas significativas palavras do augusto leitor: — Sinto não conhecer o Sr. Merou.
Artigo 11º: No mas feretros — Nota do Sr. D. Pedro II: Quereria que não abusasse tanto da forma; porém tem muito talento.
Artigo 16º: Sobre un poeta. O poeta de que se trata é d. Rafael Nuñes, então presidente dos Estados Unidos de Colômbia. O Imperador declarou que não conhecia as suas poesias, e ao ler as que menciona o seu artigo como magistrais e que têm por título — Que sais-je! e Ideales, classificou-as de belíssimas, chamando a atenção para as duas seguintes estrofes da primeira:
De Ia vida entera
Uma hilacion latente sobrevive,
Cuyo lejano punto de partida
Fué tal vez anterior a Ia actual vida.
................................................................
— Por Ia luz dei recuerdo
Tal vez citando inclinados recorremos
De desierta Necrópolis Ias ruinas,
Nos sentimos viver a una distancia
Remota mucho mas que nuestra infancia.
Artigos 17º a 21º: Sarah Bernard. O primeiro, em francês, sobre a pessoa e vida da artista, e os outros intitulados Fedora, Frou-fron, La dama de Ias Camelias, e Phedra. O Sr. D. Pedro II não pôde evadir-se a reconhecer que havia razão nos que lhe exprobraram de dar a essa artista, embora notável, mais importância que a que tinha, e disse com franqueza que a achava inferior à Desclée em Frou-fron e em Phedra à Ristori, no seu belo movimento de repulsão involuntária.
Há nesse capítulo uma comparação entusiasta entre Sarah Bernard, no desempenho de seu papel de Fedra, e Emma Bovary. Lê-se à margem a seguinte anotação de sua majestade:
— “Com efeito, é um dos melhores romances de Gustavo Flaubert; mas a fria sensualidade da sua heroína desperta considerações que não caberiam em uma ligeira nota.”
Já antes, a propósito de Margarita Gauthier — a Dama das Camélias, discordara o Sr. D. Pedro II de sua apreciação, de que não se havia ainda escrito nada mais humano do que essa história de um amor que teve por desenlace a morte. Escreveu o Imperador: — Não penso assim.
Deixo de copiar, para não alongar em demasia esta carta, várias outras notas com que o Sr. D. Pedro II enriqueceu ainda mais os seus eruditos artigos, sobretudo quanto à literatura grega. Creio que as que transcrevi são suficientes para o fim que teve em vista, que foi unicamente tornar público o juízo, que o autor desse livro mereceu como escritor e literato, do sempre lembrado imperador do Brasil, membro do Instituto de Franca.
Fui parco e chão talvez demais, porém fui sincero, obedecendo com escrupuloso cuidado à antiga máxima latina: Cuique sua.
Pagando-lhe por essa fôrma umas velhas dívidas literárias, sou com a mais distinta consideração e particular estima,
Alencar.

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